Too Close To Heaven

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Última atualização: 18/05/2022

Prólogo
“I’m living with no fear”


Quando a vida inteira passa pela sua cabeça em questão de segundos. Quando uma cena passa em câmera lenta pelos seus olhos. Quando a adrenalina apaga todo o seu corpo, te impedindo de sentir dores, emoções, sentimentos e sensações.

Quando somos arrancados daqueles que amamos ou quando alguém é levado de nós.
Quando tudo passa e se torna indolor.
Quando uma porta se fecha.
É só você e você mesmo. Contra o mundo.

🏎


Sete meses depois do acidente de Nicolai, decidi que era hora de colocar todas as recordações em um baú no fundo do meu quarto e partir. Eu já não pertencia mais à minha casa e à minha família. Cada olhar vindo da minha mãe, que desejava não ter perdido um dos filhos, fazia meu coração doer um pouco mais.
Era hora de seguir em frente. Por mim. Por ele. Por nós e tudo o que éramos juntos.
A busca por um emprego, depois de ter ficado afastada por um longo período de tempo do mercado de trabalho, foi árdua e sofrida. Todos os “Obrigada pela participação em nosso processo seletivo, mas…” ou “Manteremos o seu currículo em nossos sistemas para futuras oportunidades”, me faziam querer gritar.
Cartas de recomendação rasgadas, currículos amassados, noites em claro e muito tempo desperdiçado me fizeram chegar perto de desistir. Eu já estava pronta para aceitar o fato de que deveria trabalhar como atendente de lojas no shopping próximo à minha casa, quando um e-mail apitou em meu celular.

“Querida, ,
É com imenso prazer que te damos as boas-vindas à Mercedes-AMG Petronas F1.
Gostaríamos de contar com a sua expertise em nosso time de RP, juntamente de Bradley Lord, diretor de comunicações da equipe.
A oferta inclui deslocamento até a Alemanha, moradia, salário mensal no valor de €5.000 e viagens de acompanhamento das corridas do campeonato vigente.
Indispensável ter disponibilidade para viagens frequentes.
Por favor, nos informe em caso de aceite da proposta.
Bem-vinda ao time”

Olhei por pelo menos dez minutos para a tela do celular, buscando entender se aquilo era real ou um e-mail fake de alguém fazendo uma brincadeira de muito mau gosto.

“É isso, Nicolai, nós vamos para a Alemanha”, pensei dentro de meu coração. Um coração que nunca será curado, mas que jamais temerá viver.


Capítulo 1
“Nice to meet you”


Além de uma casa muito bem localizada, com amplo jardim na frente, digna de filmes, localizada em Sindelfingen, ganhei também um carro: uma Mercedes Classe A sedan preta, que eu provavelmente nunca usaria. Segundo minha carta de boas-vindas, seria necessário para me deslocar até a fábrica, onde ficava também nosso escritório e conhecer ainda outros lugares fora da cidade. No entanto, desde a morte do meu irmão, eu nunca mais assumi a direção de qualquer veículo e ir andando para o trabalho seria com certeza minha escolha.

Com o frio cortante de -1ºC que fazia na manhã da segunda-feira, meu primeiro dia oficial como analisa de RP da Mercedes-Benz, vesti uma meia-calça térmica por baixo da roupa, uma calça pantalona de seda preta, botas de salto alto que eram cobertas pelo movimento da peça de baixo, a camisa oficial da equipe com um cardigã branco por cima e um super casaco preto com pêlos no capuz.
Apesar de odiar o inverno congelante, eu estava conformada pela certeza de que passaria pouco tempo por lá e fiz contas mentais de quantos dias faltavam para irmos ao primeiro país com o calor de 30ºC.
Aquecida e com todos os materiais que necessitava, caminhei por volta de 25 minutos até o grande prédio no centro da cidade. A grandeza era imponente e eu me senti orgulhosa por estar ali e fazer parte de um império do automobilismo. Logo em seguida, também me senti puta da vida de não ter usado um sapato sem salto para andar tanto.
Bradley, meu chefe, me recebeu cordialmente e me apresentou a alguns colegas, durante um tour pelo grande espaço. Os mais de 1.000m² eram divididos em baias quadradas com mesas cobertas de telas de computadores. Os corredores largos do mezanino, eram ocupados por uma grande movimentação de pessoas em roupas sociais que passavam apressadas e discutindo números, estratégias, peças de carros, análises e demais assuntos.
Bradley era um homem focado, acredito que por lidar com crises de mídia muito grandes, suas palavras eram pensadas e diretas, construindo frases de efeito. Com seu discurso, pude perceber a necessidade de estar com a cabeça inteiramente centrada no trabalho.
Pouco tempo depois, entramos em uma sala de reunião. Algumas pessoas já ocupavam as cadeiras, então me mantive no canto da sala, encostada em uma das paredes, com o objetivo de não interferir na visão de ninguém. Todos estavam ansiosos e o burburinho corria solto até a chegada de quem mais esperavam: Toto Wolff. O homem mais bonito do planeta. Alto, com 1,96m de altura, que fazia meus 1,52m sumirem, cabelos escuros e dono de um charme arrebatador.
As mulheres da sala, se ajeitavam em seus assentos, jogavam os cabelos de um lado para o outro, cruzavam as pernas e sorriam escandalosamente. Os homens, por sua vez, ficaram em silêncio, esperando que ele voltasse sua atenção à reunião.
Toto entrou conversando com um homem de cabelo grisalho, igualmente alto que tinha uma expressão séria fixada no olhar. Quando o silêncio total tomou conta da sala, a ponto de doerem meus ouvidos, levantei os olhos do aparelho celular, no qual me mantinha entretida, e cruzei com um par de olhos castanhos com sobrancelhas franzidas que me fitava de longe.

- Bom dia, senhores, vamos começar a reunião? Hoje teremos uma pauta bem corrida por motivos de… - Toto interrompeu o homem que começara a falar, fazendo sinal para que segurasse as palavras por um minuto.
- Temos pessoas novas na sala hoje? - Com os braços cruzados e ainda encostada na parede, me dei conta de que ele voltara a atenção de todos para mim, que passaram a me olhar, esperando por alguma palavra.
- É contigo, garota - Bradley me incentivou a me apresentar, com um toque em meus ombros, perfeitamente acompanhado pelo olhar de Wolff.
- Ah, sim, eeer… Oi! Prazer! Eu sou e hoje estou integrando o time de RP com o Bradley - Sorri para meu chefe, passando a palavra para ele, em uma tentativa frustrada de desviar a atenção de mim.
- E de onde você é, ? Esse sotaque certamente não é alemão - Uma das regras impostas pela empresa, era falarmos em inglês, pois haviam pessoas de todos os lugares do mundo e seria a forma mais democrática de nos comunicarmos. Tudo isso, fazia parte de um manual que li com rigorosa atenção antes de sair de casa.
- Certamente, senhor Wolff. Sou de Gênova, na Itália.
- Uma italiana no time da Mercedes? Devemos te considerar uma infiltrada de uma das nossas principais rivais? - Toto se sentou na cadeira que estava posicionada na ponta da mesa e batia os dedos de uma mão na mesa, enquanto apoiava o queixo na outra.

- Não, senhor, de forma alguma. Estou aqui para dar o meu melhor e me dedicar 100% à equipe - Cuspi as palavras sem nem ao menos respirar. Minhas bochechas vermelhas provavelmente entregaram o nervoso que tinha me tomado.

Naquele momento, eu desejei ter tantas outras nacionalidades. Nascer no Polo Norte já não me parecia uma má ideia.

- Está bem. Continuamos a reunião - Ele finalmente anunciou o começo do que seria uma longa discussão, esticando a mão para que o homem atrás de sua cadeira lhe entregasse a pasta que carregava consigo.

Sua atenção foi desviada para outro ponto, mas durante a 1h33 que permanecemos na sala, seus olhos voltaram para mim algumas vezes. O homem devia estar desconfiado e pronto para me ver cometer a primeira gafe em meio ao restante do grupo. O que ele mal sabia, é que, apesar de estar me chacoalhando por dentro, eu me obrigaria a transparecer muita auto-confiança. “Fica firme, fica firme, fica firme”, foi o mantra que passou pela minha cabeça pelo menos 180x.
Acenei algumas vezes com a cabeça, concordei e passei ilesa pela sessão de tortura inicial, rezando todas orações do meu caderninho para que não me perguntassem nada.
Quando todos saíram da sala e eu passava ao lado do homem para fazer o mesmo, fui interrompida.

