Última atualização: 31/12/2021


look at this
godforsaken mess
that you made me

you showed me colors
you know I can't see
with anyone else

and you know damn well
for you,
I would ruin
myself

UM


se debruçou na janela da sala e sentiu o vento bagunçar seus cabelos. Os fios flutuaram por todos os lados e o cheiro de shampoo de cereja fez cócegas em seu nariz. Ela apontou o queixo para o Preston Park, onde as árvores pareciam carregar o sol na explosão alaranjada de suas folhagens. Do outro lado da calçada, uma mulher de cabelos dourados e vestido carmim tropeçava nos próprios pés ao tentar atravessar a rua, deixando sua risada dançar pelos ventos do outono.
não podia escutá-la, mas imaginou que estivesse rindo. Era comum que se encontrasse envolvida pelo encanto do crepúsculo na cidade, admirando o desfile das infinitas nuances da vida, exatos cinco andares abaixo de si. Fantasiava constantemente em ser, ela mesma, uma daquelas almas; e se perguntava o que pensaria se, da calçada, pudesse olhar para cima e apreciar a sua própria existência.
Um burburinho de vozes graciosas a arrancaram do sonho; primeiro lentamente e, então, de uma só vez.
- Suas bochechas estão rosadas. Não precisa esconder, é adorável.
- Para com isso. Você só está me deixando com mais vergonha.

enrolou uma mecha dos cabelos castanhos no dedo indicador e soltou um suspiro. Como uma nuvem em um vendaval, a memória dolorosa chegou em seus pensamentos tão rápido quanto partiu. Lembrou do doce tempo em que eram as bochechas dela que ele deixava rosadas.
Céus. Porque não podia simplesmente ser a garota-bêbada-de-vestido-carmim-atravessando-a-rua?
Às vezes, pensava em sua vida como um dos filmes de Baz Luhrmann. Com os cenários luxuosos, os figurinos deslumbrantes e os acontecimentos sempre alvoroçados e lépidos demais para se aproximarem da realidade. Ela podia ser Daisy Buchanan ou Julieta Capuleto; a garota de ouro. De aparência irretocável e coração secretamente melancólico.
E sempre,
sempre
sem seu final feliz.


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- , eu juro que se você não me der essa chave agora eu risco a lataria inteira dessa merda!
- Já disse para sair da frente – as palavras escorregaram de seus lábios em um murmúrio. Seu tom era calmo, quase entediante, mas o olhar tétrico não me passava a mesma tranquilidade.
Cruzei os braços e me encostei na lataria preta, deixando claro que não faria o que ele estava pedindo. Ergui uma sobrancelha e tive certeza de que ele sabia o que eu estava querendo dizer. Dois podem jogar esse jogo, . E eu adoro vencer você.
Um tremor percorreu o caminho amargo entre minha garganta e meu peito quando meus olhos acompanharam uma gota de sangue cair do corte recém-aberto no seu lábio inferior até os ombros da jaqueta jeans - e a mancha avermelhada florescendo no tecido azul deixava claro que aquela não era a primeira a escorrer. Seu olho direito estava arroxeado e eu não dava dez minutos para o inchaço aparecer.
Um suspiro derrotado escapou dos meus lábios.
Ir do céu às trevas era uma constante entre mim e . Meu coração se encontrava em constante tumulto quando se tratava dele e, vez outra, um entusiasmo espontâneo com pinceladas de saudade tentava fluir do meu corpo; mas eu já estava acostumada a capturá-lo no ar.
- Você precisa de gelo...
- Preciso ir embora, .
Rolei os olhos. Porque mesmo eu insistia em tentar mudar o inexorável?
- . Me. Dá. A. Chave - estendi a mão em sua direção - Agora.
Um sorriso discreto se insinuou no canto dos seus lábios. E, quando eu achei que finalmente tinha o convencido, deu um tapinha quase irônico na palma de minha mão.
- É melhor tirar essa bunda linda da minha frente, .
Argh.
É melhor ir à merda, .
- Certo. Desisto. Se é o que quer, vá em frente. Só não espere que eu apareça no seu funeral - levantei as mãos em sinal de rendição e dei um passo para o lado, deixando livre seu caminho até a porta do carro.
Ele colocou um sorriso perfeitamente irritante em seu rosto enquanto girava a chave nos dedos e apertava o botão de destrave. Não sabia se era proposital ou se a sua presença me fazia distorcer os fatos, mas o modo que ele se movia perto de mim parecia sempre mais lento e provocativo do que o normal.
Ele deu um passo em minha direção.
E então fez questão de esbarrar em meu ombro quando se inclinou para abrir a porta do carro, soprando um quase inaudível “Obrigado”.
Rolei os olhos.
Onde minha irmã tinha se metido, afinal? Ela devia estar lidando com essa situação, não eu. O seu namorado não estava só bêbado, mas também alterado pela briga que acabara de se meter. Aliás, se não estava em coma agora, o crédito era total e completamente meu - passei por ele no instante em que apanhava de dois garotos com ao menos o dobro de seu tamanho, e eles só pararam porque praticamente me joguei no meio dos três.
Apertei as têmporas quando percebi que a adrenalina fizera todo o álcool que eu tinha consumido se esvair rapidamente de meu corpo. Mas que merda. Estava me sentindo completamente lúcida e a vontade de dar meia volta e entrar novamente naquela casa com a música exageradamente alta e pessoas demais por metro quadrado era nula.
- Aí está você! Te procurei em toda parte. Sabe onde o está? – a voz tranquila de Avery me despertou dos devaneios.
Seus olhos faiscavam para todos os lados e ela segurava um copo de cerveja, mas não estava bêbada. Ave nunca ficava bêbada.
Minha irmã tinha quatro anos a mais do que eu e era seguro dizer que não tínhamos absolutamente nada em comum.
Era ela quem havia me ensinado a olhar com mais cautela para as coisas banais do dia-a-dia; como as diferentes cores que pintavam o céu às seis horas da tarde e o som do vento nas copas das árvores. Seu sorriso era uma constante, sua cordialidade inegável e eu nunca a imaginaria dizendo “não” a alguém.
Ela era candura.
Eu era opulência.
E uma sempre foi o equilíbrio que a outra precisava.
- Se seu namorado bater o carro, vamos deixar claro que a culpa não é minha.
- Do que está falando? – ela colocou uma mecha dos fios ondulados atrás da orelha e espiou por cima dos meus ombros, onde o carro de ainda estava parado.
- Eu tentei convencer ele a não dirigir agora, mas você o conhece - apontei para trás, deixando de citar a parte de que era ela quem devia estar fazendo aquilo.
- Ele dirige melhor bêbado – minha irmã deu um sorrisinho - E não somos namorados.
Entortei os lábios.
- Certo. Da próxima vez não tento o impedir de se suicidar.
Bom, talvez tivéssemos apenas uma semelhança: uma grande tendência a se interessar pelos caras errados.
Namorados não era o termo ideal para descrever Ave e . Ela era, indubitavelmente, apaixonada por ele. Mas ele tinha criado em seu peito algum tipo de resistência a se fazer namorado de alguém.
E eu nem conseguia mensurar o quão doloroso era saber que aquilo era culpa minha.
A meia dúzia de palavras atravessadas que trocávamos era o disfarce perfeito - para o mundo externo e para a reminiscência de algo bom que ainda existia em nossos corações.
Não fora sempre assim. Houveram dias em que eu gritava as canções bonitas do rádio enquanto pensava em seu rosto e noites em que o barulho suave da chuva de inverno me lembrava o doce som do seu nome.
Vez ou outra eu esquecia de me lembrar que eu havia construído uma imagem irreal de para me proteger. Era só ele chegar mais perto e me pegar desprevenida, e então o universo inefável que constituia seu ser e transbordava para seus olhos o deixava aquém da minha personificação ilusória. E ele não era nada parecido com o personagem no qual eu havia o encaixado.
Pra mim
ele era tempestade
e torta de maçã.

