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Última atualização: 29/09/2021

Capítulo 1

Londres, 1835, 10 anos antes.

Ravena Rolland, Lady Rolland, .



Aconteceu alguma coisa dentro da igreja. Eu deveria entrar em cinco minutos, mas pediram para que eu esperasse mais um pouco. Mamãe olhou para mim como de quem achava que aquilo era um sinal divino.
Última chance para desistir.
Voltei a encarar a janela antes de a chamarem para resolver o pequeno contratempo. Assim que percebi estar sozinha na ante sala, puxei um fio solto da manga bufante do vestido.
Mamãe odiava aquele exagero da moda. Ela até achava charmosas as mangas mais discretas... Mas era meu casamento. Eu não seria discreta no meu dia. Todos os olhos estariam no vestido e nas joias que eu usava. Assim como no dia em que as proclamas do meu noivado saíram no jornal, eu seria o tópico da conversa nos próximos dias. A fofoca de que minha mãe não se agradava do noivo pareceu atiçar mais ainda os intrometidos. A única filha do Conde de Dudley estava casando-se com um diplomata espanhol, Alfonso , depois de apenas dois meses de cortejo, contra a vontade da mãe.
Nunca imaginei que, com apenas um olhar, um homem fosse capaz de fazer meu coração bater tão rápido quanto a passada de um cavalo selvagem. Alfonso era capaz de transformar a língua inglesa numa bonita flauta; seu sotaque era sinfonia para meus ouvidos. Além disso, era um diplomata novo e reconhecido entre seus colegas. Quando ele tirou-me para dançar, nem mesmo os que odiavam estrangeiros com tanto fervor foram capazes de negar quão bem nós ficávamos juntos.
?
A voz confundiu-me; estava um pouco rouca, fina no começo e engrossava no final. Era de um menino que estava maturando-se. Não demorou muito para que eu encarasse o dono do chamado.
? Meu Deus, ! 一 exclamei em felicidade. 一 Como você conseguiu vir? E George, ele veio com você?
coçou a garganta para estabilizar a voz. Parecia ainda mais um menino com as pernas finas, as espinhas no rosto e o cabelo castanho escuro maior do que a moda aconselhava.
一 Você está linda 一 disse ele, com um pequeno deslumbramento de quem nunca vira uma noiva de perto. Dei uma pequena volta para que o vestido voasse, não contendo o sorriso.
一 Obrigada! 一 agradeci. , que nunca foi dado a mentiras, deu-me o elogio que eu esperava vir de minha mãe. Tudo que escutei da Condessa de Dudley naquele dia foi “até que não ficou ruim”.
一 Posso te fazer uma pergunta, ?
一 Você já fez 一 cantarolei como se estivéssemos em uma tarde de verão em Ward House. Não éramos mais crianças; ao menos, eu não era, mas sentiria falta dele e de George, meu irmão. Eram bons companheiros de críquete.
não sorriu como ele costumava fazer quando eu zombava dele daquela forma; continuou a falar.
一 Você ama o Sr. ?
Foi a mesma pergunta que meu pai fez-me antes de comprar a minha briga contra a negativa da mamãe. O Conde de Dudley dificilmente iria colocar-se contra a qualquer decisão da esposa, porém eu desfaleci de amor e fiquei dias na cama quando o pedido de Alfonso foi rechaçado sem muita argumentação.
Era engraçado ouvir aquela pergunta de . Ele era ainda um estudante de Eton que, por mais alto que fosse, ainda era mais baixo dois dedos de mim. Do que ele sabia de casamento? Do que ele sabia de amor?
Mesmo assim, repeti o que eu respondi para o papai:
一 Amo-o com todo o meu coração.
Ele deu um sorriso meio tremido, provavelmente não entendia o que eu dizia. Mas entenderia mais tarde, quando fosse um homem.
Chamaram meu nome. Lady Rolland, está na hora.
Respirei fundo 一 ao menos fiz o máximo que o corpete deixou. saiu, desejando felicidades de forma amuada e cumprimentou muito rapidamente minha mãe. Antes de entregar-me ao papai, a voz aveludada dela sugeriu mais uma vez:
一 Você só tem dezesseis anos, , irá fazer dezessete muito em breve. Quer mesmo tomar essa decisão agora? Não acha que ainda tem pretendentes para conhecer e bailes para visitar? Quer mesmo ir para Espanha?
Meu peito se apertou. Senti-me constrangida por escutar aquelas palavras mesmo que uma atitude de hesitação fosse criar um falatório que eu nunca poderia superar. A Alta roda iria me comer viva. Minha mãe sabia disso. Por que, então, insistia em não confiar no que eu sentia? Por que odiava tanto o meu noivo?
Retirei meu braço do seu e dei-lhe uma última olhadela.
一 Você me decepcionou, mamãe. Pensei que confiasse mais em mim.
Eu nunca me perdoarei por ter usado as mesmas palavras que ela dizia ao dar-me bronca quando criança. O adeus pós-casamento foi tão ameno que as lembranças fugiram da mente. Só me lembrava dessas: “você me decepcionou, mamãe”.
Dois meses e meio depois, quando ainda estava encarando a realidade de quem era Alfonso e que mamãe, como sempre, estava correta, recebi a missiva que indicava que a Condessa de Dudley havia falecido.


Capítulo 2

10 anos depois, 1845, Londres.

Harrison Courtenay, Marquês de Exeter, etc, .



Eu estava atrasado.
Não precisava levantar-me e procurar o relógio entre as roupas jogadas no chão para entender isso. O feixe de luz que saia entre as cortinas da Sra. St Clair evidenciava que era manhã e já devia ter passado há muito do horário do desjejum.
Empurrei com delicadeza o corpo da morena para o lado, com cuidado para não puxar-lhe o cabelo pesado sem querer. Ela resmungou, mas manteve-se no sono; sem mais delongas, tratei-me de vestir-me.
Havia um motivo pelo qual eu costumava terminar por carta os relacionamentos com as amantes: eu era um homem muito volátil e fácil de ser seduzido. Entre lágrimas de tristeza e abraços de consolo, vi-me entrando debaixo dos lençóis de Bárbara St. Clair mais uma vez, convencendo-me que era apenas uma despedida.
Eu também estava me sentindo um pouco sozinho, era verdade. Ainda naquela semana tínhamos celebrado o noivado da minha irmã mais nova, Lenna, e não pude deixar de invejá-la por ter encontrado um amor duradouro antes de completar dezenove anos.
Talvez eu devesse escutar a marquesa viúva, a quem eu chamo de mamãe. Talvez devesse levar mais a sério as danças de salão. Talvez devesse flertar de forma mais branda com senhoritas, não com mulheres casadas ou que não estavam na minha lista de pretendentes 一 se é que eu tinha uma. Talvez eu devesse casar-me e ter um herdeiro.
Talvez devesse parar de agir como um libertino.
E foi pensando nisso que deixei uma pequena carta para a Sra. St Clair, terminando de vez nosso negócio. Além de não ser tão divertido quanto antes, estava percebendo uma certa hostilidade do marido e do filho mais velho dela, que não completara nem dezoito anos. Ele era jovem o suficiente para cometer uma loucura pela honra da mãe; eu, porém, não estava motivado a ter que encarar duelos contra alguém que nem mesmo da escola havia saído. Não tinha vocação para ser babá.
Conferi se não esquecia nada e fugi como de costume. Infelizmente, sair naquele horário também significava que os servos dos vizinhos me viriam saindo do que seria minha casa de solteiro. Em pouco tempo, os boatos iriam começar a circular.
Soltei um suspiro resignado só de imaginar o que ouviria de minhas irmãs e, é claro, da mamãe.
Deus, tenha misericórdia da minha alma.
Enquanto escondia-me em uma carruagem alugada de volta para casa, praguejei mais uma vez por não ser ainda capaz de deixar a Mansão Exeter por causa dos nervos de mamãe. Ainda lembrava de todo o drama, choro e quase desmaio que a marquesa teve apenas com a menção de ter um pouco de privacidade.
O primeiro erro que cometi naquela manhã foi não ter acordado antes que o sol nascesse.
O segundo erro foi entrar pela porta da frente.
Antes mesmo que nosso mordomo, Sr. Percival, retirasse minha casaca, Grace, com um sorriso janelinha, gritou do corredor.
já chegou, mamãe!
Dei-lhe um olhar duro e murmurei entre dentes:
一 Fique quietinha ou não ganhará presente no Natal.
A ordem pareceu transformar o sorriso de minha irmã caçula mais largo e venenoso.
一 E ele está com a mesma roupa do jantar!
一 Grace! 一 Segurei-me para não gritar um palavrão. 一 Eu vou matar você!
Antes que eu entrasse em mais algumas ameaças de violência para uma menina de treze anos, a marquesa viúva de Exeter apareceu de relance no corredor.
一 Estou esperando você na sala, Harrison.
Harrison. Não “”, quando ela me elogiava. Não “”, quando ela conversava normalmente. Era “Harrison”, meu primeiro nome, igual ao papai, chamando-me a responsabilidade.
Mamãe estava muito perto de acabar com a minha raça.
Embora já fizesse alguns anos desde que meu saudoso pai havia falecido e eu assumi o marquesado, mamãe era a verdadeira matriarca da família. Era ela que mandava e nós, reles mortais, obedecíamos.
Mantive-me de pé enquanto observava-a sentar. Ela estava usando um chapéu ridículo que deixava-a dez centímetros mais alta. Deveria estar prestes a sair às compras com Danna, minha irmã mais velha. Torturando-me com o silêncio, observei-a estender os pequenos pés num banco acolchoado e abrir o leque lilás, da mesma cor de seu vestido. O pequeno barulho do vai e vem do objeto soava muito como um chicote prestes a atingir minhas costas.
一 Onde esteve essa noite?
Mamãe nunca foi de enrolações, mas imaginava que ouviria ao menos um bom dia. Dei-lhe um sorriso de lado.
一 Estava com Dudley, como sempre.
Os olhos da marquesa se tornaram pequenos conforme encararam-me com descrença.
一 E por que dormiu na casa dele? Por que não voltou para casa? São apenas algumas quadras de distância.
一 Preguiça 一 justifiquei. 一 Estava muito sonolento.
Ela balançou a cabeça em assentimento. Seus ombros, antes tensos, ficaram menos rígidos.
一 Sabe, querido, você tem que ter cuidado com sua reputação também. 一 Aconselhou. 一 O peso não é igual para as mulheres, e você é um pretendente muito cobiçado, mas os boatos podem desgastá-lo. Você pode virar uma pessoa non-grata e Grace… Ela ainda tem muitos anos de bailes para desfrutar.
Concordei com a cabeça. Peguei o relógio no bolso por força do hábito e lembrei-me de um compromisso; eu deveria estar no White’s em dez minutos.
一 Mãe, seus conselhos são sempre muito valiosos, mas tenho que sair agora.
一 Já? 一 disse ela, ansiosa. Fiz uma leve reverência e beijei-lhe a mão.
一 Volto em um instante, prometo 一 falei. 一 George está muito ansioso para contar-me a novidade e a senhora sabe o quanto ele detesta atrasos.
Quatro linhas retas aparecem na sua fronte antes dela dizer:
一 Mas você não acabou de vir da casa dele?
O terceiro erro que cometi naquela manhã foi mentir de forma não-elaborada para minha mãe. Devo ter ouvido meu nome completo em fúria ao menos três vezes antes de entrar na carruagem e ordenar para que o cocheiro fosse o mais rápido possível para o clube.

[…]


White’s era o refúgio dos homens mais bem afeiçoados do país. De maioria masculina, as mulheres eram impedidas de entrar. Ao menos, as que eram vistas como de boa família. Bastava abrir a porta e o cheiro de testosterona deixava qualquer um tonto. Não conhecia nenhum lugar na Inglaterra onde havia tanto homem por metro quadrado.
Era sufocante.
Meus dois amigos estavam bebericando algo em seus copos quando aproximei-me. Lorde Byron e Conde de Dudley eram bem diferentes em aparência, mas resolviam-se muito facilmente na conversa. Era, porém, um tanto improvável que nós três estaríamos juntos em uma amizade de anos… A vida tinha certas coisas assim: ilógicas e difíceis de compreender.
一 Está atrasado 一 constatou George, o Conde de Dudley, embora não parecesse tão surpreso com isso.
一 Vocês que estão adiantados. 一 Sentei-me na cadeira sem muita delicadeza. 一 Mamãe irá perguntar se eu estive em sua casa na noite passada. Diga que sim, por favor. Ficarei devendo uma.
George estreitou os olhos para mim como um falcão.
一 Você disse que ia terminar o caso com St. Clair!
Levantei as mãos em rendição.
一 Mas eu terminei!
一 Não me diga que já seguiu em frente? 一 indagou Byron, descrente.
一 Ora, se não é o homem mais sensível do Reino Unido.
Logan, também conhecido como Lorde Byron, balançou a cabeça em desprezo e não comentou mais nada.
一 Despedi-me dela ontem, se isso o preocupa 一 justifiquei a George. 一 E também estou comprometido a nunca mais me envolver com mulheres casadas.
Byron, que sempre esteve ao meu lado indossando cada atitude minha, soltou um risinho pelo nariz e quase engasgou-se com a bebida.
Traíra.
一 Você sabe o que é melhor para sua vida, 一 disse Dudley, com um ar de homem sábio. 一 Mas isso pode prejudicar-lhe futuramente. Não só a você como às suas irmãs, não é?
一 Lenna estará casada antes de eu me apaixonar novamente 一 afirmei enquanto apoiava minhas pernas na mesa e equilibrava a cadeira de modo perigoso. 一 Grace, bem, quando estiver com idade para ir aos bailes, já estarei com barba branca igual ao Logan e três crianças nos encalços.
一 falou com o tom de alerta. 一 Grace estará pronta para ser debutante em menos de cinco anos, você sabe, não é?
Franzi o cenho, as contas na minha cabeça embaralhando-se. Ela e Zachary nasceram um após o outro, quando eu ainda não tinha entrado em Eton e, na minha cabeça, sempre foram os caçulas, eternas crianças. Lembrei-me, então, que mamãe tinha comentado comigo sobre os preparativos para enviar Zachary para a escola no próximo semestre, pois já tinha a idade apta.
Merda 一 resmunguei. 一 Eles estão crescendo rápido demais.
一 Está na hora de casar, milorde 一 zombou Byron.
一 Quem vê pensa que você não deveria ser o primeiro de nós a casar 一 retruquei. 一 O que está esperando? Uma noiva cair do céu?
一 Ele vai pedir pelo correio. Talvez ela venha da França junto com os livros dele 一 brincou George.
一 Vai chegar em um baú gigante vermelho segurando uma licença especial 一 falei.
一 Calem a boca 一 resmungou Byron. 一 Qual era a novidade que queria dizer para nós que não pode mandar via recado?
George, que estava em um raro momento de descontração, iluminou-se todo quando Logan lembrou-lhe do motivo de estarmos reunidos. Pedi rapidamente uma bebida para um jovem garçom que passou em nossa mesa e mantive a cadeira equilibrada de forma nem um pouco educada.
Mamãe ficaria uma fera se me visse assim.
一 Finalmente minha irmã foi liberada por aquele covil de urubus 一 disse George. 一 está voltando para casa próximo mês! Ela e Felicity irão morar comigo em Ward House.
一 Que coisa boa, George. Eu…
一 O quê?!
O grito de surpresa precedeu a tragédia.
Meu quarto erro do dia foi sentar daquele jeito imprudente em um lugar público. Na primeira notícia chocante, estava eu, o Marquês de Exeter caindo para trás como uma fruta madura com o desequilíbrio da cadeira.
E mesmo com os risos ao redor invadindo meus ouvidos e as costas doendo como nunca, a nova informação zunia nos ouvidos.
estava de volta.