- , certo? - Falou me fazendo desistir do meu próprio caminho com uma careta interna e encará-lo. Ele já estava de pé, o que me deixava mais baixa do que me sinto na maior parte das vezes.
- Isso mesmo, senhor Wolff. Muito prazer, conte comigo - Estendi a mão para um cumprimento em um momento de puro desespero e falta de opções de como agir com o chefe, do chefe, do meu chefe. Se enfiasse o braço no formigueiro, doeria menos do que a vergonha que estava passando.
- Você me parece muito jovem para assumir um espaço como esse aqui dentro, .
- Não, senhor. Tenho 22 anos, mas sou formada em comunicação social em uma das melhores universidades da Itália. Possuo diversos cursos de especialização voltados para comunicação digital e gestão de crises também - Sim, eu tinha tendência a destrambelhar a falar quando ficava nervosa. Ainda assim, eu era excelente no meu trabalho como relações públicas. O problema era quando a situação me envolvia pessoalmente.

Continuamos nos olhando por alguns segundos, até que uma mulher de cabelos loiros curtos entrou na sala, procurando por ele.

- Torger, vamos? Estamos atrasados.

Eu sabia quem era ela. Susie Wolff, ex-piloto e atual chefe de equipe da Venturi Racing, da Fórmula E. Ou, também conhecida como a esposa de Toto.
Seu tom não era amigável e ela parou na porta esperando que o homem a acompanhasse. Não me olhou. Não me cumprimentou. Eu era invisível naquele momento. Para ela.
- Pois bem, veremos de perto o seu trabalho então. Prazer em te conhecer, - E se retirou da sala, seguindo Susie.
- O prazer é meu - Falei baixo para mim mesma.


POV TOTO WOLFF


Uma nova pessoa, na primeira reunião do dia, chamou minha atenção. Era ela tão pequena que a fazia parecer frágil. Os cabelos castanhos claros contrastavam com os olhos azuis como o mar do sul da França.
Como chefe de uma das maiores equipes da mais alta categoria do automobilismo, e com muitos anos de experiência com liderança de equipes e gestão de pessoas, eu era bom em ler meus funcionários rapidamente. Com um pouco de análise, sabia exatamente como desenvolvê-los e tirar o melhor de cada um em suas respectivas responsabilidades.
Mas algo me intrigou na nova figura do canto da sala. Resolvi desafiá-la com algumas perguntas capciosas, com as quais todos acabam se enrolando e demonstrando suas inseguranças. Mas ela não. Ela tinha respostas para todas, mantendo a voz firme e a postura reta. Com o passar da reunião percebi que estava diante de um desafio com aquela menina, o que me deixava furioso, e não consegui desmanchar a expressão fechada durante todo o tempo.
Quando Susie chegou, me chamando para a nossa sessão de terapia de casal pela qual vínhamos passando pelo menos duas vezes por semana, me despertei dos meus próprios pensamentos.

- Pois bem, veremos de perto o seu trabalho então. Prazer em te conhecer, .

Segui minha mulher para o nosso compromisso, ainda intrigado com o que havia acontecido na última hora.

- Está perdido em pensamentos, Toto? Quem é aquela menina? Mais um de seus novos flertes? - Susie sabia que eu nunca me envolveria com alguém do trabalho, mas fazia questão de me alfinetar por conta do meu jeito cortês com as mulheres.

Além disso, o momento pelo qual nosso casamento está passando não ajuda. No último ano, passamos por algumas crises, chegando a nos separarmos por três meses. No entanto, resolvemos tentar uma segunda alternativa para nos reconciliarmos e mantermos nossa família estável, pensando principalmente em nosso filho Jack. Desde então, passamos a nos consultar com Suzanne, nossa terapeuta, para lidar com as situações do dia a dia, como falta de tempo, distância, crises de ciúmes e discussões pontuais.
Nossos dias se tornaram mais tranquilos, mas estávamos longe de ter um casamento perfeito ainda.
Naquela segunda-feira em específico, eu estava com a cabeça longe, focado em um novo problema que tinha me aparecido: .


Capítulo 2
“Tell me what it is you wanna know”


Eu estava determinada a aprender tudo sobre a Mercedes, suas comunicações e crises passadas, já que teria que lidar com elas a partir de agora. Por isso, meus dias ainda na Alemanha se resumiam a produzir planejamentos de conteúdos para as mídias, pensar em treinamentos de porta-vozes, revisar materiais antigos, atualizando com novos dados que eu recolhia de cada departamento e preparar materiais de apoio para entrevistas que teríamos na primeira corrida do ano, a etapa de Bahrein.
2022 prometia ser um ano agitado para a Fórmula 1 e também para a nossa equipe, uma vez que haviam novas regras, novos modelos de carro e mais competitividade na pista.
Lewis Hamilton, o piloto principal, também sofria uma pressão extra por não ter conquistado o octacampeonato em 2021, o que trazia uma cobrança de todos os lados para que isso acontecesse no próximo ano.
Além disso, a Mercedes havia cancelado a contratação de George Russel, piloto da Williams que faria parte da equipe, substituindo Valtteri Bottas e o piloto finlandês manteve sua posição. O que me deixava particularmente contente, uma vez que eu sempre simpatizei com o loiro de olhos azuis.
Já na segunda parte do meu dia, após o expediente, eu ficava pelo menos duas horas a mais para ler sobre a história da empresa e do chefe, do chefe do meu chefe, e estar pronta para qualquer situação na qual fosse colocada. Principalmente depois da série de perguntas de Toto que tinha passado.
Em uma das noites, próximo às 21h, estava comendo minha salada e lendo alguns documentos com todo o escritório já apagado, quando vi as luzes de uma sala se acenderem.
Um tanto quanto assustada, levantei devagar para averiguar quem seria o ser humano que me fazia companhia, apanhei meu grampeador, uma arma letal que me defenderia de qualquer intruso e comecei a andar até a sala, quando de repente as luzes se apagaram e a porta bateu com força.
Minha alma já tinha se perdido em algum lugar fora do meu corpo, quando decidi retornar ao meu lugar e me esconder. Apenas a luz da minha pequena luminária de mesa iluminava o pequeno espaço, enquanto eu voltava a comer, tentando esquecer a situação pela qual havia passado.
Chacoalhei a cabeça e voltei a focar nas palavras na tela do meu computador.

- Ainda…
- AAAAAAAAAAAH!!!!!!!!!!!! - Pulei da cadeira, levantando os braços para o alto e derrubando as folhas de alface e os mini tomatinhos do potinho por todos os lados.
- …por aqui? - O homem misterioso então terminou a frase assim que me encostei ofegante na mesa, com a mão no peito, buscando me recompor rapidamente.
- MEU DEUS! Como você anda sorrateiro uma hora dessas por aí? - Respondi assim que vi Toto se aproximar do mínimo feixe de luz, me fazendo sentir um alívio instantâneo por não se tratar de nenhum maníaco.
- Precisei vir buscar alguns documentos que ficaram em uma das salas - Ele respondeu com o olhar confuso, tentando entender o tamanho do meu susto - Você está bem?
- Agora estou. Mas por um momento achei que pudesse ser algum bandido ou…
- Ou…? - Seu olhar agora era de divertimento.
- Ora, sei lá. Não tinha ninguém aqui antes. Você me assustou.
- Bem, me desculpe - Ele sumiu por alguns instantes e retornou com um copo de água nas mãos, oferecendo-o para mim.
- Obrigada, não precisava se preocupar - Tomei um gole de água e comecei a recolher a sujeira que eu havia feito.
- Venha, deixe isso para amanhã - Ele me estendeu a mão - O que faz aqui até essa hora, ? Alguma crise que eu não esteja sabendo?
- Não, senhor. Estou apenas estudando materiais antigos e me inteirando da história da empresa e da sua.
- Da minha?
- Sim, afinal, agora eu também cuido da sua imagem. Preciso entender melhor toda a sua trajetória.
- E o que você precisa saber? Ninguém melhor do que eu mesmo para falar sobre mim.
- Senhor Wolff, não quero tomar o seu tempo. Posso tirar minhas dúvidas amanhã com Bradley.
- Vamos, você tem a fonte das informações bem na sua frente, . Aproveite, me pergunte o que quiser - Tenho certeza que aquilo era um teste sobre o quanto eu estava realmente estudando e não me abalei.
- Sendo assim… - Comecei uma série de perguntas me entretendo em cada história contada por ele. A forma como ele falava interessado e detalhista, o sotaque austríaco e toda a experiência e maturidade foram me ganhando aos poucos.

