Última atualização: 08/05/2022

Prólogo

Os olhos de acompanharam a trajetória da bola cruzada por Marcelo com bastante atenção, vendo-a formar um arco sobre os jogadores do Liverpool. Cercado por adversários, ele não teve mais do que um segundo para tomar uma decisão. Sem medo de parecer ridículo, apenas saltou e a golpeou no ar.
Desde que começara a jogar futebol, quando se tornar um jogador profissional era apenas um sonho distante, tinha em mente que precisava se arriscar. Era o único jeito de fazer grandes jogadas acontecerem. E no momento que sua chuteira tocou a bola, teve certeza de que aquela tinha sido uma grande jogada. Mal sentiu o impacto de seu corpo na grama, apenas olhou para trás e viu a bola cair no fundo da rede, como se estivesse assistindo a um vídeo em câmera lenta.
Quando o Olympic Stadium explodiu em comemoração, ele se levantou aos tropeços e correu em direção à parte branca da arquibancada. O grito eufórico que saiu do seu interior colocava para fora a frustração, a raiva e todos os outros sentimentos que ficaram entalados em sua garganta por meses. Ele mergulhou, deslizando de barriga pela grama, e logo sentiu o peso de seus companheiros de time sobre si.
A sensação de ser uma farsa foi se esvaindo, pouco a pouco, até sumir por completo do peito de . Mesmo quando ninguém mais parecesse acreditar em seu potencial, ele sabia que ainda podia encontrar a confiança necessária dentro de si mesmo.



1. La Primera

Si es por mí, te obligaría a quedarte
Pero el viento hoy sopla a tu favor
Y si cuesta una vida atraparte
No lo hagas peor

