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Última atualização:07/03/2022

Capítulo 1

Os olhos verdes providos de pudor continuaram a me encarar. Eles apontavam perigo, assim como a própria dona deles.
Sua aparência não era alarmante, claro que não. A altura que não passava de um metro e setenta, os traços asiáticos misturados com alguma outra raça que não distingui e os cabelos loiros cortados em um corte Chanel, até que eram atraentes. Todas aquelas características juntas formavam a aparência de uma mulher meiga, mas eu sabia que era um disfarce.
A confiança com que olhava ao redor a entregava. Sua postura ereta e firme, preparada para qualquer coisa. Ela não me enganava. Ela era uma agente e eu estava certo sobre minhas suposições.

Descendo meu olhar pelo seu corpo reparei que não possuía a mão esquerda e não usava prótese, não parecia um corte reto e pelos meus palpites que quase sempre estavam certos eu chutaria que era congênito. Mas era conveniente, a maioria das pessoas não suspeitaria dela, não olharia duas vezes e se perguntaria se ela era perigosa.
No entanto, eu sim, eu sabia o que alguém com a motivação certa era capaz de fazer. Minhas marcas não me atrapalhavam, apenas me lembravam de que eu tinha um propósito.
Em sua única mão havia um corte longo e profundo já cicatrizado, a cicatriz criava um relevo em sua pele e me dava mais confirmações sobre quem ela era.
Uma agente da S17 que provavelmente estava em missão.
A renomada S17 era uma agência que cuidava das ameaças escondidas pelo mundo. Os agentes da mesma também lidavam com casos corruptos, mas eu tinha meus motivos para achá-los extremamente hipócritas uma vez que sabia de todo o dinheiro extorquido e a ajuda para com os políticos que não tinham moral alguma.
Deixando de lado a S17, outra agência que ajudava no controle das criaturas que viviam no submundo – longe da vista dos humanos – era a A.L, uma abreviação para Återuppbyggnadens Legion*, minha agência.
Diferentemente da CIA ou MI6, e até S17 que era envolvida com questões políticas, a A.L não servia ao propósito de distribuir informações estrangeiras ao governo ou evitar guerras e manter a paz. A.L e S17 eram agências globais, não nos limitávamos a um país ou continente apenas, nós caçávamos as criaturas que ameaçavam a raça humana e assim protegíamos sua espécie.
A.L e S17 eram duas agências rivais que conviviam no mesmo mundo por falta de opção. A população civil não sabia sobre nós, mas os políticos de alto escalão estavam cientes de que existíamos.
Mesmo que convivendo S17 e A.L sempre estiveram em constante guerra uma contra outra, discordando em todas as ações e pensamentos. Quando e porque essa guerra havia começado a maioria de nós nem sequer sabia, mas vinha sendo assim por décadas.
Entre as criaturas que caçávamos existiam, Djinn, lobisomens e vampiros.
Djinn eram uma espécie conhecida pelos humanos assim como as outras duas espécies, mas de forma distorcida, como pelo personagem da Disney. Na realidade Djinn não eram azuis e conseguiam tomar qualquer forma humana ou animal. Realizavam desejos também, mas sua magia tinha um preço, por isso atraíam humanos pela sua ganância e os manipulavam para que pudessem “negociar” com eles. Humanos que faziam acordos com Djinn vendiam suas almas, filhos, ou qualquer outra coisa preciosa para que tivessem seus desejos concedidos. Mas o fato de humanos serem gananciosos não era uma surpresa para mim, eu já havia presenciado a feiura, a crueldade, a dependência que eles podiam demonstrar.
Djinn eram criaturas muito poderosas e difíceis de serem enganadas, portanto apenas os agentes mais experientes eram enviados para lidar com eles.
Lobisomens eram humanos que se transformavam em lobos, não era necessária uma lua cheia – mesmo que a lua cheia fosse o evento em que todos eles se transformavam inevitavelmente – eles também se transformavam quando ficavam com muita raiva ou experienciavam qualquer sentimento ruim em excesso. Tinham uma fome insaciável, muitas vezes pior do que a dos vampiros. Quando lobisomens atacavam humanos era uma grande bagunça, nem mesmo ossos sobravam. Vampiros... Criaturas nem um pouco agradáveis. Mortos-vivos que não conseguiam ingerir nada além de sangue, sair no Sol ou pisar em solo sagrado. Eram rápidos e ao contrário do que muitos filmes retratavam, eles não podiam controlar humanos com compulsão mental. A aparência era normal, já que eram criaturas que uma vez foram humanos, mas todos possuíam presas aparentes, o tempo todo. Como se combatem criaturas assim?
Não, os agentes não tinham super poderes ou coisa parecida, pelo menos a maioria deles não tinha. Eram humanos com um treinamento elevado, disciplina e determinação impecáveis.
O treinamento começava em uma idade bastante nova, na minha agência tínhamos o privilégio de ser inicializados quando completávamos sete anos, pouco importava se éramos do sexo masculino ou feminino. Éramos soldados, guerreiros.
Uma vez que começamos, tudo o que fazemos carrega responsabilidade, aprendemos a lidar com as consequências das nossas ações. Se obtemos sucesso em nossas conquistas, somos premiados com reconhecimento e subimos de nível. Se falhamos, recebemos cicatrizes, humilhação e até corremos o risco de morrer em missão.
Somos criados para mirar na perfeição. E muitos de nós chegamos perto dela.
Os olhos claros se esquivaram dos meus com uma piscada lenta e reparei em sua respiração, constante e tranquila, me mostrando que ela estava indiferente, livre de qualquer preocupação.
Eu sabia que ela tinha me notado, notado que eu era muito mais do que apenas um cara em um bar interessado em sexo, mas eu não estava tentando ser discreto.
Havia se passado um ano, um ano inteiro e aqui estava meu alvo, a alguns passos de distância. A proximidade me fazia questionar ainda mais, o que tinha de tão especial nela? Por que o conselho estava tão ansioso para colocar as mãos nela?
Me virei de costas para ela e encarei o bar na minha frente, tomando um gole da minha bebida e fingindo arrumar meu cabelo para que pudesse ajustar a escuta em meu ouvido.
- Quais são os dados? – sussurrei por baixo da música alta e ouvi Melanie bufar.
- Ela é como a porra de um fantasma! – pareceu bater na tecla do computador e eu continuei esperando, olhando pelo espelho que me mostrava a localização da agente.
Analisei o vestido justo que batia nos joelhos mais uma vez e tentei descobrir as armas que ela carregava, era praticamente impossível que ela carregasse uma pistola, mas lâminas eram esperadas.
- Você tem certeza de que é ela? – sua voz soou frustrada. Melanie era a melhor no que fazia, como não estava achando seus arquivos?
- Tenho. – levantei o relógio enquanto fingia checar o horário e o sistema fez um escaneamento da mulher, enviando-o para Melanie.
- Encontrei! – ela se animou do outro lado, mas eu pigarreei para chamar sua atenção. – Seu nome é Akira, metade brasileira e metade japonesa. Vinte e seis anos. Família assassinada em uma invasão da A.L.
- Isso é bom. – sussurrei sarcasticamente. Ela deveria nos odiar então, mas aquilo não importava. Não estávamos recrutando.
- Uau, ela é melhor que você. – pude enxergar Melanie em frente a tela do computador, se perdendo enquanto lia suas informações. - Eu duvido muito.
- Agente e espiã, nível 42. Especializada em oito artes marciais, a maioria delas acentuando o uso de lâminas. Aqui consta que seu apelido é Adaga Negra...
- Nem um pouco presunçoso. – interrompi sua leitura por um momento, engolindo um pouco da minha bebida e segurando um sorriso. – Ela é melhor do que eu pensava.