O tempo passou rápido e cada vez eu ficava um pouco mais fascinada pela sua carreira, fazendo novas perguntas. Ele começou como piloto, virou empresário e adquiriu grande parte da Mercedes, possuindo um patrimônio estimado em $700 milhões de euros.
Aos poucos, pude ver alguns tímidos raios de Sol baterem na minha mesa e iluminarem o espaço entre nós. Toto tinha a cabeça apoiada na mão, com quase todo o tronco esparramado pela minha mesa e me observava contar sobre uma matéria que tinha lido no Daily Express UK. Sua camisa tinha os três primeiros botões abertos, o que me permitia ter uma mínima noção do homem que estava debaixo daquele uniforme. Era sexy e tentava alguma coisa dentro de mim. Meu anjo interior me deu três tapas na consciência quando percebeu a direção que meus pensamentos tomavam.

- Uau, já é manhã? - Pausei minha leitura quando me dei conta do horário. Olhei no relógio e os ponteiros marcavam 5h30 - Meu Deus. Me desculpe por isso. Acho que me empolguei nas pesquisas e tomei todo o seu tempo.
- Não se preocupe. É bom parar e lembrar um pouco das minhas origens. E é bom colaborar com quem irá cuidar da minha imagem, não queremos que saia nada distorcido por aí - Ele falava com sorriso nos lábios e um tom leve, diferente do que vi em nossa primeira reunião.
- Obrigada, senhor Wolff. Me ajudou muito e me adiantou um bom tempo de pesquisas.
- É bom ver o quanto você está engajada. Mas não se esqueça, algumas fontes não são confiáveis. Faça bom uso das informações que EU lhe dei - Concordei com a cabeça e então ele se levantou, saindo do escritório, me deixando com meio mundo de esclarecimentos e meio mundo de confusão.


Capítulo 3
“Tell me what you’re doing with that other guy”


Finalmente a temporada de corridas estava aberta e eu estava ansiosíssima para o meu trabalho no Bahrain. Eu havia planejado diversas ações para ajudar a equipe a manter um alto engajamento nas redes sociais e queria colocá-lo em prática. Isso contemplava trazer mais o chefe da equipe para as redes, já que ele não tinha perfil próprio. Muitas equipes apostam na imagem dos pilotos, mas mostrar um pouco da equipe que também trabalha além das pistas seria meu diferencial.
Na quarta-feira peguei o voo para o meu destino, com uma mala compacta. Apenas o uniforme da Mercedes, algumas variantes de partes de baixo, tênis confortáveis e um vestido vermelho de seda para a festa de abertura da temporada que aconteceria no mesmo dia.
Ao chegar no Four Seasons me deparei com um enorme prédio construído no meio de uma ilha artificial. Após fazer check-in na recepção, subi para o 25º andar, onde o meu quarto tinha uma vista incrível da cidade e seu azul estonteante. Me joguei na cama queen size para experimentar, como costumava fazer em todos os hotéis por onde passava. A suíte era tão grande que era possível se perder, com sala de estar e até um closet que a quantidade de roupas que eu tinha, nunca seria capaz de encher.
Abri a mala rosa de rodinhas e estendi o meu vestido para desamassar. Separei as sandálias e uma bela lingerie rendada preta fio dental que não marcava no corpo.
Aproveitei a banheira do cômodo de mármore preto para tomar um banho longo e relaxante, me preparando para os dias de trabalho duro que teria pela frente. Blindar a Mercedes de muitos questionamentos sobre o campeonato e especulações que já nasciam sobre a competitividade com a Red Bull não seria fácil.
Algumas horas se passaram enquanto eu viajava em meus próprios pensamentos, coberta com água quente e embalada pelo som dos meus fones, até que me dei conta de que precisava realmente estar vestida e maquiada dentro de uma hora. Essa é minha maior habilidade, me adiantar, para me atrasar com calma.
Às 20h17 estava pronta, totalizando um atraso de 17 minutos, e me apressei para descer e encontrar os carros que aguardavam toda a equipe, hospedada no mesmo hotel, para o evento.
Saí correndo do elevador com passinhos curtos, mas o mais veloz que meus pés com saltos conseguiam e erguendo o vestido para não tropeçar e acabar pagando o maior mico da vida: chegar atrasada E rolando. Aquilo era típico de acontecer comigo.
Na grande recepção, olhei para os lados procurando por alguém da Mercedes, quase me sentindo derrotada, quando avistei meu chefe sentado em um dos sofás de veludo, juntamente com um dos nossos pilotos, apenas o principal piloto de todo o grid: Lewis Hamilton.

- Me desculpem, estou mega atrasada, né? - Bradley olhou para Lewis e ergueu as sobrancelhas e os ombros como quem lamenta o acontecido - Prometo que vou melhorar nesse aspecto, sabe como as mulheres são, cabelo, maquiagem, acabei… - Fui interrompida com o piloto se levantando e se posicionando atrás de mim com as mãos em meus ombros.
- Está bom, chega de torturar a menina - Virei a cabeça para o lado procurando pela figura dele e explicações sobre sua fala - Você não está atrasada. Os carros estão chegando em cinco minutos, relaxa - E imediatamente meus ombros relaxaram.
- Desculpe pela brincadeira, achei que seria uma ótima maneira de nos conhecermos e pedi a ajuda de Brad - E os dois caíram na risada.
- Fico feliz que estejam se divertindo com meu desespero - Falei enquanto estendia a mão em cumprimento para Lewis - Prazer, senhor Hamilton.
- Não, por favor. Senhor, definitivamente não. Para você, sou Lewis. E já me desculpo antecipadamente pelo trabalho que te darei nesta temporada.
- E por acaso você pretende me dar tanto trabalho assim? Nunca soube de grandes polêmicas com seu nome - Questionei em um tom divertido, já adorando o ter conhecido - A propósito, sou .
- Estamos começando uma guerra. É bom que você esteja armada, digo, preparada - Ele piscou para mim em sinal de que estava aprontando algo e eu rezei duas ave marias para proteger o homem e eu - Vamos, os carros chegaram.

Ele me ofereceu seu braço e eu pude ter um melhor equilíbrio do meu próprio corpo nos saltos, enquanto caminhava porta afora.
Um homem de terno preto, cap e luvas brancas abriu a porta de uma das Mercedes para mim e no momento em que eu entrava, cruzei o olhar com o homem alto que se virava em minha direção e falava no celular: Toto Wolff. Ele usava um smoking preto com camisa branca e gravata borboleta. Eu poderia me acostumar a encontrar aquele ser humano constantemente. Era como um colírio para os olhos. Um colírio que só podemos olhar e nunca chegar perto.
Fui acompanhada dos mesmos dois homens que me esperavam sentados na recepção, em uma conversa descontraída sobre GPs anteriores que aconteceram no país. Era um dos preferidos, não só pela pista, mas pela adrenalina do começo da temporada.
Ao chegar na festa, me senti um tanto intimidada pela quantidade de pessoas importantes que me rodeavam.
Aproveitei para garantir alguns cliques para compartilhar com a equipe de mídias sociais da Mercedes e observei quando Wolff chegou. Meu celular garantiu a cena dele saindo do carro, com o rosto sério se transformando em muitos sorrisos e poses para fotos.

- Ei, você é a , certo? Sou o Victor e essa é a Camille. Somos da equipe da mecânica e ficamos sabendo da sua contratação - Minha gravação foi interrompida por duas pessoas que se apresentavam e eu agradeci por finalmente poder conversar com alguém, já que tinha sido largada pelos meus acompanhantes.
- Oi, pessoal. Sim, eu sou a . Como assim vocês ficaram sabendo da minha contratação?
- Pois é, parece que ela causou algum rebuliço na liderança.
- E por que exatamente?
- Não sabemos muito bem, mas o que corre nos corredores é que o big boss quer acompanhar de perto o seu trabalho.
- Bem, ele me disse isso. Acho que ele não acredita no meu potencial. Mas estou pronta para mostrar tudo o que sei para ele.
- Você é decidida mesmo. Mas se acalme, essa não é uma briga que você queira comprar. Toto é muito legal com os funcionários, mas quando tem algum problema, o homem vira o capeta.
- Pois ele que não queira um problema comigo - E então caímos na risada.

Victor e Camille me chamaram para entrar no palácio, para onde o tapete vermelho se desenrolava. Eles me contaram algumas fofocas de backstage e foram me contextualizando de quem eram os rostos que eu não conhecia, me apresentando algumas figuras.
Eu estava feliz de começar a fazer amigos, conhecer os pilotos e já me sentir mais leve e em casa. Uma casa diferente. Uma casa mais acolhedora do que a minha vinha sendo nos últimos meses. Eu sentia saudades de Gênova, mas sentia mais falta do lar reconfortante que já tinha sido um dia e me joguei no mundo para buscar isso.
Parei sozinha por um momento na grande varanda e me deixei levar dentro da minha própria cabeça, enquanto sentia o vento forte beijar minhas costas que não vestiam mais do que um grande decote. Meus cabelos voavam encostando em meus ombros me fazendo arrepiar.