Eu odiava tempestades. E adorava torta de maçã.
- Acho melhor eu acompanhar ele… - Ave apertou os lábios, os olhos fixos além dos meus ombros.
Eu sabia o que ela queria dizer com acompanhar.
E que seria inútil eu tentar convencê-la do contrário.
Então apenas observei enquanto ela dava um último gole na garrafa em suas mãos antes de bater seus saltos pretos até a porta do passageiro ao lado de . Ave mal havia se ajeitado no banco quando o ronco do motor explodiu na avenida vazia. Meus olhos acompanharam os faróis em direção à via expressa se tornando opacos para, instantes mais tarde, se perderem ao longe.
- Ei! O que está fazendo aqui fora? Faltam menos de vinte minutos para acabar o ano! - a voz de Sage tilintou ao meu lado e um sorriso surgiu irrefletidamente em meu rosto quando me virei para ela.
Ela ajeitou os cabelos curtos atrás da orelha e esticou uma das mãos em minha direção.
Tudo em Sage era agressivo e um reflexo da sua personalidade desafiadora; desde os olhos extremamente marcados pelo lápis preto até suas roupas que eram sempre uma mistura de tecidos, texturas e - adivinhe só – camadas pretas. Se a confiança pudesse idealizar uma pessoa para uma auto exemplificação, essa pessoa certamente seria Sage Morris. Exceto quando ela bebia e virava a criatura mais extrovertida e amorosa desse planeta. Era como se o álcool criasse uma persona ao entrar em contato com seu organismo.
Eu sempre quis um pouco daquela segurança dela.
Estava acostumada a me esconder em sapatos caros demais e vestidos excepcionalmente curtos para que as pessoas me vissem antes de realmente me ver.
- Me leve lá pra dentro e não me deixe ir pra casa até eu esquecer o meu nome - segurei em sua mão e, deixando para trás uma gargalhada, Sage fez exatamente o que eu havia pedido.
Dez minutos depois, estávamos no meio do caos.
A música era ensurdecedora.
As vozes que se misturavam competiam em estridência com as caixas de som.
As taças dançavam ao alto, se exibindo como flores de orquídea.
Pessoas iam e vinham em um mar desajeitado de almas esperançosas pela promessa do futuro.
A meia noite estava chegando.
E eu ainda não conseguia ver a única pessoa que eu queria estar ao lado quando o relógio indicasse o ínicio de um novo ano.
Onde estaria ?
Não era muito difícil encontrá-lo em meio a multidão. As pintinhas esverdeadas em um mar de avelã de seus olhos brilhavam de longe, e o sorriso cheio de covinhas e euforia me capturava no ar.
- Dez segundos! - um garoto de cabelos ruivos gritou ao meu lado ao subir em uma mesa de carvalho.
Brados eufóricos preencheram a casa.
- Dez, nove, oito…
Apertei a mão de Sage e ela me encarou com um sorriso de excitação. Tansy e Carter estavam logo à frente, lado a lado. Eles se olhavam como se vivessem apenas os dois, presos em seus próprios mundos exorbitantes. Eram felizes e sabiam.
- Sete, seis…
Quando a esperança já havia se esvaído de meu corpo, avistei . O corpo alto tentava abrir espaço entre as pessoas ao caminhar em minha direção.
Céus, ele estava mesmo vindo em minha direção.
Meus lábios se anteciparam ao abrir um sorriso gigantesco.
- Cinco, quatro…
Mas havia algo errado. Eu podia ver. Podia sentir.
Em seu rosto não havia um só traço de alegria e ele não exalava aquela simpatia casual de sempre; mais do que isso, sua expressão não parecia ao menos tranquila.
- Três, dois, um…
Mais cinco passos e ele estava em minha frente.
- ! A Avery… - apoiou uma das mãos em meu ombro. As três palavras escorregaram de seus lábios e ele deixou a frase morrer.
Meu sorriso se desfez.
Olhei em seus olhos. Eles estavam marejados.
E então reparei em suas mãos, absolutamente trêmulas. Ele segurava o celular e o nome de brilhava na tela.
E então comecei a entender o que havia acontecido.
- Feliz ano novo!







Observando-a de longe, me perguntei como seu sorriso podia ser tão brilhante e opaco ao mesmo tempo. Talvez fosse a tristeza disfarçada de felicidade. sabia esconder o que sentia como ninguém.
Faziam quase dois meses que Avery tinha ido embora. A culpa ainda me consumia, por mais que tentassem me convencer do contrário. Haviam muitas coisas daquela noite que existiam e sempre existiriam apenas entre nós dois. Detalhes incisivos que mudariam a percepção de cada um sobre os fatos.
E talvez minha maneira de diminuir a culpa fosse aquela: tentar cuidar de .
Era o que Ave gostaria que eu fizesse. E, acima de tudo, era o que eu queria fazer. Eu sabia como ela podia ser destrutiva, e não conseguia ficar de braços cruzados enquanto a via agir com imprudência onde e com quem quer que fosse.
Quando eu moldei um caminho infeliz para a vida de pela primeira vez, eu não consegui lidar com as consequências.
Ela me afastou.
E eu nem sequer lutei para ficar ao seu lado.
Quando aconteceu novamente, não consegui me perdoar. Eu nunca havia visto ela tão triste como quando perdeu a irmã. Ver os rastros de desalento toda vez que eu mirava o seu rosto era o suficiente para quebrar meu coração em milhares de pedaços todos os dias, e eu me sentia um fracasso por não conseguir livrá-la da dor.
E a merda da culpa estava em meus ombros doloridos. De novo.
Naquele ponto, se um dia a tive em meus braços, já não me lembrava mais. Ela estava tão distante que eu mal podia alcançá-la.
Mas eu a entendia. Era tudo o que eu podia fazer - entendê-la e estar ali, para ser qualquer coisa que ela precisasse que eu fosse. Um amigo ou apenas alguém que ela pensasse odiar para descarregar todas suas frustrações.
Por ela eu seria qualquer coisa.
- Deixa disso, cara. sabe se cuidar - Carter me estendeu uma cerveja ao sentar do meu lado no sofá - E esse lance de ficar de olho nela o tempo todo é um tanto assustador.
Aceitei a cerveja apenas para me poupar de discussões. Carter nunca entenderia. Ninguém nunca entenderia.
- Avery estaria fazendo a mesma coisa.
Meu murmúrio indolente o fez assentir com a cabeça e frear o próximo comentário. Não era compreensão externada; apenas uma maneira de encerrar o assunto. Ele não concordava, mas sabia que não ia me convencer do contrário.
Voltei minha atenção para . Em meio a um aglomerado de pessoas e embalada por uma música vibrante, ela dançava de mãos dadas com Sage. Seus cabelos castanhos voavam por toda parte e as maçãs de seu rosto estavam extremamente rosadas.
Que merda.
Eu não gostava de “ficar de olho nela”. Céus, eu gostava de olhá-la.
era linda e sabia. Ela estava sempre ciente da atenção que chamava e gostava disso.
Percebi o exato instante em que o seu olhar voou sobre os ombros de Sage. Ela umedeceu os lábios avermelhados com a ponta da língua e suas pálpebras pesaram sob os de seus olhos.
E então algo se contorceu dentro de mim.
Porque eu conhecia aquele olhar.
Ela sussurrou algo no ouvido de Sage e soltou as mãos da amiga, apenas para, no segundo seguinte, andar até um garoto alto de cabelos escuros e pele bronzeada com pinta de surfista.
Meus dedos apertaram a garrafa inconscientemente.
Eu sabia o que ia acontecer.
Havia presenciado aquilo mais vezes do que gostaria de admitir.
se inclinou sobre o garoto para sussurrar algo em seu ouvido. Quando ele respondeu, ela soltou uma risada vibrante, jogando a cabeça para trás.
A cena se repetiu por quatro ou cinco vezes.
Na minha cabeça, os dois minutos pareceram horas.
E então ela entrelaçou os dedos nos dele e o guiou em direção à escada. Observei os dois subindo os degraus, e o garoto parecia não conseguir tirar os lábios do pescoço dela enquanto a acompanhava.
Eu esperei três minutos. Três torturantes minutos.
E então deixei a garrafa de cerveja no chão e segui o mesmo caminho que eles haviam percorrido, fazendo questão de não avisar nada para Carter ou Tansy; sabia que eles tentariam me convencer a ficar ali.
Não iria impedi-la de fazer qualquer coisa - eu não tinha esse direito. Só estaria ali fora, em frente aos quartos, caso ela precisasse de mim. Estaria ali apenas para o depois. Para os efeitos colaterais. Se precisasse de qualquer amparo, eu não queria estar em outro lugar.
Encarei as seis portas brancas, sem muita vontade de adivinhar em qual delas os dois haviam entrado. Apenas encostei no corrimão da escada e fiquei esperando enquanto brincava com o isqueiro guardado em meu bolso.
Passaram-se dez minutos.
E então vinte.
Meia hora depois, saiu do quarto exatamente à minha frente. Ela arrumava a saia preta em suas coxas e o garoto vinha atrás, cambaleante, ajeitando os fios de cabelo displicentes. Seu sorriso desapareceu no instante em que seus olhos caíram sobre mim.
- , o que está fazendo aqui? Quantas vezes eu já disse que não preciso que você cuide de mim? Que droga! - ela esbravejou, dando dois passos em minha direção. Suas palavras me atingiram um tanto nubladas pelo cheiro doce que emanava de sua pele e enchia meus pulmões.
Cara, ela sempre cheirava a cereja.
- Só estou garantindo que esteja bem - murmurei, usando o tom mais calmo que eu conseguia.
- Não, não, não. Pare com isso - ela apontou para si mesma - Não sou problema seu apenas porque Avery se foi.
Senti uma pequena fisgada no peito.
Sua voz estava carregada daquela insolência raivosa, mas eu sabia que era apenas o disfarce que ela usava quando não queria parecer triste.
Ela me culpava. Não apenas por Avery, mas por todo o resto. Eu era a representação viva do que ela podia ter sido e não foi e eu mal podia imaginar o quanto isso a machucava.
- Você não é um problema.
Ela soltou uma risada cínica, balançando a cabeça negativamente.
- Fique longe de mim, . Estou indo pra casa - ela fez menção de dar meia volta mas deteve os passos, como se estivesse esquecido de algo - E, por favor, não venha atrás. Já é sufocante demais você morar do outro lado do corredor.






