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Última atualização: 05/08/2022

Prólogo

O sol estava radiante, o céu tão azul quanto deveria ser, e não havia um aviador ali que estivesse completamente inteiro depois de uma noite coletiva do batalhão especial. Foi uma madrugada de muita bebedeira no bar dos oficiais da marinha americana, com direito a tudo o que pudesse e mais ainda.
Alguns nem mesmo puderam dormir, mas estavam ali no pátio externo, abaixo daqueles raios solares intensos, apenas para receber os novos tenentes promovidos para também ingressarem ao recém formado grupo de elite das forças aéreas militares. E, também, a chegada de um novo capitão.
— Canyon… — Anthony murmurou, pensativo. — Vocês já ouviram falar dele? — Perguntou, pela milésima vez. Ao horizonte, um comboio chegava em carros perfeitamente alinhados numa fila e o grupo ali parado observava com atenção e expectativa.
Confidencial, eles disseram. O que não faz sentido, já que se trata de um capitão. É estranho não sabermos da reputação dele. — foi o primeiro a responder, cruzando seus braços à altura do peito e encarando a chegada triunfal. Foi dito a eles que o novo capitão que entraria no lugar de Rogers era um assunto confidencial por sua fama e alguns adendos que ele não conseguia compreender.
Não fazia sentido que uma pessoa com tamanha competência fosse anônimo, principalmente no meio da marinha. Para ele, a excelência sempre gerava fama.
Além dos dois, na linha de frente da espera tinha Bradley, entediado e quieto até demais, prestando atenção na conversa dos dois companheiros sozinho, enquanto Riley não aparecia porque muito provavelmente estava morta na cama — e essa era sua maior preocupação no momento, ao contrário dos outros.
O parceiro de , Anthony, até tinha notado o silêncio dele em todas as vezes que o assunto era sobre o tal Canyon, desde o primeiro comentário; certamente, ele não poderia deixar isso passar.
— Eu tenho certeza de que Bradley sabe alguma coisa. Os encontros com o cara do governo devem ter rendido informações… — comentou em tom conspiratório, com seu risinho fraco e divertido, tocando o ombro dele.
Bradley apenas o encarou de soslaio, mas ele não poderia enxergar sua encarada dura, haja visto que tinha a lente grossa e escura dos óculos de sol.
Entretanto, o assunto não pôde ser continuado. Logo, tão depressa, os três carros pararam diante dos homens que aguardavam e começaram a sair os tenentes restantes da turma que iriam iniciar. Por último, uma mulher fardada saiu, atraindo olhares curiosos e formando um silêncio descomunal ao tornar nítido a visão de um broche em seu traje que assinalava sua patente: capitã. E, claro, em seu boné tinha o nome Canyon — uma forma comum de carregar o codinome de campo.
— Senhores, quero que conheçam a nova capitã de vocês. Cafrey. — A voz do coronel ecoou, situando a todos. — Capitã Canyon, seja bem-vinda.
— Obrigada, senhor. — o cumprimentou formalmente, de acordo com o protocolo de continência militar e também fora cumprimentada pelos tenentes ali parados para lhe receber.
Os olhares direcionados a ela estavam sendo camuflados pelos óculos aviadores com lentes escuras, mas ela já sabia que por baixo daquilo tinha o julgamento por ser a primeira mulher comandando um alto escalão de pilotos de caça.
Inclusive tinha um deles, o único, na primeira fila, sem óculos, que a mediu por inteira e não conseguiu evitar repuxar uma das pontas dos lábios em um sorriso ladino quase mínimo, porém não imperceptível para ela. E não deixaria passar. Deu um passo à frente, adiante dele, lendo seu nome e patente. Ignorou o codinome que ele usava de Agust e adotou sua postura desafiadora.
— Existe algo a mais que queira me dizer para completar as boas-vindas, tenente ? — tirou seu óculos, encarando-o com o rosto erguido o suficiente para seus olhos se direcionarem a ele diretamente.
Ele manteve a postura, com os braços colados nas laterais do corpo e olhando o horizonte. Mas agora o horizonte que encarava tinha orbes em um tom profundamente escuro e sério, imponente, o desconcertando por dentro e sofrendo para que se mantivesse impassível por fora, mesmo que estivesse suando pelos poros.
Não respirou fundo, não umedeceu os lábios, sequer piscou.