Mas devia ser por esse mesmo motivo que o conselho a queria, certo? Ela não me preocupava. A A.L sabia como controlar suas conquistas.
- Tome cuidado, . Ela é de dar medo. – Melanie me mandou o arquivo, um tom de brincadeira em suas palavras.
- Isso é tudo que tem sobre ela? – encarei o relógio que me mostrava seus dados.
- Sim, foi tudo o que consegui. O arquivo que o conselho tem sobre ela é altamente confidencial por isso precisei invadir o sistema da S17.
Antes que eu pudesse dizer algo Melanie continuou a tagarelar, ciente do que se passava na minha cabeça.
- Sim, você acharia que eles teriam mais detalhes sobre ela, mas para conseguir desbloquear mais informações eu precisaria de mais tempo e só tenho alguns minutos antes que Petrova volte do intervalo. – ela discutiu, pronta para brigar. Eu não contestaria, sabia que se ela fosse pega fuçando nos arquivos isso levantaria perguntas.
Se eu quisesse colocar as mãos em seu relatório real precisaria do seu código, precisaria entrar em sua cabeça e pegá-lo.
Respirei fundo e olhei mais uma vez para o espelho. Ela conversava com um homem, mantendo sua postura séria enquanto ele parecia dar em cima dela.
No arquivo haviam informações muito vagas, mas se era isso o que eu tinha, era com isso que eu iria trabalhar. Entre as informações haviam coisas como “Altamente perigosa” e “Temperamento imprevisível”, mas aquilo não me assustava nem um pouco, ela tinha fluência em várias línguas e uma posição alta na instituição.
- Se eles conseguirem trazê-la para o nosso lado... Estaremos a um passo de destruir a S17. – Melanie tentou me incentivar, mas eu continuei em silêncio. Era para isso mesmo que queriam ela? Então me preparei e meus olhos procuraram o espelho novamente para encontrarem os dela encarando de volta.
Sem chamar atenção alguma, seus pés começaram a se mover e ela andou em direção ao banheiro, provavelmente para tentar fugir. Meus passos foram igualmente calmos ao segui-la.
Quando entrei no banheiro, pude analisar o perímetro. Ele era todo branco e a pia larga com espelhos de ambos lados o dividia em dois, apenas uma cabine estava ocupada, mas eu não precisei checar para saber que ela não estava lá. Era uma tentativa de distração, uma armadilha simples, o banheiro não tinha outra saída fora a entrada, portanto, apenas precisava encontrar sua localização real.
No mesmo segundo em que eu dei um passo adiante o corpo dela encontrou minhas costas e eu cambaleei por conta da surpresa. Eu me abaixei estrategicamente e ela caiu, mas conseguiu aterrissar bem e logo se colocou de pé, de frente para mim. Ela havia arrancado minha escuta e pisado na mesma.
Sem dizer uma palavra tirou a peruca loira, revelando seus cabelos negros em um rabo de cavalo grande e liso. Eu tinha que admitir que ele servia ainda melhor nela do que o cabelo loiro.
Suas mãos rasgaram a lateral de seu vestido até a parte de cima da coxa em uma tentativa de se movimentar melhor e a peruca foi jogada de lado. Ela se posicionou para combate, me dando uma chance de fazer o mesmo como se tudo aquilo não passasse de uma brincadeira para ela.
Ela atacou rapidamente, o que foi não foi uma surpresa, a maioria deles eram rápidos, mas foi mais difícil do que pensei que seria. Ela não tinha uma mão, mas ainda poderia fazer estragos.
Seu braço esquerdo tentou atacar meu rosto e tão rápido quanto eu desviei desse golpe ela jogou outro, mais abaixo do meu pescoço. Eu prossegui em desviar, tendo sucesso em bloquear quatro golpes consecutivos. Quando comecei a me sentir sem ritmo agarrei seu pulso e o torci para que pudesse posicioná-la de costas para mim, mas isso não funcionou muito bem e eu recebi uma cotovelada no rosto que fez com que eu a soltasse.
Eu parti para o ataque, desistindo da defesa. Eles precisavam dela viva e intacta, por isso me esforçaria para não quebrar nada.
Tentei jogar meu punho para que acertasse a lateral de seu rosto, mas ela agarrou a parte interna do meu braço. Seu cotovelo bateu na minha mão e ela usou meu peso como apoio para conseguir acertar dois chutes seguidos, um no meu joelho e outro forte na batata da minha perna que me desestabilizou e me fez cair parcialmente no chão.
Então seu joelho se levantou, acertando meu rosto em cheio e ela soltou meu braço para me deixar cair por completo. Demorei pouco para me levantar e me posicionar novamente, mas estava um pouco surpreso, ela era incrivelmente ágil.
Ataquei mais uma vez com um chute frontal e ela desviou para o lado como se eu tivesse tentado jogar um travesseiro em sua direção, quando imitei o movimento de novo ela desviou mais uma vez, deslizando para o lado oposto.
Travei meu punho com determinação e distribui um soco, mas minha mão cortou o ar quando ela abaixou seu corpo e voltou a posição normal com uma expressão entediada estampada em seu rosto.
Enquanto trazia meu braço de volta para perto do corpo, ela aproveitou a oportunidade e acertou um soco na minha barriga com o braço sem a mão, me jogando alguns passos para trás. Céus, ela era forte.
- Você é bom em se defender, mas bate como uma criança. – mesmo em um tom de deboche sua voz pareceu sedutora. Ela provavelmente tinha talento para aquele tipo de missão.
Seu sotaque inglês me fez arquear as sobrancelhas, era tão bom que eu até acreditaria nele se não tivesse lido seu arquivo. Talvez ela tivesse sido criada por agentes ingleses depois dos pais terem sido assassinados.
- Está se segurando, ?
- Não seja por isso. – avancei com mais velocidade e ela bloqueou meus golpes laterais. Seu pé acertou minha barriga violentamente e eu fui jogado para trás mais uma vez, sentindo uma pontada de dor quando minhas costas bateram contra a parede.
- O que a A.L quer comigo? – andou até mim e se abaixou para agarrar meu colarinho, mas não dei a satisfação e soltei uma risada sem humor, ainda me recuperando.
- Vá para o inferno. – levantei meus olhos, enxergando uma faísca de diversão nos dela. Aproveitei a distração e deslizei a perna no chão, fazendo-a cair com uma rasteira. – Como sabe meu nome?
- Do mesmo jeito que sabe o meu. – ela abriu um sorriso de lado e bateu um dedo na escuta que usava, girando as pernas e se colocando de pé.
- Acho que é justo que eu pergunte então. O que a S17 quer comigo? – corri para dar potência ao meu soco, mas ela agarrou meu braço e me jogou por cima de suas costas fazendo com que meu corpo fosse arremessado pelos espelhos e atravessassem aquela divisão, quebrando tudo no caminho.
Para me impedir de levantar, ela acertou o ponto dos bíceps que conseguia paralisar meu braço momentaneamente e eu trinquei meus dedos ao sentir a dor do golpe.
- Fique tranquilo, não estamos interessados em suas habilidades de luta. – ela se abaixou e riu com cinismo. – Ah, não faça essa cara. Vocês não são exatamente discretos.
Certo, aquela frase não abordava muito. Não tinha como saber quanto ela exatamente sabia. Ela podia apenas pensar que estávamos recrutando.
- E vocês são um pé no saco. – tossi, não me lembrando da última vez que tinha levado uma surra daquele tamanho.
- Fique sabendo que se seu objetivo é me tornar uma agente da A.L, é mais fácil com que me mate e não está muito perto disto. – pisou em minha garganta com seu salto e eu não me abalei. Ela não sabia então, se pensava que tinha escolha.