Capítulo 3

Ravena , Sra. ,



Eu odiava barcos. E mar. E aquele balançar maligno que me impedia de comer algo decente sem vomitar dez minutos depois. E os marinheiros gritando nos momentos mais inoportunos. Também tinha o cheiro podre do Tâmisa que nem os mais insensíveis eram capazes de ignorar.
Porém, eu estava indo para casa.
Apertei os lábios e levantei o rosto para evitar que as lágrimas descessem. Ninei Felicity em meus braços como se ela estivesse acordada, embora seus olhinhos mantivessem fechados. Dias e dias de choro de enjôo estavam findando. Estávamos perto da costa.
Casa. Estávamos perto de casa.
一 Sra. 一 chamou-me Peggy, minha dama de companhia, que olhava através da janela. 一 Já consigo ver o Parlamento daqui.
Permiti-me dar um sorriso sincero pela primeira vez em muito tempo. Peggy havia ido junto comigo para Espanha, quando eu ainda era muito ingênua. Era apenas dois ou três anos mais velha que eu. Falava espanhol muito melhor, também.
Não importava. Estávamos voltando para casa.
Era verdade que não era como antigamente; não iria encontrar papai no escritório jogando uma bolinha para o ar e fingindo que estava trabalhando em alguma coisa. Não ia ter mamãe chamando-me para comprar novas fitas. Não ia ter George chegando de Eton para as férias e negando-se a fazer qualquer coisa divertida.
Éramos adultos há muito tempo. E não havia mais papai, nem mamãe; eram só nós dois.
E Felicity.
Respirei fundo quando fomos chamadas para descer do navio. Corremos para a fila e não demorou muito para que provássemos que éramos conterrâneas voltando para a nossa nação.
Não posso descrever o que senti quando vi George de ponta de pés tentando encontrar-me na multidão. Estava vestido como um verdadeiro conde: de cartola, o colarinho arrumado e um casaco de veludo azul. Porém, a melhor vestimenta era seu sorriso.
Impossível de me conter, chorei antes de abraçá-lo. A última vez que tínhamos nos visto foi há cinco anos, quando papai morreu. Lembrava que por muito pouco não fiquei na Inglaterra, porém era fato que Alfonso nunca iria permitir que isso acontecesse.
Eu era propriedade dele.
E agora ele estava morto. Graças a Deus.
Receber a calorosa recepção de meu irmão fez com que meu peito enchesse de um sentimento antigo, que eu achava incapaz de sentir de novo.
Alegria. Eu senti-me genuinamente alegre.
Dentro da carruagem, observei meu irmão brincar com uma Felicity sonolenta. A cena deixou-me com um nó na garganta; desenhava-se de forma simples e ordinária, mas foi capaz de me fazer pensar no tempo perdido que os dois não se conheciam. Enquanto os estavam indispostos a deixar-me ir embora, George não teve o privilégio de ser tio de forma íntegra, nem de conhecer o mais novo membro de sua família.
Como se soubesse que eu pensava nele, meu irmão gêmeo levantou a cabeça.
?
一 Sim?
一 Estamos bem agora, não é?
Pisquei os olhos sentindo as lágrimas descerem sem controle. Sorri constrangida, pois fazia muito tempo em que chorava na frente de alguém que confiava. Na verdade, fazia muito tempo desde a última vez que tive alguém para confiar.
一 Obrigada, querido 一 murmurei, recebendo logo em seguida o seu lenço.
一 Não agradeça muito agora. Embora tentei evitar, a Marquesa viúva de Exeter quer vê-la amanhã junto com a Sra. Montgomery.
一 Danna ainda não se casou? Faz tanto tempo que tornou-se viúva! E ela era tão jovem… 一 comentei, os ouvidos atentos para saber das novidades da minha antiga roda de amigos. Era verdade que ela não era nem tão bonita assim, mas vinha de uma boa família e era muito educada; um ótimo partido.
一 Ela é… digamos… Difícil. 一 George coçou a cabeça.
一 Difícil por quê?
George deu os ombros, sem saber explicar. Revirei os olhos de um jeito bem mal educado. O tempo havia se passado e meu irmão continuava sendo um péssimo fofoqueiro.
一 Magdalena, a irmã dela, ficou noiva mês passado 一 acrescentou ele. 一 Com o Visconde Severn.
一 Não me lembro dele…
一 Ele é conhecido no partido, tem se destacado…
一 Por favor, George, sem fofocas políticas. Dessas não sinto qualquer interesse.
Ele deu um pequeno sorriso.
一 Então eu não posso fazer muita coisa por você, irmã querida. Quase nunca estou nos salões e tudo que sei são as coisas que meus amigos contam-me no clube 一 justificou-se. 一 Aliás, estamos já no fim da temporada. É bem provável que a fofoca mais quente seja a sua chegada em Londres.
Dei uma sacudida nos ombros para evitar o mau agouro. Não queria pensar no que estavam falando de mim, sobretudo porque antes eu não era necessariamente uma pessoa humilde. Conseguir noivar na minha primeira temporada não ajudou em nada para que eu caísse do pedestal, também. Ainda deveria haver muitas mulheres que ficariam muito satisfeitas em saberem da minha atual condição.
Suspirei e arrumei a postura. Pouco importava. Eu as trataria com educação e sorrisos, do jeito que mamãe me ensinou.
一 Ainda bem que tenho minha querida amiga Peggy aqui, que nunca me deixará desatualizada 一 argumentei, trazendo a minha dama de companhia para a conversa. Ela apenas riu ruborizada, mas não disse nada.
Quem não a conhecia que a comprasse. Tímida na frente dos patrões, eu sabia que Peggy escutava tudo e todos até mesmo dormindo.
Era uma pena que ela ficaria apenas até que eu me casasse de novo. Queria muito que o noivo dela estivesse disposto a vir conosco para Londres, mas era espanhol até o osso. Se não estivesse a serviço da marinha espanhola, duvidava muito que estaria tão tranquilo com ela, acompanhando-me por mais alguns anos.
A casa de George era como eu ainda me lembrava. Era esquisito dizer que pertencia a ele apenas, quando eu também a chamei de casa por um longo tempo; a frase “pertence ao Conde de Dudley” não era mais referente a mim também, mas apenas a George. Não havia grandes mudanças na decoração, ou mesmo nas pratarias que meu pai colecionava. Parecia, no entanto, vazia.
一 Pedi para que arrumassem seu quarto de antes e que preparassem um banho 一 explicou antes de apresentar-me o seu mais novo mordomo.
Boa parte dos empregados eram antigos e receberam-me em fila, como de costume. Lembrava-me de seus nomes; perguntei-lhes de seus parentes e descobri que muita gente casou, teve filhos e alguns morreram. Deixei-lhes uma boa impressão, no entanto. Subi para meu quarto satisfeita, sabendo que em breve os comentários da minha chegada espalhariam-se por Mayfair como poeira e, se dependessem dos criados de George, de forma positiva.
Estava quebrada, machucada e ainda em processo de cura, era verdade. Mas não tinha vindo para a Inglaterra apenas para brincar. Eu ia voltar a ser quem eu nasci para ser: uma dama notável. E não apenas isso: uma dama que era amada.

[...]


Quando Peggy apertou o espartilho segurei-me para não reclamar. Estava cada vez mais difícil tolerar aquela vestimenta. Ao menos minha postura ficava impecável quando eu o usava.
Evitei olhar-me no espelho, como já fazia há muito. Não precisava ver, já que a família fazia questão de apontar meus defeitos.
Afinal de contas, eu era uma mulher da Rainha Victória e todos nós sabemos quão gordas elas eram.
Aumentar as ancas era algo natural 一 mamãe não era necessariamente uma mulher magra e a maiora das mulheres que eu conhecia ficavam mais rechonchudas depois do primeiro filho. Além disso, sempre ouvia que mulheres magras demais eram frágeis para ter tantos filhos. Talvez, se eu tivesse escolhido um homem inglês como marido, nunca repararia de forma negativa a nova moldura do meu corpo.
Ser chamada de gorda não pareceu diminuir meu apetite; pelo contrário, fez-me passar a comer numa quantidade não muito educada . Minhas ancas dobraram de tamanho e passei a disfarçar a grossura dos ombros com os penteados baixos. A gravidez apenas acentuou um corpo que nunca imaginei ser meu, mas agora me pertencia.
Foi difícil encontrar um vestido de dia decente para a ocasião, mas adaptei um bonito vestido de noite usando apenas alguns truques para deixar o busto coberto.
Eu deveria pedir a George para que comprasse novos vestidos para mim, porém ainda não havia me subido a humildade de dizer-lhe que Alfonso não nos deixou nada de herança. Nem mesmo Felicity ficou com alguma coisa, pois seu testamento deixava claro que iria apenas para os filhos homens.
Sentar na sala para tomar chá como se a vida fosse apenas isso revigorou meu espírito. Peggy contou-me algumas histórias do novo mordomo enquanto deliciava-me com biscoitos de gengibre. Eles eram os meus favoritos.
Felicity parecia gostar também do doce. Sentada em meu colo, suja de farelo, minha filha balançava as perninhas grossas como de quem acompanhava uma música que tocava apenas na cabeça dela.
A mudança de cenário não a mudou, continuava sendo uma criança muito tranquila.
O dia do nascimento da minha filha foi um dia de alívio. Escutei durante toda gravidez o desejo de que fosse um homem, um herdeiro para os . Não tinha conseguido levar a cabo outras gestações, então meus sogros também falavam da criança como a última tentativa; a morte repentina de Alfonso apenas agravou este pensamento. Enquanto exclamavam que em breve chegaria um menino para a mansão, eu sussurrava que seria uma garota.
Muitos lamentaram quando o médico anunciou o sexo da criança, afinal de contas, o nascimento dela também significava que eu estava falida e que não havia nenhum herdeiro para Alfonso. Não sabiam eles que minha filha era a Felicidade encarnada, uma resposta às minhas preces; era, também, minha liberdade.
Os não tiveram qualquer objeção quando eu disse que a levaria comigo de volta para Inglaterra. Sendo de um gênero de tão pouco valor, duvidava que eles se importassem de saber notícias dela nos próximos anos.
Melhor assim.
一 Peggy 一 eu disse quando ouvi o barulho da porta da frente se abrindo. 一 Acho que as visitas chegaram. Tem algum lenço para limpar essa criança?
Bati as migalhas da minha saia enquanto observava a minha dama de companhia deixar Felicity mais apresentável. Teria que conversar com George também para contratar uma babá. Mais uma despesa para a conta do meu irmão.
, já está pronta? 一 perguntou George, assim que pôs os pés na sala de visitas. 一 Nossas visitas chegaram.
Sr. Hopkins, o mordomo de George, apresentou-lhes:
一 Vossa Excelência o Marquês de Exeter, a Marquesa viúva de Exeter, Lorde Byron, a Sra. Montgomery e a Lady Magdalena Courtenay.
Levantei-me e fiz uma breve reverência. Não contive o sorriso ao ver Danna, sobretudo porque ela veio em minha direção com entusiasmo.
Não havia como negar que boa parte deles eram da mesma família; os cabelos castanhos, os olhos da mesma cor e as pestanas compridas eram características comuns entre eles.
一 É tão bom vê-la novamente, minha querida! 一 exclamou Danna. 一 Continua tão belíssima quanto da última vez que a vi.
Agradeci com modéstia, embora soubesse que o elogio era mais por hábito do que por franqueza. Com beijinhos no rosto, cumprimentei cada uma das mulheres da sala.
A marquesa-viúva ainda parecia igual à última vez que a vi, embora os lampejos da juventude transformaram-se em rugas pelo rosto. Isso não tirava a elegância e o refinamento que tinha em cada gesto.
一 Essa criança é a sua filha? Ela é igual a você quando bebê! 一 comentou a marquesa e fiquei muito envaidecida ao ouvir aquela frase.
Todos diziam que eu fui um bebê muito bonito.
一 Lenna, como está grande! Já é uma mulher! 一 exclamei, encantada com a beleza da mais nova. Ela ficou muito vermelha quando eu disse. 一 Está linda.
一 Oh, deixe-me fazer as honras 一 falou George, de repente.
Olhei ao redor e percebi que, na euforia, ignorei os homens que eram também visitas. Que engano meu.
一 Esse é Lorde Byron, o amigo que eu falei.
Franzi o cenho tentando lembrar-me da conversa, mas ignorei a falha da memória assim que olhei o homem desconhecido com cuidado. Deveria ser alguns anos mais velho do que eu e tinha uma aparência bonita e, ao mesmo tempo, austera.
Estendi a mão enluvada.
一 Encantada em conhecê-lo, milorde.
一 Digo o mesmo, senhora. Dudley falou-me muito de você.
A voz dele era aveludada, profunda e quente. Encaixava-se perfeitamente com a aparência séria que ele tinha.
一 Espero que de forma positiva, suponho 一 acrescentei enquanto sentia os lábios dele sob o tecido das luvas.
一 George é incapaz de falar negativamente sobre alguém.
Dei uma risadinha como se eu fosse uma debutante.
Certos hábitos nunca iriam embora.
Virei-me para o outro homem.
一 E quem é o… 一 interrompi minha frase.
Ele era o Marquês de Exeter, oras. Sr. Hopkins tinha o apresentado. O homem era o filho mais velho da Marquesa viúva.
Levantei a cabeça levemente para trás para encarar-lhe os olhos. Minhas lembranças não me enganaram: mesmo com o rosto de um adulto e traços de quem deixara os dias de menino há um tempo, reconheceria-o em qualquer lugar.
Pus a mão no peito quando uma gargalhada saiu da minha garganta.
, meu Deus! Como pude não reconhecê-lo de primeira? 一 toquei-lhe o braço, admirada com sua altura. 一 Você está mais alto que eu! Que loucura!