- Ficar sozinha aqui fora não é a melhor forma de fazer networking, uma das tarefas mais importantes do seu cargo - Senti as palavras de Toto me rebaterem e o homem se encostar de costas na grade do local onde eu estava com os braços apoiados.
- Obrigada por avisar. Deve ser por isso que já tenho o contato de doze jornalistas internacionais de automobilismo no meu celular, conheci todos os pilotos, fiz alguns amigos da equipe de mecânica e conversei com metade dos chefes da FIA, incluindo Michael Masi. Mas esse você já deve conhecer bem, não é mesmo?! - Eu tinha acabado de estar me sentindo em casa e no minuto seguinte rezando para não ser demitida.
- E onde será que eu estava que não vi tudo isso?
- No celular? - Ele me encarou por algum tempo.
- Problemas. Mas crianças não devem entender disso - Abri a boca afetada pelo que ele dissera.
- Eu. Não sou. Criança - Quando ele estava pronto para rebater, o aparelho que estava em sua mão começou a tocar e ele desviou o olhar para a tela brilhante que anunciava a chamada de Susie. Me olhou mais uma vez e saiu para atendê-la, me deixando na minha própria companhia novamente.
Avistei Victor e Camille na pista de dança e me juntei aos dois e mais alguns colegas que se aproximavam.

Músicas animadas não nos deixavam ficar parados nem por um momento. Até que fomos acompanhados por um dos pilotos mais famosos - e animados - Daniel Ricciardo e seu amigo - nada animado - Max Verstappen, ou também conhecido como nosso principal rival.
Dançamos até o chão, cantamos alto e brindamos algumas taças de champanhe.
Percebi um olhar distante me acompanhar e procurei quem me incomodava enquanto eu me divertia tanto depois de meses. Mais uma vez, meu olhar cruzou com o de Wolff, quando senti as mãos de Daniel encostarem em meu quadril e seu corpo colar no meu, me puxando para uma dança mais sensual. Os olhos distantes não se moveram, estavam fixos em nós e eu o acompanhei, tentando descobrir o objetivo daquilo. Meu corpo se mexia e acompanhava Ricciardo entre um movimento e outro, mas meus olhos estavam completamente estáticos.

- Você é uma das melhores dançarinas que já conheci. A propósito, bem-vinda, senhora Mercedes - O piloto australiano dizia próximo ao meu rosto.
- Obrigada! Você também leva jeito, senhor Mclaren - Meus lábios, cobertos com o batom vermelho intacto falaram em seu ouvido. Cada movimento ainda era acompanhado pelo olhar de Toto, que tinha agora um copo de Whisky nas mãos.
- Posso fazer isso a noite toda sem me cansar.

E então, quando “I wanna love you”começou a tocar, ele arriscou passos diferentes, me girando e colando nossos corpos de novo.

- Sabe, você é o tipo de mulher que enlouquece qualquer homem. Deve ser por isso que tem tanta gente nos olhando agora - Daniel não poderia estar mais enganado. Uma mulher como eu, pequena e sem curvas passa muitas vezes por criança, como já era a percepção de Torger, que observava provavelmente para julgar meu comportamento.
- Pelo contrário, os olhares são todos para você, piloto. Você está arrasando - Senti seus dedos passearem pelas minhas costas e fechei os olhos me entregando ao pequeno arrepio que ele me causava. Mas, de repente, meu estômago se revirou em memórias do meu ex-namorado, na forma como me tocava e como me fazia sentir, e eu me afastei em um reflexo, sentindo o enjoo sobressair qualquer sensação.
- Me desculpa - O olhei para que entendesse que o meu afastamento não era sua culpa e saí correndo para o banheiro com uma mão na boca e outra na barriga, tentando poupar um constrangimento público.

Por sorte, o banheiro estava próximo e eu consegui achar um lugar para golfar todas as más lembranças que se embolaram dentro do meu corpo. Permaneci sentada no chão encarando o vaso por alguns minutos. A cabeça girava pelo efeito do gin e da bomba de pensamentos que me caiu com um único toque.

Um pouco recuperada, me levantei e caminhei para fora do banheiro, procurando alguém para quem eu pudesse pedir ajuda e ir embora. Procurei pelo salão os olhos que antes me observavam, mas eu havia o perdido.

- Você está bem? - Por sorte, Lewis estava ao meu lado no momento em que eu mais precisava de um rosto conhecido e eu o pedi que me levasse embora.

Deixamos a festa abraçados e eu nunca agradeci tanto por ter alguém como ele ao meu lado.

- Sem conversa?
- Sem conversa! - Respondi com toda a certeza do mundo. Sem perguntas, sem julgamentos e me trazendo o que eu mais precisava, o conforto do meu próprio silêncio.

Quando chegamos de volta ao hotel, Lewis me colocou na cama, após eu ter dormido no carro, para que eu não acordasse até o dia seguinte.


Capítulo 4
“You’re undiscovered”


As festas da Fórmula 1 são o melhor momento para criar conexões, uma das coisas mais importantes em um universo que é comandado por contatos e dinheiro.
Sempre aproveito para beber com outros chefes de equipe, falar com estrategistas, estar de olho nas tendências e nos nomes que circulam no mercado para construir uma equipe mais sólida. Sem contar os figurões da FIA que gostam de serem mimados pelos CEOs e esse papel eu sempre faço bem.
No entanto, a ligação de Susie já tinha me deixado furioso e a minha raiva piorou ao ver com o piloto de uma das nossas principais rivais. A forma como bebiam e dançavam juntos só me fazia pensar na péssima contratação que havíamos feito. Com certeza ela não estaria pronta para as coletivas do dia seguinte e apareceria de ressaca e agarrada com alguém de outra equipe.
O ódio me corroía quando novamente meu celular tocou e Susie insistiu em uma discussão banal, me distraindo do meu foco. Quando me livrei do problema do outro lado da linha, havia perdido o novo casal.
Me sentei, sentindo cada nervo do meu corpo saltar. Recobrando a consciência, olhei para a porta e me deparei com a pior cena da noite, me fazendo despertar que o meu problema não era com Daniel e sim com meu próprio piloto. Lewis saía abraçado com e eu sabia o que aconteceria a partir dali. A cena dos dois juntos em uma cama de hotel revirou minha cabeça e meu corpo ardia ainda mais.
Soquei a mesa e decidi que era hora de ir embora, para que ninguém me visse naquele estado.

Revirei na cama a noite toda, perdido em mil pensamentos. tinha algo que nenhuma outra mulher tinha, mas não me deixava descobrir. Não me deixava penetrar nem mesmo a primeira camada da sua atmosfera tão gélida e tão graciosa ao mesmo tempo.
Pela manhã, desisti de ficar deitado e fui dar um mergulho na piscina para esquecer toda a noite passada e focar no mais importante: o início da temporada.
A água morna envolvia meu corpo e me livrava finalmente da alta temperatura que cheguei ontem. Me sentei na cadeira confortavelmente enquanto esperava que a água escorresse naturalmente da minha pele, quando vi adentrar o ambiente.
Ela olhava para os lados, procurando por algo, ou…se certificando de que não teria ninguém ali. Por sorte, não me reconheceu e se livrou do roupão felpudo que vestia, me revelando a mais bela surpresa: Seu corpo perfeitamente desenhado em um biquíni que contrastava com a pele bronzeada e iluminada. Apesar de pequena, ela escondia um universo só dela por baixo da roupa, por baixo da pele. Ao se virar para entrar na piscina, dei de cara com a minha segunda surpresa: Uma cicatriz grande e profunda na barriga que alcançava todo o lado direito de seu abdômen, até o começo da parte de baixo da roupa de banho e outra igualmente profunda na coxa direita. Era isso que, provavelmente, ela se preocupava que alguém conhecido visse. E nesse momento, tive a confirmação do que eu já desconfiava antes: tinha muito a ser descoberto.


POV
“Every breath you take, I'll be watching you”


Tudo o que eu mais precisava. Paz para restabelecer meu equilíbrio interno. Acordar no dia seguinte de uma tempestade de sentimentos e ter que lidar com a realidade é doloroso tanto física, como emocionalmente. Mas com uma noite de sono e um pouco de água quente, tudo fica mais fácil.
Resolvi me desafiar e atravessar toda a enorme piscina aquecida por baixo d’água. Quando quase chegava ao outro lado, coloquei as mãos para cima, para retornar à superfície e pegar impulso para respirar na borda. No exato momento em que coloquei a cabeça para fora e tomei fôlego, abri os olhos e dei de cara com o homem que se tornara minha sina nos últimos dias. Ele estava agachado na beira da piscina, com uma toalha enrolada na cintura e cabelos molhados bagunçados.