Decidi dar meu golpe final e tentei invadir sua cabeça, mas um escudo me jogou para fora tão rápido que tudo o que consegui ver foi uma imagem de uma flor, o crisântemo. Ela cambaleou para trás com as mãos na cabeça, parecendo surpresa.
- Você é um mutante. – seus olhos me olharam de um jeito diferente quando percebeu, todos olhavam quando descobriam o que eu era. Mas diferentemente da maioria, seu olhar foi de fascínio.
Eu me levantei e me tornei alerta, ainda um pouco atordoado por conta da tentativa de ler sua mente.
Mutantes eram praticamente um mistério até mesmo para pessoas especializadas em criaturas sobrenaturais. Mutantes eram uma espécie quase extinta, uma espécie que todos sabíamos muito pouco sobre. Éramos criaturas abominadas justamente porque éramos misteriosos. Por causa da minha telepatia conseguia sentir que ela ainda estava se escondendo, tinha algo de errado sobre ela, fora do lugar.
- E você tem um escudo. – mesmo dizendo em voz alta, as palavras me confundiram. Por que ela tinha um escudo?
Ela abriu um sorriso largo, parecendo aproveitar demais tudo aquilo. Assim, parados e conversando eu percebi que meu braço latejava de dor e minhas costas não estavam muito diferentes.
Ela ia me responder, mas antes que pudesse percebi movimento na entrada. Uma pessoa entrou no banheiro e nos encarou, sem entender o que se passava ali. No segundo em que seus olhos recaíram sobre o vidro quebrado ela já estava lá, golpeando o homem em sua têmpora e desacordando-o. Observei ele cair no chão e ouvi a voz dela.
- Eu adoraria ficar para limpar a bagunça, mas receio que já esteja na minha hora. – colocou as mãos na cintura e suspirou.
Como se a vida já não brincasse comigo o suficiente, seu corpo transformou-se em escuridão, uma grande sombra preta flutuando e logo sumindo pela janela quadrada do banheiro.
É claro que ela também era uma mutante. E agora eu tinha um homem apagado e pias destruídas para cuidar.


Återuppbyggnadens Legion*: grego para “Legião da Reconstrução”.


Capítulo 2

- Como ele era, afinal? – Mika finalmente perguntou enquanto se sentava na cama. Ela já estava pronta e me esperava.
- Não era ruim, mas ficou sem foco quando mencionei sobre a estratégia da A.L. – me olhei no espelho mais uma vez, avaliando minha aparência.
Teríamos que comparecer a um jantar e reunião do comitê que eles haviam organizado para celebrar a recente vitória com o governo sueco.
- Estou falando da aparência dele, era bonito? – usou um tom interessado, como se ele não fosse nosso inimigo e alvo atual.
- Você não viu o arquivo?
- Não, me conte! – se inclinou para frente, animada demais.
- O que tem de importância? Não é como se fosse um possível pretendente. – olhei para o reflexo do espelho e meus olhos encararam os dela.
- Você sabe como é bem mais excitante lutar com alguém bonito. – brincou e arqueou as sobrancelhas. Seus olhos puxados estavam contornados em um delineado feito com perfeita simetria.
- Ele é bonito. Tem cabelos castanhos com cachos grandes, magro, alta estatura, olhos verdes. – recitei como se estivesse reportando um relatório, me lembrando exatamente das suas características. Mika fechou os olhos e tentou imaginar.
- Olhos verdes... Esmeralda? Mais claros? Mais escuros?
- Depende da iluminação, eram mais puxados para o claro, com aquela mistura de amarelo, sabe?
- Ele parece ser uma delícia. – assentiu e eu soltei uma risada.
- Você é impossível.
- Você tem que admitir que é sexy a ideia de transar com o inimigo.
- A ideia talvez. Mas uma vez que a teoria é colocada em prática, nem tanto. – tirei a tampa do batom com uma mão só e me aproximei do espelho para passá-lo. Me concentrei e tentei ser minuciosa.
- Você soube quem ganhou uma promoção e foi convidado para o jantar? – questionou provavelmente já ciente da resposta.
Eu terminei de passar o batom, espalhando melhor enquanto friccionava meus lábios juntos. Endireitei minhas costas e neguei com a cabeça, fechando o batom.
- Hiroto. – a indignação foi presente em sua voz.
- Do clã Iga*? – perguntei confusa, esperando uma confirmação. - Ele é insuportável, sempre querendo me desafiar em tudo e se provar melhor do que eu. – seus olhos rolaram para dentro e pude ver seus punhos se fechando.
- Não me diga que ele se tornou mais um de seus ex namorados malucos e psicóticos. – acusei, apontando meu dedo em sua direção. Ela hesitou por um momento, mas logo concordou com um gesto.
- Para ser justa, apenas transamos uma vez. Pensei que ele fosse capaz de separar sentimentos de sexo, sendo um assassino profissional e tudo mais. – arqueou as sobrancelhas em minha direção.
- Isso me faz lembrar do incidente com aquele ninja do clã Kōga*. – comentei, desencadeando um calafrio pela parte dela.
- É por isso que apenas sou amiga dos ninja Koga agora.
Era para o melhor, a confusão em que ela se meteu da última vez que se relacionou com um homem daquele clã... Dava dor de cabeça ao lembrar.
Eu me lembro de perguntar uma vez para ela porque ela não tentava procurar outros caras fora dos nossos círculos de convivência. Mas ela simplesmente deu de ombros e aquilo foi resposta o suficiente.
Ela amava os ninja, não importa quantos casos dela com eles deram errado, sempre havia algum novo recruta para ela se divertir.
- Ele se acha melhor do que eu apenas porque é um Fujibayashi. – ela revelou. Eu me virei para ela, olhando-a com descrença.
Ela era descendente direta de uma ninja do clã Koga, mas escolhia não se envolver tanto no clã, assim como eu. Dentro da agência ninguém ligava para a hierarquia dos clãs, exceto pelos próprios clãs. Os agentes de fora se importavam com os níveis, era isso o que determinava se éramos importantes ou não. No entanto, clãs agiam em conjunto, eram uma família, ligados pelo sangue, nome e honra.
Existia rivalidade entre alguns deles, mas no final do dia todos éramos do mesmo time, éramos agentes e espiões da S17. Por esse mesmo motivo não podíamos matar uns aos outros, pelo menos não com frequência.
Se Mika podia ser considerada uma Koga, ter dormido com um dos Iga provavelmente não foi uma grande ideia. Os dois conseguiam ser pacíficos, mas não era necessário muito para que brigassem.
- Lembre-se, você é uma Mochizuki*. Descendente de uma das Kunoichi* mais famosas de todos os tempos. Ninguém pode contra você. – a levantei da cama e segurei seus ombros, arrancando uma risada dela.
- Sim, eu sou. – assentiu, concordando comigo. Mesmo que eu não me considerasse parte de um clã específico, gostava de me ver como uma Kunoichi também. – No entanto... Gostaria de ver seus rostos se soubessem quem você é de verdade.
Ela pareceu sonhar, mas eu fechei minha expressão. Não gostava de entrar naquele assunto, não gostava de sequer lembrar daquele assunto.
- Já falamos sobre isso, Mika. – retirei minha mão do seu ombro e ela fez uma careta.
- A parte da sua mãe também te favoreceu na verdade, mesmo que não use o sobrenome do seu pai ainda é uma Katō*. – tentou amenizar o que disse e eu respirei fundo em uma tentativa de esquecer sobre aquilo.
Ajustei o vestido vermelho longo em meu corpo e observei as alças finas postas nos meus ombros enquanto o tecido emoldurava minha silhueta.