Capítulo 4

Harrison Corrigan Courtenay, Marquês de Exeter, etc,



Entendia-se que dez anos era um tempo suficiente para superar alguém, sobretudo uma paixão de juventude. Era verdade que eu havia chorado igual um cabrito com unha encravada durante o casamento de . Meu pai quase teve um ataque fulminante de tanta vergonha: o herdeiro do marquesado de Exeter era um maricas que chorava em casamentos. Que coisa tão não-máscula!
Meu pai definitivamente não era um homem de grandes emoções e achava que isso tinha a ver com o seu gênero. Eu discordava.
Faziam anos desde a última vez que eu havia pensado em Lady Rolland. Ou melhor, a Sra. . Nem mesmo lembrava-me de seu rosto, quanto mais quem ela era.
Dez anos era quase uma vida inteira.
Eu não dia sentir-me abalado com a presença de . Eu não tinha mais quatorze anos e uma mente de um inseto. Eu era um homem adulto e responsável pela minha família. Quer dizer, não tão responsável assim, de acordo com mamãe.
Ainda assim, eu era maduro o suficiente para reconhecer meus limites românticos. Eu já havia me apaixonado uma dezena de vezes após . Certo que eu não gostava tanto assim da Sra. St. Clair, mas ela me dava um pouco da ansiedade gostosa da paixão no começo dos nossos encontros. Antes dela, apaixonei-me pela Duquesa de Strathearn, que rejeitou-me e feriu o meu orgulho de jovem ingênuo. Também havia a Sra. Mathieu, a viúva francesa que conheci durante minha viagem ao continente…
era passado. Um amor de infância, de quem só conhecia mulheres amigas da família.
Então, por que diabos minha mão começou a suar assim que a vi na sala de visitas de Dudley?
Era, com toda certeza, uma pessoa diferente; mas era possível ver traços da mulher que conheci um dia. Eram relapsos, no entanto: o tempo a tornou mais elegante e de movimentos mais leves. Sorria sem exagero, mas não deixava de ser simpática. A voz ainda era aguda, porém não carregava mais os vícios de uma aristocrata mimada. Era uma Lady, é claro. Agia como uma. Mas não era a mesma, embora também não fosse nada além de si.
Um paradoxo, por certo.
segurou as mãos de minha irmã e pude ver os olhos verdes fazer uma rápida e discreta checagem. Sorri. Era ainda , é claro.
一 Oh, deixe me fazer as honras 一 disse George, a quem eu totalmente esquecera da presença. 一 Esse é Lorde Byron, o amigo que eu falei.
A sala ficou fria. virou-se para mim e Logan, mas não se deu o trabalho de encarar-me; seus olhos estavam no meu amigo. O rosto tornou-se curioso como o de uma criança que descobria um novo doce.
Eu não gostei daquilo.
一 Encantada em conhecê-lo, milorde.
一 Digo o mesmo, senhora. Dudley falou-me muito de você.
E Logan beijou-lhe a mão por cima da luva. Os olhos deles se encontraram e vi o pequeno sorriso que raramente Byron dava, mas costumava ser fatal para as mulheres.
Respirei fundo.
Desgraçado.
Eu queria ser você.
Queria não conhecer desde criança. Queria que ela não tivesse a memória de mim, um menino desengonçado, tropeçando e caindo de uma forma dolorosa no lago de Exeter. Queria que ela não conhecesse-me antes que eu descobrisse meu charme, minha confiança. Queria que ela me conhecesse naquele exato momento, quando eu poderia puxar-lhe a mão e beijar com tom de galanteio. Queria poder ser um homem misterioso, desconhecido, que atiçasse aquela mente curiosa e aventureira.
Não escutei a conversa dos dois, embora reconhecesse o tópico. As risadas. O flerte velado. O gracejo. O piscar de gato. O interesse de Byron.
一 E quem é o… 一 interrompeu-se como se tivesse acabado de ter consciência de minha existência.
levantou a cabeça para encarar-me.
Dez anos eram muitos anos. Imaginei que ela estivesse reconhecendo isso e, pela primeira vez, visse que a sua frente estava um homem, não o seu amiguinho .
Mas eu conhecia . Não éramos desconhecidos. Eu vi seus ombros mudarem de postura e o rosto tornar-se amigável, não de um jeito que eu queria. Preferia que ela me ignorasse do que dissesse:
, meu Deus! Como pude não reconhecê-lo de primeira? 一 tocou-me o braço. 一 Você está mais alto que eu! Que loucura! Dei um sorriso congelado, a frustração escondida por entre os dentes.
一 Sou mais alto de que você desde os treze, você que nunca foi capaz de admitir isso.
olhou-me ultrajada. Deu um leve tapa no meu braço.
一 Que mentira, seu mentiroso!
一 Ainda continua sendo redundante, tsc, tsc…
Ela virou-se para a marquesa com as mãos na cintura.
一 Ele continua um insolente, Vossa Excelência. Acho que não há mais solução, teremos que enviar de volta.
Mamãe riu com satisfação e a situação tornou-se menos constrangedora para mim. Ela observou-me com afeto.
一 Gostaria muito de poder devolvê-lo, mas eu acho que apeguei-me ao menino.
De olhos cerrados, encarei minha mãe, mas nada disse. Estava andando em ovos nas últimas semanas desde que o boato da noite com Sra. Bárbara St. Clair virou uma bola de neve. Eu costumava ser muito mais discreto com minhas aventuras, e aquele descuido foi o suficiente para que outros burburios sobre minha vida amorosa explodissem.
Como era de se esperar, a Marquesa-viúva odiou ouvir cada um deles.
一 Vamos, sentem-se. Em breve o chá estará na mesa 一 disse George, conduzindo-nos para o sofá.
A ansiedade de estar no mesmo cômodo diminuiu enquanto conversávamos até parecer que nunca viera a existir. A frustração, talvez, tenha sido a maior aliada nesse caso. O que eu esperava, realmente? Flertar com ?
一 Estava contando os dias para sua chegada, Sra. 一 comentou Lenna assim que os servos chegaram com o chá. 一 Pouco lembrava-me de suas feições. Eu era muito criança quando foi para Espanha.
一 Eu tenho lembranças muito boas de você, Lenna 一 disse . 一 Sempre foi um doce de menina. Fiquei tão feliz em saber que está noiva! Inclusive, desejo minhas felicitações a você.
Magdalena agradeceu com as bochechas vermelhas e disfarçou com muita categoria seu embaraço. Nesses momentos, minha mente despertava um pouco de preocupação com sua ingenuidade. Dia eu ter adiado um pouco mais o casamento com o Sn? Sendo um homem alguns anos mais velho, duvidava um pouco da capacidade dele para ser compreensivo com a jovialidade que era típica da minha irmã.
一 Ah, querida, você me deve muitas cartas da Espanha! 一 cobrou minha irmã mais velha, Danna. 一 Por que não me escreveu com periodicidade como eu pedi? Sei tão pouco desse país, mas sempre tive muita vontade de conhecer.
deu um sorriso superficial. Levantei as sobrancelhas. O comentário a incomodou.
一 A Espanha é linda, é uma delícia no verão 一 replicou, com cuidado. 一 Desculpe-me ter te respondido tão pouco, minha amiga. Mas não vamos nos ater aos problemas do passado. Irei repassar todas as informações se você me visitar com frequência.
Minha irmã pareceu ficar satisfeita com a resposta. Danna era uma mulher rancorosa, mas perdoou muito fácil a . Deveia estar carente de amigas desde o que acontecera no último sarau que nós visitamos.
Observei discretamente enquanto oferecia chá para Byron.
一 A família deve amá-la muito. Pensei que voltaria para Londres assim que soube da sua viuvez 一 comentou a marquesa viúva. 一 Deve já estar pensando em casamento de novo, sim?
sorriu com segundas, terceiras e até quarta intenções.
一 Meus planos são tão óbvios assim?
As mulheres riram como se estivessem trocando segredos. George deixou escapar uma risada meio incrédula, meio feliz de saber que a personalidade da irmã permanecia intacta.
Então, olhou para Byron. Meu amigo, que nunca fora um homem tímido, embora calado, desviou o olhar como se não sentisse a indireta.
Estiquei os pés, tentando parecer menos desconfortável com aquela conversa.
一 Cuidado para não se tornar como Danna. É viúva, mas age como uma solteirona 一 zombei.
Minha irmã ficou vermelha como um pimentão e encarou-me consternada. Lenna, por outro lado, inclinou-se para frente com os olhos travessos.
一 Isso é porque você não esteve em Exeter no último verão, irmão 一 comentou ela. 一 Estive quase certa que teríamos outro casamento nessa temporada.
一 Ora, Lenna, cale-se!
A reprimenda de Danna não foi suficiente para fazê-la ficar quieta. Inclinei meus ouvidos em direção a minha irmã mais nova.
一 E esse homem seria um tal de Capitão…
一 Corrigan, pare de perturbar sua irmã! 一 reclamou a Marquesa.
一 Capitão? Que Capitão? 一 perguntou com os olhos brilhando de divertimento e curiosidade. 一 Conte-me sobre isso, querida amiga!
A essa altura, Danna estava tão vermelha que era capaz de explodir. Atrás dos óculos esquisitos que usava e aquele cabelo sempre de modo antiquado, ela pareceu tão jovem quanto era. Sorri satisfeito. Talvez fosse capaz de fazê-la sair da casca que minha irmã enfiou-se desde que o marido morreu.
O resto da visita ocorreu de forma tão previsível que iria aborrecer-me narrar mais sobre nossos diálogos. Voltamos faltando um pouco antes do horário do jantar, pois Lenna e Danna foram convidadas para ir a uma ópera no mesmo dia.
Dentro da carruagem, sem a agitação do velho e a surpresa do novo, concentrei-me em observar a chuva pela janela.
一 ...o casamento fez ela engordar bastante.
一 É, Lenna que se cuide. Será a próxima a estufar como um balão.
一 Mãe! Não jogue maldição para mim.
Franzi o cenho, encarando com claro descontentamento as mulheres da minha casa.
一 Que tipo de conversa é essa? 一 perguntei.
一 Ora, , não percebeu quão gorda está ? 一 indagou mamãe. 一 Se não se cuidar, ficará tão grande quanto a rainha.
一 Mamãe! 一 repreendeu Danna.
一 Que grandessíssima amiga a senhora é, minha mãe, para não esperar cruzar a esquina antes de fazer comentários desagradáveis sobre o corpo de . 一 Repliquei, sem conseguir segurar-me.
Mamãe ficou pálida, ultrajada. Gaguejou sem muito argumento.
一 É só um comentário.
一 Um comentário depreciativo sobre uma mulher que a considera como tia 一 apontei seriamente.
Ela apertou os lábios, não disse mais nada. Tirou o leque da bolsa e ficou balançando com veemência.
Danna uniu as sobrancelhas grossas; cutucou a nossa irmã mais nova com o pé e apontou para mim.
一 Vivi para ver dando bronca na mãe.
Ignorei-a, voltando a observar a janela. Falei do clima e comentei que iriam pegar uma chuva forte na hora da ópera. Lenna reclamou de ter os sapatos sujos de água e Danna disse que não precisava se preocupar, a carruagem pararia bem de frente ao teatro. Mamãe, porém, me olhou desconfiada, mas nada disse.

[...]