- Toto? - Quase mergulhei novamente pensando em quanto tempo ele podia estar ali.
- Se recuperando da festinha de ontem?
- Nã- não… Só vim dar um mergulho para refrescar a cabeça. Há quanto tempo você está aí?
- Eu sempre estarei por aqui, . A cada suspiro que você der, cada movimento que você fizer, cada passo que você der, eu estarei te observando - Meu coração gelou com o tom ameaçador que saía da boca de Torger. Mas eu não podia me deixar abalar, eu precisava me posicionar para ele entender que eu não o temia, apesar de temer em cada centímetro do meu corpo.
- Sinto muito por você, ficará entediado com a minha vida.
- Estou certo de que não ficarei. Já vi o seu show de ontem. Também vi com quem foi embora e posso imaginar o que estava fazendo até agora de manhã.
- Você pode controlar as minhas responsabilidades no escritório, no circuito e até nos eventos corporativos, mas fora do meu horário de trabalho, minha vida não lhe diz respeito - Apoiei mais força nos braços para deixar meu corpo um pouco mais para fora da piscina, comprimindo o espaço entre nós. Toto não se acanhou e não se mexeu, diferente do que eu achei que faria. Ele não era fácil de se intimidar.
- Você ainda vai ter que aprender muito sobre mim, - E foi a vez dele se aproximar, deixando nossos rostos praticamente colados. Eu podia sentir o cheiro mentolado de seu hálito próximo à minha boca.
- Com todo prazer, Torger - Recuei por fim, afundando e nadando em direção oposta à ele. Voltando em busca dos meus itens, para que pudesse descer e tomar banho.

Antes de sair, passei a mão pelas minhas cicatrizes e me dei conta de uma das coisas mais importantes daquela manhã. Toto podia ter visto as marcas na minha pele. As marcas do pior dia da minha vida. As marcas que eu lutava tanto para cobrir, mais do que qualquer coisa.


Capítulo 5
“Green flag”


Eu finalmente estava lá. No meio do Paddock. Na correria. Organizando uma agenda enorme de postagens nas redes com a equipe de mídia e pedidos de entrevistas com nossos pilotos e o chefe da equipe.
Durante os dias das corridas, milhares de pessoas, como pilotos, mecânicos e engenheiros, jornalistas, convidados e fãs que investem uma boa quantidade de dinheiro, circulam no Paddock, local que reúne motorhomes, boxes e tem uma vista privilegiada das corridas.
A mídia fervia com especulações sobre as atualizações dos carros e possíveis estratégias, além, claro, da rivalidade entre Hamilton e Max.
Bradley, meu chefe, acompanharia Toto nas entrevistas dos principais veículos de imprensa, como a Sky TV 1, pois o homem estava enfurecido e louco para provocar Christian Horner, o chefe da Red Bull Racing, ao vivo.

- Toto, vamos? A entrevista com a Sky TV começa dentro de dez minutos e precisamos te posicionar, ajustar o microfone e repassar o material.
- Quem irá comigo?
- Eu mesmo! Vou cuidar de tudo e conversar com o produtor para evitarem pegadinhas no meio da entrevista.
- Quem preparou esse material? - Toto olhava o documento com perguntas e respostas que eu mesma havia preparado durante os últimos dias e eu fiquei apreensiva de ter feito algo errado.
- Foi a . Mas eu revisei tudo e me parecem respostas muito assertivas para usarmos.
- Ela vai me acompanhar - Ele deixou o papel na mesa e bateu os nós dos dedos sobre ele, como um juíz que toma uma decisão. Eu arregalei os olhos em direção ao meu chefe, buscando por ajuda.
- Toto, hoje é o primeiro dia dela e está ocupada com outros conteúdos. Acredito que o ideal seria que eu o acompanhasse e ela pode participar em uma próxima oportunidade.
- Ótimo! Então saberemos se ela está realmente preparada para esse cargo. Ela me acompanha - Não havia mais espaço para contestamentos e eu comecei a tremer.

🏎


Saí pela porta do motorhome e encontrei um Toto de braços cruzados me esperando. Caminhamos lado a lado pelo Paddock até chegar ao ponto combinado. Enquanto duas mulheres colocavam o microfone no meu chefe, eu conversava com o produtor para que evitasse perguntas sensíveis ou nos colocasse em situações desconfortáveis, em um clima amigável. Torger, assim como na festa, não desgrudava os olhos de mim, acompanhando cada movimento. Tudo era perfeitamente analisado. Acredito que se ele me mandasse embora por justa causa, ele iria querer ter todos os argumentos na ponta da língua.
Stephanie, a repórter loira de quase 2m de altura, apareceu com um vestido florido colado ao corpo bem desenhado, completamente focada em Toto. Por um momento o olhar dele desviou de mim e se concentrou na beldade que parou em sua frente.

- Como vai, Toto?
- Vou bem e você, Stephanie? Por favor, não me maltrate na frente das câmeras, isso não seria bom para nenhum de nós.
- Você sabe que eu nunca te maltrataria ao vivo, não é mesmo? - Enquanto ela falava, insistia em tocar no braço do homem. O clima de intimidade deles despertou um farol estranho dentro de mim.
- Vamos começar a entrevista? Temos uma agenda lotada hoje - Rompi a atmosfera que os dois tinham entrado sozinhos e os sorrisos que os dois trocavam.

Me posicionei atrás da mulher para que pudesse ficar de frente para Wolff e assoprar respostas, caso fossem necessárias.
Apesar de algumas caretas que fiz por conta das cutucadas que ele deu em nossos adversários, a entrevista foi tranquila até a última pergunta.

- Muito bem, Toto Wolff, me conte detalhes sobre o novo carro de vocês, potência, dados, o que tiver para compartilhar conosco - E então Toto olhou para o chão pela primeira vez, dando o primeiro sinal de que algo não estava certo.
- Bom, Stephanie, nós viemos de uma temporada sem muitas atualizações no W12, para 2022 nós revimos muitos relatórios e análises e construímos um carro totalmente novo. Eu… Não sei exatamente o que posso… - Ele começou a ser prolixo e eu entendi o recado. Apesar de participar de todo o processo de construção e desenvolvimento do carro, ele não estava com as informações técnicas na cabeça, além daquela pergunta nunca ser feita para um chefe de equipe, e então decidi agir. Por sorte, em um dos meus estudos, decorei toda a ficha técnica do W13.

Por trás da mulher, comecei a gesticular alguns números e rezar para que ele entendesse leitura labial, enquanto eu passava informações sobre algumas partes do carro como motor, unidade de potência e transmissão.
No começo, me olhou confuso, mas por conta de uma conexão que criamos quase que emergencialmente, ele conseguiu transmitir tudo o que eu lhe indicava de longe e a entrevista terminou em sucesso absoluto.

- Obrigada, Torger, devemos fazer isso mais vezes.
- Você sabe onde me achar, Stephanie - Revirei os olhos com todo o flerte que rolava descaradamente e provavelmente demonstrei minha inquietação, quando comecei a puxá-lo dali.
- Ei, ei, , espera! - O produtor veio atrás de mim depois de nos afastarmos um pouco - Estava pensando, você estará por aqui nos próximos dias, certo? Será que poderíamos…hum…tomar algo?
- Não, ela não poderá, rapaz. Estamos focados na primeira corrida e temos muito trabalho a fazer - Essa era a vez de Toto se intrometer no meu flerte, o que me deixou enfurecida. Não que eu fosse mesmo aceitar, mas qual era a necessidade daquela atitude?
- Err…com licença - Empurrei Toto, me aproximando mais do rapaz - Infelizmente estamos mesmo com muito trabalho nessa rodada, mas que tal em uma próxima, se nos encontrarmos?
- Ah não, claro, eu entendo. Então você me deve um drink no próximo circuito. Vou cobrar - E então ele se afastou, me deixando sozinha com Torger novamente.
- No próximo circuito? Acho que você ainda não entendeu a quantidade de trabalho que temos por aqui.
- Torger! - Minhas mãos estavam fechadas e se apertavam com a raiva que havia dentro de mim - Já falei que fora do meu horário de trabalho, você não tem nada a ver com a minha vida.
- Você devia me agradecer, te fiz um favor. Com certeza esse produtor só queria te deixar bêbada e arrancar informações sobre a nossa estratégia - Ele falava com naturalidade, enquanto uma mão zapeava o celular e a outra estava no bolso da calça, em uma postura relaxada.
- Você não tinha esse direito! - Perdi toda a consciência que restava dentro de mim e soquei seu peito, o empurrando e saindo correndo para que ele não visse as lágrimas de raiva escorrerem pelo meu rosto.