Abracei meu corpo um pouco mais forte quando um estrondo ressoou no céu e o clarão inundou o apartamento.
Um filme em preto e branco enchia a tela da televisão.
Tão sem cor quanto o meu coração.
Limpei meus lábios mais uma vez, tentando tirar o gosto do garoto de poucas horas atrás. Eu sabia que ele não estava realmente em meus lábios, mas a auto depreciação fazia tudo parecer possível.
Céus, eu nem havia perguntado o nome dele.
As pessoas lidavam com o luto de formas diferentes. Eu preenchia o vazio com mais vazio. Relacionamentos vazios, lugares vazios, noites vazias. Pessoas vazias. Era minha forma de anestesiar a dor. De não pensar em Avery. De me cercar de coisas com as quais eu não me importava e de pessoas que eu não sentiria falta se partissem no dia seguinte. Eu não precisava ser cuidadosa - eu sequer precisava ser eu mesma.
E não ser eu mesma, vez ou outra, era tudo o que eu precisava.
O ruído discreto de duas batidas na porta se misturou no ar com o estrondo da tempestade.
Por um segundo pensei que seria Ave. Imaginei que ela entraria em casa sorrindo, reclamaria sobre o quanto detestava o tempo frio lá fora e me abraçaria ao dizer que tudo não tinha passado de uma brincadeira de mau gosto.
Mas havia apenas me esquecido da outra pessoa que sempre, sempre, invariavelmente, simplesmente sabia quando eu precisava de amparo.
Movi minimamente o rosto na direção do barulho, encontrando um par de apreensivos olhos me encarando no pequeno vão recém-aberto da porta.
Lá fora, tudo estava silencioso.
E eu quase pude ouvir um clamor melancólico quando o rosto de se contorceu.
Me perguntei se eu estava chorando sem perceber. E estava.
Por um segundo, me permiti contemplar seu rosto. Mas minha visão se tornou nebulosa quando meus olhos caíram direto na pequena cicatriz avermelhada que se pronunciava no alto de suas maçãs. Em sua sobrancelha direita, outro corte tentava se esconder atrás dos fios caindo tentadores em sua testa.
Eram infelizes lembretes da merda daquele acidente.
Por um instante, quis tocá-las. Talvez para tentar, inutilmente, absorver um pouco de sua dor. Talvez porque fantasiava que aquela reminiscência faria-me sentir mais perto de Ave.
Talvez apenas porque gostasse de recordações melancólicas.
E recordações melancólicas me atiravam diretamente para seus olhos.
tinha um daqueles olhares, genuínos e intensos, com um quê de juventude eterna, que temos sorte de contemplar apenas duas ou três vezes na vida.
Quando eu e Ave éramos mais novas, em algum momento entre os meus doze ou treze anos, nossos pais nos levaram para passar o verão nos Hamptons, do outro lado do oceano. A casa em Cooper’s Beach ficava bem em frente ao mar. Quando eu pensava naquele verão, eu não lembrava das tardes que passei brincando na costa e tomando sorvete de melancia. Nem mesmo nas manhãs, quando o sol brilhava tão forte e ultrapassava as cortinas direto para os nossos rostos, dourando o quarto com a promessa de um dia glorioso. Eu me lembrava apenas das noites. Logo antes de dormir, deitada no quarto em que eu dividia com a minha irmã, quando todas as luzes estavam apagadas e eu não podia ouvir nada além do som das ondas quebrando na areia. A melodia do mar era tão bonita e, ao mesmo tempo, tão assustadora. Eu pensava em todo aquele infinito oceano encontrando-se com o céu no horizonte em um imensurável espetáculo da natureza. Fazia eu me lembrar o quão pequena eu era em relação ao mundo.
E, enquanto a Terra se aproximava da lua, o barulho ficava cada vez mais alto, cada vez mais perto.
Me perguntava se as ondas podiam invadir meu quarto e me levar consigo. Me consumir naquele divino infindável.
E meu peito se revirava em tumulto, dividido entre vontades opostas. Queria me esconder entre as cobertas e me proteger do mar, porque não queria ir para longe. Ao mesmo tempo, queria ir até a sacada, contemplar o Atlântico e conhecer a parte do mundo que ainda me era estranha. Queria me deixar levar. Pelo mar, pelo desconhecido. Pela vida.
Eu não me lembrava daquela sensação há algum tempo - talvez tivesse até a apagado de dentro de mim. Mas ali, naquele exato instante, quando me permiti realmente olhar nos olhos de depois de tanto tempo em fuga, fora exatamente o que eu senti.
Medo e curiosidade.
Tempestade e torta de maçã.
- ... - seu nome flutuou dos meus lábios em um sussurro, muito antes que eu pudesse pensar em guardá-lo dentro de mim. E, como se aquilo fosse tudo o que precisasse, o garoto que um dia possuiu meu coração vestiu sua armadura e sequer cambaleou ao vir em meu resgate. Eu pisquei os olhos e, em um segundo, ele estava ao meu lado. Seus braços envolveram meu corpo e eu mal pude dizer o que me atingiu.
Fiquei inerte. Minha pele formigou por todos os lados e meus lábios tornaram-se desérticos; era sede dele, eu tinha certeza.
Meu coração pareceu não saber como reagir, batendo forte, depois lento, e então lépido novamente. E tudo ficou ainda mais confuso quando as pontas de seus dedos limparam minhas lágrimas e o cheiro de hortelã do seu hálito quente me fez flutuar para seis anos atrás, quando fui dele pela última vez.
Mas não tive coragem de olhar novamente em seus olhos. Não tão de perto, não em seus braços. Apenas enterrei a cabeça em seu peito, onde as batidas de seu coração me receberam tão indecisas quanto as minhas.
- Está tudo bem… - o seu murmúrio rouco ressoou em meu corpo, estremecendo cada pedacinho do meu ser.
- Porque você está aqui? - o fio de voz quase ficou preso em minha garganta.
- Você tem medo de tempestades. Onde mais eu estaria?
Ai, .
Um sorriso triste alcançou meu rosto. Porque me lembrei do exato motivo pelo qual eu sempre o afastava de mim.
Porque era fácil demais me perder ali. Me entregar ao etéreo e esquecer da complexidade de tudo o que nos envolvia.
E eu até podia me perder.
Mas eu não aguentaria perder ele.
Não de novo.
Não mais uma vez.


DOIS


dedilhou as cordas do violão distraidamente pelo que parecia ser a centésima vez naquela madrugada. As pontas de seus dedos já doíam e o sol dançava tímido entre os pequenos prédios da cidade, disputando o espaço no céu com as nuvens espessas que se despediam para o início da primavera em Brighton.
Pensou em andar até a praia, mas parecia insensato quando o mar o fazia lembrar de .
O que era uma enorme besteira - tudo o fazia lembrar da menina.
A estante de livros em sua sala.
A tigela cheia de cerejas na bancada da cozinha.
As músicas que seus instrumentos já sabiam de cor.
nunca achou que fosse fazer de sua vida algo incrível.
Gostava de música e até tinha uma banda com os amigos; mas acreditava que se encaixava melhor no cenário underground de uma cidade pequena do que em grandes multidões e muitos aplausos.
Em um caderno quase esquecido ao lado de sua cama, escrevia, vez ou outra, as palavras que atravessavam seu coração; mas as frases não pareciam, nem de perto, tão sublimes quanto as de Fitzgerald, Hemingway ou qualquer outro grande nome que preenchia suas prateleiras de poesia.
Talvez por isso tivesse amado tanto -
ela fazia da vida dele algo incrível,
sublime,

digna de aplausos.
Para ele
ela era como o sol
em uma manhã de domingo
no meio do inverno.
Surpreendente, arrebatadora
e, acima de tudo,
desejável.
soltou um suspiro pesaroso quando colocou o violão no chão e relaxou o corpo na poltrona branca, fechando os olhos.
Ele ainda se lembrava de um verão, um dos mais quentes no mês de agosto, quando os dois assistiram um filme francês no sofá de linho amarelo do seu antigo apartamento, do outro lado da cidade. Era a história de uma garota que descobria seu talento para música e precisava fazer seus pais e seu irmão, surdos e mudos, entenderem a beleza de uma canção. Quando os créditos rolaram na tela, não conseguia parar de chorar e prosear sobre o quanto tinha achado a ideia daquele roteiro delicada.
Delicada. Pareceu uma palavra tão apropriada.
Ele não lembrava muito do filme; apenas de ficar maravilhado com a sensibilidade da menina, ainda tão nova.
Lembrava de beijá-la, bem ali. De sentir seus lábios, seu corpo. Seu coração. Lembrava da sensação de alento de dormir com ela em seus braços, o cheiro doce de seus cabelos o embriagando durante o sonho e o toque macio de sua pele sob seus dedos.
Nada podia ser mais incrível do que aquilo.
E lembrava, principalmente, de acordar no meio da noite e não encontrá-la ao seu lado. E então vê-la debruçada na janela, às duas da manhã, com o olhar perdido entre as nuvens. O tecido do vestido cor-de-rosa subia ligeiramente em seu corpo, deixando o contorno sensual de sua bunda à mostra para a visão mesmerizada do garoto.
E enquanto ela olhava para o céu
e tentava alcançar as estrelas
ele não conseguia parar de se perguntar
porque ela estava fazendo aquilo.
Porque nada, nada no mundo
podia brilhar mais do que ela.