Eu não era exatamente uma pessoa ocupada, embora também não fosse do tipo que passava boa parte do dia dentro de casa. Haviam muitos compromissos, sobretudo aqueles que pediam minha presença para acompanhar minhas irmãs e os que relacionavam-se com a minha medíocre carreira política.
Aliás, carreira era um grande exagero. Meu pai ficaria muito frustrado em saber que não importavam quantos anos tinham se passado, a Câmara de Lordes era ainda visto por mim como uma das partes mais tediosas que o título proporcionaram-me. Ai de mim se não fosse Dudley! Estaria em uma situação muito mais minguante.
Porém, ainda que minha vida fosse tranquila e eu tivesse tempo o suficiente para manter uma amante, por exemplo, houveram dias em que nada funcionava. O contador ficava doente, meu advogado tirava férias, os servos estavam com os salários atrasados e o seu irmão mais novo tinha destruído um vaso que estava na família há mais gerações do que eu podia contar.
Era um desses dias. Enquanto eu tentava entender a confusão que o pagamento dos funcionários tornou-se, os ouvidos estavam muito atentos aos movimentos do Zachary.
Mamãe sempre dizia que ele era muito parecido comigo quando criança e, embora fosse ruim admitir, fazia muito sentido. Zach era uma peste e a conta dos cabelos brancos que deixei em meu pai chegou antes que eu produzisse meus próprios herdeiros.
一 Quando vou poder sair daqui? 一 indagou ele, emburrado.
一 Se depender de mim, apenas quando for maior de idade.
Ele soltou um bufo irado.
一 Era só um vaso! Ninguém em casa usava!
Tirei um pouco de cabelo da minha testa para não dar um grito de frustração. O vaso que ele havia quebrado não era apenas uma relíquia da família, era um artefato que havia sobrevivido a um saqueamento na Guerra dos Cem Anos. Aparentemente, Zachary correndo pela casa era mais perigoso do que qualquer francês com espadas e armadura.
一 Você quer que eu chame a mamãe de novo? Quer voltar ao castigo de verdade? 一 sugeri e ele calou-se. Claro, não deixou de fazer um bico e cruzar os braços de forma birrenta.
Ele ainda não havia se desculpado, embora tenha ficado muito tempo de joelhos voltado para a parede por ordens da nossa mãe. Não gostava desse tipo de castigo 一 eu, quando criança, aprendi a manipular esse tipo de situação com certa facilidade, mas eu não estava em posição de criar meu irmão. Ele tinha mãe, um preceptor e uma babá, afinal de contas.
Foram minutos de silêncio que pareceram muito com paraíso. Os números começavam a fazer sentido; decidi, antes mesmo de terminar o que tinha que fazer, que na primeira oportunidade aumentaria o salário do contador. Aquele homem era um anjo.
一 Não vejo a hora de ir para Eton 一 resmungou Zachary. 一 Serei finalmente livre dessa família idiota.
Dei uma risadinha inevitável. Meus dias em Eton foram bons, mas estavam longe de haver a liberdade que Zach ansiava. Os outros garotos, assim como os professores, eram bastante hostis quando queriam. Não sofri mais do que o normal, mas essa não foi a mesma situação de George, por exemplo. Por ter um sono desregulado e pesadelos constantes, poucos estudantes estavam dispostos a dividir o quarto com ele e serem empáticos com sua situação. Se Dudley não fosse um nome menos influente, talvez as coisas ficassem realmente ruins.
一 Em breve você irá, irmãozinho 一 afirmei com um sorriso esperto. 一 Mas não fique muito animado. Durante esse verão você irá aprender cerâmica e fará um vaso igual o que destruiu para presentear mamãe.
一 O quê?! 一 Com a voz aguda e cheia de indignação, Zachary levantou-se da cadeira. 一 Você não pode me obrigar!
Levantei os olhos em direção a ele. Meu irmão tinha bochechas vermelhas de raiva, mas já lacrimejava de revolta. Encarei o teto e suspirei.
Antes que eu formulasse uma réplica, o mordomo bateu a porta e indicou que tínhamos visitas.
一 Que horas são? 一 Busquei meu relógio no bolso. 一 Já é a hora do chá?
一 Sim, Vossa Excelência 一 afirmou o mordomo. 一 A Sra. e a Srta. James estão esperando a Marquesa-viúva. Avisei-as que em breve ela estará conosco, assim como a Srta. Montgomery.
Era a segunda vez que nós nos veríamos. Não houve qualquer batimento inédito vindo do meu peito. Qualquer surpresa ou júbilo esquisito.
Talvez o episódio anterior fosse apenas efeito de um reencontro de muito tempo. Passou. Eu poderia seguir em frente.
一 Acredito que tenha avisado a Lenna, por certo. 一 O mordomo confirmou com a cabeça. 一 Então, irei recebê-las.
Virei-me para meu irmão mais novo. Zach estava muito atento à conversa e olhou-me com expectativa. Apontei para ele.
一 Está livre por ora, mas adianto que talvez mamãe não volte com bom humor ainda. Fique no seu quarto calado, está bem?
Não precisei repetir mais nada; Zachary desapareceu como se nunca tivesse entrado em meu escritório, deixando como rastro apenas um barulho ensurdecedor de quem fechou a porta com nenhum cuidado. Eu teria ralhado com o menino se não estivesse ocupado arrumando as abotoaduras de meu casaco.
Dessa vez, logo depois de ser apresentado, reparei na acompanhante de . Era uma coisinha pequena e loira que parecia não ser muito velha. Na verdade, apostaria que tinha a mesma idade que a sua senhora. Ela ouvia Lenna com muita atenção antes de levantar-se para fazer uma reverência. 一 Sejam bem-vindas, senhoras. 一 Cumprimentei com cordialidade.
Elas agradeceram com uma reverência ensaiada. Srta. Peggy James manteve os olhos ao chão; Lenna ria como de quem queria contar alguma coisa para mim e mantinha seu ar educado de quem nunca deixara de ser uma filha da nobreza.
Era esquisito sentar na sala de visitas com alguém que já foi-me íntimo, mas separado pelos anos e alguns quilometros de mar. Uma dualidade que se refletia nas conversas daquela tarde: às vezes, tratávamos um ao outro pelo título e honrarias; outro momento, escapava de minha boca o apelido de infância.
Mamãe e minha irmã mais velha chegaram um pouco tempo depois e a minha presença tornou-se apenas decoração do cômodo. Eu, que não disfarçava as olhadelas para , a vi ficar mais à vontade com elas por perto. Evitava, estranhamente, dirigir-me a mim, sempre usando Lenna como mensageira.
Em seu manejo social, poucos seriam capazes de sentir a condescendência em:
“Quem sabe conseguiríamos a lista de convidados do sarau da milady…”
“Adoraria ir para Exeter junto com vocês! É claro, preciso de um pedido formal, querida Lenna.”
“Essa escolha não é nossa, é do dono da casa.”
E aquelas frases, repletas de risinhos e cutucadas, quando recebiam minhas respostas, nunca eram replicadas com olhares longos de .
O que será que tinha de errado com meu rosto?
Poderia ter passado aquela ordinária tarde buscando em seu olhar algo que denunciasse seus pensamentos. Iria criar teorias de cada frase, sorriso ou ombros tensos.
Seria divertido, com toda certeza. Teria algo para ocupar minha preguiçosa mente.
No entanto, no auge das conversas das mulheres da casa, fomos surpreendidos por uma entrada ruidosa e mal educada. Não apenas isso 一 era fruto de um homem irado, de quem descobrira uma possível desonra pairando sobre a sua casa. Um problema tão sério, tão escandaloso, que o fez entrar pela casa de um marquês com pontapés nos empregados… Pobre de meu mordomo. Passou três dias até que a dor na lombar o deixasse.
Fosse uma situação qualquer, agiria de modo semelhante ao meu pai. Ele era extremamente intolerante a grandes demonstrações públicas de emoções e acreditava que um bom britânico dia ser calculista em tudo que fizesse. Eu poderia seguir-lhe o conselho, afinal, que tipo de coisa era aquela, entrar na casa de alguém que recebia visitas sem trocar cartões e pôr-se eu seu lugar?
Porém, quando aquele homem atravessou a porta do salão de visitas, empaleci. Não estava sozinho; puxava de forma violenta o braço da esposa como de quem arrastava-a até lá. O sangue da mulher também fugiu-lhe do rosto e estava como de quem desmaiaria a qualquer momento.
Mamãe foi a primeira a reagir a tamanho embaraço. Levantou-se graciosamente, com os olhos inquietos, mas de um sorriso diplomata.
一 Boa tarde, Sr. e Sra. St Clair. A que devo a honra?
A postura tão cheia de amabilidade de minha mãe foi o suficiente para que Sr. St Clair desse um breve suspiro de quem controlava o temperamento sanguíneo. Sendo honesto, fiquei tentado em deixar a Marquesa-viúva de Exeter lidar com aquela situação e esconder-me por entre suas saias.
No entanto, até para um homem que fugia de muitas das suas responsabilidades como eu, havia limites.
Levantei-me como mandava a boa educação.
一 Boa tarde, senhores. Acredito que haja algum motivo para essa comoção toda. 一 Estendi a mão em direção ao sofá e imitei um tom que vi Dudley usar mais de uma vez.
Algo em minha expressão despertou a ira já mal domesticada no homem; as bochechas ficaram vermelhas como de quem explodiria e o dedo roliço direcionou-se para mim como se fosse uma arma.
一 Não me venha com essa pose de bom menino, Exeter! Você nunca me enganou!
Rangi os dentes por dentro. Sr. St. Clair, que não era um homem tão jovem, estava em um momento de sorte por eu não ter reagido com violência por está diante de tantas ladies. Fosse um lugar como um clube, por exemplo, ele estaria sem o dedo indicador.
一 Senhor, acredito que esse tipo de comportamento não é elegante para as senhoras assistirem. Por favor, venha até meu escritório…
一 Querido, por favor… 一 implorou a Sra. St. Clair para o marido, que encontrou finalmente a própria voz.
一 Você sujou o nosso leito, sua desgraçada! 一 gritou Sr. St Clair. 一 Você não tem direito de dizer nada!
Fechei os olhos, uma dor de cabeça atingiu a fronte. Com o polegar esquerdo e o indicador, massageei as têmporas.
A sala de visitas encheu-se de um silêncio sepulcral. Era como se não houvesse nenhuma alma viva; só as mortas, que voltaram para requerer dos meus pecados. A minha leve tentativa de amenizar a dor de cabeça foi o suficiente para que Sr. St Clair avançasse e segurar-me pelo colarinho. Gritos femininos atravessaram o salão. Por instinto, meu joelho foi em direção às suas partes baixas 一 técnica que, aliás, eu havia ensinado às minhas irmãs.
Claro que só o fiz depois de fazê-las prometer-me que nunca repetiriam aquele golpe contra mim.
E é claro que elas não cumpriram a promessa.
Inclinando-se de dor, St. Clair puxou o meu colarinho para baixo com violência e dando-me um soco no queixo.
一 Desgraçado! 一 gemeu de aflição. 一 Vou matá-lo!
Mesmo tendo um pouco menos de força na mão direita, acertei-lhe um soco no rosto como aprendi no boxe. Eu não só apanhava nas aulas, afinal. St. Clair caiu para trás desequilibrado.
Gritos femininos, mas dessa vez com um barulho de baque. Sra. St. Clair estava agora desmaiada e era socorrida por Lenna.
一 Sr. St Clair, poderíamos ter resolvido isso como dois cavalheiros, não acha? 一 disse, enquanto arrumava minha camisa, embora não achasse que fizesse diferença. 一 Isso foi muito deselegante.
Mexi o queixo para os lados para ter certeza que todos os dentes estavam no lugar e senti o gosto de sangue de ter mordido a bochecha por acidente. Nada que fosse um problema de verdade.
Então ouvi um barulhinho de salto de sapato batendo no chão. Senti um medo que apenas o criança conhecia. Mamãe estava de pé com os olhos flamejando de ódio 一 e esse tão forte sentimento era direcionado para mim.
Escutei mais um gemido de dor de St. Clair, que tentava ficar de pé. Busquei pelo olhar alguém que pudesse me defender da ira da Marquesa-viúva.
Balançando um leque para acordar a minha ex-amante estava Srta. James; com a mão no peito, como de quem estava muito assustada, estava . Ela encarava-me.
Apesar da expressão de susto, vi um relance de sorriso, como de uma amiga que percebeu que eu estava muito encrencado.
Era melhor eu começar a rezar.

Capítulo 5

Ravena , Sra. ,



, veja! O que acha desse tecido?
Dessa vez não pude disfarçar minha expressão diante do mau gosto de minha amiga. Com os olhos animados, Danna mostrou em mãos um pesado veludo cor de cocô. Parecia muito com aquilo que saia das fraldas da minha filha, que as coitadas das servas tinham que lavar.
Deus tenha piedade daquela alma. Danna não tinha qualquer bom senso estético.
一 Por que não escolhe cores menos escuras? 一 sugeri. 一 Algo como o azul que indiquei mais cedo.
Ela negou com a cabeça.
一 Fico parecendo uma menininha.
Levantei a sobrancelha.
一 E isso é ruim porque…
一 Nada de azul 一 afirmou ela.
Virei-me para a costureira com um sorriso. Peggy, que observava-nos de longe, disfarçou a risada, imaginando o que eu ia fazer.
一 Você poderia mostrar-me os tecidos rosas, por favor?
一 Rosa? Eu não vou usar…
一 Querida 一 interrompi sem delongas. 一 Hoje irei escolher, sim? Será um presente meu para você conquistar o Capitão quando a temporada acabar. Ele está instalado em Exeter ainda? 一 titubeei com tom provocativo. 一 Ah, espero que sim! Ele ficará fascinado ao descobrir a beleza que está por trás… 一 Não me visto para impressionar homens 一 disse Danna com o resto de orgulho que lhe restara.
一 Claro que não, querida 一 repliquei. 一 Se o fosse estaria fazendo tudo errado.
Segurei o riso quando minha amiga pareceu soltar fogo pelas narinas. Pus as mãos nos seus ombros de modo maternal. A mais velha dos Exeter não era a mais bonita, mas não significava que era feia. Tinha os olhos castanhos, lábios finos e longas pestanas. Precisava, porém, escutar mais a marquesa viúva e a dama de companhia.
一 Confie em mim, está bem? Se não gostar do vestido pode doar para os mais necessitados. Apenas tente valorizar um pouco mais sua beleza, Danna. 一 Segurei-lhe a mão e a puxei para o outro lado da loja. 一 Há também alguns chapéus que ficariam magníficos em você! Prometo que escolherei os mais discretos.
Ela pareceu tentada a argumentar mais, no entanto, baixou os ombros e seguiu-me. Estava sendo um tanto cruel, era verdade, mas tinha prometido à marquesa viúva que faria Danna jogar fora todos aqueles vestidos escuros, velhos e sem graça.
Escolhi alguns chapéus simples, mas recém-chegados do continente. Separei apenas dois para mim, racionalizando o dinheiro do meu irmão. Embora George tenha sido bondoso comigo, não sentia-me confortável em gastar-lhe a fortuna. Ele deverá ter muito em breve uma condessa, não queria deixar minha futura cunhada com as mãos abanando.
一 Esse é mais a sua cara.
Pulei assustada com a voz de . A mão foi direto para o coração.
一 Não pode avisar quando chegar perto? 一 reclamei.
一 E vocês não irão sair dessa loja nunca? Estou morrendo de fome.
一 Tem uma padaria na esquina 一 repliquei, enquanto remexia um bonito chapéu de palha. 一 Os doces têm uma ótima cara. Pode ficar lá, se quiser. Chamo uma carruagem alugada e sua irmã chegará sã e salva.
encarou a porta com uma careta de desagrado. Usava uma roupa mais escura do que das outras vezes que o vi, tentava passar despercebido.
Como se fosse muito fácil esconder quase dois metros de perna e pose aristocrata.
一 Tem bastante gente lá fora. Não sei se quero dar mais assunto para esses fofoqueiros...
Dei uma risadinha. As revistas já falavam do escândalo da casa do marquês e tornaram minha volta a Londres uma simples nota de rodapé. Havia muitas narrativas controversas 一 aparentemente, embora sempre tenha boatos rondando-lhe, nunca se soube de um relacionamento ilícito de de verdade. Até aquele momento, era óbvio. Alguns defendiam a honra do marquês, afinal, não se entrava em uma casa de um nobre com tamanha grosseria. Fosse St. Clair um homem honrado, mandaria uma notinha marcando duelo.
Algo que era ilegal, diga-se de passagem.
一 Veio por que, então? 一 indaguei. 一 Irá demorar um pouco para que todo mundo esqueça aquilo...
一 Você tem resposta para tudo, não é?
Ignorei-o, chamando minha dama de companhia para mais perto.
一 Escolha um para você também, Peggy. Esse daqui fica lindo com o seu rosto anguloso.
A mulher fez uma pequena reverência ao se aproximar de Exeter. A postura humilde enganava: ontem à noite ela me contou tudo o que descobrira sobre ele. Aparentemente, o Marquês de Exeter era um sedutor de casadas, como o Sr. St. Clair havia sugerido. O que os jornais sabiam não era nada comparado ao que os servos sabiam e atestaram com os próprios olhos.
O que também não justificava aquele espetáculo. Enquanto pedia desculpas pela cena, a marquesa-viúva falou que nunca tinha ocorrido algo parecido antes.
一 Vocês não compraram tudo que gostariam? Podem passar mais tarde. 一 Argumentou . 一 Vamos para o campo semana que vem, senhoras. Não há muitas pessoas para vê-las com pomposos vestidos.
Não o respondi, observando as outras opções que estavam à minha frente. Ainda calculava se ir para Exeter era uma boa ideia. Meu nome havia sido citado nas fofocas apenas como plateia, mas ir visitá-los depois daquela indiscrição poderia me colocar em maus lençóis.
Era um pensamento péssimo, eu sabia. Mas eu buscava um casamento tedioso, com um homem honrado até o fio de cabelo. Como eu encontraria se estivesse envolvida com uma família de má reputação?
, tem uns bolinhos que você poderia comprar para sua filha. Tenho certeza que ela iria adorar 一 disse Exeter.
Dar doce para uma criança de menos de dois anos era uma ideia um tanto estúpida, mas não respondi-lhe.
Talvez eu não devesse sair com Danna, que também não estava sendo bem vista por aí desde que deu uma resposta mal educada para a anfitriã de um sarau…
Observei minha amiga de soslaio. Não queria abrir mão do único laço permanente que sobrou-me depois de uma década. Quando eu conversava com Danna, sentia-me jovem novamente.
Pois bem, que fosse. Eu não me afastaria dela por conta de alguns comentários.
Coitada de Danna. Lenna! Por Deus, esperava que o escândalo não tivesse atingido negativamente o noivado dela. Ou mesmo a reputação da marquesa viúva, que era uma mulher muito simpática e elegante, sempre cheia de amabilidade. Não deveria estar passando por coisas assim só porque o filho era um libertino.
一 Veja esse, Danna. 一 Estendi o chapéu para que ela experimentasse.
Minha amiga esticou a mão para pegá-lo, mas o objeto foi arrebatado pelo irmão dela com facilidade.
一 Hey! 一 reclamou Danna.
一 Estou falando com você, 一 disse , projetando-se à minha frente.
一 E eu estou o ignorando.
O Marquês de Exeter puxou o pequeno cordão que havia no chapéu e o posicionou na cabeça como se fosse uma jovem camponesa. Era uma cena um tanto bizarra: um homem alto e roupas extremamente masculinas com um chapéu com uma flor branca em cima. Era discreto para mulheres 一 para ele, porém, destoava de forma pavorosa.
一 Estou a fim de lançar uma nova moda, veja só. 一 Sorriu . 一 Serei o homem mais cobiçado de Londres.
Danna revirou os olhos; eu pus a mão na boca abafando a risada. Exeter fez uma pose de recato parecido como as jovens moças faziam nas primeiras aparições públicas.
一 Está ridículo, 一 replicou Danna. 一 Devolva-me.
一 Não, antes eu tenho que saber porque a Sra. está me ignorando com tanta veemência.
一 Nunca vi homens com esse tipo de chapéu, milorde 一 disse eu. 一 Perdoe minha indelicadeza, não consigo respeitá-lo.
inclinou-se em minha direção. Ficou tão perto que pude ver as sobrancelhas espessas, o sorriso de menino e os olhos de quem sempre zombava.
A saliva desceu com dificuldade na garganta.
Havia mais do que a tentativa de afastar-se de problemas no meu desdém.
Era , por certo. Mas também não era . Ainda tinha um andar meio desengonçado de quem tinha pernas longas demais, porém pisava com uma confiança que eu não conhecia. Agora ele tinha uma feição mais carismática, espontânea. Não era mais tímido, também.
Pegava-me constantemente pensando nisso no decorrer dos dias.
一 Deveria me respeitar, Sra. . Sou um marquês muito poderoso.
Puxei o chapéu de sua cabeça e dei uma risadinha. Ela saiu mais nervosa do que imaginei.
一 O que fará diante de tão grande desacato, Vossa Excelência?
As íris passearam sobre meu rosto. Contive um suspiro involuntário.
一 Tenho que consultar meu livro de regras. 一 Sua voz soou um tom mais baixo.
Levantei a sobrancelha.
一 Você tem um livro de regras, milorde?
一 Se quiser conhecer…
Pisquei, como se o encanto tivesse quebrado. Não era mais uma conversa entre velhos amigos que se provocam, irritam um ao outro, mas mantinham a amizade próxima. Éramos dois, um homem e uma mulher, flertando.
Flertando em uma loja.
Na frente da irmã dele. E de Peggy, por Deus, que tinha me dito todas as fofocas que o nome de Exeter carregava.
Procurei Danna com os olhos, mas ela já esquecera a conversa e estava entretida em escolher algumas fitas de cores terríveis.
Ah, ela não tinha salvação.
一 Senhora, vou levar o chapéu 一 avisei para atendente, afastando-me do marquês de Exeter.