— Me desculpe, capitã Cafrey. É que não ouvimos muito a seu respeito e estou curioso de poder trabalhar com a senhorita… — Ousou dizer. — Espero poder conseguir tirar bom proveito do que a senhorita tem para nos ensinar ao nos levar até as nuvens.
não esboçou reação. O mediu sem mover a cabeça, apenas com os olhos, e voltou os óculos para cobrir os olhos dos raios impiedosos do sol forte já naquela manhã.
— Aprender não é proveitoso, é necessário, senhor — disse séria, virando-se para parar ao lado do coronel. — Vocês estão atrasados, nossa prática começa em quinze minutos.
— Sim, capitã… — sentiu um leve formigamento ao notar um pequeno detalhe e, contendo-se de se virar para Bradley, completou: — Cafrey.
— Vejo vocês em alguns minutos.
Ela saiu com o coronel e o almirante e a formalidade logo cessou por ali. Os aviadores respiraram fundo e relaxaram, todos virando-se para Bradley imediatamente.
— Confidencial? — Anthony foi o primeiro a dizer, fulminando-o com o olhar. — Você é casado e nós não sabíamos?
— Mas que porra é essa? — também direcionou um olhar fulminante a ele.
Bradley passou as mãos no rosto, tendo os dois atentos aos seus dedos, procurando a aliança.
— Você viu? Não tem nada aqui. — apontou, pegando a mão de Bradley e a analisando.
— Não mesmo. — Anthony levou as mãos à cintura, franzindo o cenho. — Se explique.
— Vocês dois são ridículos! — Ele puxou a mão com força, repreendendo-os com um olhar de reprovação. — é minha irmã!
— Espera… Mas como a sua irmãzinha da engenharia já… Essa matemática não fecha, Cafrey! — Anthony disse meio alto, atraindo atenção.
— Essa é a Maryl, ela ainda tem 20 anos — revirou os olhos. — é a nossa irmã mais velha.
— Que interessante. Você sabia sobre isso?
— Não, . Eu não sabia, é uma surpresa para mim também. — Bradley revirou os olhos outra vez, cansado, e mudou o foco: — Só eu estou preocupado com Riley?
— Mentiroso! — Anthony apontou o dedo, mas suspirou logo em sequência, já dizendo: — Mas tudo bem, isso vai ser interessante… Muito simpática sua irm... Nossa capitã. — Se autocorrigiu. — Ela parece ser bem competen... Ai!
— Fique quieto. — lhe deu um tapa na nuca, interrompendo-o, e respirou fundo. — É melhor irmos logo, o caminho até o prédio é longo. E precisamos buscar a Riley.

Capítulo 1 — Memories.

Cinco duplas, dez aviadores. Somente uma mulher.
encarava a turma pelo lado de fora da sala, vendo a conversa animada através do vidro com película preta que impedia de ela ser vista; já conhecia muito bem sobre as noites no pub que ficava alguns quilômetros dali, lugar em que alguns instrutores antigos de turmas regulares sempre iam para se divertir, mas que com o passar do tempo passou a ser uma rotina de todos, independente da patente — ela se lembrava muito bem do próprio passado, que ainda parecia um tanto recente. Mas o seu foco naquele momento era como colocar-se diante de um grupo que não parecia muito bem entrosado, não as memórias.
Certamente ela estudou os nomes selecionados para o novo grupo de elite, cada um deles, sabia que Riley era respeitada, porém se fazia um pouco óbvio ser porque ela ainda estava no mesmo nível que os companheiros — soava um pouco presunçoso de sua parte, mas a sua experiência lhe dava o privilégio de saber enxergar o perfil de cada aviador, e por isso foi uma instrutora de destaque, fazendo-a encabeçar um projeto antigo, agora repaginado para um novo objetivo.
Ainda que fosse diferente do que tinha vivido há cinco anos antes, sendo mais intenso e perigoso, a sua maior preocupação era como assumir o controle se jamais imaginou que estaria em tal posição algum dia. Afinal, o que mais tinha acreditado nos últimos anos era que não existiria mais a força aérea em sua vida.
Pensou em chegar mais cedo no dia anterior e se alocar na casa em que iria morar pelos próximos dias. Poderia ter ido à mesma noitada que eles e chegaria no outro dia com uma postura mais aceita, contudo, a sua ética moral falou mais alto até mesmo que a profissional. Não teria sentido ela usar desse meio para se entrosar e ganhar o respeito de seus pilotos; seu tio mesmo lhe dizia que deveria começar sempre pelas beiradas, pois em algum momento alcançaria o meio e aí sim as coisas seriam mais interessantes.