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A mistura da pluralidade de aromas adocicados e o destoante bálsamo herbal do baseado que queimava na mão de Sage era o cenário típico de uma sexta-feira à noite no meu apartamento.
Roupas e maquiagens estavam espalhadas por todo lugar.
Taças de vinho mal terminadas e manchadas de batom repousavam na bancada da cozinha.
Eu me sentia em um episódio de Sex and The City deitada no tapete felpudo da sala, vestindo nada além de lingeries, enquanto conversávamos sobre as mais distintas variedades da vida e ficávamos chapadas.
Minha amiga sempre dizia que escolhia melhor suas roupas se estivesse sob o efeito de entorpecentes. Talvez fosse apenas o bom senso se esvaindo junto à fumaça.
Eu poderia combinar até três estampas mesmo depois de dez doses de tequila, então não me incomodava de acompanhá-la.
- Aaron me convidou pra ir no apartamento dele depois do bar – Sage virou o rosto em minha direção, a tempo de me ver rolando os olhos.
- Você sabe o que eu penso sobre isso.
Aaron Parker era um ordinário. Um ordinário que havia traído minha amiga umas cinquenta vezes em pouco mais de um ano de relacionamento.
- É difícil não sentir nada por ele – ela deu mais uma tragada e prendeu o ar antes de continuar - Quer dizer, quando estamos juntos é algo tão... Familiar, sabe?
Entortei os lábios. É, eu sabia.
Se Sage bêbada era sinônimo de diversão, Sage chapada era a síntese da melancolia e do sentimentalismo.
Peguei o baseado de sua mão e dei uma última tragada antes de me esticar para apagar a ponta no cinzeiro de mármore apoiado no sofá. Então virei o corpo de frente para minha amiga pra poder observá-la melhor.
- Sage. A gente sempre experimenta uma roupa velha de vez em quando. E pode até ser uma surpresa quando ainda serve, mas isso não quer dizer que a gente tenha que usar ela novamente.
Ela levantou as sobrancelhas grossas.
- Quem disse isso?
- Eu. Você não acabou de ouvir minha voz? - dei um sorrisinho e ela fechou os olhos, cobrindo o rosto com uma das mãos e rindo profundamente, como se eu tivesse dito a coisa mais engraçada do mundo.
Ah, os efeitos da maconha hidropônica.
- ...
Revirei os olhos mais uma vez, agora segurando uma risada. Era algo que eu e Sage costumávamos fazer; citar mulheres que considerávamos inspiradoras para trocar conselhos. A lista ia desde Grace Kelly e Audrey Hepburn até Carrie Bradshaw e...
- Blair Waldorf. E ela tem razão. Você não pode passar os melhores anos da sua vida esperando que alguém te ame de volta.
Ah, , sua hipócrita.
Sage suspirou e se ajeitou no tapete. Depois pegou uma mecha dos meus cabelos castanhos e começou a enrolar as pontas em seu dedo indicador, como sempre fazia quando estava prestes a me pedir algo que eu claramente estaria pouco disposta a fazer.
- Você poderia ir comigo.
Aí estava.
- Me parece meio pervertido – fiz uma careta e ela soltou uma risada – Não posso te impedir de ir. Apenas implorar para que pense nas consequências se ceder a ele novamente.
Ela apertou os lábios e me encarou por alguns instantes.
E então seus olhos voaram para um ponto além do sofá. E, antes mesmo que eu conseguisse erguer o muro em meu peito, Sage sussurrou:
- É estranho fazermos isso sem Ave, não acha?
Ela estava olhando para a porta do quarto da minha irmã.
Ele ainda estava fechado. Desde o dia em que ela partiu não tive coragem de entrar ali. Não aguentaria ver as roupas que ela havia pensado em usar naquela noite jogadas na cama. Nem sentir o cheiro de seu perfume em seu edredom. Não conseguiria olhar para as nossas fotos no mural em sua parede. Muito menos para as folhas secas de uma rosa que havia dado a ela meses atrás, guardadas em um potinho de vidro em sua cômoda.
Pisquei os olhos rapidamente, tentando me livrar das lágrimas que se formavam nele. E agradeci aos céus quando o som da campainha ecoou pelo apartamento. Eu não queria falar sobre a Ave. Não estava pronta nem ao menos para pensar nela, quem dirá dividir meus sentimentos com alguém.
- Deve ser Tansy - me limitei a exclamar enquanto levantava para atender a porta e esboçava um sorriso.
Eu havia me tornado realmente boa naquilo; curvar meus lábios para cima, olhar para o horizonte e fingir que em meu rosto existia um muro impenetrável de ausência de emoções.
Saltitei até a porta, desviando de uma garrafa de merlot e do par de botas pretas de Sage jogados ao chão pelo caminho. E estava pronta para encontrar a alegria contagiante da minha amiga quando abrisse a porta.
Mas não era ela que estava ali.
No lugar da simpatia de Tansy, encontrei os olhos de .
E o muro havia sido derrubado.




Vermelho.
A porcaria do sutiã de era vermelho.
Talvez a calcinha fosse da mesma cor. Eu não tive coragem de olhar. Não queria descobrir como meu corpo reagiria a um pedaço minúsculo de renda abraçando sua bunda.
O vislumbre de sua pele, tão macia quanto eu lembrava, fez minha boca salivar; e então ela ficou repentinamente seca e as palavras me fugiram tão rápido quanto o sol foge da noite.
E ainda tinha a merda daquele cheiro de cereja.
Ao meu lado, Chloe apertou os dedos em meu braço. Eu sabia que ela estava desconfortável; tinha esse talento de fazer-se cômoda demais até em situações que beiravam o absurdo, e a confiança que exalava, por mais que nem sempre fosse genuína, era incômoda para quem ainda não entendia seu jeito.
Me obriguei a prender o olhar em seu rosto. Não que ele fosse menos sublime que seu corpo, mas com o passar do tempo eu havia aprendido a lidar com as sensações atordoantes que seus olhos impessoais me causavam. Ou, ao menos, havia aprendido a escondê-las.
Um sorriso lascivo puxou o canto dos seus lábios enquanto seus olhos faiscavam entre mim e a garota ao meu lado. O silêncio já havia se tornado desconfortável, mas não parecia se importar. Com a calma que lhe era uma dádiva, ela deu meia volta e rebolou até a bancada da cozinha, onde apanhou uma taça. E então andou até a ponta do tapete, se abaixando para pegar uma garrafa de vinho quase vazia.
A visão celestial de seus cabelos castanhos roçando em sua cintura enquanto ela se movia me trouxeram lembranças tão etéreas quanto ela. Era a visão do paraíso e ela parecia um anjo sensual.
Ela fez questão de me encarar enquanto enchia a taça. sempre olhava diretamente para mim, mas nunca em meus olhos. Era seu jeito de me provocar enquanto me avisava para ficar longe - a mistura confusa de sentimentos que ela insistia em me fazer provar e, casualmente, me fazia lembrar porque os furacões levavam o nome de pessoas. Ela sempre fora arrebatadora como um temporal.
- ?
Foi a voz de Sage que me salvou do vórtice. Balancei a cabeça e arrastei minha atenção até ela, que cobria seu corpo com uma manta felpuda e olhava para mim e para Chloe com os ombros erguidos, como se pedisse desculpas pela amiga.
- Vim oferecer uma carona - olhei para Chloe, que observava Sage com um sorriso curioso, quase tímido - Essa é a Chloe, ela vai com a gente.
- Oi, Chloe - ela sorriu em conforto antes de voltar a olhar para mim - Obrigada, mas Tansy vai passar aqui e Carter vai levar a gente.
Ofereci a ela um sorriso, quase me jogando aos seus pés para agradecer pela resposta negativa. Tudo o que eu não precisava era ficar trancado em um carro com após vê-la daquele jeito. Tenho certeza que o sangue correria para os lugares inapropriados para a situação.
Me esforcei para não olhá-la mais uma vez antes de fechar a porta - mas como se previsse minha intenção e seu instinto fosse me contrariar, assim que alcancei a maçaneta, sua voz me deteve.
- Vocês vão tocar hoje?
Meu olhar se arrastou instintivamente em sua direção. Ela piscava energicamente os longos cílios para mim e cravava os dentes no lábio inferior, como sempre fazia quando estava incomodada com algo ou quando percebia qualquer sinal indesejado de intimidade tremulando no ar.
- Porque quer saber?
Ela me encarou por um instante, em silêncio.
- Estou apenas curiosa.
Deixei um sorriso tomar o canto da minha boca.
- Vai gritar por mim?
E então o mesmo sorriso mordaz se refletiu em seus lábios.
- - disse, simplesmente, após balançar a cabeça negativamente.
Mas é claro…