[...]


Não lembrava a última vez que tinha posto os pés em um salão de baile, sarau ou qualquer evento social noturno. Afonso detestava quando eu ia; ele dizia que ficava incomodado com as pessoas murmurando sobre o meu sotaque. De início acreditei ser seu jeito diferente de ser atencioso comigo, mas, mesmo disfarçando o máximo meus R e S, para ele, era preferível que eu ficasse em casa e falasse com ninguém.
一 Está nervosa, ? 一 perguntou George.
一 Não. Claro que não. Por que a pergunta?
一 Você está esmagando meu braço.
Soltei-lhe o cotovelo no susto. Meu irmão, porém, segurou meus dedos por baixo da luva e os pôs de volta por cima da manga do casaco de veludo. O gesto tão atencioso acalentou meu coração.
一 Tudo bem ficar nervosa, .
一 Não estou 一 neguei mais uma vez. Levantei o queixo para reforçar meu pensamento. 一 Você que não consegue lidar com nenhum apertozinho.
George riu, incrédulo, no entanto não me respondeu mais.
Os nossos nomes foram anunciados. Vesti meu melhor sorriso educado e inatingível. Nada abalaria-me naquela noite.
Estávamos no começo de julho. Boa parte dos nobres e família de bom nome já tinham se retirado para as suas casas no campo. Apenas os ratos do Parlamento continuavam em Londres.
Com todo respeito ao meu irmão, era claro.
一 Percebe que é a primeira noite que andamos assim, juntos? 一 comentou Dudley enquanto desfilávamos pelo salão.
一 Tem certeza? Nós… 一 hesitei, pensativa. George ainda estava na escola quando fui apresentada à Alta sociedade. 一 Oh, é verdade. Não havia pensado nisso.
一 Mamãe se arrependeu de ter consentido você ter debutado tão cedo 一 disse George.
Lambi os lábios e dei um pequeno aceno para uma senhora que eu conheci há muitos anos. Não queria falar da mamãe 一 não naquele momento, ou num próximo. Ainda assim, respondi-lhe:
一 Eu também me arrependo.
一 Querida Sra. ! 一 exclamou o Coronel Lincolnshire. 一 Não imaginei encontrá-la ainda nessa temporada.
Coronel Lincolnshire era um antigo conhecido de minha família. Nunca fora próximo como os Exeter, por exemplo, mas não deixava de ser um senhor de amabilidade ímpar.
一 Senhor, meu coração estava muito ansioso para conseguir esperar mais uns meses! 一 cumprimentei-o com meu melhor sorriso. 一 Onde está a Sra. Lincolnshire?
一 Está em Bath. Foi visitar a irmã mais nova que acabou de dar a luz 一 disse ele. 一 Ah, soube que teve uma menina ano passado. Que tragédia a morte de seu marido! Que bom que ele deixou um fruto para confortá-la.
A Família não concordava com ele; porém, diante de palavras sem maldade de um homem honrado, agradeci-lhe sem demora. Havia muito mais pessoas desconhecidas do que conhecidas pelo salão. Fui apresentada a diversos casais e senhoras de sobrenome conhecido, mas de rosto que não pude relembrar. Em meio a conversas superficiais e desejos de condolências, o frio na barriga tornou-se uma memória antiga e engraçada.
Um senhor da terceira linhagem de um ducado escrevia seu nome no meu cartão de dança quando o nome do Marquês de Exeter foi anunciado. E foi de forma muito esquisita como meu coração bateu no peito. Olhar para vestido com uma roupa de gala de tom cinza, no entanto, não me dava qualquer ansiedade platônica ou desejos arrebatadores. Ainda assim, vê-lo andar em direção a mim e meu irmão despertava uma certa expectativa de algo que eu não poderia definir no momento.
Pior ainda era ver os cochichos nem um pouco discretos dos que o viam. Fosse Exeter alguém sem título dificilmente estaria ali; teria sido desconvidado, com toda certeza. No entanto, era bem verdade que o conflito foi iniciado pelo Sr. St Clair. Ele e a esposa estavam em uma situação muito pior socialmente falando.
一 Dudley 一 disse ele, com um breve aceno. 一 Sra. .
Pareceu fazer menção de pegar a minha mão, mas desistiu no meio do caminho. Virei-me para quem assinava meu cartão (e que não conseguira decorar o nome ainda).
一 Obrigada, senhor 一 repliquei com uma reverência. O leve mexer do corpo para baixo dava-me a aparência de uma joia escorregadia; era o que mamãe sempre comentava. O homem piscou meio encantado e eu desviei os olhos acanhados.
一 Ainda tem espaço para mim pedir-lhe uma dança?
Por instinto, prendi o cartão contra o corpo como se a qualquer momento fosse roubado. não desviou o olhar para mim e pude vê-lo prender um sorriso de quem sabia que havia me encurralado.
一 Acho que a próxima é uma valsa, não é? 一 disse George. 一 Se for o caso, coloque meu nome. Ele pode dançar com você outro momento.
一 Oras, por que não posso?
一 Talvez quando sair da era ultrarromântica.
Com o leque, escondi a risada que quase saia sem muito filtro. Alguns convidados olharam para nós de lado pela pequena agitação.
一 Pensei que não queria aparecer em público tão cedo, Excelência.
一 Eu não fiz nada de errado 一 disse ele, caprichando na expressão inocente. 一 Não entrei na casa de ninguém fazendo estalhadaço e fazendo acusações sem provas.
Mesmo inclinado para minha direção, era alto demais para ser encarado sem erguer um pouco o queixo. Quis dizer não, mas não fui capaz de criar uma boa justificativa a tempo. Antes que pensasse muito sobre o que estava acontecendo, assenti com a cabeça.
Enquanto andávamos pelo salão até a mesa, expressões simpáticas e calculadas para não serem exageradas, escuto sussurrar:
一 Estou ansioso para recebê-la em Exeter.
一 Não é como se eu nunca tivesse ido para lá 一 apontei. 一 Ainda há aquelas escadas assassinas de madeira?
一 Eu fiz relativas reformas para o conforto das minhas irmãs.
一 Você é muito atencioso com suas irmãs, Exeter. Soube do cuidado que tem tido com Lenna e fiquei feliz que, apesar de sua reputação…
一 Minha reputação é ótima, você só pegou-me em um mau momento 一 justificou ele, parando de súbito.
Quis batê-lo, certamente. Não era momento para chamar atenção, pois existiam tantos olhares nos cercando. As luzes das velas podiam não ter a força da luz do Sol, mas eram tão reveladoras quanto.
一 Oras, Exeter 一 exortei enquanto puxava seu braço para que continuasse andando. 一 Você irá fingir que não há algumas conversas ruins sobre você? 一 E assumiu que eram todas verdades?
Levantei a sobrancelha. Peggy não mentia e dificilmente passaria-me fofocas não averiguadas. Além disso, eu vi com meus próprios olhos a confusão na sala dos Exeters.
一 Então, você não estava com a Sra. St Clair?
A pergunta disparou um alarme de desespero em Exeter. Segurando meu braço com mais precisão, puxou-me em direção à porta.
一 O que você está fazendo? 一 indaguei, mas ele não me respondeu. O sorriso congelou na minha face enquanto passava pelos convidados.
Esperei apenas ficarmos um pouco mais longe do salão para puxar-me para longe com força.
一 Escute,
一 Não, você me escute! 一 exclamei, o dedo levantado como se o marquês fosse uma criança. 一 Isso não deve se repetir. Tirar-me desse jeito no meio do salão? O que estão falando agora de mim, seu estúpido? Quer afundar minha reputação antes mesmo de eu completar um dia de volta ao Almark's?
revirou os olhos.
一 Não é para tanto, . É mais escandaloso você comentar isso no meio de um salão lotado.
一 Lotado?! Tinha cinco gatos pingados perto de nós!
Duas jovens encaram-nos enquanto passava no corredor. Sorri superficialmente.
一 Boa noite, senhoritas 一 cumprimentou Exeter cordialmente. Elas responderam entre risadinhas e seguiram o caminho. Observei-as em silêncio até perdê-las de vista.
一 Irei ao toalete 一 avisei, seguindo a mesma rota das senhoritas.
一 Não acabamos de conversar! 一 protestou .
一 Acabamos, sim 一 repliquei sem olhá-lo. 一 Sua atitude só comprova o que os boatos dizem. Seu irresponsável!
Embora meus passos fossem rápidos, pude escutar o som dos sapatos de Exeter atrás de mim. Sentia-me estranhamente irritada com aquela situação. O que seria uma boa noite tinha começado a sair dos trilhos.

一 Sra. para você 一 corrigi.
Se a filha do antigo Conde de Dudley era tão bonita assim, ela deve ter comido a beleza dela. Por isso está tão inchada.
Parei o passo de frente ao vestíbulo. A casinha era do lado de fora, faltava alguns passos até eu alcançá-la. Um frio atravessou meu peito.
Inchada, não. Ela está gorda. Capaz de pior do que a Você-Sabe-Quem.
Ouvi risadas. O choro subiu; respirei fundo. Não iria chorar ali, num lugar desconhecido. Deixaria as lágrimas para casa.
Você não devia falar assim dela. Se algum nobre ouvir você fazendo comentários ruins com a Rainha será nosso fim.
Infelizmente eu não fui a única a ouvir. Entre piscadelas, vi Exeter em direção à porta do vestíbulo com cara de poucos amigos.
Segurei o braço por instinto, como se fosse minha única salvação num mar de caos e tempestade.
一 Leve-me até os jardins, por favor. Preciso de um pouco de ar 一 pedi.
Exeter franziu o cenho. A preocupação que cruzou seu rosto acalentou-me um pouco. Apesar da pequena troca de farpas segundos antes, a atenção dele estava em mim.
一 Vamos 一 disse ele.
Minha mãe, lá do outro lado desse plano, deveria estar pedindo em desespero que eu saísse daquela situação. Passear com um libertino pelo jardim quando eu queria voltar para o mercado do casamento era suicídio social, mesmo que o homem fosse um amigo de infância.
Não importava, ao menos não naquele momento. As palavras maldosas abriram uma caixa de pandora que até então eu estava escondendo.
Faça dieta, .
Vai acabar explodindo de tanto comer.
Cada vez você fica mais feia desde o dia que nos casamos.