Deveria começar do zero e confiar em sua própria capacidade.
Respirou fundo, ajeitando o boné, sentindo com nostalgia o bordado do nome "Canyon" na frente, e soltou o ar de forma leve. Guardou por dentro de sua farda a pequena chapa de aço, o dog tag, de seu falecido tio e pressionou as pálpebras fechadas, abrindo-as ao sentir a mão do almirante Rooster em seu ombro.
— Não precisa ter medo, você é a melhor que eles poderiam ter — ele disse para acalmá-la.
— Diz isso porque não está no meu lugar. — cruzou os braços, acompanhando-o com o olhar a se posicionar ao seu lado. Suspirou, soltando o ar inspirado com confiança, e mirou seus olhos para dentro da sala novamente. — Parece que agora eu consigo entender o olhar dele so...
— Nem pense. — Rooster a cortou rapidamente. — Sem essa nostalgia agora. Você precisa focar, capitã Cafrey.
Ela tentou respirar fundo novamente e soltou os braços, forçando-se a relaxar o corpo.
— Eles já sabem o motivo de estarem aqui? Ou estamos repetindo o padrão?
Rooster a encarou um tanto hesitante. soprou um riso.
— Deixa eu adivinhar: disseram a eles que são os melhores de suas bases, escolhidos a dedo por seus instrutores e enviados para a formação final de uma nova elite na Califórnia — sorriu com os lábios fechados, recebendo o silêncio dele. — Odeio padrões.
— Depois a gente faz uma sessão de muita cerveja e desabafo sobre o trabalho… Podemos falar mal do Hangman também. Mas agora está na sua hora. — Ele cruzou os braços, com seu movimento corporal direcionado à sala.
— Já estou ansiosa por isso.
— Ele vai ficar feliz em te ver, capitã Canyon. — Rooster a lançou um sorriso caloroso, falando inesperadamente de outra pessoa. — Você nunca mais voltou para visitá-lo.
— Eu estava longe por um motivo, mas aparentemente você não sabe respeitar isso.
Rooster gargalhou, dando por encerrado o assunto. bateu continência a ele e se movimentou para a porta. Quando sentiu a maçaneta em sua mão, ouviu a voz do major:
— Depois dele, você é a única que tinha a certeza ser a pessoa certa para isso.
Não houve resposta, apenas um aceno positivo de cabeça.
Ela empurrou a porta para dentro e tomou a atenção dos tenentes ali dentro. Todos pararam o que estavam fazendo e se organizaram, aceitando o silêncio para a entrada dela, sendo acompanhada do recém-chegado Fred, seu oficial assistente, membro da equipe daquela divisão na Califórnia.
Era estranho como ela estava se sentindo ao estar ali. Há pouco menos de quatro anos tinha prometido a si mesma que não entraria mais em nenhum avião de caça, passou muito tempo tentando se recompor de algo que poderia ter tirado sua vida. Mas ali estava outra vez, aceitando um chamado porque, no fundo, em seu mais íntimo, ela sabia que voar era parte da sua vida. De ser e estar. Sua saudade até mesmo contribuiu e falou mais alto, pois agora estava ali, sendo responsável por uma missão com muito mais a perder do que quando foi somente um peão no tabuleiro.
— Bom dia, aviadores — cumprimentou a todos, parando à mesa e se escorando nela. A resposta veio em uníssono, uma coisa não tão empolgada. estalou a língua no céu da boca, soprando um riso baixo e ligeiro, que saiu nasalado. — Espero que a capacidade de voo de vocês seja melhor que isso. — Um sorriso fechado se formou em seus lábios.
Evitou encarar seu irmão por muito tempo quando varreu a turma com o olhar focado, analisando cada centímetro daquele metro quadrado. Bradley tinha sido muito categórico sobre não querer ter seu nome ligado a nepotismo naquele grupo. Já bastava os que eram fascinados por histórias trágicas e ligavam o sobrenome ao indicativo “Canyon”, então ele recusou-se quase em um pedido por piedade a saber do que se tratava aquilo tudo e insistiu para que prometesse não pedir o nome dele fora daquela lista; além de o tratá-lo igual aos demais, como se não compartilhassem DNA. Já foi extremamente difícil para ele ter que lidar com a passagem pelas outras fases, conforme foi subindo sua patente, sendo sempre relacionado a ela — pelo menos até certo ponto, quando o “Cafrey” se tornou “Canyon” e ninguém mais falava sobre este nome.