A fachada pintada de preto fazia eu me sentir em casa. Bem em cima de uma porta de madeira escura, brilhava o letreiro com as palavras Night Meadow.
O bar ficava empoleirado no alto de uma colina nos arredores da cidade. Pinheiros ladeavam uma extensa alameda que terminava em um mirante com vista privilegiada para todo o Leste de Brighton. Longe demais de tudo e perto o suficiente do céu.
Lá dentro as paredes eram forradas por posters de bandas de rock, a bebida era barata, o dia era inexistente e as noites intermináveis.
Era onde eu me escondia do nascer do sol quando as segundas-feiras eram intragáveis.
Era onde eu, e Carter tocávamos todas as sextas-feiras à noite.
E era onde, há muito tempo, eu havia conhecido .
Sorri quando Chloe se inclinou para alcançar meus lábios. Seus beijos eram doces e não pareciam buscar promessa alguma nos meus. Era exatamente o que eu precisava.
A verdade é que eu também tinha a minha própria maneira ineficaz de lidar com a melancolia. Em um dia era Chloe, no outro Hailey, e no próximo alguém que eu nem lembraria o nome.
- Qual a sua história com ela?
Por um momento, me perguntei sobre o que Chloe estava falando.
E então segui seu olhar.
E lá estava. , atraindo a luz das estrelas para si, enquanto jogava a cabeça para trás ao rir de alguma coisa que dizia.
Era impossível não sorrir também.
- O que quer dizer? - indaguei de volta, os olhos dançando entre a garota à minha frente e a garota do meu passado.
- Não tente me dizer que ela é só sua vizinha, porque eu não vou acreditar.
Soltei uma risada sincera.
Eu e nunca contamos nada do que houve entre nós dois pra ninguém. Avery, Sage, , Carter ou Tansy. Ninguém sabia. Havíamos sido apenas dois muito antes de, todos juntos, sermos nós.
Mas eu não planejava ver Chloe no dia seguinte. E eu sabia que ela também não contava com isso. Podia ser bom, apenas uma vez, tirar o peso daquelas palavras do meu peito.
Apoiei uma mão na cintura dela e a afastei um pouco, apenas para alcançar o maço de cigarros em meu bolso. Eu precisava de algo para anestesiar as frases cortantes que saltariam do meu coração direto para minha boca.
Sem desgrudar os olhos de , acendi o cigarro. Chloe sequer percebeu. Ela também olhava para a garota de longos cabelos castanhos e grandes olhos brilhantes.
- Eu a amo desde os meus vinte e cinco anos - as palavras saíram calmas, como se tivessem sido estudadas meticulosamente.
E, de fato, foram. Por seis longos anos eu associava a palavra amor à apenas dentro de mim. Era a primeira vez que colocava aquilo para fora.
Não precisei olhar para Chloe para perceber o seu espanto. Seus olhos foram de para mim e então para ela de novo. Devia estar se perguntando se eu não me incomodava com o sorriso autêntico que ela lançava para , tocando os braços do meu amigo em toda oportunidade que tinha.
- Ela sente o mesmo?
Dei uma longa tragada enquanto observava passar o braço pela cintura de , apoiando-se na lataria vermelha de seu carro. Seus olhos a admiravam com fascínio, eu podia perceber.
A conhecida pontada de tristeza fez cócegas em meu peito, mas eu já sabia como espantá-la.
Eu queria o que havia no mundo de melhor para . Ela merecia o melhor. E o melhor não era eu.
Mas, por mais que os outros a possuíssem em corpo, eu gostava de pensar que havia uma história existente apenas entre nós dois. Aquilo ia muito além de tocá-la e receber seus sorrisos que escondiam suas verdadeiras emoções. Éramos muito mais do que isso.
- Não importa. Não é o tipo de amor que precisa de reciprocidade para ser sincero.