Me tranquei no primeiro banheiro que encontrei no meu caminho e me joguei no chão, chorando e libertando todo o sentimento que estava explodindo em meu coração.
Ouvi algumas batidas na porta e uma voz pedir para entrar, já sabendo de quem se tratava. Alcancei a maçaneta e liberei a entrada de Lewis sem me levantar.

- Ei, o que houve? Por que você está chorando? - Ele se abaixou e passou as mãos pelos meus cabelos.
- Ele me odeia, Lewis - Eu deitei a cabeça em seu ombro - Ele nunca vai deixar eu fazer o meu trabalho em paz. Ele não confia em mim - À medida que as palavras saíam da minha boca, tornava todo o meu medo real e meu choro se intensificou.
- Quem? Quem fez isso com você?
- Toto.
- Olha pra mim, , olhe agora - Ele segurou meu rosto com as duas mãos - Não fale uma besteira dessas. Ele é o melhor chefe desse Paddock. Ele é justo, sabe tratar todo mundo com respeito e identificar as qualidades de cada um.
- Então por que desde o primeiro dia ele não me deixa em paz?
- Você está há pouco tempo aqui. E pode estar nervosa com os primeiros dias, mas eu te garanto que ele não está te perseguindo, nem nada do tipo. Dê um voto de confiança a ele e principalmente, a você.
- Está bem - Eu começava a me acalmar com as palavras de Hamilton. Ali, eu me sentia acolhida, me sentia protegida do mundo.
- Estarei sempre aqui - Ele me deu um beijo na cabeça e me repousou em seus braços.
- Obrigada, Lewis. Eu vou ser mais forte, eu prometo.

🏎


No domingo, Lewis e Bottas estavam prontos para entrar no carro e eu desejei boa sorte para cada um deles.

- , toma aqui - Lewis colocou seu boné em minha cabeça e me entregou uma das correntinhas que ainda usava - Me dê sorte, hein?!
- Você não precisa de sorte, você é o maior de todos! Vai lá e arrasa.

Me posicionei então em um espaço mais afastado das telas e controles principais, para não atrapalhar o trabalho de ninguém.
Toto que já estava sentado em sua cadeira, no mesmo lugar que sempre ficava, olhou para os lados procurando por algo e me encontrou. Então, ele fez sinal com a mão para que eu me aproximasse e eu me amaldiçoei até a minha próxima encarnação por ter ficado o olhando.

- Quero que você acompanhe a corrida de perto - Ele me entregou um grande headphone preto com símbolos da Mercedes dos dois lados e afastou sua cadeira para o lado, para me dar visibilidade da mesma tela que a sua. A proximidade entre nós, fez com que eu prendesse a respiração até quase ficar roxa. Até respirar perto dele, requeria um cálculo mais complexo que o Teorema de Pitágoras.

Me lembrei de soltar o ar e inspirar novamente, recompondo a minha própria vida.

- Consegue ver Lewis? - Ele apontava para Lewis na tela - Precisamos acompanhá-lo aqui. Mas mantermos sempre o olho nesse gráfico. Ele nos mostra o desempenho do carro e a saúde dos pneus.
- E você sinaliza para Bono se ver algo errado?
- Na maioria das vezes não. Deixo o engenheiro de Lewis e nossos estrategistas trabalharem. Só interrompo, quando é realmente necessário - Eu o xinguei mentalmente de dezenove palavrões diferentes por não me deixar fazer o meu trabalho, como deixava Bono e os demais.

Após a volta de formação, todos os carros se posicionaram no grid. Lewis era o primeiro, seguido por Bottas e fechando a linha de frente, Max Verstappen da Red Bull, em terceiro.
E então, a bandeira verde foi dada. As luzes vermelhas se acenderam e em seguida começaram a se apagar uma a uma, dando início a não só a uma corrida, mas dando início a uma temporada que prometia pegar fogo nas pistas.
Lewis e Bottas defenderam a posição, mas Max foi ultrapassado por Lando Norris da Mclaren que vinha logo atrás.
Assim que os nossos dois pilotos passaram pela primeira curva, garantindo já uma boa vantagem, dei um pulinho em meu lugar com os braços pra cima, em comemoração e Toto me olhou com divertimento.

- Esses botões permitem termos comunicação direta com os pilotos, mas o rádio é aberto a todas as equipes e é por isso que criamos códigos - Ele me explicava pacientemente.
- Ah, como quando vocês falam que os pneus estão sem aderência, mas na verdade eles aguentam ir até o fim da prova?
- Exatamente isso.
- E nessa tela aqui? O que estamos vendo?
- Aqui é a tela de configurações de dentro do cockpit, temperatura, estabilidade, tudo o que precisamos analisar para deixar os pilotos o mais confortável possível.
- Uaaaaau! Deve ser um sonho andar um carro como esse.
- Oras, você trabalha na Mercedes, não será um problema. Podemos arrumar um carro e você dirige.
- QUE? Não, não de forma nenhuma. Eu não dirijo.
- Não dirige e está trabalhando em uma das principais equipes, da mais alta categoria do automobilismo?
- Irônico, né? Eu sei. Mas…
- Diga.
- Não, não é nada, deixa pra lá. Quero continuar aprendendo sobre os botões.


Capítulo 6
“This hurts like hell
But I keep telling myself
It's gonna get better”