- E tenho muito orgulho de ser. – me olhei no espelho pela última vez e me virei para ela, fazendo uma pose brincalhona. Ela assobiou e bateu palmas, me fazendo sentir um pouco melhor.
Seu vestido preto também era deslumbrante, com uma saia rodada na parte de baixo e um decote em forma de coração.
Ela abriu um sorriso enorme e eu soube no mesmo instante que ela não iria embora desacompanhada do jantar naquela noite. As feições felinas sempre fizeram os homens caírem aos seus pés.
- Qual adaga você vai levar? – perguntou antes de irmos e eu subi a saia do vestido cuidadosamente, tirando minha adaga da meia onde estava escondida e retirando sua capa.
Era um punhal Athame, seu cabo era branco e desenhos de dragões o enfeitavam, os desenhos não apresentavam relevo já que o peso adicional numa adaga apenas me atrapalharia. Coloquei a capa de volta e deslizei para minha meia novamente.
Mika levou as duas mãos para as costas ao mesmo tempo, tirando de dentro do vestido onde estavam escondidos seus Sai, os girando na mão para que eu sentisse inveja por não poder levar minha katana.
- Pensei que você fosse levar o preto. – soltei surpresa e ela os escondeu em seu vestido.
- Não tive tempo de limpá-los. – se levantou e saímos do meu quarto, nos dirigindo ao salão aonde aconteceria o jantar.
Mika e eu andávamos juntas desde que consigo me lembrar, ela sempre esteve comigo, sempre. Até mesmo estudamos juntas quando a agência nos enviou para o Japão.
Mesmo que na nossa época a maioria das crianças da agência estudassem dentro da mesma, eu e Mika fomos uma exceção, ou um experimento por assim se dizer. Enviadas para escolas locais de cidades pequenas enquanto oscilávamos com nosso treinamento.
Por anos quando crianças moramos no Japão, aprendendo a como viver no país, aprendendo seus costumes e nos tornando realmente mais japonesas do que qualquer outra nacionalidade.
Então quando completamos quatorze as missões começaram e tivemos que abrir mão daquela experiência, nos contentando em estudar dentro da organização. Viajávamos muito por conta das missões, mas mesmo passando meses ou até anos longe, sempre nos encontrávamos novamente.
Mika era mestiça como eu, mas ainda assim carregava um dos nomes mais importantes da instituição. Sua mãe era uma ninja aclamada e muito respeitada. Seu pai era brasileiro e cuidava das ações do seu próprio país. Mika via seus pais uma vez a cada dois anos.
Minha mãe por outro lado era parte brasileira e parte japonesa me tornando mestiça e me entregando o sobrenome Kato. Meu sobrenome não fazia tanta diferença no meio de tantos shinobi* de clãs importantes, mas eu havia trabalhado duro pela minha posição e pelo respeito direcionado a mim. Muitos deles nunca esperaram muito de mim, quando ingressei nas missões eles preferiram me ignorar e fingir que eu não existia. Eu havia aprendido a lidar com todos me subestimando, fazia de tudo ainda mais divertido quando eu mostrava meu potencial.
O sobrenome era uma das poucas coisas que minha mãe tinha me deixado depois que morreu quando eu ainda era muito nova, os amigos dela foram quem me criaram e me acolheram. Já meu relacionamento com meu pai era uma situação mais complicada.
Ele estava vivo, mas eu não o via desde meus seis anos. Diferentemente da minha mãe, ele não era envolvido com a agência.
Em questão de genética eu era parcialmente mais japonesa do que Mika, mas ainda possuía a aparência brasileira como ela.
Por conta de ter sido criada por brasileiros eu havia esquecido bastante do japonês quando pequena, o que veio a dificultar quando entrei na escola. Precisei aprender as coisas básicas novamente e o jeito de me adaptar em uma terra estrangeira. Mika foi criada com as duas línguas, portanto não foi tão difícil para ela em questão de linguística, mas ela também se sentia deslocada por ter a aparência brasileira.
No Brasil éramos japonesas e no Japão éramos brasileiras. Era como mestiços se sentiam, sempre estrangeiros.
Fora isso a experiência tinha sido muito boa, aprendemos coisas que não teríamos aprendido limitadas a aulas particulares. Fizemos amigos, aprendemos japonês de modo fluente e nunca mais abandonamos nossa cultura.
Não tivemos tantos problemas com preconceito quanto pensávamos que teríamos e nos surpreendemos ao descobrir que o Japão abrigava muitos estrangeiros, no nosso tempo no país conhecemos muitos brasileiros, filipinos, chineses e até vietnamitas.
Eu amava meu país e seus costumes, exceto pelos pontos machistas que precisavam ser repensados. Por esse mesmo motivo eu e Mika éramos parte do mesmo círculo social que os ninja.
Em missões eu optava por usar máscaras que modificavam meu rosto, com o propósito de ser discreta, mas no jantar eu iria sem todos os adornos, sem lentes de contato ou perucas, apenas um pouco de maquiagem.
No momento estávamos na filial de Marselha. Os agentes viviam em movimento por isso não moravam em um lugar fixo, seguíamos ordens e íamos para onde nos mandavam. Se um agente fosse realmente importante ele teria um quarto próprio em cada filial.
Mika adorava Marselha e tinha me feito prometer que iríamos visitar Calanque de Morgiou antes que tivéssemos que nos separar novamente.
Ela sempre fora a única pessoa que sabia de todos meus segredos, inclusive uma das poucas que sabia o que eu era de verdade.
A maioria das pessoas me chamavam de Akira, que era o nome que eu havia escolhido para mim mesma. As pessoas mais próximas me chamavam de , o nome dado pela minha mãe. E quem não me conhecia me chamava de...
- Veja se não é a Adaga Negra ao lado de sua fiel escudeira!
Nos jantares todos falávamos a língua universal, o inglês.
- Ótimo, o estadunidense! – Mika sibilou com desprezo e eu arqueei as sobrancelhas.
- O que quer aqui, Daniel? Sua mesa é ali, perto da lixeira e da bandeira dos Estados Unidos. “God bless America!”. – imitei com entusiasmo e recebi um olhar de provocação de volta.
- Vocês acham difícil dizer “americanos”? Parece que é verídico então, japoneses de fato tem muita dificuldade em falar inglês. – cruzou os braços acima do peito.
Mika respirou fundo com elegância e sorriu largo, reunindo a energia necessária para imitar o mesmo tom que ele usou para nos irritar.
- Parece que é verídico então, os estadunidenses de fato são ruins em geografia... Deixe-me te contar uma coisa, Daniel. América é um continente. Um bem grande por sinal, é engraçado terem tantas barreiras raciais na sociedade e insinuarem que se misturam com povos de outros países, como povos latinos. – ela rebateu, arrancando uma risada discreta dele. – Estamos em 2050 e vocês ainda se denominam como “América”.
- Vocês amarelos...
- Poupe-se Daniel, não vai conseguir briga aqui. Se quiser apanhar procure algum de seus amigos. – Mika cortou sua fala e encaramos ele com sorrisos tranquilos.
Aquilo era bastante comum de ocorrer quando as nacionalidades se misturavam, muitos agentes não conseguiam suportar uns aos outros, criando conflitos e arrumando confusões. Não era como se não nos misturássemos, fazíamos amizades fora de nossos círculos, mas era fácil para que uma faísca se tornasse um incêndio.
- Aproveitem o jantar. – fez uma reverência leve com a cabeça e finalmente saiu.
Os diretores gostavam de mostrar uma frente unificada, mas também se organizavam para evitar conflitos. Coréia e Japão? Dez mesas entre os dois. Estados Unidos e Rússia? Quinze mesas. E assim continuava.