- Será que você pode falar sério por apenas cinco minutos, ? - fingi suplicar. Meu corpo estava débil de tanto rir, e essa era uma ótima desculpa para me apoiar no peitoral musculoso dele.
- Eu posso tentar. Mas saiba que meu recorde é quatro - ele tocou na ponta do meu nariz, exibindo seu sorriso extasiante.
Ri um pouco mais. Não apenas por suas palavras bem humoradas, mas pela leveza que exalava. Leveza externa era algo que eu, inegavelmente, precisava.
Passei meus olhos pelo estacionamento movimentado e pela frente, agora moderna, no Night Meadow. Eu realmente gostava mais de como era antes; fazia eu me sentir naqueles bares de beira de estrada dos filmes independentes de drama dos anos noventa, onde a cerveja era barata e o ar tinha cheiro de uma daquelas imitações de Acqua Di Parma que você encontra em uma boutique que vende chicletes e loção pós-barba por dez dólares.
Era impossível que a lembrança da primeira vez que estive ali não fizesse cócegas em minha mente, mas, surpreendentemente, ela não me trazia tristeza, mas aquecia meu peito em uma doce saudade.
Os meninos haviam dado um tempo depois do acidente. Em parte porque ainda sentia dores no braço direito quando tocava por muito tempo, em parte porque toda a situação era simplesmente uma merda.
- Estava sentindo falta de ver vocês tocarem - sorri ao voltar minha atenção para - É hilário tirar sarro de Tansy quando o bar inteiro está delirando por Carter.
Ele soltou uma risada adorável enquanto rolava os olhos. Eu estava apoiada em seu corpo e precisava ficar na ponta dos pés para alcançar seu rosto.
- Eu não sei o que tanto veem nele…
- Ele faz o tipo rockstar fofinho. As garotas gostam disso.
- Eu sabia que devia ter insistido para ser o vocalista - entortou os lábios e eu tive vontade de beijar as covinhas que se formaram em suas bochechas.
- Está tudo bem. Eu estarei delirando por você.
O sorriso charmoso se alargou em seu rosto. Ele deu um leve apertão em minha cintura e deslizou a mão até a minha, entrelaçando nossos dedos.
Eu mal me lembrava o quanto aquele frescor das provocações de primeiras vezes era gostoso. E eu e estávamos nessa há tanto tempo.
Era impossível não se impressionar com o garoto logo à primeira vista. Ele cheirava a Abercrombie e parecia ter saído de um catálogo da J. Crew. Era alto, forte e em seu rosto ainda havia traços vivos de juventude. Eu acho que eram seus olhos cor de avelã, repletos de inocência, perdidos em toda aquela masculinidade.
Primeiro vieram os olhares. E eu achei que ele seria apenas uma distração - como tudo o que sucedeu sempre fora.
Mas então vieram as palavras. E em um instante eu já não estava encantada apenas pela sua beleza. era, provavelmente, a melhor pessoa que eu já havia conhecido.
E talvez exatamente por isso ainda não houvera coragem para dar o próximo passo. Relacionamentos ficavam complicados. As pessoas iam embora, eu bem sabia. Ceder ao desejo podia ser tão torturante quanto sufocá-lo.
Uma faísca de entusiasmo se acendeu em meu peito quando ele segurou minha mão um pouco mais forte para me guiar pra dentro do bar.
Ah, esquece isso. Eu queria mesmo descobrir o gosto dele.
Queria dizer que estava dispersa demais em para perceber o mundo à minha volta - mas não importava o que eu fizesse ou com quem eu estivesse, tudo parecia me puxar em direção a . E nossos olhares se cruzaram enquanto eu passava pelas portas do bar e Chloe o brindava com um beijo em seu pescoço. Me perguntei se ele se sentia como eu; sempre tão perto de se prender a outros cosmos sem nunca, realmente, chegar lá; porque existia uma estrela no meio do caminho que sempre parecia brilhar mais do que as outras.
E nenhuma outra seria tão radiante quanto ela. Nunca.
Lá dentro, o ar ligeiramente nublado e uma música do The Who irrompendo das caixas de som me trouxeram uma aprazível sensação de comodidade. Sorri ao ver o salão extenso quase lotado; não havia uma mesa vaga em frente ao palco e quase nenhum espaço perto do bar. Era incrível que as pessoas estivessem ali para ouvir os meninos. Eles eram realmente bons.
- O que você quer? - se aproximou do meu ouvido para sussurrar e eu senti um arrepio gostoso percorrer meu pescoço.
Um sorriso nada ortodoxo tomou conta do canto dos meus lábios. Sabia que ele estava me oferecendo uma bebida, mas diversas respostas indecorosas passaram pela minha mente e quase escorregaram para a minha língua.
- Um drink de menta - me apoiei na ponta dos pés para sussurrar de volta.
contraiu o rosto em uma careta engraçada.
- Não sei como você gosta daquilo.
- Meu gosto é bem duvidável. Olha eu aqui, toda em cima de você - lancei piscadinhas ingênuas em sua direção e fui recebida por um olhar divertido de repreensão.
Aposto que agora era ele quem tinha pensado obscenidades.
Eu nem precisava procurar para saber onde Sage e Tansy estavam. Sentadas na mesa bem em frente ao meio do palco, Tansy não parava de gesticular ao passar as mãos nos cabelos ruivos e Sage roía as unhas enquanto tentava acompanhar a empolgação. Segurei uma risada - se Sage estava roendo as unhas, Aaron provavelmente estava por ali.
- O que eu perdi? - dei tapinhas animados na mesa quando tomei o lugar em frente às duas.
- Tansy está bêbada - Sage rolou os olhos ao tentar afastar o copo com uma bebida azul fosforescente da amiga.
- Ah meu Deus, eu adoro a Tansy bêbada! - soltei um gritinho animado - Dê esse copo para ela agora, Sage!
- Parem de falar de mim como se eu não estivesse aqui - Tansy choramingou - O que você tem contra diversão, Sage?
- Absolutamente nada - ela levantou uma das sobrancelhas escuras - Estou rindo de você agora mesmo.
A gargalhada ficou presa em minha garganta e meu sorriso se transformou em uma careta quando vi se aproximando com Chloe, um dos braços envolvendo a cintura da menina. Não que o afeto me incomodasse, mas não entendia porque ela havia a levado ali.
Talvez eu estivesse sendo injusta, ou até mesmo irracional. Mas eu nunca traria um dos meus casos de uma noite para o Night Meadow. Nunca.
Ainda assim, tentei lançar um sorriso simpático para a garota enquanto ela seguia com ele em direção ao palco, onde Carter mexia em alguma coisa que parecia complicada nas cordas de sua guitarra. Sabia que não havia causado uma boa impressão mais cedo e todas as questões mal resolvidas entre eu e não eram, nem de longe, culpa dela.
- Sage, eu quero mais - a voz melosa de Tansy soou ao fundo.
- Eu juro, é como se eu estivesse cuidando de uma criança! - ela bradou e segurou Tansy pela mão, a levantando da mesa - ?
- Eu espero vocês aqui. foi pegar a minha bebida - soprei, um tanto distraída.
Sage deu um pequeno sorriso diante da menção do nome de . É, eu sabia que ela torcia por nós dois.
Me concentrei em fingir que minhas mãos eram extremamente interessantes enquanto esperava por ele. Não queria olhar pro palco e ver como ficava glorioso com seu baixo, dedilhando as cordas exclusivamente para a menina de cabelos dourados e maçãs perfeitamente salientes.
Contei os segundos enquanto observava a pontinha de esmalte vermelho descascado no meu dedo anelar.
Me perguntei, ao menos cinco vezes, porque estava demorando tanto.
Até acreditei que me distrai o suficiente para esquecer porque eu precisava me distrair.
- Não precisa me lançar esses olhares, . Você me conhece bem melhor do que isso.
Mas sempre me encontrava
bem no meio do caminho
quando eu tentava deixá-lo na Terra
e me ater ao universo imaginário
onde eu tentava flutuar.
Meu corpo tremeu em nervosismo quando meus ouvidos capturaram seu sussurro.
Pensei em simplesmente ignorá-lo. Olhar para o alto e torcer o nariz, como se eu tivesse escutado apenas algum murmúrio aleatório que não fazia parte do meu cenário.
Mas eu não tinha muito controle sob meu corpo quando o assunto era - então, como se ele fosse a lua e eu as ondas do oceano, apenas segui as modulações suaves de sua voz.
E logo desejei não ter feito.
Sempre acontecia quando suas íris estavam perto demais - elas pareciam querer enxergar além do que eu queria mostrar, e a intensidade do seu olhar me fazia pensar que eu estava prestes a cair sem saber aonde, e , certamente, não me contaria altura da queda.
Ele havia tomado o lugar bem ao meu lado e seu tronco se inclinava em minha direção, com todo aquele calor empolgante fluindo dele.
Eu queria gritar.
Gritar para que ele saísse dali.
Gritar que as lembranças que seu olhar me trazia não eram bem vindas.
Mas não consegui.
Porque eu queria, principalmente, gritar que ele estava errado.
Eu não o conhecia.
Conheci, uma vez, o que me tirava do universo amargurado no qual eu insistia em me lançar. E o garoto na minha frente era alguém completamente diferente para mim.
É claro que ele ainda tinha as mesmas feições encantadoras e os cabelos ainda emolduravam seu rosto como uma obra divina. E eu ainda tinha vontade de correr a ponta dos meus dedos pelo maxilar marcado que trazia ao seu rosto um ar impenetrável, e então beijá-lo bem nesse ponto para ter certeza que sim, eu podia adentrar seu escudo de mistério.
Meu olhar caiu para o seu corpo e fora atraído imediatamente para seu braço direito. Ele vestia um suéter de cashmere preto e as mangas estavam estendidas até os cotovelos, deixando à mostra as tatuagens que coloriam sua pele.
Meus dentes pressionaram meu lábio inferior antes mesmo que eu percebesse.
E fiz a única coisa que podia: me curvei em sua direção e puxei uma das mangas até seu punho.
- Para de exibir essas tatuagens pra mim, . Você sabe que eu não resisto.
Uma risada fluiu de seus lábios; um riso sincero e triste, tão confuso e puro como só nós dois conseguíamos ser.
- Se isso fosse verdade você estaria sentada aqui - a palma da sua mão pousou sobre a própria perna - E não aí.
Tentei ignorar a onda de calor que palpitou em meu peito e estremeceu cada milímetro do meu corpo. Meus olhos ainda estavam presos aos seus e, por mais que eu quisesse, não conseguia tirá-los dali.
- Por favor, não diga essas coisas... - supliquei baixinho, me afastando milimetricamente.
- Isso é injusto - ele se inclinou um pouco mais em minha direção, dessa vez, aproximando o rosto do meu - Foi você quem me deixou com aquela imagem sensual pelo resto da noite, .
Minha respiração falhou. Meu coração bateu em descompasso. E meu corpo inteiro gritou por .
Quando palavras sujas vertiam de seus lábios, rosados e convidativos, eu costumava beijá-los.
E meu apelido, proferido com tanta intimidade, era o golpe que meu coração não precisava.
Naquele instante, no entanto, me vi fazendo o oposto. Meu corpo, calejado pelo tempo, não precisou de qualquer estímulo para dispersar a névoa de desejo prestes a me absorver. Arrastei meu olhar para longe do seu e minha atenção voou para o exato ponto em cima de seus ombros, onde Chloe nos encarava enquanto tentava prestar atenção em algo que Carter falava. Diferente de como eu imaginei que a encontraria, um sorriso leve iluminava os traços marcantes de seu rosto.
E olhar para ela me fez recobrar o senso de realidade. Céus, eu não queria que ninguém nos visse assim. , Sage… me parecia injusto contar para qualquer um deles agora, quando a única pessoa que devia saber de tudo não estava mais aqui.
- É melhor ir ficar com ela - murmurei enquanto ainda olhava para Chloe.
- Acredite, estou exatamente onde gostaria de estar.
Levei um instante para admirar o princípio de um sorriso em seus lábios, pois sabia que, no instante seguinte, ele não estaria ali.
- Porque a trouxe logo aqui? - sussurrei, tentando, inutilmente, disfarçar a mágoa em minha voz.
Apertei os lábios, prevenindo as lágrimas que ousariam molhar o meu rosto. Seus olhos lampejaram de um lado para o outro, como se buscassem nos meus algum indício cinismo.
E então ele não disse mais nada.
E eu apenas levantei, fazendo questão de não olhá-lo enquanto abria espaço entre as pessoas, caminhando diretamente para o bar, na tentativa de encontrar .
Talvez não soubesse que aquele lugar ainda significava algo para mim.
E talvez a culpa fosse minha, por fugir toda vez que ele se aproximava.
sempre quis me proteger. Das pessoas ao nosso redor, de qualquer ameaça de amargura e até dele mesmo. Eu costumava gostar desse seu cuidado em relação a mim quando éramos mais novos - fora um dos grandes motivos por eu ter me encantado tanto por ele.
Mas quando as coisas ficaram complicadas, ele simplesmente parou. Em um acordo silencioso, seguimos caminhos diferentes; por mais que eles ainda se cruzassem, vezes por causa de Avery, vezes por causa de Carter e . Ele se manteve distante e eu também fiz questão de permanecer longe. Mais do que isso, eu sentia que certas vezes ele apenas me tolerava, com palavras indolentes e atitudes desdenhosas.
E então, uma semana depois do acidente, ele havia voltado a me rondar. Com palavras carinhosas e, muitas vezes, provocantes. E o tal do senso de proteção estava ali, mais forte do que nunca.
Eu entendia; ele tinha medo que eu fizesse alguma besteira. Eu não era a pessoa mais prudente do mundo. Mas minha segurança e meu bem estar não cabiam a ele.
Perdida em pensamentos, a ponta de tristeza que havia comprometido meu peito não demorou muito para se transfigurar em raiva. Porque diabos ele precisava ter tanto efeito sobre mim? Eu estava ali apenas para ver os meninos tocando. Para retificar o quanto ficava gostoso no palco e dar algumas risadas com Sage enquanto Tansy enlouquecia pelo namorado. Mas não importava se eu estava em um novo barco, tentando lutar contra a corrente; vinha como uma onda arrebatadora e me puxava incessantemente para o passado.