- Sobre botões? Hahaha - Ele riu divertidamente pela primeira vez em minha presença.
- E telas, e aceleração e estratégia… você sabe, essas coisas podem ser importantes para estarem nos materiais de apoio às entrevistas e até nas redes sociais - Mais uma vez tagarelei em frente ao homem.
- Vai ser um prazer te ensinar - Ele olhou fixo para mim e lá estava eu, sem respirar novamente.
Fui obrigada a fazer o ar circular pelos meus pulmões quando Bono chamou Toto, pedindo que ele entrasse no rádio e repreendesse a atitude de Hamilton. O piloto inglês estava enfurecido e atacando sem piedade o seu principal rival, Max Verstappen, que o ultrapassara na terceira curva do circuito, durante a 23ª volta.
- Lewis, retome a estratégia C e se mantenha nela - A voz de Toto era serena e parecia paciente, mas as veias pulando em seu braço demonstravam tudo o que ele não era naquele momento: calmo - Confiamos em você.
- Então me deixem fazer o meu trabalho - Lewis retrucou completamente no tom oposto do que o chefe havia usado e eu comecei a entender muitas coisas.
A primeira era que Lewis sabia o que estava fazendo, foi exatamente sobre isso que ele me alertou na primeira noite que nos conhecemos. A segunda era que eu definitivamente teria muito trabalho na coletiva após a corrida. E a terceira era que ele tinha muito poder e influência sobre Toto. Essa última ficou clara após Toto ficar com o dedo em cima do botão de comunicação, pronto para retrucar Hamilton, mas desistir segundos após a ultrapassagem que levou o piloto do carro 44 até o final da corrida como campeão. Não seria um ano fácil e ali foi a amostra disso.
O troféu veio, assim como a primeira comemoração. E foi emocionante ver aquela cena. Era o dia da redenção de Lewis Hamilton. Ele estava de volta e mais forte do que nunca. Imparável, inquebrável, invencível.
Aplaudi de dentro do box toda a comemoração e permiti uma lágrima escorrer pelos meus olhos. Era difícil chorar. Era doloroso, porque era doloroso sentir qualquer coisa. Eu odiava ser tão destruída por dentro a ponto de não deixar que ninguém me visse estar feliz ou emocionada, seja lá o que fosse aquela sensação que corria dentro de mim.
Quando meu irmão faleceu e as primeiras lágrimas caíram, fui obrigada amargamente a engoli-las quase que por ordem de minha mãe que não permitia que eu sofresse. Talvez porque ela me culpava. Ou talvez porque ela acreditava que eu deveria ser grata por ainda ter a minha vida. Ou talvez pelo simples fato dela precisar que alguém fosse forte o suficiente para que ela pudesse ser fraca. Era algo que eu nunca descobriria.
Me perdi nos pensamentos e toda a felicidade que havia tomado meu peito, se tornou um grande nó na garganta. Por sorte eu estava sozinha e pude chorar aliviada e segura.
Alguns minutos depois, todos deixaram o pódio e seguiram para as entrevistas no cercado de jornalistas, as quais Bradley acompanharia. Os mecânicos se dirigiram ao motorhome e eu comecei a juntar minhas coisas no maior silêncio das últimas horas. Meu coração agradecia por aquele momento.
Enxugando as últimas lágrimas, comecei a andar lentamente pelo box e observar cada um dos milhares de itens e compartimentos que haviam por ali. Pneus, chaves de fenda dos mais variados tipos e tamanhos, até um macacão estava jogado no chão e eu pude tocá-lo. Levantei a cabeça, olhei ao redor e percebi que não estava mais sozinha.
- Eu… eu não estava… quer dizer, eu estava só recolhendo minhas coisas.
- Por que está chorando?
- Não estou! - Retruquei rápido e firme. A última pessoa que poderia imaginar que eu estava chorando era ele - Inclusive, já estou indo, até mais.
Quando caminhava para fora do box, para seguir meu caminho, fui impedida pelo braço de Toto Wolff, que estava encostado na porta do pequeno ambiente. Ele não me olhou e não se moveu, apenas colocou o braço travando a porta e impedindo minha passagem.
Sem autorização, dei alguns passos para trás e ele me acompanhou, até eu encostar na cadeira que ele ocupava mais cedo.
- Senta aí - Era uma ordem.
Esqueci por um momento que, ao me sentar, a saia que vestia, subiria e deixaria um pedaço da cicatriz exposta.
Ele estava parado em minha frente, com os braços cruzados e a postura invejável de um dos homens mais ricos e poderosos do mundo. O olhar era frio e a expressão séria. Séria demais para quem tinha seus dois pilotos no pódio do fim de semana e um deles com a vitória nas mãos.
Sem cerimônias, seus olhos recaíram para as minhas pernas. Eu acompanhei o olhar estático do homem e então me toquei do que ele procurava. Toto tinha me visto na piscina, agora era óbvio. O silêncio entre nós disse coisas que um milhão de palavras não seriam capazes.
Em um movimento lento e arriscado, ele passou a ponta dos dedos da mão esquerda sobre o pedaço de pele marcada que era visível. Fechei os olhos e senti meu coração se atropelar durante suas próprias batidas. Lutei contra mim mesma, mas quando pude sentir meu corpo novamente, minhas mãos já estavam sobre a sua, implorando para que parasse com a tortura que ele nem sabia que causava.
- Dói? - Fiz sinal negativo com a cabeça, ainda que a expressão fosse de dor.
Toto estava mais próximo a mim, seu rosto a centímetros do meu e nossas mãos presas ainda em minha perna.
- Não é a única, né? - Fiz sinal negativo com a cabeça novamente.
Ele mexeu a mão sob a minha, acompanhando a marca até a barra da saia, tentando descobrir até onde ela ia e explorando o meu limite. Suspirei com a dor interna que aquele toque me fazia sentir e apertei ainda mais os olhos, me negando a encará-lo naquela situação.
- Vai me contar? - Ele perguntou ainda mais próximo a mim, quase sendo possível sentir seus lábios em minha bochecha. Mais uma vez fiz a única coisa que me restava e neguei com a cabeça. Não tinha forças para falar, responder ou protestar - Eu preciso saber, .
- Não posso - Fui além da minha alma para proclamar as duas palavras e empurrei sua mão para longe de mim.
- Você não vai se esconder de mim. Eu vou descobrir, é só uma questão de tempo, espero que saiba.
- Me deixa em paz! - Sai correndo de dentro do box, sem meus materiais, sem minhas anotações e sem o pouco de dignidade que ainda me restava nessa vida.
Quando eu finalmente achava que seria capaz de deixar tudo para trás, Toto apareceu para remexer no meu pior pesadelo. Eu estava fodida.


Capítulo 7
“Baby, tell me how did you get so cold enough to chill my bones”


POV TOTO


Empurrei o banco que estava à minha frente, no momento em que me deixou sozinho dentro do box com aquele monte de dúvidas sobre ela.
Era quase desesperador o quanto ela escondia e não me deixava ter acesso a nada.
- Toto, vamos? - Mal pude me recuperar, ainda estava fervendo de raiva e Bono me chamava para a coletiva dos vencedores que começaria em alguns minutos.
Caminhei pelo Paddock até o auditório pisando fundo. Estava pronto para brigar com qualquer ser humano que cruzasse comigo.
Quando entrei no ambiente, Lewis se preparava para responder aos jornalistas que estavam ávidos para comer ele vivo pelas investidas agressivas que fez na pista contra Verstappen uma hora antes.
Bradley e repassavam estratégias de respostas e orientavam Hamilton. Ouvi os dois discutirem sobre quem estaria com meu piloto. Eu sabia que ele estaria bem preparado por Bradley, mas já que a garota italiana não fazia questão de se abrir pra mim, eu iria testar chave por chave para arrancá-la de dentro dela mesma.
- , está preparada? - Vi ela se virar para mim com os olhos vermelhos que só eu sabia o motivo.
- Desculpe. Para o que, senhor? - Ela conseguia ser ainda mais fria do que eu, mas nessa guerra de braço, eu me recuso a perder.
- Para entrar com Lewis, para o que mais seria? Acredito que já bateu todos os detalhes com Bradley.
- Não vou acompanhar Hamilton agora, quem vai é o Bradley.
- Como é que é?
- Eu disse que quem vai acompanhar o Hamilton no ninho de cobras que ele mesmo criou, será o meu chefe, uma pessoa sênior que está altamente preparada para situações como essa e que atua na equipe há anos - Ela falava mais alto e devagar, como se conversasse com um idoso que precisa de ajuda para entender o que saía daquela boca. Filha da puta.
- Não, não. Essa parte eu entendi. O que eu estou tentando descobrir é em que momento você ganhou autoridade para tomar decisões por aqui - Ela recuou e foi a minha deixa para seguir em frente - Inclusive, acho que quem não entendeu alguma coisa foi você, senhorita, mas eu faço questão de explicar, porque estou muito paciente hoje. De manhã mandei você me acompanhar e estou fazendo a mesma coisa agora com o meu piloto.
- Toto, acredito que dessa vez realmente seja melhor eu acompanhá-lo. Hamilton nunca teve uma abordagem como a de hoje e essa briga com Max, por mais que seja antiga, está apenas no começo. Eu tenho histórico da Mercedes, posso ser mais útil nesse momento.
- Admiro a atitude, Bradley, no entanto, você não confia no trabalho da pessoa que contratou?
- Claro que sim.
- Então espero que eu também passe a confiar - Passei pelos dois e sabia que ninguém se atreveria a discutir comigo.
Me aproximei de e pude vê-la ficando vermelha, assim como os olhos que se enchiam de água. Por um momento, ousei ter pena, mas me lembrei do quanto ela mesma gostava de desafios.
- Agora engula esse choro, entre naquela sala e acabe com a raça de quem se atrever a questionar qualquer atitude de Lewis - Falei próximo de seu ouvido, enquanto mexia no celular, sem me importar com qual seria sua reação.
Me sentei nas últimas cadeiras para observar o show e vi Lewis entrando ao lado de e se posicionando na cadeira do meio. Ela estava parada atrás, exatamente no lugar que deveria ocupar. Infelizmente era impossível ler seu olhar, tão gelada e imparcial quanto eu odiava.
A chuva de flashes não parou, mas ela estava intacta. Sussurrou algo no ouvido de Lewis, com quem eu sabia que ela tinha intimidade suficiente depois da noite em que saíram juntos da festa, e ele estava confortável.
“Lewis, você considera Max Verstappen uma ameaça ao título novamente esse ano?”, “Lewis, a Mercedes te apoiou na abordagem de hoje?”, “Lewis, veremos investidas mais agressivas nessa temporada?”, foram algumas das perguntas feitas ao inglês.
Os assessores possuem carta branca para intervir em qualquer momento da entrevista, se sentirem necessidade. sabia que Hamilton se saía bem sozinho, mesmo no improviso.
- Lewis, com os erros de estratégia e problemas do carro no último ano, você acredita que a parceria entre você e a Mercedes esteja abalada e irá afetar a sua carreira na Fórmula 1 e na briga pelo octa campeonato? - Perguntou o repórter de um jornal que nunca havíamos ouvido falar. Todos se entreolharam na sala, admirados pela coragem do jovem rapaz. Esse era o típico momento em que um assessor pode intervir e eu esperava que o fizesse.
Não me decepcionei e logo a resposta veio:
- Com licença, senhores. Acredito que essa seja uma coletiva de imprensa para falarmos sobre a performance dos três pilotos na corrida de hoje. O senhor do jornal… como é mesmo o nome do seu jornal? Tem alguma pergunta que não seja uma ofensa direcionada para Lewis Hamilton?
- O que quero saber é se ele está confortável em correr em uma equipe que cometeu tantos erros no último ano.
- Temos uma equipe de mais de 1.500 funcionários focados em engenharia, fabricação, desempenho, estratégia, administração e demais áreas que resultam em um trabalho de excelência na pista. Lewis Hamilton possui um contrato de mais dois anos de permanência na equipe e continua lutando bravamente pelo título junto da Mercedes AMG F1, não é pela Red Bull, não é pela McLaren, mas pela Mercedes. Nossa equipe não comete erros, mas evolui constantemente. Algo que queira acrescentar, Lewis? - O piloto negou com a cabeça.
Ela foi perfeita. Não levantou a voz em nenhum momento, mas estraçalhou qualquer resquício de outras perguntas que poderiam vir na sequência se tivesse fraquejado.

devolveu o microfone para ele e a coletiva seguiu mais tranquila do que entrevista sobre paisagismo.