- Os ratos aqui são impressionantes. – Mika disse em português.
- Eles se acham superiores em qualquer lugar. – nos sentamos na mesa e Mika prosseguiu em pedir uma bebida pelo tablet disponibilizado.
Ela optou por um Dry Martini e eu um Daiquiri, uma das únicas bebidas alcoólicas que eu apreciava. O gosto era bom, mas eu nunca tomava o suficiente para ficar bêbada. Eu não entendia a diversão em ficar vermelha como um tomate, inchada, com calor e tonta sem ser capaz de andar normalmente.
A maioria dos asiáticos possui uma anomalia genética que torna o álcool bem mais desagradável do que para pessoas que recebem a bebida no organismo normalmente. Estudiosos acreditam que, por seleção natural, essa anomalia genética se manifestou em nós como uma forma de sobrevivência. Mas de qualquer forma, muitos asiáticos amam beber. O problema é que além de causar o vermelho no rosto e em outras partes do corpo, pode acarretar outros problemas mais sérios, como uma maior probabilidade de um câncer no esôfago.
Por isso eu sempre aconselhava Mika a não beber tanto, mas estávamos arriscando nossas vidas todo dia, viver do jeito que nos agradava fazia sentido.
- ポルトガル語をやめろ。– Hiroto se sentou na mesa, implicando com nosso português.
- ここから離れて座って。– rebati ainda paciente e ele negou meu pedido para que se sentasse longe daqui.
- ブラジル人と一緒に座ってみてはどうだろう。– "Por que não se sentam com os brasileiros?"
Seu tom foi condescendente, o que fez com que Mika perdesse a paciência. Ela se levantou para o atacar e ele tentou bloquear seu golpe, mas ela segurou a mão dele e com a outra livre agarrou sua nuca, batendo a testa dele na mesa com força e rapidez. O golpe o deixou desnorteado e ela soltou seu corpo, deixando-o cair sentado no chão.
- 今度そんなことを言うなら、私が16歳のときにはすでにあなたのレベルに達していたことを思い出して。– "Da próxima vez que quiser falar assim, lembre-se de que eu já estava no seu nível quando tinha dezesseis anos.” Mika sussurrou em seu ouvido e voltou a se sentar, desfrutando de seu Martini.
- これをやると後悔するよ!– nos ameaçou descontrolado e eu arqueei as sobrancelhas, olhando diretamente em seus olhos.
- ブラジル人の実力を見たいと思わないなら、ここから出て行け。– “Saia daqui a menos que queira ver o que os brasileiros podem fazer” usei seu nome em um tom debochado e o avisei, assistindo o mesmo se afastar e sentar na outra ponta da mesa, me obedecendo.
- 大丈夫か?– Hiyori apareceu, nos perguntando se tudo estava bem e concordamos.
- はい、大丈夫だよ。– Mika ofereceu um sorriso doce. Foi a última coisa que ouvi antes do salão inteiro se tornar silencioso, não precisei me virar para saber o que tinha causado aquilo, mas observei a entrada dos cinco diretores mesmo assim.
O total de diretores era dezessete, mas eles nunca se juntavam ao mesmo tempo no mesmo lugar, era uma questão de segurança em caso de ataques inconvenientes.
Os cinco diretores presentes eram, Dasha, a diretora russa. Elisa, a italiana. Fumiko, a japonesa. Lorenzo, o espanhol. E Li-Yu, a chinesa.
- Como estão todos? – Dasha começou seu discurso usual em inglês, usando o dispositivo de amplificador de voz invisível.
- Todos aqui sabem da nossa recente vitória no contrato com o governo sueco. – Li-Yu a acompanhou, estampando um sorriso charmoso. – Estamos aqui para celebrar!
- Mais um país, mais uma revolução. Continuemos a salvar o mundo! – Lorenzo levantou a taça de champanhe e todos o imitaram.
- E a proteger as criaturas místicas! – Fumiko se juntou ao grupo também levantando a taça.
- Assim como os humanos! – Elisa completou, levando todos a baterem palmas. Eles complementaram mais algumas coisas ao discurso que rendeu alguns minutos e a música começou dando início a verdadeira festa.
Uma das diferenças entre a A.L e a S17 era essa, a S17 protegia e acolhia criaturas místicas que mostravam cooperação e a A.L simplesmente eliminava qualquer tipo de vida sobrenatural. Isso claro quando eles não usavam mutantes para combater essas criaturas. Hipócritas.
- Tudo bem, mas se você tivesse que escolher alguém com no mínimo quarenta anos? – indaguei e ela olhou para cima, parecendo considerar suas opções.
- Louis Partridge. – revelou com definitiva certeza e eu concordei, mordendo meu lábio.
- Sim, é uma ótima escolha.
- E não é? Aquele sotaque londrino, os cachos, o maxilar definido... Nossos filhos seriam lindos.
- E desde quando você pensa em ter filhos? – franzi o cenho com uma risada e ela espremeu os lábios juntos.
- É uma realidade alternativa. – rimos juntas e nos olhamos com divertimento.
- 死のペア。– “Dupla da morte”.
Takuma chamou pelo apelido que tinha nos nomeado quando éramos pequenos e eu e Mika sorrimos de orelha a orelha, prontas para cumprimentá-lo. Ela o abraçou com animação, pulando em cima dele e envolvendo os braços em seu pescoço, então eu tive minha vez. Takuma também havia estudado conosco na nossa experiência escolar.
- Como estão? – ele perguntou, ainda em japonês.
- Estamos bem e você? – respondi animada por sua presença. – Está em Marselha pelo jantar?
- Não, tenho uma missão aqui. Algo com a LVMH. – sussurrou.
Agentes nunca falavam sobre missões uns com os outros a menos que estivessem na missão juntos, como parceiros. O fato de Takuma compartilhar aquilo conosco provava o quanto éramos amigos. – E vocês?
- Temos que ficar de olho em um agente da A.L. – Mika revelou.
- Espionagem? Eu sinto falta de missões assim.
- Faz quanto tempo que não pega uma?
- Alguns meses. – deu de ombros e eu distribui um tapa brincalhão em seu braço. – Ele é um dos grandes?
- Um dos melhores. O perfil dele quase se iguala ao da . – Mika olhou para mim com admiração falsa.
- Então você leu o arquivo dele!
- Sim, eu só queria ver o que você falaria. Ele é de fato uma delícia. – mordeu o lábio como se a imagem viesse a mente.
- Ele é francês? Russo?
- Franco-estadunidense. Vinte e seis anos. Agente-espião. É um mutante por sinal.
- Isso não estava nos dados dele! – ela protestou e eu pisquei um olho em sua direção. – Quais são os poderes dele?
- Ele tentou invadir minha cabeça. – fiz uma careta, me recordando da dor extremamente desagradável e aguda.
O fato dele ter tentado entrar na minha cabeça para descobrir meus segredos ou até mesmo me controlar, me enfurecia completamente. Ele havia tentado violar minha mente.
- Ele conseguiu algo? – Takuma contorceu seu rosto em preocupação e eu sorri discretamente.
- Ele está me controlando neste momento, estou recolhendo informações para ele.
- Você vai fazer com que pensemos desse jeito se trazer uma hipótese dessas.
- Eu o expulsei antes que ele pudesse xeretar. – interrompi sua bronca, revelando o óbvio.
- Sabe se ele é um Dyo M? – Takuma pareceu curioso, o que não era uma surpresa.
- Não sei, mas tenho uma forma de rastreá-lo e descobrir.