? ? Você está bem? 一 Senti os ombros serem sacudidos e pisquei com força. encarava-me com a face preocupada, procurando algo em meu rosto que denunciasse a origem do comportamento acuado. Em dias normais, eu revidaria da forma mais elegante possível. Foi assim que mamãe fazia e admirava-a bastante por conta disso. No entanto, não percebia o quanto aquilo ainda era uma ferida aberta e inflamada: qualquer cutucar causava dor.
Escutei o som da brisa tocar as folhas. Estava quente, ainda que fosse noite e tenha chovido no final da tarde. Não havia ninguém por perto.
一 Estou bem, sim.
一 Tem certeza?
Olhei para o céu. A lua estava escondida pelas nuvens.
Respirei fundo. Sentia falta de quando a vida era menos complicada.
一 Sim, eu tenho certeza 一 repliquei. 一 Ficarei melhor quando sair de Londres. Acho que voltar a frequentar a sociedade agora foi uma ideia ruim.
, sobre o que elas estavam conversando…
Balancei a mão para que ele parasse de falar.
一 Não vamos tocar nesse assunto, por favor. Não hoje 一 ou nunca, quis complementar.
passou a mão no rosto, um tanto chateado.
一 Você e seu irmão são do mesmo jeito. Nunca falam o que estão realmente sentindo.
Segurei o sorriso para que ele não soubesse que concordava. Éramos, sim, muito parecidos, eu e George 一 embora todos gostassem de dizer o quanto nossas personalidades eram opostas, tinhamos sido forjados da mesma maneira.
一 Eu saí porque não queria agir de forma explosiva e criar um escândalo. Desculpe-me por arrastá-lo 一 expliquei.
一 É isso mesmo? 一 disse, aparentando não engolir minha desculpa. Balancei positivamente com a cabeça. 一 Pois você parece alguém que precisa muito de um abraço.
Olhei para ele, incrédula. Nós costumávamos dizer aquela frase quando criança, mas geralmente era oferecido um soco. “Pois você parece alguém que precisa muito de um pontapé”.
Éramos muito carinhosos na infância.
一 Vem aqui, . 一 abriu os braços como se eu fosse realmente uma criança emburrada.
E contra todos os alertas de perigo que minha mente soltou, eu o abracei.
Se mamãe estivesse viva, ela morreria naquele instante. Estar abraçada com um homem, libertino ou não, no jardim do baile, era assassinato social. Se alguém nos visse, eu teria que me casar com Exeter.
Sorri com aquela ideia absurda quando os braços de rodearam meu corpo. Ele apertou-me contra seu peito e senti-me estranhamente acalentada com seu cheiro de pinheiro molhado. Lembrava-me da floresta de faias que rodeava o Chalé dos , onde nós íamos no fim de ano. Lá, quando sentia-me sufocada por aquela família que escolhi para mim, corria entre as árvores para chorar sem ser incomodada.
一 Obrigada, 一 disse eu quando afastei-me. Os segundos pareceram muito breves quando a brisa voltou a bater em meu braço. 一 Espero que ninguém tenha visto isso.
Não pude, porém, encarar a Exeter diretamente. Passei a mão no amassado da saia com cuidado.
一 Seria tão ruim assim se isso acontecesse?
Fiz uma careta.
一 E forçá-lo a casar comigo? Como seria isso algo bom?
Ele deu os ombros.
一 Eu sou um ótimo partido.
一 Com toda certeza 一 falei sem conter a ironia.
Recompus-me.
一 Vamos voltar para o salão 一 afirmei.
一 Mas você não queria ir para casinha?
Revirei os olhos, não me contive. Não era óbvio que era apenas uma desculpa para que ele não me incomodasse mais?
一 Vamos logo, Exeter.

Capítulo 6


Harrison Courtenay, Marquês de Exeter, etc,



一 Eu te amo!
一 Eu te amo mais!
Encarei o teto da sala de visitas como se fosse algo muito interessante. Não consegui segurar o suspiro de tédio que saiu das minhas narinas; isso, porém, não afetou o casal de noivos que eu supervisionava.
Lenna e o Visconde Severn tinham começado a conversa um em cada canto do sofá, como mamãe havia orientado, mas, conforme o tempo foi passando, sentia-os cada vez mais perto de mim, que estava no meio do móvel. Os encontros dos dois se tornaram menos periódicos desde que o futuro matrimônio foi anunciado e cheguei a indagar a minha mãe o porquê daquele pudor. Eles iam se casar logo, oras.
Agora eu entendia a lógica das regras sociais, que pedia sempre uma dama de companhia ao lado. Ninguém aguentaria toda aquela melosidade sem que fosse pago por isso.
Levantei-me quando o relógio marcou quinze minutos de puro sofrimento.
一 Acredito que esse tempo foi suficiente para que os dois digam adeus, sim 一 afirmei enquanto abotoava meu casaco. Os dois seguiram minha ação com bicos: Lenna estava a ponto de fazer pirraça como Grace faria e Severn mostrou-se aborrecido. Fingir não ver isso, porém. Se ele quisesse casar com minha irmã teria que ser nos meus termos.
一 Obrigado por receber-me, Vossa Excelência 一 disse o Visconde ao apertar minha mão.
Ele deveria ser dois ou três anos mais velho, porém ainda exalava a energia de quem saiu de Eton ontem. Dei-lhe um sorriso simpático enquanto punha um pouco mais de força no cumprimento. Severn piscou assustado, mas não disse nada.
Ainda lembrava da carta cheia de reclamações e do tom passivo-agressivo que ele enviou após o incidente com St. Clair, quase colocando em cheque o noivado com a minha irmã. Aparentemente, todos sentiam-se inclinados a chamar-me de irresponsável. Não que estivessem errados 一 eu havia sido sim muito irresponsável, mas não precisava ser lembrado a cada cinco minutos sobre isso.
Eu deveria ter escutado o conselho do Rei Salomão. Mulheres casadas eram armadilhas, com toda certeza.
Quanto mais eu pensava naquilo, menos parecia valer a pena todo o perigo que eu corria para manter o romance com a Sra. St. Clair. Sentia, também, que anos tinham se passado, não meses. Como era comum, esqueci-me dela na mesma velocidade que apaixonei.
一 Já colocaram o seu baú na carruagem? 一 indaguei a Lenna quando o noivo dela já havia ido embora.
Minha irmã, porém, fez uma careta e empinou o nariz. Com os braços cruzados, subiu as escadas pisando com força, não me respondendo.
一 Irá continuar com isso até quando?! 一 gritei para ter certeza que ela escutasse-me.
Certo, talvez não estivesse sendo fácil resolver aquela crise. O Conde Severn, pai daquele moço, por muito pouco não desfez o compromisso. Apenas depois de horas de conversa, conhaque importado, choro de Lenna e promessas pudemos entrar em um acordo.
Mamãe adorou, obviamente. O principal termo, de vez em quando, voltava para mim como um soco no estômago.
Nenhuma amante, tudo bem.
Menos saídas à noite, tudo bem.
Cuidado com a bebida. Nunca foi problema, então tudo bem.
Encontrar uma noiva na próxima temporada.
Positivo?
A verdade era que eu mantinha um pensamento juvenil. Queria apaixonar-me, cortejar e casar. Claro, em alguns anos depois, quando estivesse completado três décadas de vida. Seria bonito. Emocionante. Estaria escrito nos livros de história, as pessoas iriam admirar.
Quanto mais eu pensava nisso, mais parecia ridículo.
Então, eu teria que casar-me, amarrar os nós, etc. etc. Aquela pausa entre temporadas seria minha última como homem solteiro.

一 Bom dia. 一 A voz de invadiu a névoa de pensamentos.
Estava na carruagem junto com James, Grace e mamãe, esperando a partida para Exeter. Observei Ever ser auxiliada pelo cocheiro e entrar com um pouco de dificuldade no cubículo.
一 Não acha melhor ir com os outros, querida? 一 sugeriu a marquesa-viúva. 一 Talvez aqui não tenha espaço.
一 Aqui há espaço, mamãe 一 argumentei. Mudei a postura para que Ever sentasse e ela agradeceu, balançando o leque com veemência.
Era um dia quente. O leve balançar daquele vento fez-me sentir o cheiro de sua loção: era algo parecido com um óleo essencial, dando uma sensação de relaxamento. Dei-lhe um sorriso e ela retribuiu. Um movimento sem grande sofisticação e nem segundas intenções, mas que deixou-me com o estômago frio de ansiedade.
Ainda havia essa, meu Deus. Como eu me casaria com alguém se todas as vezes que encarava sentia um comichão na barriga como se fosse uma criança apaixonada mais uma vez?
一 Desculpem-me o transtorno 一 disse . 一 Dudley desistiu de ir conosco hoje por conta de um compromisso urgente. Não sei exatamente o que aconteceu e não estamos com mais carruagens disponíveis. De qualquer maneira, quando pararmos em Basingstoke, irei alugar uma para mim e as criadas.
Não houve como argumentar contra isso. Eu mesmo não tinha qualquer réplica, sobretudo porque achava que viajar ao lado de tão boa companhia iria distrair-me.
deu um breve aceno para meus irmãos mais novos.
一 Oi, meninos! Quanto tempo! Lembram-se de mim?
As duas crianças olharam-se e disseram em uníssono:
一 Não 一 e riram.
Não era de se assustar; eles dois eram muito pequenos quando mudou-se para Espanha.
一 Bem, essa é a nossa querida amiga Sra. Ravena 一 apresentou-lhe mamãe com gentileza. , no entanto, fez uma breve careta. Ri. Ela ainda detestava o primeiro nome. 一 Sra. brincou com vocês quando ainda eram crianças.
一 Muito prazer, Sra. 一 disseram os dois em uníssono.
Tão educados, nem pareciam que possuíam mentes maquiavélicas. 一 O prazer é todo meu, crianças.
A conversa desintegrou-se no ar. Costumava ser eu quem engajava mais um assunto para que o diálogo não morresse, mas não me sentia em meus dias normais. Mamãe cruzou as pernas e a balançou com pressa.
一 Quando iremos partir, hein? Que demora!
Assenti, concordando.
一 Irei falar com cocheiro e... 一 fui interrompido pela aparição dele, assustando-me quando apareceu acompanhado de Srta. James e uma bebê chorona.
Felicity. Ao contrário do que seu nome sugeria, ela estava banhando o Rio Tâmisa com suas lágrimas.
一 Senhora, ela não está se acalmando 一 disse a Srta. James depois de fazer uma breve reverência. 一 Lady Courtnay está queixando-se de dores de cabeça e receio que não podemos partir enquanto a menina não aquietar-se.
Abri a boca para dizer que Lenna deveria ser mais paciente, porque a criança não tinha como dizer o que a incomodava e minha irmã fora uma que enchia-nos com os seus berros de fome. De todo modo, não foi preciso. A Sra. esticou-se toda para pegar a criança no colo, que agarrou o pescoço da mãe com desespero.
A marquesa-viúva ficou um tanto desgostosa com o pranto de Felicity, mas não disse mais nada. Podia ver naqueles olhos que eu havia herdado o ar de julgamento daquela atitude tão burguesa da mulher.
Duas batidas na carruagem e começamos a andar. Três quadras e o choro da criança tornou-se apenas lembrança. Eu encarava fascinado; Ever respondia com uma expressão apologética, enquanto balançava a menina para cima e para baixo e murmurava: ah ah ah.
O som das palavras simples, o colo da mãe e o cuidado ao acariciar os cabelos foram suficientes para que ela acalmasse e começasse a dar pequenos bocejos de sono.
Eu observava com a cautela de alguém que via um momento raro de cuidado. Ora, eu nunca vi nada parecido antes. Como bebês, eu e meus irmãos eram sempre tarefa das babás; o choro, então, não era algo que mamãe gostava de resolver.
Aquele pequeno e comum gesto fez o comichão em meu peito intensificar-se. Felicity não poderia ter encontrado uma mãe melhor.

[...]


一 Eu fiz uma cena, não foi?
Olhei para cima de Cavalheiro Branco, um dos cavalos que nos levavam até nosso destino. Estávamos nos estábulos de Roses & Crowns, uma estalagem requintada e que costumava receber nobres em suas viagens ao sul. Ainda acariciava o pêlo do cavalo quando indaguei:
一 Do que está falando, ?
Ela parecia um tanto perturbada. Os dedos batucavam na porta trancada como de quem ansiava, mas não queria admitir. Tínhamos enfrentado horas de viagem sem interrupção e, ainda assim, não tinha trocado as roupas e tomado uma boa refeição, como minha mãe e irmãs.
一 De nada, . Deixe para lá 一 replicou ressentida e afastou-se da porta. 一 Estou passando para avisar-lhe que sua mãe o chama e pediu para que deixasse os cavalos para os criados cuidarem.
Assenti positivamente e mantive meu argumento comigo mesmo. Tivemos um episódio há cinco anos em que um dos nossos cavalos estava machucado e o cocheiro não havia percebido. Demorou quase um dia inteiro de viagem para que o trote lento fosse reconhecido como um problema, e então tivemos um contratempo para conseguir um cavalo novo. Desde então sempre certificava-me se eles estavam em bom estado para prosseguir a viagem.
É claro que minha mãe não entendia isso. Aparentemente, zelar para que não sofressemos um acidente era um tipo de coisa insignificante e desonrosa para um marquês.
一 Recado dado, irei acompanhá-la até seus aposentos 一 avisei com um sorriso. Ever sorriu de volta.
Comunicávamos bastante assim. Sorriso cá, sorriso lá quando não tinha muito que se dizer. Aquela réplica tão comum e construída para ser discreta dava-me um conforto de camaradagem que pude compartilhar apenas com poucos.
一 Agora diga-me 一 iniciei quando pus-me ao seu lado. 一 De que cena está falando?
Vi os olhos de mirarem o chão e ela apertar os lábios com vergonha. Eram raros aqueles momentos 一 ela dificilmente deixava com que o constrangimento lhe escondesse a personalidade. Contava nos dedos de uma só mão das vezes que a vi não sustentar suas próprias atitudes e assumir as consequências delas.
一 Não é normal uma lady mostrar tanto afeto aos filhos fora das paredes do lar.
Tinha várias respostas para aquela frase; algumas não eram nem um pouco educadas. No entanto, apenas disse:
一 Acho que precisa procurar um problema de verdade para resolver, 一 aconselhei. 一 Sua filha estava agitada; você a acalmou. O que há de errado nisso?
一 Mas sua mãe olhou-me de um jeito… 一 ela calou-se, como se estivesse sendo pega pela própria língua. 一 Desculpe-me. Não deveria estar falando da marquesa desse jeito em sua frente.
Levantei a sobrancelha estranhando sua atitude.
一 Oras, se mamãe agiu de forma errada, por que não pode ser criticada? 一 cerrei os olhos para ela. 一 Que tipo de filho cego acha que eu sou?
não conteve um sorriso de esperteza.
一 Não vai me dizer que é um filho muito querido pela mãe?
一 Não somos todos?
Ela parou no corredor vazio e deu-me a melhor careta de zombaria. Quando fazia isso ficava adorável; mostrava, inclusive, as covinhas que possuía nos cantos dos lábios e ficava com os olhos verdes cheios de gracinha. Não mais era quem estava perguntando-me minutos antes de algo que, em dias normais, nunca a incomodaria.
一 Irá dizer que não é o filhinho da mamãe?
Era uma piada, é claro. Éramos amigos tempo o suficiente para ir um pouco além do que a educação esperava. No entanto, seria mentira dizer que aquela frase não incomodou-me.
Porque, Deus me ajudasse, era verdade.
Ao perceber que eu não iria dizer-lhe nada, voltou a caminhar. Acompanhei-a.
一 Tenho pena de sua futura esposa, meu amigo. 一 E apertou meu ombro em conforto. 一 Hoje nunca que eu entraria num casamento assim de novo.
一 Ah, é verdade? 一 disse eu, desconfiado. 一 Que tipo de casamento, então, você deseja agora, Sra. ?
一 Agora? 一 Ela parou e pensou um pouco. 一 Não sei dizer ao certo, mas posso ter certeza que terei mais racionalidade do que emoção. Irei seguir os conselhos da minha mãe.
Olhei para as portas do corredor. Estávamos sozinhos e a poucos passos dos aposentos dela. Não queria que nossa conversa acabasse logo quando tinha começado a ficar mais interessante.
一 Estou a poucos meses de começar a minha caça a uma esposa, também. Conte-me seus conselhos de uma mulher mais experiente.
Ela me olhou como quem entendera meu tom de zombaria, mas deu um passo para mais perto.
一 Antes tem que aquietar-se, certamente. As famílias de moças elegíveis não costumam gostar de gente com uma reputação tão movediça 一 disse ela. 一 Se bem que você se saiu melhor no último acontecimento. Ouvi alguns comentarem chocados que você teve sua casa invadida por causa de fofocas infundadas.
一 Não é isso uma obviedade?
一 Às vezes o óbvio precisa ser dito 一 replicou e piscou para mim.
Sorri, sem controlar-me. Ela deveria ser menos jeitosa e espontânea. Talvez, em momentos aleatórios da conversa, eu não me sentisse deslumbrado.
一 Certo. O que mais me recomendaria?
Ela esfregou as mãos enluvadas com de quem precisava fazer alguma atividade para pensar. Os olhos percorreram o recinto; um dos funcionários da estalagem passou por nós logo após fazer uma reverência.
一 Acho que recomendaria confiar mais na mente do que no coração. 一 Ela fingiu tirar uma poeirinha do meu casaco. 一 Eu cometi esse erro uma vez. Não quero cometê-lo de novo.
A última frase soou quase num sussurro. Admitir aquilo não deveria ser fácil 一 não conhecia exatamente qual era a situação do antigo casamento de , mas não sabia; e nem queria até um tempo atrás.
Estiquei a mão esquerda até o rosto dela. parecia tão vulnerável que quis abraçá-la de novo; dessa vez, porém, não queria mais soltá-la.