Nem ela mesma gostava, sendo bem honesta. Se colocava no lugar dele, porque passou muito tempo odiando o fato de seu tio ter terminado a carreira num alto escalão, sendo sempre taxada como a mulher que só teve êxito por esse ponto. Não importava a história de Iceman, muitos dos comentários sobre sua sobrinha colocavam em dúvida se ele tinha mesmo movido seus dedos para que ela tivesse qualquer chance. E sobre isso, Bradley sabia muito bem. Assim como tinha noção do nível de exigência da irmã mais velha e o que aquilo que, nem ele e nem ninguém daquela sala sabiam se tratar de verdade, estava começando iria fazer com que ou ela desistisse ou voltasse de vez para o que amava fazer.
Ao contrário dos demais que não a conheciam e pareciam desinteressados, igual Riley, que cochichava algo no ouvido de Anthony. Ninguém ali sabia quem era a capitã Canyon porque quis que fosse assim quando decidiu ser transferida para outra função, e isso para ele tinha uma conotação preocupante. Porque ele sabia.
Quis dar algum alerta para Riley e Anthony, tentando cessar a conversa sussurrada dos dois, mas preferiu ficar quieto e esperar para se entreter. Até que poderia ser interessante.
— Eu vou ser bem específica com vocês. — proferiu, sem qualquer resquício de simpatia, quando sua análise panorâmica cessou após alguns segundos. — Recebi ordens de não deixar que soubessem o real objetivo de estarmos aqui. Certamente não vou dizer, não até vocês soarem competentes o suficiente… O que não acho ser o caso de agora. Mas quero que saibam que as suas vidas irão depender da evolução de cada um dentro dessa sala. Neste momento não são ninguém e ninguém tem entrosamento, o futuro, vai depender de vocês mesmos.
— Como assim? — Riley foi a primeira a perguntar.
— Que bom que eu tenho sua atenção agora, senhorita Riley…
se desencostou da mesa, recebendo um olhar curioso de Fred enquanto dava a volta e parava agora diante do quadro de anotação. O oficial sabia que aquele assunto era restrito, pelo menos por ora. Claramente os aviadores ali não estavam prontos e maduros o suficiente para enfrentarem o teor daquela missão. Embora fossem excelentes e, no céu, pudessem corresponder, se tratava de algo a mais. Não era apenas saber como pilotar um caça; a técnica naquele momento era o último dos tópicos.
Tinham sido escolhidos a dedo pelo potencial de aprendizagem.
— Esse ponto — Ela fez um mínimo pontinho na superfície branca do quadro com a caneta que pegou. — é o qual representa vocês. E esse círculo — desenhou a forma pegando muito espaço, mas com uma distância do ponto menor. — é o que os aguarda. A cada dia que passar, eu vou atualizar o tamanho disso aqui. O ponto pode crescer ou sumir, vai depender de vocês. — fez uma pausa, voltando para a mesa e espalmando as mãos nela. — O círculo pode ser engolido ou… engolir vocês… Neste caso, se forem engolidos, significa que vocês jamais passarão de tenentes. Aqui vai ser o ponto de parada. E não vai ser por falha minha, o meu trabalho é mostrar o caminho. A competência de vocês não sou eu quem faço.
— E como a gente vai saber no que se doar se não temos noção do que iremos enfrentar? — perguntou logo ao erguer seu braço, mantendo o óculos preto aviador cobrindo seus olhos. Mas ainda que não pudesse encará-lo diretamente em suas orbes, ela conseguia sentir a arrogância no tom dele, com um leve sorriso debochado quase camuflado em seus lábios.
— Bem, se você consegue se direcionar a mim com esse óculos escuros, mesmo que a sala esteja fechada, inibindo a claridade externa… Pode ser que consiga se doar em seu trabalho, Agust. Prefiro acreditar que tenha se formado na academia por algum motivo.
Um uníssono de “uh” saiu bem baixo e se endireitou, não esperando que o assunto rendesse mais.
— Temos três semanas no total— sentiu o arrepio em seu corpo com a nostalgia que o início da sua fala trouxe. Não deixou isso ser notório, mesmo tendo se afetado. — E já estamos atrasados. Hoje vocês vão me mostrar o que sabem — apontou para a porta. — Quem me decepcionar irá pagar 200 flexões.