- Como? Não é possível que tenha colocado um chip e ele não tenha reparado. – cruzou os braços como se estivesse diante de uma criança ingênua. Eu revirei os olhos e levantei minha única mão, mostrando as sombras que rodopiaram entre meus dedos, desaparecendo logo em seguida.
- Elas estão com ele, posso senti-lo em qualquer canto do mundo quando quiser.
- Isso é injusto em tantos níveis. Tem alguém que possa te vencer? – ele colocou as mãos na cintura, tentando me provocar.
- Revelar tal coisa não faria com que eu parecesse fraca? – entrei em sua pequena brincadeira.
- Faria com que parecesse...
- Não sou humana, lembra? – me antecipei e adivinhei o que ele iria dizer.
- Então sim, esqueça o que eu disse.
- Lembre-se, T. Eu sou inteligente demais para ser derrotada. – arqueei as sobrancelhas e ele devolveu com um olhar de deboche.
- A modéstia é certamente um traço que se destaca em você.
- Não se ganha o mundo com modéstia.
- Eu não poderia concordar mais. – Mika ergueu o rosto, assentindo. - Akira. – a voz familiar ordenou.
Os diretores eram os únicos com a habilidade de transformar qualquer palavra em ordem, até mesmo um mero nome. Poucas coisas no mundo me traziam medo, já meu nome proferido nos lábios de Dasha... Aquilo conseguia arrancar um arrepio.
Mudei rapidamente do japonês para o inglês.
- Sim, senhora. – me levantei da mesa, soltando o copo e arrumando minha postura.
Ela me encarou e sorriu educadamente. Seu terninho elegante perfeitamente ajustado em seu corpo e o cabelo ruivo preso em um coque firme, sem nenhum fio de cabelo fora do lugar. Se alguém me dissesse que disciplina pudesse se tornar uma pessoa de carne e osso, eu apostaria que essa pessoa seria Dasha Alekseeva Vasiliev.
Ela podia ser cruel, mas eu devia a ela algum crédito por ter feito de mim quem eu era hoje.
- Preciso de uma palavra. – virou seu corpo e continuou seu caminho para fora do salão. Eu a segui, sem questionar ou olhar para os meus amigos duas vezes.
Seguimos pelo corredor neutro e viramos à esquerda, dando de cara com uma porta automática de vidro. A entrada de seu escritório.
- Código de verificação? – a voz robótica me pediu depois de deixar Dasha passar.
- 386625472. – dei dois passos para dentro e a porta agora localizada em minhas costas se fechou.
Endireitei minhas costas e cruzei os braços atrás das costas, continuando a encarar minha superior e esperando pelas suas ordens.
- Tem a localização? – ela se sentou em sua cadeira, aparentemente sem paciência para formalidades ou enrolações.
- Ele ainda está em Marselha. – analisei sua mesa principal, com o monitor enorme posicionado no centro e o teclado que continha um sensor que detectava os movimentos das suas mãos, as seguindo quando ela desejava escrever algo.
- Preciso que o capture. – seus olhos seguiram a tela do monitor, a tela que eu não podia enxergar.
- Pensei que ele não fosse uma ameaça. – isso trouxe sua atenção para mim, fez com que ela levantasse seus olhos para encarar os meus.
- E não é. – seu olhar continuou determinado, como se ela tivesse captado o desafio em minha voz.
- Então por que precisa que eu o capture? – pressionei, apertando meu punho atrás das costas.
- Desde quando espiões fazem perguntas? Eu te dou as ordens, você as segue. É assim que funciona. – tirou suas mãos do teclado e as abaixou até o colo.
- Não me entenda errado, diretora. Mas se você me quer no trabalho, de duas uma, ou ele é muito bom no que faz, ou ele é importante demais. Prefiro saber com o que estou lidando. – mantive o contato visual, sem me abalar ou dar para trás.
- Permita-me te lembrar seu lugar, soldado. – se levantou da cadeira, andando em passos firmes até mim. – Se é tão valorizada como acha que é, te recomendo que siga as ordens que lhe são resignadas. Isso é claro... Se quiser continuar na posição que se encontra.
- Quem vai interrogá-lo? – questionei depois de alguns segundos que usei para recuperar meu orgulho.
- Você tem um mês para capturá-lo. Se falhar em sua missão, ela será repassada para outro agente, se tiver sucesso poderá interrogá-lo. – cruzou os braços acima do peito, quase amassando seu terno.
- Jura? Pensei que ele fosse um grande segredo. – imitei sua postura. O cinismo foi perfeitamente distribuído em minhas palavras.
- Poderá formar uma equipe de até doze agentes. – ignorou meu comentário e prosseguiu com suas ordens.
Então eu entendi o quanto aquela missão era séria, quanto aquele alvo era importante. Raramente precisávamos de mais do que cinco agentes em uma missão.
- Eu os escolherei? – como resposta, recebi um acenar de cabeça positivo.
- Escolha-os muito bem. – avisou com seriedade. Como se eu pudesse sabotar aquela missão de propósito.
- Permissão para me retirar?
- Concedida.
Voltei para o salão enquanto minha cabeça trabalhava, o som dos meus passos ecoando no corredor se misturavam com o som alto dos meus pensamentos. Parei na porta e lancei um olhar para os meus amigos, que me encararam de volta com olhares confusos. Movi minha cabeça, apontando para a saída localizada no outro lado do salão, um sinal para que eles se levantassem e me acompanhassem.
Uma vez no corredor, eu finalmente abri minha boca.
- Mika, você poderia formar uma equipe? – usei um tom discreto e baixo, logo apontando para Takuma. – Você está incluso.
- Claro, quantos agentes? – ela seguiu ao meu lado, como sempre.
- Até doze agentes, contando com Takuma e você. Não inclua ninguém abaixo do nível 30. É uma missão importante e queremos ser discretos, ninguém que possa atrapalhar. – instrui sem interromper meu passo e vi pelo canto do olho quando Takuma arregalou os olhos.
- Doze?
- Doze? – Mika repetiu com a mesma voz desacreditada. – Você tem certeza?
- Não são ordens minhas. Eu apenas vou comandar a equipe, quem realmente manipula os fantoches são os diretores e vocês dois estão cientes.
- Ele é tão importante assim? – Mika sussurrou, pensando em voz alta.
- Talvez ele seja tão perigoso assim. – trouxe a possibilidade até a mesa.
- E o que farei sobre minha missão? – Takuma questionou.
- Se tudo der certo não levaremos mais do que um dia. Se a missão acabar se prolongando, eu mesma pedirei para que repassem sua missão para outro agente. – tentei tranquilizá-lo, mas ele demorou um pouco para me dar uma resposta. Não era ele que sentia falta de missões assim? – A menos é claro que prefira lidar com a LVMH.
- Tem um plano?
- Tenho algo em mente. – devolvi seus olhares. Mika parecia tranquila como sempre, pronta para me acompanhar em qualquer aventura e Takuma parecia apreensivo, preso em sua própria cabeça. – Primeiro preciso de uma boa noite de sono. Vamos à caça amanhã.
...
- Escutas? – chequei uma última vez.
- Preparadas. – Aidan assentiu com a cabeça.
- Vocês se lembram do que fazer?
- Capturar ele vivo.
- E não chamar atenção. – Nick completou.
- Tak chto poydem na okhotu.* – proferi a frase em russo, observando todos assentirem.
Eu pulei para fora da van primeiro e segui para o restaurante, observando-a se afastar para distribuir cada agente em um lugar diferente. Uma estratégia para que não levantássemos suspeitas. Entrei em Le Petit Nice, um dos restaurantes mais populares e chiques de Marselha. Eu já tinha visitado algumas vezes, portanto conhecia a área.