Eu devia sair por aí vendendo camisetas estampadas com o nome Wild and Reckless.
A banda dos meninos era um sucesso e eu não estava surpresa - três rockstars bonitões que faziam um som parecido com uma mistura de Blink e Beatles, cheio de letras engraçadinhas e românticas? Ah, aquela era a fórmula do sucesso!
Eu estava no meu quinto drink de menta e eu tinha certeza que meus olhos brilhavam enquanto eu prestava atenção no quanto ficava deslumbrante na bateria. Os cabelos castanhos estavam levemente grudados na testa e suas maçãs estavam rosadas pelo esforço.
E eu não havia pensado uma só vez em como parecia uma versão ainda mais sexy do Kurt Cobain e nem em como eu sabia o quão alucinantes eram aqueles dedos que dedilhavam as cordas do baixo habilidosamente.
Ok, apenas uma vez. Talvez duas.
Os gritos explodiram quando as últimas notas ecoaram na Night Meadow, quase encobrindo as palavras de Carter ao se despedir no microfone. Eles haviam encerrado a noite com Bridge Over Troubled Water e, céus, como eu amava aquela música!
Fiquei na ponta dos pés quando desceu do palco com a expressão gloriosa adornando seu rosto. Ele estava uma gracinha cheio de sorrisos e presunção.
Minha barriga formigou quando ele veio em minha direção.
Eu não ia esperar uma atitude.
Ah, eu ia beijá-lo.
Isso mesmo. Bem ali.

Seu sorriso se fez mais largo quando ele parou em minha frente. E eu não esperei que ele dissesse nada; apenas passei meus braços por seu pescoço e capturei seus lábios com os meus.
Fiquei surpresa quando ele me recebeu com tanta delicadeza. Os lábios mais doces que eu já havia provado se abriram para encaixar nos meus e pequenas explosões extasiantes tomaram cada pedacinho do meu corpo. colocou uma das mãos em meu rosto, os dedos gentis acariciando minha pele. Ele soltou um pequeno gemido quando minha língua deslizou pelo seu lábio inferior, e o som sensual reverberou em meu corpo em puro desejo. Pressionei-me contra ele, querendo sentir seu calor por inteiro; e, como se aquilo não fosse suficiente, suas mãos deslizaram para minha cintura e ele tentou me trazer ainda para mais perto. Nossos lábios dançavam ao mesmo ritmo, como se fizessem aquilo há anos. O beijo de era tão carinhoso quanto ele, mas de seu corpo emanava a volúpia que o meu buscava.
O beijo deu espaço a um sorriso - e sorrimos, os dois, um tanto maravilhados.
se inclinou brevemente para baixo e, com o os lábios grudados em meus ouvidos, sussurrou:
- Você está com gosto de menta. Não sabe há quanto tempo quero fazer isso, .
Foi impossível não sorrir.
- Eu não podia esperar você para sempre, - brinquei, ajeitando os fios que meus dedos haviam bagunçado - Vem, vamos sair daqui!
Antes que ele pudesse dizer qualquer coisa, entrelacei nossos dedos e o puxei energicamente em direção à porta.
Não procurei por . Não sabia se ele estava com Chloe ou se observava a troca de afeto com seu amigo. Eu estava com . Quis beijar por tanto tempo e, por fim, eu conhecia seu gosto. Então. Não. Pense. Em. .
Cessei os passos quando paramos ao lado do Toyota vermelho de . Ele apertou o botão de destrave e eu fui direto para a porta do motorista, indicando o banco do passageiro com a cabeça para ele.
- Tem certeza de que sabe o que está fazendo? - indagou ao certificar que eu havia colocado o cinto de segurança.
- Sempre - liguei o carro - Mas eu não tenho carta, então, se alguém nos parar, a gente troca de lugar.
- … - ele segurou uma risada.
- Relaxa, lindinho.
Pisei no acelerador e precisei me concentrar para não rir da cara que fazia. Não sei se estava com medo pela gente ou pelo precioso carro.
Talvez pelos dois.
Mas eu sabia dirigir; apenas não praticava com tanta frequência. Ou cautela.
Acelerei o máximo que a minha coragem permitia para sair dos arredores da Night Meadow. Era tudo o que eu precisava; sair daquele lugar.
- mandou uma mensagem - avisou ao tirar o celular do bolso assim que entramos na via expressa.
Rolei os olhos.
- Nem quero saber…
- Ele disse pra eu tomar cuidado pois você é uma péssima motorista.
Não contive uma gargalhada. Disse o cara que havia me ensinado a dirigir.
- Mande ele à merda, por favor.
- … - murmurou, e eu nem precisava mirá-lo para sentir seu olhar crítico.
- Hm?
- Você é uma péssima motorista.
Deixei um gritinho insultado sair ao abrir a boca em um perfeito O, da forma mais teatral possível.
- Não me faça te mandar à merda também, . Eu sou extremamente cuidadosa.
Ele segurou uma risada.
- Não é não.
- Bom, os outros são. Eu odeio gente descuidada - o olhei com o canto dos olhos - Por isso gosto de você.
- Você gosta de mim porque eu te faço rir e porque meu sorriso é adorável - ele colocou uma das mãos em minhas pernas - Admita.
Ah, isso era chantagem. Eu mal conseguia pensar em contrariá-lo com suas mãos em mim.
- Certo, você tem razão - passei rápido pelas palavras, sabendo que soltaria uma risada
E ele soltou.
- Uau - sibilou, apenas, me fazendo rolar os olhos; embora um sorriso teimoso brincasse em meus lábios - Você tem razão - ele imitou a minha voz da maneira mais irritante o possível - Essa é uma frase incomum pra você. Acabou de aprendê-la?
Ri ao dar um tapinha em sua mão sob a minha pele. implicando comigo daquele jeito quase adolescente era tão adorável quanto seu sorriso.
Diminui a velocidade quando o acostamento da pista se transformou em um pequeno desvio. Virei à direita e, pouco mais de cem metros depois, estacionei o carro.
- Faz tanto tempo que eu não venho aqui - ele soprou ao se desfazer do cinto.
- Vocês ficaram velhos e caretas, - torci o nariz enquanto abria a porta do carro - Eu e Sage fugimos pra cá o tempo todo.
Talvez o tempo todo fosse exagero.
Não era sempre que estávamos dispostas a dirigir quarenta minutos para além da cidade apenas para sentar em um banco de madeira na beirada de um abismo.
E também não era prudente, já que todas as vezes que íamos ali, estávamos acompanhados de algumas garrafas de bebida no porta malas.
Um tempo atrás, depois das apresentações da banda, ali era onde sempre completavamos a noite. Era agradável - o som do oceano correndo aos nossos pés, o barulho do vento nas copas das árvores e a única iluminação existente sendo a lua e os faróis dos carros que, vez ou outra, passavam pela pista.
Foi ali a primeira vez que vi Avery beijando .
Mas eu não olhava para aquilo com amargura - eu sempre quis que minha irmã fosse feliz.
- Seu carro terminou intacto. Quem diria? - pisquei pra , indo em direção à beira do penhasco.
O rio ficava tão distante de meus pés que eu mal podia vê-lo. Era reconfortante, de alguma forma. Altura nunca havia sido um de meus medos e eu gostava da sensação de estar em controle do perigo; apenas eu e meus pés podiam decidir se eu pulava ou continuava em terra firme.
- Você não pode vir aqui pra trás?
Olhei por cima dos ombros. me encarava com os braços cruzados e uma expressão consternada.
Não pude evitar uma gargalhada.
- Eu quase esqueci que você tem medo de altura, - dei meia volta, andando em sua direção - Isso tira ao menos dez pontos do seu charme.
- Dez pontos? - o garoto levantou uma sobrancelha e, quando cheguei perto dele, seus dedos procuraram os meus. Ele os entrelaçou e me puxou para perto de si - Senso de sobrevivência é um defeito?
- Estou sendo boazinha - dedilhei o caminho dos músculos em seus braços ao encaixar meu corpo na frente do seu - Espírito aventureiro conta uns cinquenta pontos. E ter medo de pular na água não é nada audacioso.
Um sorriso de canto repuxou seus lábios e eu tive a certeza de que nunca havia visto aquele sorriso em antes.
- E quantos pontos eu ganho... - mal processei suas palavras e seus dedos mergulharam em meu cabelo. Ele puxou minha cabeça delicadamente para trás, deixando meu pescoço à mostra - Por isso? - e então encostou os lábios na pele exposta, de um jeito lento e provocante.
Arfei em resposta, o arrepio percorrendo o caminho inteiro do meu colo até a minha barriga. Não conseguia pensar em palavras, muito menos em números.
Meus lábios procuraram os seus. Tremi de desejo quando sua língua deslizou pela minha. Seus dedos escorregavam pela minha cintura, explorando o limite entre minha blusa e a pele à mostra. Eu apertava seus ombros, pressionando meu corpo contra o dele, querendo senti-lo inteiro em mim. Nossas línguas dançavam em compasso, no mesmo ritmo alucinado, e eu soltava um gemido satisfeito toda vez que passava os dentes pelos meus lábios.
Deslizei uma mão pelo seu troco e esgueirei-a por dentro de sua camiseta, passando a unha por sua pele. Sorri satisfeita quando ele contraiu o abdômen e eu apenas o arranhei um pouco mais, excitada ao senti-lo se contrair de desejo sob mim. Pressionei meu quadril pela frente, roçando-o em da maneira mais estimulante que eu podia e estremeci quando senti sua ereção, estourando na calça jeans, contra minha intimidade. Ele soltou um gemido profundo e o som foi abafado pelos meus lábios, reverberando em meu corpo de um jeito delicioso.
Meus dedos estavam tentados a puxar sua camiseta quando senti suas mãos em meu ombro, empurrando-me levemente para trás. Nossos lábios se separaram e, quando abri os olhos, ele me encarava com um uma expressão suplicante.
- … Vai com calma - ele sussurrou ao encostar a testa na minha, fechando os olhos com furor.
- Não... - coloquei minhas mãos em seu rosto, afastando-o um pouco para que ele pudesse ver meu rosto - Não seja fofo, . Eu odeio fofo.
Ele soltou uma risada quase dolorida.
- Não quero que faça nada que se arrependa - disse ao deslizar uma das mãos para o meu rosto, acariciando minhas bochechas com a ponta dos dedos.
- Eu quero isso há muito tempo. Sabe disso, não sabe?
- Eu também. Só de te olhar, eu… - ele fechou os olhos mais uma vez, como se quisesse afastar os pensamentos. Havia algo muito excitante em tentando se controlar para não me tirar minha roupa e eu estava quase me contorcendo ao vê-lo daquele jeito - Nem sei dizer o que passa na minha cabeça. Mas não posso fazer as coisas desse jeito, . Não aqui. Não com você.
Soltei um suspiro.
Eu não ligo pra esse tipo de coisa, . É só sexo.
As palavras se prepararam em minha garganta, mas nunca chegaram aos meus lábios.
Era . Eu gostava de . Eu devia ser compreensiva.
- Certo. Podemos apenas observar as estrelas como aqueles casais cafonas em filmes ruins de romance.
Senti seu corpo relaxar, e a nébula de luxúria que havia envolvido seus olhos começou a se esvair.
- Como Carter e Tansy?
Soltei uma risada baixinha.
- Como sabia que eu estava pensando neles?
Era fácil falar, mas eu admirava a relação dos dois. Era raro se encontrar tanto em alguém como havia acontecido com eles. Eu nem conseguia me encontrar em mim mesma.
Soltei um suspiro e encostei o rosto no peito de quando ele me abraçou de lado. Meus olhos miravam a imensidão de nuvens e pequenos pontos brilhantes bem acima de nós dois.
Eu queria deixar meus pensamentos vagarem por cenários celestes e desejava que meus lábios lançassem belas palavras para o garoto que havia mostrado nada além de consideração e carinho por mim.
Mas em minha mente percorriam tópicos muito menos etéreos e muito mais turbulentos.
Era a merda daquele ciclo vicioso; eu não podia ver a promessa de qualquer começo sem pensar em seu fim.
E eu estava com medo de como aquilo ia acabar. Aquela era a única certeza que eu tinha: aquilo ia acabar. Era questão de tempo até eu ter uma atitude errada, dizer o que eu não devia, ou até mesmo fugir, apavorada demais para enfrentar as consequências.
Mas eu estava com medo, principalmente, porque eu não conseguia pensar em nada.
Eu estava nos braços de , onde por muito tempo jurei que queria estar, entregue à sensação que, por dias e noites, imaginei como seria. Seu gosto ainda estava em meus lábios e em meu corpo ainda remanesciam as sensações que ele havia me provocado.
E eu não conseguia pensar em nada.
Nada além de .