🏎


Eu estava quase certo que podia confiar plenamente na nova funcionária, mas um último teste no dia para arrebatar qualquer emoção de me atiçava. Por sorte, meu celular tocou em uma chamada de Stephanie, a mulher para quem eu havia concedido entrevista mais cedo, em uma tentativa de entrevistar Lewis com exclusividade após a coletiva agitada.
- , parabéns, se saiu bem na coletiva.
- Obrigada, senhor - Eu podia sentir seus olhos me fuzilando.
- Não será nenhum problema acompanhar Hamilton na última entrevista do dia, imagino eu.
- Como assim última entrevista? Não temos mais nada programado hoje e estamos liberando toda a equipe.
- Stephanie pediu uma exclusiva e está vindo para cá.
- Exclusiva? Bradley não me avisou nada sobre isso e… e… ele já foi embora.
- Não precisamos dele, temos você, não é mesmo? - Ela respirou fundo, fechou os olhos procurando pela última gota de paciência. Exatamente no ponto que eu queria deixá-la. Ela estava prestes a perder o controle e eu pronto para assistir ao meu show particular.
- Claro, senhor Wolff. Eu posso acompanhar a exclusiva - E num passe de mágica, ela estava restabelecida. Ninguém poderia ser tão centrado como ela demonstrava ser. Ia acontecer, uma hora ia.
Recebi Stephanie na minha sala particular do motorhome para conversar um pouco,e dar alguns direcionais sobre o que falaríamos e o que não falaríamos na entrevista. Em seguida, a dirigi para a sala de reunião onde Lewis e nos esperavam.
- Lewis, que prazer te encontrá-lo, muito obrigada pela disponibilidade.
- Stephanie! Sempre um prazer - A mulher sabia ser encantadora, até mais do que eu, e conquistava qualquer homem. Com seus cabelos castanhos claros perfeitamente ondulados e os vestidos que marcavam a silhueta, para mim, em particular, era difícil não se sentir atraído.
Assim como na entrevista da manhã, Stephanie não deu importância à presença de e seguiu focada em mim e em Lewis.
Entre as perguntas, estavam todas as feitas na coletiva, que colocavam Lewis contra a parede. Em todas as tentativas que fazia de interromper, eu a segurava e deixava que o piloto fizesse o melhor que podia. Hamilton era bom naquilo, nas respostas, em se sair bem nas pegadinhas. Eu estava confortável e ainda me divertia com as reações da garota.
Me despedi de Stephanie e a acompanhei até a porta:
- Reativa a sua assessora, não, Toto?
- Ela ainda está se acostumando com as perguntas capciosas e quer blindar nossos pilotos, é normal, Stephanie.
- Cuidado com ela, ou pode enfurecer jornalistas por aí.
- Obrigado, vou cuidar dela.
Nem foi preciso. No minuto que entrei pela porta do nosso QG novamente, ela já estava atrás de mim.
- Toto, podemos conversar?
Apontei minha sala e a dei passagem livre, fechando a porta e nos trancando no espaço privado.
ficou parada ao lado da porta, encostada na parede e me encarava com toda a raiva que havia controlado durante todo o dia.
- O que quer, ? - Falei parando em frente à pequena mulher.
- O que foi essa entrevista? Você permitiu que essa mulher fizesse todas as perguntas das quais blindei Lewis durante 30 minutos e o pior…deixou que ele respondesse a todas.
- Eu estava lá, você não precisava se preocupar.
- Então por que precisou de mim? É impossível fazer o meu trabalho com você me sabotando o tempo todo.
- Você acha mesmo que eu sabotaria o meu próprio piloto? Minha própria equipe e minha própria marca?
- Então o que é, Torger? Você dá o benefício para todas as mulheres que vão pra sua cama? - Ela soltou as palavras de boca cheia e me fez perder qualquer resquício de sanidade sem nem piscar os olhos.
Colei as palmas das duas mãos na parede, prendendo-a para que ouvisse com a atenção necessária o que eu estava prestes a falar:
- Escuta aqui! - Me aproximei de seu rosto, deixando o mínimo espaço possível entre nós - Você não tem nada a ver com quem eu durmo ou deixo de dormir, nunca mais ouse repetir isso. Não te devo satisfações, mas já que você as quer tanto, vou dizer uma única vez: Sei muito bem o que faço com essa empresa e cada passo é estritamente calculado - O meu tom era mais alto e mais firme a cada palavra, mas decidi mudar a abordagem no meio do caminho.
Era a vez dela perder a cabeça.
- Já você, é uma criança e não tem a mínima noção da vida. Está aqui para aprender e será um prazer te ensinar da pior forma possível, se assim você desejar - Minha voz agora era calma e meus lábios estavam em seu ouvido. Ela não ousava se mexer e engoliu em seco.
Minha mão esquerda permanecia imóvel, enquanto a direita desceu pelo braço de com as pontas dos dedos acariciando a pele que estava à mostra.
- Não sei nada sobre você, italiana, e você também não faz questão de me mostrar, mas quando quero descobrir algo, posso ir até o inferno buscar informações e arrancá-las do capeta com as próprias mãos - Seus olhos estavam fechados, entregando algo que muito me parecia um desejo totalmente reprimido e quando eu dizia que pegava o que queria com as próprias mãos, eu falava sério.
Escorreguei a mão pela barriga da garota que contraiu os músculos e continuei meu caminho até a barra de sua saia, passando levemente os dedos pela parte interna de suas coxas.
- Eu vou descobrir tudo sobre você. De dentro pra fora e de fora pra dentro - Meus dedos avançaram, afastando suas pernas uma da outra, sem contestações. Sua respiração começava a descompassar e eu entendi que tinha o controle dela em minhas mãos, no meio dos meus dedos - Vou arrancar todos os seus pensamentos, vou descobrir os seus desejos e conhecer cada parte de você - Meus dedos passaram levemente pelo seu clítoris, fazendo com que ela se contraísse ainda mais e eu percebesse o quão molhada ela estava. Não pude evitar de sorrir, era o momento que eu esperava o dia todo.
Com os mesmos dedos, acariciei a cicatriz na perna, aquela que me intrigava e me tirava a paz. Afastei a cabeça de seu ouvido e falei entre seus lábios:
- Mas principalmente, vou descobrir o que causou isso aqui. É tudo o que eu quero.
E assim, me afastei, sentando-me em minha cadeira e a vendo morrer por dentro em questão de segundos. Sua boca estava aberta, seu corpo colado à parede e seus olhos se abriam aos poucos, enquanto soltava o ar que prendia durante todo o meu percurso pelo seu corpo.
Eu tinha certeza que ela correria como uma criança mimada, com medo dos perigos do mundo, mas me surpreendendo, ela caminhou até a minha mesa, colocou as duas mãos sobre ela e me encarou.
- Você pode ir até o inferno, você pode procurar o papa ou buscar o Presidente das Nações Unidas, mas você NUNCA vai saber NADA de mim e muito menos o que me aconteceu, porque não importa a dor que você me cause, nada será pior do que o que eu já passei.


Continua...



Nota da autora: Olá, Totozetes! Voltei com uma atualização dessa história que ainda promete muitas reviravoltas hein?! Espero que estejam gostando.

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Em Andamento:
» The Best Days Of Ours Lives [Restrita - Esportistas - Fórmula 1]


Nota da beta: A scripter teve um leve colapso depois dessa atualização. VOLTA AQUI, MARIANA!!!
Aguardando os próximos capítulos no meu e-mail, tô amando ❤

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