Eu gostava do local pela atmosfera que oferecia, a vista do mar através das janelas enormes, as mesas distribuídas de um jeito confortante pelo salão e o piso de madeira que trazia clareza. De dia era todo branco, mas com o pôr do Sol ele adotava um ar amarelado, era incrível a ideia da mudança de acordo com o céu.
Avistei / a alguns metros, sentado em uma mesa posicionada perto das janelas com a vista privilegiada para o mar. Pude ver o perfil de seu rosto enquanto ele conversava com uma mulher que o acompanhava na mesa.
Ela possuía a pele negra, seu cabelo caía em cachos modelados ao redor do rosto perfeitamente simétrico. Quando piscava você podia perceber como seus cílios eram enormes e quando ria invejava o quanto seus dentes eram perfeitos. A boca também tinha um formato bonito, o que tornava seu sorriso impecável.
/ era ainda mais bonito na luz do dia, os olhos claros se destacavam em baixo das sobrancelhas grossas e o formato do seu rosto me lembrava o rosto de uma escultura da Grécia Antiga.
Minha máscara estava modificada para que ele não me reconhecesse. Dessa vez tinha escolhido uma peruca ruiva, as pontas onduladas batiam na altura dos meus ombros e eu usava lentes de contato da cor castanha.
- Em posição? – abaixei minha cabeça discretamente e sussurrei para a escuta.
- Em posição. – Nick foi quem respondeu.
- Mika, você sabe o que fazer. – me preparei, endireitando-me na cadeira e observando atentamente.
Mika vestida em seu uniforme de garçonete andou em direção a mesa deles e fingiu esbarrar com outra pessoa, cambaleando para frente e acidentalmente derrubando a bandeja que tinha em mãos, assim derramando comida em /.
- Mon Dieu, je suis désolé. Monsieur, pardonne-moi. Laissez-moi nettoyer. – ela começou a pedir desculpas, soando verdadeiramente desesperada e colocando a bandeja em cima da mesa para poder limpar a comida.
Mas antes que ela pudesse tocar nele, o mesmo levantou uma mão e interrompeu suas desculpas.
- Sois calme, tout va bien, je nettoierai mes propres vêtements.
Se levantou da mesa e agarrou o guardanapo de tecido, desviando de Mika que limpava o que acabou indo para o chão.
Atenta a cena, avisei pela escuta para que esperassem por ele, mas quando o observei entrar na área dos banheiros algo fez com que me sentisse inquieta, preocupada até. Seguindo meu instinto, me levantei e andei até o banheiro para me certificar de que tudo correria bem.
- Mademoiselle c'est une salle de bain pour hommes. – um garçom interrompeu meu passo quando entrou em minha frente e indicou, apontando para a placa com um boneco masculino.
- Oh, tu as raison! Mon erreur. – sorri fingindo estar envergonhada e coloquei a mão direita no peito. O garçom sorriu de volta e esperou que eu entrasse no banheiro feminino.
Esperei até ele sumir de vista para poder entrar no banheiro masculino. No mesmo momento em que meus pés pisaram para dentro, pude perceber o silêncio absoluto, o que significava que algo estava errado. Me preparei para enfrentar /, mas antes que pudesse me virar em sua direção senti suas mãos ao meu redor enquanto ele me segurava contra seu corpo, assim como senti a lâmina fria que estava pressionando meu pescoço.
- Temos que parar de nos encontrar dessa forma. – soprou em meu ouvido depois de imitar o que fiz uma vez e tirar minha escuta, apenas para pisar em cima da mesma.
- O que fez com os outros agentes? – perguntei, mas meu foco estava na tarefa de manter a calma.
Minha única mão e meu braço esquerdo estavam em seu pulso tentando impedir que a lâmina chegasse mais perto e o braço livre dele estava em volta do meu tronco, me prendendo no lugar. Me segurando tão perto que até mesmo podia sentir seu peito contra as minhas costas.
- Pense, Akira. Use essa linda cabecinha. – com o aperto ainda firme ele virou nossos corpos ao mesmo tempo, para que eu pudesse enxergar os quatro corpos sem vida jogados no chão.
O sangue deles manchava o chão, o vermelho escuro fez com que vários alarmes em minha cabeça disparassem. Aquilo era impossível. Como ele tinha?
- Você sabia. – lutei para não perder o fôlego, lutei para não mostrar nenhuma vulnerabilidade em frente a ele. – Como sabia?
- Assim me ofende, Ma chérie. Não acredita que poderia derrotá-los sem saber do seu plano? – sua voz pareceu afetada, como se ele realmente se importasse com o que eu pensava sobre ele. Eu gostaria de presenciar a careta que ele faria ao descobrir o que eu pensava sobre todos que trabalhavam para sua instituição.
- Como sabia? – eu não estava sendo sensata, talvez ele nunca me oferecesse uma resposta, mas eu precisava saber.
- Talvez tenha um traitre em sua equipe. – pude sentir seu corpo se mover atrás do meu, pra cima e pra baixo em um dar de ombros.
- Se tivesse mesmo um “traitre” em minha equipe, você não revelaria. – forcei meu melhor sotaque francês, desencadeando uma risada da parte dele.
Seu corpo tremeu levemente com o gesto e suas mãos seguiram, inclusive a mão que segurava a lâmina contra minha pele. Eu estiquei meu corpo, pendendo minha cabeça para trás em uma tentativa de me proteger.
- Talvez eu tenha reparado no momento em que você entrou no restaurante, ou talvez eu tenha percebido como a garçonete prestou total atenção em mim o tempo inteiro, observando como eu me movia ou para onde olhava. – ele distribuiu as opções na mesa, brincando comigo. – Ou mais importante, talvez suas sombras não possam me controlar.
Eu não tinha espaço para respirar, quem dirá para pensar racionalmente. Naquele momento jurei ter sentido meu coração parar e então acelerar, como se ele estivesse prestes a explodir.
- Eu sou um mutante assim como você, não seja tão ingênua ao me subestimar.
Ele era um telepata, de repente me recordei. E se ele tivesse acesso à minha mente usando minhas sombras? Eu tinha sido burra demais. Eu tinha sido arrogante demais.
- E se eu – ele fez uma pausa apenas para sorrir irritantemente. – Conseguir controlar você assim como pensou que poderia me controlar? O medo veio, medo real, medo que eu nunca havia sentido antes. Aquele sentimento que infestava tudo, que conseguia penetrar e invadir todos os seus músculos e nervos.
- Vai deixar os outros escaparem? – provoquei, tentando encontrar uma brecha, algo que pudesse me ajudar naquela situação.
- Por que eu me preocuparia com os outros se você é a agente mais importante da equipe? – movimentou a ponta da adaga, aplicando um pouco de pressão em uma ameaça explícita. Era uma demonstração de poder, um lembrete de que quem segurava a faca era ele.
- O que quer de mim, Mon chérie? – perguntei com sarcasmo.
Ele não gostava do medo, ele gostava quando eu lutava de volta, por isso me provocava e pressionava por uma resposta. Ele gostava de saber que estávamos no mesmo nível, ou pensar, porque ele podia ser esperto, mas eu era mais.
Se ele podia chegar até mim pelas minhas sombras, talvez eu pudesse chegar até sua telepatia da mesma forma. Tentei acalmar minha respiração e focar em como seu corpo funcionava, tentei fazer com que aquilo fosse o centro de tudo. A missão não importava, não existia mais banheiro ou restaurante, tudo o que existia eram minhas sombras e ele, o alvo delas.
Fechei os olhos e foquei em como seu peito se movia quando ele respirava, em como suas mãos eram firmes enquanto seguravam uma adaga contra meu pescoço. Lentamente desci meus braços, soltando seu pulso e o deixando confuso.