Por um segundo imaginei que ela estivesse sentindo a mesma coisa que eu. Vi o ar embevecido dos olhos dela, o corpo inclinando-se para a minha direção. Então ela disse:
一 Meu Deus, você é impossível. 一 Deu uma tapa na mão que estava no rosto. Doeu menos que meu orgulho. 一 Está querendo seduzir-me, rapaz? Tsc, tsc, tsc… Já está querendo arranjar mais problemas.
一 Claro que não, , eu… 一 fiquei calado, sem saber o que dizer.
E ela riu e deu um aceno antes de entrar em passos rápidos no seu quarto.
Passei mais tempo encarando a porta de madeira do que o recomendado. Havia um motivo pelo qual, mesmo sendo tão próximos e abertos um com o outro, eu nunca admiti os meus sentimentos para : eu sabia que ela reagiria assim. Ela riria, diria para que eu parasse de besteira ou pior, chamaria-me de menino. Não havia dose de romantismo, sedução ou palavras bonitas que a convencessem do contrário. Mesmo se eu tentasse muito, nunca seria o suficiente para .
Era um fato antigo, de mais de uma década. E ainda assim, tirou-me o sono tranquilo naquela noite.

Capítulo 7


Ravena , Sra. ,



Houve uma época em que eu conhecia muito bem meus próprios sentimentos. Sendo bem honesta, eu apenas achava que os conhecia. Sabia quando era raiva, angústia e amor. Sabia quando era bom ou ruim. Sabia…
Porém, quando crescemos de verdade 一 não era aquele momento que nos dizem que somos adultos, mas quando sentimos a responsabilidade nos ombros. Esse primeiro era artificial, impreciso e cheio de equívocos. Eu estava falando do momento em que a realidade tornava-se mais nítida e complexa, quando as certezas eram, na verdade, ilusões.
Eu não sabia o que estava sentindo quando entrei em meus aposentos, mas o coração batendo forte não era um bom sinal.
Talvez fosse apenas a resposta de alguém que por muito tempo foi negligenciada pelo marido. Talvez era só aquela aura magnética que havia desenvolvido ao ficar adulto. Talvez fosse apenas minha vontade de flertar, provando-se mais alta que meu bom senso.
一 Senhora, está bem? 一 sussurrou Peggy, que olhava de soslaio para a cama. Deitada entre os lençóis com o bumbum para cima, estava minha filha.
Era a criança mais adorável do mundo e ninguém poderia argumentar quanto a isso.
Respondi à minha dama de companhia/babá/criada com um aceno positivo.
一 Pode pedir para que preparem-me um banho? 一 falei em tom baixo. 一 Depois, você pode resguardar-se para descansar. Ainda faltam dois dias para que cheguemos em Exeter.
Quando estava finalmente sozinha pus-me mais uma vez a pensar no que significava tamanha afetação que eu sentia. Será que eu estava confundindo os sentimentos de infância que ainda carregava?
Só depois de estar limpa e vestida desisti de encontrar uma resposta satisfatória. Deitei-me ao lado da minha filha e fingi dormir quando bateram na porta chamando para jantar.
Fosse o que fosse, não era algo que faria-me agir de forma diferente em frente ao Marquês de Exeter. Ele não era 一 nem deveria 一 ser uma opção de pretendente. Não estava à procura de envolver-me em escândalos e tornar-me amante de alguém e não era um homem ideal para o matrimônio, afinal, um homem que não respeita o casamento dos outros dificilmente respeitaria o dele.
Suspirei desanimada.
Que falta de sorte a minha! De tantos homens, por que ele?

[...]


Apoiei-me na mão do cocheiro para entrar na carruagem alugada. Estava feliz que Dudley havia dado-me mais dinheiro do que eu pedira e mimei a mim e os criados com uma acomodação um pouco melhor até a nossa próxima parada. Sem a Marquesa-viúva com o olhar de julgamento e o marquês com seu charme natural, estar dentro do cubículo era de uma alívio intenso.
Felicity acordara menos estressada de manhã; estava brincando com uma boneca de pano e punha a mão costurada na boca. Já havia tentado tirar-lhe o hábito, mas era uma guerra perdida. Talvez a resposta estava nos dentinhos nascendo…
一 Você chegou a visitar Exeter, Peggy? 一 indaguei, acomodando-me no banco. 一 É um lugar fascinante. É mais bonito do que Dudley, inclusive. Às vezes achava que o Sol brilhava mais lá…
一 A Sra. Montgomery falou-me bastante dela, sim 一 disse ela. 一 É verdade que há um campo de maçãs? Nunca vi uma de perto.
Antes que eu respondesse, escutamos o barulho do bater na porta.
一 Sra. , permita-me entregar uma cesta da Vossa Excelência antes que venhamos partir 一 disse um criado.
Surpresa, encarei minha dama de companhia esperando que ela soubesse de alguma coisa. Ela parecia tão surpreendida quanto eu.
Como eu estava com Felicity no colo, pedi com aceno para que Peggy abrisse a porta; ela pegou a cesta e agradeceu. Aparentemente estava pesada.
一 Há um recado 一 disse, puxando um bilhetinho.
一 Leia para mim 一 pedi. 一 A Marquesa que enviou, por certo. Deve estar preocupada com…
一 Aqui diz ”Para que a Vossa Senhoria tenha mais cuidado com a saúde, pois não jantou, nem comeu essa manhã. Precisamos que chegue forte e bem até Exeter” e é assinado pelo próprio marquês. 一 Peggy levantou as sobrancelhas antes mesmo de encarar-me.
一 Não olhe assim 一 disse eu, aflita. 一 Tenho certeza que foram ordens da marquesa…
一 Oras, não estou olhando de forma alguma, senhora. 一 Ela guardou o papel de volta a cesta. 一 Sou apenas uma humilde serva.
Cerrei os olhos em direção a mulher. Ela fez uma reverência exagerada e sentou-se mais uma vez. Em meu colo, Felicity riu, como se fosse uma brincadeira.
Um grito contra os cavalos. A carruagem começou a andar. Uma mecha do firme do penteado loiro de Peggy caiu, como se estivesse zombando da atitude dela.
一 Eu a conheço, Srta. James 一 disse eu. 一 E nós duas sabemos que você não é apenas uma serva.
Ela escondeu o riso com a mão.
一 O Marquês parece ter sua amizade em alta estima 一 afirmou, misteriosa. 一 De acordo com o que eu ouço, as más línguas não veem qualquer segunda intenção na aproximação dos dois, senhora. São de famílias próximas, afinal.
一 Muito bem 一 repliquei, embora não soubesse se isso era algo preocupante ou não. 一 Além do mais, ele não tem o perfil de que estou à procura. Lorde Byron, por exemplo, encaixa-se mais. Ouvi a marquesa-viúva avisar-me que ele estará em Exeter muito em breve junto com alguns familiares, também.
一 Será uma boa oportunidade para observá-lo 一 comentou Peggy. 一 Embora seja de uma família cheia de escândalos, particularmente encontrei nenhuma que o envolve-se diretamente. Não é de estar em muitos bailes, também. É parecido com o milorde Dudley nesse sentido. Ouvi que Lorde Byron tinha certo interesse para com uma cantora de ópera, mas ela já era comprometida com outro.
Bati o indicador na face enquanto pensava.
一 Vejo que é realmente um homem discreto como a aristocracia deveria ser. Chame de hipocrisia, mas prefiro não saber do que se passa por trás das cortinas das casas. É menos comprometedor olhar pelo lado de fora.
Olhei para a janela. Basingstoke era uma cidade sem grande singularidade, mas me encantava voltar a viajar pelas estradas do meu país.
一 Peggy 一 chamei-a sem tirar os olhos dos campos da cidade. 一 Soube alguma coisa de Dudley? No baile que fomos ele deve ter dançado uma ou duas vezes e foram com mulheres casadas… Pergunto-me se ele não está interessado em procurar uma esposa. Está sozinho há tantos anos...
一 Infelizmente não poderei compartilhar-lhe tais informações, senhora 一 disse ela. 一 É errado fazer fofoca de quem paga seu salário.
一 Ora, sua! 一 exclamei com a voz ficando aguda. 一 Irá falar de mim por não ser eu que paga seu salário? Pensei que fosse minha amiga!
一 Não se preocupe, minha senhora 一 disse ela de bom humor. 一 Nunca falaria mal de alguém capaz de fazer uma criança tão bonita como Felicity!
Nós duas rimos, a cabeça inclinando-se para trás. Felicity, que não entendia da conversa, mas jurava que estavam referindo-se a ela, riu também.
A viagem para Exeter tornara-se, então, muito mais agradável.

[...]


Chegamos na estalagem Strutt & Parker no meio da madrugada. A segunda parada era sempre a mais longa para chegar e a menos a repor as energias. Todos estavam rabugentos e calados quando sentamos na mesa para tomar um ensopado de carneiro, mas precisávamos de ao menos duas horas para que os cavalos descansarem; ainda tinha que alugar novos, no meu caso. Felizmente consegui tirar um bom cochilo durante a viagem e estava mais desperta do que a maioria.
, olhe para o Zach pegando do meu ensopado! 一 exclamou Grace com voz de choro. 一 Ele já tomou o dele!
一 Zachary, pare de perturbar sua irmã 一 reclamou o sem abalar-se. 一 Suba e vá descansar. Sairemos antes do sol nascer.
Observei a marquesa-viúva na outra ponta da mesa; o rosto estava abatido e ela soltou um discreto bocejo. Levantou o olhar para a pequena desavença, mas voltou a encarar o prato.
一 Não vou! Você não é meu pai para mandar em mim! 一 replicou o menino.
O som do talher contra o prato ressoou pela mesa. Observei levantar os olhos para o irmão mais novo com cara de poucos amigos; não disse nada, afinal, aquele pequeno tilhar já indicava que sua paciência estava no limite. Deveria ter envelhecido cinco anos só com o franzir das sobrancelhas.
一 O que disse? 一 A voz de Exeter estava baixinha, no entanto, prestes a explodir.
James levantou sem muita educação e saiu da mesa bufando como um touro, obedecendo a ordem inicial do irmão. Não precisou que dissesse mais nada.
Observei toda a cena com uma grande interrogação na cabeça; era, porém, a única impressionada com a atitude do anfitrião.
一 Danna 一 chamou , alienado do que eu pensava. 一 Passe-me o sal, por favor.

[...]