— Como vou saber o seu nível de exigência? — Riley questionou, mas já estava passando pela porta. — Se for o mesmo que a educação… — resmungou, levantando-se irritada.

✈️


— Você não deveria estar lá em cima com eles?
A voz do almirante fez pressionar os olhos para encontrar um segundo de paz interior que pudesse lhe fazer não vomitar somente com aquela melodia desagradável. Rooster mordeu as bochechas por dentro e esperou, do fundo de seu coração, que aquilo fosse um sonho e Gallagher não tivesse feito aquela pergunta, simplesmente como se não soubesse do passado dela. Como se não fosse parte dele também.
Mas elegância não era bem o forte do ex cunhado de .
— Quero ver como eles irão se sair primeiro, senhor. — Ela, por outro lado, sabia se comportar no meio de muita testosterona egocêntrica e, depois de muitas buscas, conseguiu se manter calma, bebericando seu café para manter a boca cheia e ter sempre um tempo para respirar fundo; uma tática para não mandá-lo ir para qualquer lata de merda.
Apesar do histórico pessoal, ele era o seu “chefe”. Sorte nunca foi seu forte, inclusive.
Achou que receberia silêncio, mas o almirante insistiu:
— Sabe que não fui a favor disso, não sabe, Cafrey?
— Canyon. — Ela corrigiu, sem virar-se para ele. — Vamos diminuir para meu indicativo, por favor. — foi simples em sua resposta e deu um passo a frente, parando mais perto da mesa de controle da cabine para que pudesse cumprir com seu trabalho sem ser incomodada.
Observou pela janela os dois primeiros caças sendo tomados pelas duplas e tomou um longo gole de seu café em uma tentativa árdua e inútil de conter a lembrança insistente que continuava rodando em sua cabeça, querendo entrar a todo custo. Se fosse a história dos três porquinhos, seu passado com certeza seria análogo ao lobo e as memórias de sua bagagem o forte assopro.
Inconscientemente ela apertou o copo em sua mão, odiando por alguns segundos a ideia maluca de segundas chances.
Porém, já estava ali, o que mais podia fazer? Sair correndo não parecia opcional.
— Eles não vão conseguir. Parece que estão em colônia de férias e não na marinha. — Gallagher proferiu outra vez no meio do silêncio.
Agora, porém, não contou até três. Virou-se em um ângulo curto, olhando-o firmemente.
— Almirante Gallagher, eu sou a responsável. Eles não sabem porque estão aqui, somente que estão e isso influenciará muito no caminho. Eu não serei a primeira a passar a mão na cabeça dos meus tenentes, mas você não será o primeiro a chutá-los. Então, com todo respeito, senhor, me deixe trabalhar. Em silêncio, se possível.
Rooster mordeu os lábios para não rir e trocou um breve olhar com o responsável pela cabine de comunicação, contendo-se para manter a postura. De fato, Gallagher era um pé no saco sempre, e ele adorava o fato de nunca ter abaixado a cabeça para o irmão de seu ex-marido. Às vezes era mesmo muito chato ter que conviver no ambiente profissional e ela já tinha desabafado sobre isso com ele, principalmente quando recebeu a ligação que a colocou como instrutora encabeçando aquele plano todo do governo.
Se fosse pelo irmão de , ela não voltaria a pilotar um caça nem por todo o dinheiro do mundo.
— Estão prontos. — A voz de Fred se fez audível pelo fone que estava cobrindo a cabeça de e ela voltou a prestar atenção, não tendo nenhuma deixa para que Gallagher pudesse retrucar sua resposta que, com certeza, fora julgada como malcriada.
— Temos Agust e Boobafeet no Martin F-35 série FA-8.563; Foxy e Icestone no Martin F-35 série FA-5.454.
A voz do oficial na cabine fez entrar em um tipo de cápsula, não conseguindo, desta vez, inibir suas memórias. A casa finalmente havia caído com o assopro do lobo.
Seu irmão obviamente seria o Icestone — um novo indicativo que ela não sabia que ele tinha passado a usar —, como forma de homenagear o tio deles, que sempre esteve ao lado de sua família, principalmente depois do falecimento de Marta, a irmã e mãe dos sobrinhos. Foi nas histórias contadas por ele durante toda a infância que e Bradley se interessaram pelo céu e Maryl, a mais nova, em saber toda a engenharia daquelas máquinas enormes e incríveis. Prometerem juntos que fariam o que escolhessem não só por influência do tio, mas por amor e também como aquilo passou a fazer parte de tempos gloriosos de suas vidas.