Ele me apertou com mais força e eu aproveitei aquela chance, lançando minhas sombras para que impedissem suas mãos de chegarem mais perto, daquela forma ele não conseguiria cortar minha garganta. Em uma tentativa impulsiva me joguei contra sua mente com a escuridão. Ele cambaleou para trás em surpresa e soltou a adaga, deixando-a cair no chão. Quando voltou a si tentou se abaixar para recuperar a arma, mas eu a chutei para longe enquanto respirava ofegante.
- Que jeito de tratar uma dama. – arrumei os fios do cabelo sintético e endireitei minha postura.
- Eu te cortejaria da maneira correta se me mostrasse seu verdadeiro rosto. – pude perceber quando seu corpo se tensionou como se estivesse se preparando para algo, como se soubesse o que estava prestes a acontecer.
- E qual seria a graça nisso? – tentei atacá-lo com um chute, mas ele foi mais rápido, desviando.
Ele jogou seu corpo em minha direção e eu me abaixei, mas ele caiu rolando para o outro lado e conseguiu a adaga de volta, girando-a pelos dedos e tentando me atacar com ela. Eu segurei seu cotovelo para que a adaga não pudesse me acertar e ele se soltou do meu aperto, tentando me atacar mais uma vez por um ângulo diferente.
Usei meus antebraços para bloquear o golpe e pulei para trás quando ele voltou a tentar, desviando da lâmina que cortou o ar.
Tentei aplicar um soco em seu rosto, mas ele deslizou para o lado e desceu sua mão com força, acertando minha bunda e me fazendo cambalear para frente.
Me virei com rapidez a tempo de ver seu sorriso e girei meu quadril para acertar uma série de socos, um em seguida do outro. Ele foi capaz de desviar de dois deles ao andar para trás e quando joguei meu punho em um ângulo lateral ele o bloqueou com seu antebraço, segurando meu pulso com a outra mão e tentando me acertar um soco.
Eu desviei e consegui acertar uma cotovelada em seu rosto ao perceber que ele tinha baixado a guarda ao tentar me golpear.
Ele se endireitou, inabalado pelo golpe mesmo que sua boca sangrasse e me acertou com um soco direto que me fez virar a cabeça. Certo, aquilo tinha doído.
Então ele esperou que eu me recuperasse apenas para tentar me atacar com mais uma série de socos, eu fui capaz de desviar de alguns antes de ser atingida, mas perdi a paciência e me preparei para revidar. No mesmo momento em que ele jogou seu braço direito no ar eu deslizei para o outro lado, agarrando seu ombro esquerdo e entrelaçando nossos braços antes de jogar seu corpo no chão, assim caindo com ele. Estávamos deitados, eu de barriga para baixo e ele com as costas no chão. Lado a lado.
- Me mostre seu rosto. – ele grunhiu, sua voz ofegante por conta da luta.
- Acho que não está em posição de pedir tal coisa. – respondi enquanto o imobilizava.
Antes que ele pudesse dizer algo e continuar nosso diálogo um grito ecoou pelo lugar, preenchendo cada centímetro do banheiro. Um grito familiar, que veio da voz de Mika.
Tinha ouvido aquele grito poucas vezes na minha vida inteira e ainda assim era um dos sons que eu mais odiava no mundo inteiro. Por isso, sem pensar direito ou analisar minha situação soquei o maxilar de / para que apagasse e corri para fora.
Quando pisei na área onde estavam as mesas meu passo diminuiu o ritmo ao avistar o que tinha acontecido. Todas as pessoas sentadas estavam apagadas, alguns garçons também se encontravam caídos no chão exceto por quatro deles, aqueles que já tiravam o uniforme de trabalho revelando outros trajes por baixo. Um deles inclusive era o suposto “garçom” que tinha me parado na frente do banheiro masculino.
Varri o perímetro com meus olhos e encontrei Mika e Takuma jogados no chão, sem sinal algum de consciência. Os agentes restantes da equipe não estavam ali.
Meus pés se preparam para correr até ela, mas fui impedida quando algo me puxou e eu senti o aço gelado de uma lâmina pressionando meu pescoço pela segunda vez em minutos.
- Ma chérie, foi muito rude da sua parte me bater daquele jeito. – as palavras foram sussurradas em meu ouvido de um jeito suave, muito diferente da forma como ele puxou meus braços para trás.
- O que fez com ela? – levantei minha cabeça e mantive meu tom de voz firme. Eu estava sendo imprudente, deixando que meu lado emotivo tomasse conta de mim.
- Isso importa agora? – avancei para frente ao tentar me libertar, mas a lâmina cortou minha pele superficialmente. Pude sentir o sangue escorrendo até minha clavícula.
Mas importava, era o que mais importava. A missão e a captura dele não eram mais importantes para mim, o que importava naquele momento era Mika, minha parceira. – Você achou mesmo que eu não tinha vindo preparado?
- Você... – seu aperto ficou mais forte e ele arrastou a ponta da adaga pela minha bochecha, fazendo minha respiração acelerar. Mesmo se eu conseguisse atacá-lo, não poderia sair com Mika dali tão rápido.
- Não poderia mesmo. – ele negou com um sorriso e eu congelei. Ele estava na minha cabeça. – E se eu estiver?
- Saia. – ordenei, tentando manter minha respiração constante.
- Acho que não está em posição de pedir tal coisa. – repetiu o que eu havia dito.
Em alguns segundos pude sentir minhas vias respiratórias fechando. Flashbacks invadiram minha cabeça e dor irradiou pelos meus pulmões.
“Qual é o seu nome?”
Não. Não. Não.
“Por favor. Ela é apenas uma criança. Eu não posso.”
- Saia da minha cabeça. – o que era uma ordem acabou saindo como um pedido, uma súplica. – Saia, saia da minha cabeça. Saia! Saia da minha cabeça! Saia!
Me sentindo transtornada e desesperada comecei a tentar fugir de suas mãos, me esquecendo totalmente de que uma adaga não me dava espaço para me mover com liberdade.
Eu lutei contra seus braços e até mesmo tentei pular, esquecendo de todas as estratégias que havia aprendido no meu treinamento, esquecendo de que era alguém capaz de lutar, alguém capaz de controlar a própria respiração.
- Saia! – gritei sentindo a lâmina em contato com a minha pele, tão perto de rasgá-la...
Antes que conseguisse me libertar a escuridão me atingiu e meu corpo todo se tornou mole. Meus olhos se fecharam relutantemente e minha última visão foi de Mika no chão, desacordada.
Clã Iga*: Foi um dos mais famosos clãs ninja de todos os tempos.
Clã Kōga*: Outro clã muito importante nas histórias dos ninja.
Mochizuki*: Mochizuki Chiyome foi uma nobre feudal japonesa do século 16, nascida no clã Kōga. Reza a lenda que ela decidiu criar uma escola específica para o treinamento de mulheres especialistas na arte da espionagem e sabotagem, ou seja, uma escola para formar as kunoichi (mulheres ninja).
Kunoichi*: é um termo utilizado para designar ninja do sexo feminino. As kunoichi eram treinadas para seduzir os senhores feudais, para que pudessem espionar os inimigos de quem as contratavam.
Katō*: De acordo com a história, Katō Danzō era um ninja praticante de feitiçaria, capaz de realizar feitos incríveis como engolir um touro inteiro com uma multidão testemunhando, jogar sementes no chão em segundos elas brotando virando flores ou sendo capaz até mesmo de levitar do chão e voar.
Shinobi*: Outro nome para se referir aos ninja.
Tak chto poydem na okhotu*: Então vamos caçar.


Continua...



Nota da autora: Sem nota.



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