Continua...



Nota da autora:
oi, amorzinhos. quanta saudade!!!!!!!!
vocês podem puxar a cadeira que essa nota vai ser maior que o capítulo! hahaha

sinto que preciso falar um pouquinho aqui com vocês depois de tanto tempo. aconteceram tantas coisas esse ano… acredito que os últimos tempos tenham sido estranhos pra todo mundo, na verdade. ficar reclusa do mundo mexeu mais comigo do que eu podia imaginar; e, querendo ou não, isso afetou demais a minha escrita. sempre ouvi que a gente só escreve sobre aquilo que vive ou vê - como eu podia ter inspiração sem viver ou ver nada???
ao mesmo tempo, escrever sempre foi uma das coisas que mais me trouxe alegria e eu sabia que, se eu tentasse, toda a crise ia melhorar…. mas pensar e botar em prática são duas coisas bem distantes, né?
no meio disso tudo, eu terminei um relacionamento de cinco anos. vocês não têm noção do quanto foi dificil tentar escrever sobre o amor enquanto eu o deixava pra trás. não sei dizer quantas vezes chorei nesse processo. demorou um pouquinho pra entender que eu estava, também, tirando tudo do meu peito enquanto escrevia. e aí eu me encontrei novamente, bem aqui, no meio das palavras.
acho que a reescrita dessa história é o mais crua e pura que posso ser, então espero que vocês gostem de conhecer o que se passa dentro do meu coração.

agora vamos falar sobre a história!
quis reescrever “suave é a noite” porque não estava feliz com algumas coisinhas. alguns pontos na escrita que eu sabia que podia melhorar e, o mais importante: alguns elementos do roteiro.
se você está aqui desde a primeira parte deve lembrar que os meninos corriam….. pois é, apesar de ser levemente encantada por esse universo e por toda a sensação de liberdade que vem junto, senti que não tinha tanto vocabulário e conhecimento pra escrever sobre. inevitavelmente, isso começou a me travar. e aí eu fui pelo caminho mais óbvio que eu podia escolher - dei uma banda pra eles, porque, MÚSICOS NÉ MINHA GENTE!!! não é de hoje que quero escrever uma long nesse universo - tenho alguns ficstapes perdidos por esse site pincelando levemente essa temática - e senti que foi bem mais fácil desenvolver assim. aliás, como a maioria de vocês sabe, dougie poynter é e sempre vai ser a maior inspiração da minha vida pra desenvolver qualquer pp.
pra quem já lia, esse comecinho da história vai ser tipo assistir a versão extendida de um filme que você já viu hahaha segue tudo igual porém diferente… e espero muito que vocês gostem das partes novas!!


sobre o nome
eu sabia que queria dar uma nova carinha pra esse projeto e o nome, apesar de lindo e especial pra mim, não parecia traduzir ou fazer qualquer ligação com a história. eu sou péssima com títulos e sempre tenho vontade de colocar frases gigantes nele hahaha.
eu comecei a reescrever essa história com o título “illicit affair” - uma das músicas, em minha opinião, mais bonitas do folklore e que eu achava ter tudo a ver com esse casal. mas duas coisas me fizeram mudar de ideia: o site já tem uma fic com o nome parecido e achei desrespeitoso com a autora, e eu não queria que pensassem que a história falasse sobre traição. mantive um trechinho dela no início, de toda forma!
ainda assim, eu queria que essa história levasse o título de alguma música.
e aqui vai uma curiosidade que nunca contei: por muito tempo, antes de publicar shades of cool, eu escrevia ela sob o nome “wild at heart”!! (foi antes mesmo de a lana lançar essa música, eu tinha escolhido por conta do filme). e, no meio do processo de escolher um título, essa música tocou e eu simplesmente comecei a chorar. COMO EU NÃO IA ESCOLHER ESSE NOME???
além de que acho essa expressão - e boa parte da música - a cara dessa casal. (ei, se você ainda não escutou wild at heart da laninha, corre! é uma obra de arte!)


sobre vocês
eu já falei que estava com saudades?? eu estava com muuuuuita saudade!
o apoio de vocês é e sempre vai ser essencial pra mim. é graças a vocês que eu tô aqui, podendo publicar essa história no especial all stars (alias amei que o início da história casou com o ano novo, super temática!! hahaha)
obrigada por tudo, gente!
por estarem aqui desde o começo. por terem chego agora. pelo carinho, pelo apoio, pelo apreço.
por favor, me alcancem onde quiserem! insta, face, twitter.. tá tudo aí embaixo pra a gente se falar!!!

FELIZ ANO NOVO, PESSOAL!!
que o próximo ano seja absolutamente incrível pra cada uma de vocês. que sonhos sejam realizados e que a felicidade seja abundante.


nos vemos em breve.
com todo amor do mundo,
ju ♡


Fanfics
Shades Of Cool | Restritas - Longfic - Finalizada

Shortfics
Chaos Theory | Restritas - Shortfic - Finalizada
Once Upon a Time In… Hollywood | Leonardo DiCaprio - Shortfic - Finalizada

Ficstapes
08. In My Feelings | Lana Del Rey
09. California | Lana Del Rey
11. The Greatest | Lana Del Rey
04. Brooklyn Baby | Lana Del Rey
08. Something About You | McFLY
08. Paper Rings | Taylor Swift
09. Broken Parts | The Maine
13. i love you | Billie Eilish

Nota da scripter: Oi! O Disqus está um pouco instável ultimamente e, às vezes, a caixinha de comentários pode não aparecer. Então, caso você queira deixar a autora feliz com um comentário, é só clicar AQUI.

Qualquer erro nessa fanfic ou reclamações, somente no e-mail.


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