E aquele momento nostálgico, fazendo se lembrar da primeira vez que foi visitar uma cabine daquelas sendo acompanhada do tio, trouxe para ela uma inesperada e imensurável saudade, não só dele, mas de tudo o que seu passado tinha guardado. Principalmente de quando ela olhava para tudo aquilo ao seu redor com o mesmo amor que nutriu por anos, sem nenhum flash de medo.
A de doze anos, sentada na varanda, esperando pelos aviões passarem no horizonte visto de seu quintal, jamais deixaria que ela esquecesse cada centímetro de toda sua trajetória.
Notando que ela estava distante enquanto eram ditados os movimentos dos dois caças em movimento para alçarem voo, Rooster se colocou ao seu lado, no lugar que Gallagher deixou de ocupar ao sair da sala sem nenhuma despedida.
— Ok, você pode escolher a trilha sonora de hoje e eu compro o vinho — disse, tendo a atenção mínima dela.
— Vou ir visitá-lo. — respondeu simples, deixando o copo em cima da bancada. — Hoje — completou.
— É, ele vai gostar. Mesmo sendo um velho chato, com aquelas histórias de pescadores, vale a pena.
— Você diz isso pela cerveja ou pelo piano?
Rooster embalou seus comentários sem pausas, mas se aprofundou no que tinha a sua frente e ele entrou numa espécie de segundo plano — ou algum outro que ela não conseguia contar.
Se tratava dos aviões, ou então o barulho que faziam ao serem lançados pelas cordas de aço. Também poderia ser que ela não tivesse noção nenhuma em quê poderia responsabilizar aquele acelero em seu coração toda vez que era tomada por sua adrenalina de saber como as coisas funcionavam estando no ar, no comando de um caça como aqueles. Vinha de muito fundo para ser fácil de explicar; nem ela mesmo tinha a resposta exata. Poderia se tratar de paixão? A influência de seu tio quando pouca idade e ele ainda estava se formando como aviador naval nas categorias baixas?
Era incerto.
A única certeza que tinha era sobre querer estar no controle de um daqueles. Sentir novamente a velocidade e se forçar a passar os 10.000 nós de velocidade. Gostava de ter a patente de capitã, mas não se importaria de estar no lugar dos tenentes. E se fosse tornar-se almirante, daria mais valor para a anterior, assim sucessivamente. Mas não funcionava mais desta forma há muito tempo. O seu peito podia acelerar e o corpo arrepiar-se com memórias; ainda não seria suficiente para tirar de dentro de si toda a causa da consequência. Parecia como uma tatuagem e uma bem dolorosa.
As manobras dos dois caças não pareciam em nada com algo confiante, como se aquela situação estivesse realmente sendo levada a sério. Não era um show do 4 de julho que ela queria, com uma esquadrilha de fumaça, fazendo piruetas para se exibirem. Ela queria ver o que pudesse chegar mais próximo de seus anos na Ases Indomáveis, porque aquilo foi sim algo digno do título de excelência. Naquela época, o que os seus pilotos estavam fazendo já era considerado básico demais, coisas que aprendiam nas primeiras aulas práticas ao se tornar um aviador naval. Seria ridículo pensar em seu capitão aplaudindo qualquer manobra daquelas que estava tendo diante dos seus olhos.
E isso começou a lhe deixar irritada. O fim da Ases Indomáveis veio por uma tragédia que limitou os horizontes da aviação americana, e agora ela tinha diante de seus olhos o resultado disso. Nada daquilo dava qualquer esperança de que pudessem ter êxito nos objetivos do governo.
Apertou o botão do microfone, para que fosse ouvida pelo rádio dos caças e, sem muita paciência e totalmente desgostosa, disse:
— Aviadores. Vamos brincar de pega-pega. 8.563, vocês são o inimigo. Mas a velocidade máxima de Icestone e Foxy é mach 0,9. E vocês não podem passar de três mil pés. A marcação da fuga é a volta na torre de controle.
— Mas isso é muito baixo para manobras! E estamos num supersônico! — Riley foi a primeira a retrucar. — A essa velocidade e altitude, nós não temos chance nenhuma.