A propriedade principal de Exeter era excepcional. Vê-lo depois de dez anos deixava-me mais sem fôlego ainda: a arquitetura georgiana, os jardins e parques que o compunham eram bem cuidados, milimetricamente projetados para criarem uma harmonia acadiana. Ainda lembrava-me do jardim submerso de camélias e as azaleias que apontavam o caminho.
Eu adorava brincar pela propriedade. Esconde-esconde, pall mall… Eu tinha uma boneca linda de porcelana que ganhei do antigo marquês! Pena que derrubou-a em meio a uma discussão sobre algo que não me lembrava…
一 É estonteante, não é? 一 declarei ao ver Peggy olhando para fora com os olhos esbugalhados. Ela apenas assentiu.
Descemos logo após a carruagem do Marquês de Exeter e os irmãos 一 aparentemente, a marquesa os organizou para estarem todos os cinco em um cubículo por muitas e muitas horas.
Observei Zachary com cara de poucos amigos render-se a uma piada dita pelo irmão mais velho. Aparentemente a chateação fora só no momento do jantar.
Eu estava faminta, cansada e com uma dor terrível nas costas 一 e ainda tinha Felicity, que ficara muito estressada depois de tanto tempo de viagem. Sentia-me meio zonza, também, e os lanches frios de estavam ameaçando voltar por onde entraram. Eu precisava muito dormir e as camas de lençóis de seda de Exeter eram tudo que meu corpo precisava no momento.
Os criados fizeram uma rápida recepção aos donos da casa e aos poucos fui relembrando de alguns que trabalhavam ali antes mesmo de eu nascer; o mordomo, Sr. Hutton, a governanta, Sra. Pittman, etc., etc..
Embora não lembrasse com precisão dos cômodos da casa, meu corpo sabia onde ir quando fomos levadas aos meus aposentos. Eram os mesmo de quando eu era mais nova e deixara de frequentar o berçário.
Minha mãe e a marquesa-viúva eram amigas próximas pois foram para mesma escola quando mais novas 一 não diria que melhores amigas, mas havia uma certa irmandade secreta entre aquelas que viveram essa fase juntas. Ainda assim, era fato que sempre estavam convidando e sendo convidadas uma pela outra para passar pequenas temporadas nas respectivas propriedades. A amizade de George e foi suficiente para que aquele hábito não tenha perdido-se até os últimos dias de vida da antiga Condessa de Dudley.
Deixei-me ser atendida pelos criados da casa; preparam para mim uma banheira, roupas limpas e cuidaram de Felicity para que eu pudesse dormir. Embora fosse um tratamento normal para aristocracia, sobretudo convidados, era bom estar em uma casa em que eu era bem-vinda mesmo que não fosse a dona.
Acordei-me no fim da tarde com as batidas ansiosas de Peggy na porta.
一 Você não precisava bater para entrar… 一 resmunguei com o rosto enfiado entre travesseiros.
一 Sei que dormir soa muito mais atrativo nesse momento, mas se eu não avisá-la irá ficar sem olhar-me nos olhos por semanas.
Levantei a cabeça. Peggy estava impecável, como sempre. Poucas damas de companhia conseguiam vestir-se com tamanha modéstia e beleza. Muito se falava das mulheres ricas que podiam encher-se de joias e tecidos caros. Pouco importava, realmente. Nem todas conseguiam encontrar um bom equilíbrio para que as roupas não ficassem entre uma simplória e alguém de muito mal gosto.
一 Pois, então, diga-me: o que é tão urgente para que eu tenha que me levantar?
Os olhos da dama de companhia ficaram brilhantes quando disse:
一 O capitão da Sra. Montgmery estará conosco no jantar. Ela está toda nervosa buscando um vestido! 一 avisou. 一 Será que ele é tudo isso que a senhora dizia? 一 titubeou. 一 De qualquer maneira, ouvi a criada da Marquesa comentar que virão alguns familiares do capitão e que, uma delas, o conheceu nessa temporada e está disposta a arrematar o marquês.
Levantei as sobrancelhas.
一 É isso verdade? 一 ela balançou a cabeça positivamente. 一 Nossos dias aqui serão interessantes, Peggy.
Só não imaginava se era no bom ou no mau sentido.

Capítulo 8


Harrison Courtenay, Marquês de Exeter, etc,



Eu não confiava no meu valete, um britânico até os ossos chamado Sr. Mitchell. Ele estava comigo desde que eu me estabeleci em Londres. Era jovem o suficiente para não ter esquecimentos bobos e velho o bastante para não ser inexperiente. Escolhia sempre as melhores cores, casacos e tinha uma conduta exemplar e discreta.
Porém, quando levantava a navalha em direção ao meu rosto, sentia que a qualquer momento iria cortar-me a garganta.
Era um pensamento sem fundamento, óbvio. O Sr. Mitchell nunca arrancou sequer um filete de sangue desde que começara a cuidar da minha barba 一 o que eu não conseguia repetir por mais cuidadoso que eu fosse ao tentar arrancar aqueles pêlos no rosto por mim mesmo.
一 É isso verdade? 一 indaguei sem mexer-me muito. 一 Irá a Srta. Greenwood visitar-nos no jantar?
一 Sim, Vossa Excelência 一 disse Sr. Mitchell. 一 Foi o que a Marquesa orientou que eu dissesse.
Segurei-me para não soltar um suspiro de sofrimento. Não o fiz porque, bem, havia um homem segurando uma navalha muito perto do meu rosto. A Srta. Greenwood era bonita e, com toda certeza, a pessoa mais enfadonha de toda Inglaterra. E a concorrência era gigante, sobretudo no que diz respeito aos homens que compõem a Casa dos Comuns.
一 Qual é mesmo nome do Capitão que irá nos visitar? 一 indaguei de repente. Chamavamos com tanta frequência “Capitão de Danna” que esquecia que ele tinha nome e sobrenome. Se por algum deslize o chamasse assim em público, talvez Zachary iria se tornar marquês antes mesmo de ser matriculado em Eton.
一 Capitão John Wilson, bisneto do Duque de Cumberland 一 replicou meu valete. 一 Está feito, Excelência.
Voltei a respirar direito e agradeci com um aceno. Encarei a cama sentindo-me cansado e minha mente já projetava uma série de justificativas para não descer para o jantar. Que inconveniência era visitar qualquer pessoa no mesmo dia que chegara de uma longa viagem! Poderiam ao menos esperar-nos repor nossas energias antes de ter que entrar numa maçante conversa qualquer.
No final do corredor, acima da escada, estava minha minha irmã mais velha com a expressão de quem estava bisbilhotando havia um bom tempo. Inclinar-se no parapeito de uma escada como aquela era muito perigoso; imagina se alguém a empurrasse de cima a baixo!
Não que eu fosse fazer algo como aquilo, claro.
Na última vez que fiz, quando ainda tinha sete anos, quase a matei por conta da minha imprudência.
一 O que há de tão interessante aí embaixo, Danna? 一 falei alto, fazendo-a pular de susto.
O rosto dela avermelhou-se e ela pôs a mão no peito.
一 Quer matar-me do coração?
一 Não, não 一 repliquei. 一 Isso foi no ano passado. Esse ano quero matar-lhe com um garfo.
Ela franziu o nariz com raiva.
一 Seu estúpido!
Dei-lhe um sorriso.
一 Não irá descer, irmãzinha? Ficar de tocaia não é de seu feitio… 一 pus o dedo no queixo, fingindo pensar. 一 Será que essa atitude tem a ver com um certo Capitão?
, quando irá parar com essas criancices? 一 ela cruzou os braços, irritada. 一 Somos adultos agora.
一 Quando você deixar de se importar com elas 一 repliquei e ofereci os braços. 一 É apenas um jantar, nada além disso. Será bom para que você tenha em mente se o que sentia pelo Capitão Wilson foi algo passageiro ou digno de algum investimento.
Danna voltou a olhar para o andar de baixo; estava vazio, mas isso não a deixou menos aflita.
一 Diga a mãe que estou com dor de cabeça 一 justificou, dando meia-volta em direção ao quarto.
Puxei-a pelo braço.
一 Nada disso. Recuso a vê-la desistir de alguém que gosta de novo por conta de sua covardia. 一 Sem muita cerimônia, encaixei seu braço no meu. 一 Não estive aqui ano passado para incentivar-lhe, mas agora irei.
一 Por que está fazendo isso?
Mirei o rosto da minha irmã mais velha. Ela sempre foi a mais dura de nós, a mais responsável e a menos propensa a correr atrás da própria felicidade. Até mesmo o primeiro casamento foi um arranjo do papai e ela aceitou passivamente.
Danna merecia ser feliz.
Ela respirou fundo antes que eu respondesse.
一 Está bem. Vamos.

Gostaria de narrar quão agradável foi a noite e quão interessante eu achava o meu futuro cunhado. Era verdade que Capitão Wilson era muito mais decente do que boa parte dos homens que se aproximava das minhas irmãs, mas ele era tão chato quanto a Srta. Greenwood, que encontrou em mim uma plateia silenciosa para seu monólogo.
A sala de visitas estava cheia. Além de mim, Danna, Lenna e mamãe, Ever e a Srta James, havia o Capitão Wilson, Sra. Greenwood e a filha, ambas parentes do capitão, e o Reverendo Evans e a Sra. Evans, esposa dele.
一 Não a vi durante a temporada, Sra. 一 disse a mãe da Srta. Greenwood, de repente.
O comentário atravessou a sala e aterrou-a com um silêncio grosseiro. estava estranhamente quieta, destacando-se menos na conversa do que o costume. Estava tão cansada quanto a maioria de nós, acreditava eu.
Em resposta ao que a mulher disse, Ever sorriu com destreza enquanto todos a encaravam, abalando-se nem um pouco com a súbita atenção que damos a ela. 一 Cheguei da Espanha há pouco menos de um mês, senhora. E como deve saber, tirei as vestes da viuvez há alguns meses 一 ela deu um suspiro teatral. 一 Receio que esteja desacostumada de participar de uma temporada dessa magnitude.
一 Não tinha temporadas na Espanha? 一 disse a Sra. Greenwood em tom zombeteiro. 一 É um lugar tão rudimentar assim?
abriu o leque que segurava com delicadeza, ganhando tempo até que disse:
一 São culturas diferentes, por certo. Os espanhóis parecem ser menos propícios ao ócio como nós, ingleses. Mas eles têm bailes e saraus como nós, sim. 一 Ela virou-se para Sra. Evans, que estava ao seu lado 一 Conhece a Espanha, senhora? É um lugar muito romântico...
Mordi um sorriso. Era prazer ver o manejo social que tinha 一 tudo aquilo era muito bem calculado e medido, porém poucos conseguiam fazer com tamanha espontaneidade. Apenas conhecia uma mulher que fazia a mesma coisa e era a minha mãe.
Disfarcei um bocejo e encarei a porta. Já havia chamado os homens da sala para beber conhaque, conversei amenidades e estava ali, socializando com as mulheres. Ainda não passava das nove da noite. Seria rude levantar-me e ir para a cama?
一 Excelência 一 chamou , levantando-se de repente. Ela falava para minha mãe. 一 Peço desculpas pela minha falta de maneiras, mas terei que retirar-me mais cedo. Estou com uma leve dor de cabeça…
Cerrei os olhos para ela. tinha acabado de roubar uma desculpa minha para sair, também.
一 Oh, querida, tudo bem 一 disse mamãe. 一 , acompanhe a Sra. , sim? Não queremos que nada de ruim aconteça no caminho.
Era um exagero, é claro, mas levantei, obediente. despediu-se mais uma vez e saiu sem muita pressa.
Em passos curtos, acompanhei-a em silêncio até seu quarto. Senti uma breve sensação de dejavu 一 dias atrás estávamos fazendo a mesma coisa na pousada. Desta vez Ever andava em silêncio e mantinha uma distância respeitosa.
一 Hm, eu cheguei a agradecer-lhe pela comida? 一 perguntou ela, de repente.
一 Não, mas imaginei que fosse sua personalidade ser ingrata…
revirou os olhos 一 era um movimento deselegante e muito mal educado, no entanto, até mesmo alguém cheio de pudores como ela tinha seus momentos de deslize.
一 Obrigada pela lembrança, Vossa Excelência 一 disse ela e fez uma reverência. Ela sempre fazia com graciosidade, como uma bailarina russa acostumada a receber aplausos do público. Respondi com um breve aceno.
一 Se me permite: por que estava sem comer naquele dia? Era algum mal estar?
Ela desviou o olhar, envergonhada.
一 Estou de dieta 一 falou com a voz baixinha. Aproximei-me para escutá-la.
一 Se me permite mais uma pergunta: essa dieta lhe proíbe de comer qualquer coisa?
cruzou os braços, incomodada.
一 Por que quer saber?
, … 一 suspirei. Aquilo não soava certo. Ficar sem comer poderia ser perigoso, não? 一 Tenha cuidado. Se tem uma coisa que não quero é vê-la com mal estar pelos cantos da casa.
一 Irei me cuidar, não se preocupe 一 afirmou em tom maternal.
Cerrei os olhos, desconfiado.
一 Você está mentindo.
一 Oras, não seja grosseiro! É claro que estou falando sério.
一 Está usando a voz de mãe para mim.
Ela fez um barulho de desdém.
一 Não estou, não.
一 Está sim 一 acusei. 一 Está usado a voz de mãe que mente para o filho parar de ser irritante.
deu uma risada; era raro aquele tipo de gargalhada, embora fosse algo muito discreto. Sorri junto, satisfeito com o resultado.
一 Por que implica tanto comigo? 一 disse ela, curiosa.
Não consegui evitar. Estendi a mão até o rosto alvo e toquei-lhe a covinha do canto dos lábios. Meu polegar o cobria por inteiro.
一 Porque você é absurdamente mecânica. Às vezes não parece de verdade… 一 repliquei. Acariciei a bochecha com os dedos, a mente enevoando de repente. Pensei nos movimentos tão bem calculados que ela fazia quando estava entre os pares; havia momentos que era até difícil definir se era Ever falando ou a Sra. .
deu um passo para trás. O rosto tornou-se menos amistoso.
一 O que quer com isso, ? 一 interrogou, aflita. 一 Não consigo ver como essas coisas possam ser saudáveis para nossa amizade.
Senti o estômago gelar e a boca secar. Cedo ou tarde, iria fazer aquela pergunta. A pergunta que eu ainda não tinha resposta.
O que eu queria com aquilo?
Eu a queria, com certeza. Mas eu já desejara outras mulheres antes; algumas consegui, outras ficaram só na minha imaginação.
Como eu queria ? Como eu a desejava?
Observei-a dar um passo para trás. Quis puxá-la para mais perto, para o mundo que eu estava criando e ela sorria espontaneamente.
一 Acho melhor você ir 一 disse . Ela deu-me um sorriso polido. O sorriso que ela distribuía em uma loja de chapéus.
Eu deveria ter dito alguma coisa bem elaborada. Dez anos era tempo o suficiente para preparar um bom discurso.
一 Desculpe 一 falei. 一 Não irá acontecer de novo.
… Sabe que valorizo bastante nossa amizade, não é?
一 Eu também! 一 repliquei rapidamente. 一 Eu apenas… 一 cocei a cabeça. 一 … Acha que seria muita loucura se nós… Não sei… Ficássemos juntos?
一 O quê?! 一 disse ela, ultrajada.
Precisei de alguns segundos para entender que talvez eu tenha calculado as palavras de um jeito muito ruim. Afinal, era um libertino sugerindo uma união sem rótulo em um corredor na calada da noite.
一 Não, não! 一 falei em desespero. 一 Digo, e se nós nos casássemos?
Confesso, caro leitor: esse foi o pior pedido de casamento de todos os tempos. Não era de se espantar que olhou para mim e disse:
一 Você está louco, Excelência!
Em passos apressados, foi até seus aposentos e entrou sem muita cerimônia; perturbada era uma boa palavra para descrevê-la naquele momento.
Pus as mãos no rosto, incapaz de aceitar a minha própria existência.
Se eu morresse naquele momento, a causa da morte seria constrangimento.



Continua...



Nota da autora:1 passo pra frente, 2, 3, 4 passos para trás.
Parece que as coisas não andam muito bem com o nosso libertino favorito, não é verdade? O que estão achando desse começo? Estão gostando? Me conta nos comentários! Vou ficar muito feliz em saber sua opinião <3 Até mais!!
Vejo vcs em breve. Beijo!



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