— Qual o nosso limite de velocidade? — não deixou que Riley tivesse sua pergunta. A voz desafiadora dele ecoou e tomou um tempo dramático.
— Bem, vocês estão num Martin.
— E o que isso quer dizer? — Bradley questionou. — Eles têm a vantagem de fugirem se quiserem com essa velocidade. Chega a ser ridículo usar isso num caça que faz quase mach 2.
Os aviadores da cabine encaravam com dúvida, claramente julgando a escolha dela. Sem encará-los de volta ou se submeter a duvidar de si mesma, ela voltou a apertar o botão, ainda confiando no que estava tentando.
— A velocidade do som não quer dizer nada quando a técnica se sobrepõe. Não é sobre o que o caça faz, é sobre quem está no comando dele.
— Soa bom para mim, capitã Canyon. — respondeu e ela teve a certeza de que ele deveria ter algum sorriso besta no rosto.
— Vocês têm cinco minutos para me surpreender, mas não se apeguem ao tempo. Se fizerem isso, ainda não estará bom. Somente os excelentes hoje poderão beber e se divertir, os demais cumprirão tarefa.
Ninguém respondeu ou rebateu. Levou até alguns segundos o silêncio, até que ela se pronunciou outra vez.
— O relógio começou a contar. Agust e Boobafeet, vocês estão saindo da zona de ataque com o objetivo cumprido. Agora precisam fugir do inimigo.
— Não me culpe depois por você ter que limpar chão, Riley. — Anthony provocou.
— Não vou ter tempo, estarei limpando com a sua língua…
— Você conseguiria fugir em menos de mach 1? — Rooster interrompeu a atenção auditiva de e ela, continuando a prestar atenção nos movimentos dos caças no ar, sorriu ladina. — Sabia. Você é pior que ele.
— Quem? Gallagher? — Ela soprou o riso. — Que horror, assim você me ofende!
— Sabe de quem estou falando.
— Ah, qual é. A técnica dele com vocês foi pior. Eu cheguei e peguei tudo na melhor.
Rooster também manteve seus olhos no que era exibido, mas não cessou seus comentários.
— Mas isso não te faz menos vilã. Sabe, aquela coisa toda do passado complicado e trágico, que agora desconta em dinâmicas assim. Com entradas dramáticas.
virou apenas o rosto para ele, com seus olhos semicerrados. Estava pronta para respondê-lo com o mesmo tom descontraído, quando sua audição automaticamente se concentrou no áudio do rádio transmitido na cabine, no exato momento que sentiu a vibração pelo primeiro caça que passou em um rasante ali.
A risada maléfica de ecoou em seguida.
— Ele...
— Sim, ele acabou de fazer isso — ela cerrou os dentes ao completar o raciocínio de Rooster. Uma fúria subindo por seu corpo. Ao fundo, em outra direção, o caça de Bradley estava com a ponta para baixo, perdendo altitude e parcialmente descontrolado.
— Sobe essa merda, Riley! — Seu irmão berrou.
— Tô subindo, Cafrey. Tô subindo! Aceita que perdemos o controle com o rasante invertido do Agust. Esse desgraçado!
E no áudio misturado com os dois, e Anthony celebravam.
— Já podemos ir, senhorita Cafrey? — Anthony perguntou.
— Vocês dois acham que conseguem aterrissar em segurança?
— Sim? — A voz de soou confusa.
— Então completem a aterrissagem e encontrem Fred na sala, ele irá entregar a atividade aos quatro.
— O quê? Nós chegamos na torre.
— Sim, Agust. Mas vocês não me agradaram. Sejam rápidos, tenho mais outras três duplas para analisar hoje. — não completou, apenas soltou o botão do microfone e puxou uma cadeira. — Isso vai ser mais difícil do que pensei — suspirou, virando o rosto para Rooster. — Vou encarnar meu melhor no papel de "vilã com passado trágico", mas não sei se vai ser suficiente.
— Tem que ser — ele respondeu, tocando o ombro dela como reflexo.


CONTINUA...



Nota da autora: Olá! Espero que tenham gostado. Nao se preocupe com os termos técnicos que não entender, eles sempre serão esclarecidos. Por ora é isso, em breve vem mais! Bem em breve…

Aviso: Essa é uma história sem compromisso com a realidade, então pode ser que exista erros sobre práticas e fatos reais.


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