Déjame Ir - Andrés Cepeda, Morat

A algazarra no interior do vestiário do Real Madrid era tão grande que ultrapassava a porta fechada e se espalhava pelos corredores do Olympic Stadium, situado na cidade de Kiev.
sorriu ao ouvir o coro que acompanhava “El Anillo”, da Jennifer Lopez, que tocava ao fundo. Nem parecia que aqueles jogadores estavam a menos de vinte e quatro horas de disputar a final da Champions League pelo terceiro ano seguido. Se tinha uma coisa de que ela sentia falta de sua passagem pelo time principal como assistente técnica, na temporada anterior, era do ambiente sempre tão descontraído. Às vezes descontraído até demais, o que a levava a ser a chata que exigia mais foco dos jogadores. Álvaro Morata e Lucas Vázquez costumavam ser os recordistas em serem repreendidos, mas sempre acabavam com sua pose de durona e a faziam cair na gargalhada.
Quando ela ergueu a mão para empurrar a porta, esta se abriu de supetão e revelou Antonio Pintus e Javier Mallo.
— Que susto. — levou a mão ao peito, rindo. — Tudo bem com vocês? Vim dar um oi pro pessoal.
Os dois preparadores físicos se entreolharam.
— Não sei se você vai poder entrar, — lamentou Antonio. — O Zizou proibiu a presença de pessoas que não sejam da equipe.
Ela esperou pelo momento em que o italiano soltaria sua risada contagiante e, com o sotaque carregado, diria que era apenas uma brincadeira. Quando percebeu que esse momento não chegaria, soltou um risinho irônico.
— Ele não quer pessoas que não são da equipe no vestiário, ou não quer a mim?
— Não tem nada a ver com você, — ele disse. — Esse ano, o Zizou está sendo um pouco mais discreto.
— Mais cabeça-dura, você quer dizer. — Ela rolou os olhos. — Deixa pra lá, não quero arrumar problemas na véspera da final. Eu posso falar com eles lá no campo.
— Com licença — disse uma voz feminina vinda do vestiário.
Antonio e Javier imediatamente abriram espaço para Amelie sair e seguiram para o campo, carregados de bolas e obstáculos para o treino.
— Tá tudo bem, Lalie? — perguntou, preocupada ao vê-la usando uma das mãos para se abanar e, a outra, repousada sobre a barriga já bastante saliente, que concebia os dois bebês que ela e Cristiano Ronaldo esperavam para o outono.
— Só preciso de um pouco de ar, esse vestiário é minúsculo. Com todo mundo falando e andando pra lá e pra cá, fica pior ainda.
— Não seria melhor deixar o trabalho pesado pros outros fisioterapeutas? — apertou o ombro dela de maneira afável. — Pede pra eles te chamarem se precisarem e fica lá fora, descansando.
— E perder a preparação pra uma final de Champions? Sem chances. Eu tô pegando leve — Lalie garantiu, ainda que soubesse que o “pegar leve” de uma workaholic não era pegar tão leve assim. — Mas o que você tá fazendo aqui fora, ? Tá faltando você pra colocar ordem nessa bagunça.
— Adivinha? — Ela bufou. — Acabei de ser barrada. Meu tio não quer intrusos no vestiário.
— Ah, mas com certeza o Zidane não se referiu a você ao dar essa ordem.
— Aí é que você se engana — disse com um sorriso irônico. — Ele tem me evitado pra não ter que falar de certos assuntos. Se é que você me entende — acrescentou, sugestiva, e viu a compreensão passar pelos olhos de Amelie.
— Certos assuntos chamados e ? — ela brincou. — Ele desabafou comigo ontem à noite. Tá muito frustrado com a possibilidade de não ser titular amanhã.
— É isso que eu queria evitar. — suspirou, sentindo um aperto no peito ao pensar no . — O merece ser titular mais do que nunca, tem feito gol toda vez que entra em campo. Eu não queria que meu tio se deixasse levar pelos problemas do meu relacionamento.
— Eu imagino, mas deve ser complicado. Percebo que o próprio tem estado meio retraído com o Zidane. Quase não vejo os dois se falando.
— Como ele tá?
— Um pouco mais fechado do que de costume. Evita falar de você, então eu tenho respeitado isso — Amelie falou cautelosamente. — Se quiser, posso chamar ele aqui.
— Se ele fizesse questão de falar comigo, tinha me procurado ao longo da semana.
— Eu odeio ver vocês desse jeito.
— Não posso fazer nada se ele pensa que agir feito um menino mimado é a melhor saída.
— Ah, ... — Lalie disse em meio a um suspiro. — Não quero que você pense que eu tô defendendo o , mas acho que ele anda de cabeça quente por causa das lesões que teve na primeira parte da temporada. Você sabe o quanto ele se cobra, deve ser muito frustrante não conseguir manter uma regularidade. E ele não coloca isso pra fora. Vai guardando até que chega uma hora que acaba explodindo.
— Mas nada disso é culpa minha. Não é justo descontar as frustrações profissionais em mim.
— Eu não quero me meter, mas posso conversar com ele sobre isso se você quiser.
— Não precisa, Lalie. Você já tem os seus problemas, e o é bem grandinho.
Com um sorriso não muito animado, se despediu da amiga e fez o caminho de volta ao campo. Sentou-se ao lado de Susana na arquibancada, o único local ao qual o crachá de visitante permitia que ela tivesse acesso. Assim como a dançarina, agora ela era apenas a namorada de um dos jogadores. Precisava entender que não tinha mais nada a ver com as decisões de Zizou, por mais que não concordasse com elas.
Jornalistas e fotógrafos de veículos esportivos do mundo todo estavam posicionados para cobrir o treino de reconhecimento de campo do Real Madrid, que chegava à final contra o Liverpool como o grande favorito, depois de ter sido campeão das duas últimas edições. Lembranças da conquista da Champions League no ano anterior, em , vieram à mente de . Ela não se arrependia de ter aceitado a proposta de Florentino Pérez. Tinha evoluído muito como treinadora no último ano, comandando o Real Madrid Castilla. No entanto, bem lá no fundo do coração, ela gostaria de ainda fazer parte do time principal para participar de um momento histórico como aquele.
Zinédine Zidane foi o primeiro a chegar ao campo, seguido pelos assistentes técnicos David Bettoni e José María Gutiérrez. Quando os jogadores começaram a surgir pelo túnel, os olhos de buscaram por , ansiosos por finalmente poderem revê-lo. Ele foi um dos últimos a aparecer, acompanhado por Karim Benzema. Diferentemente do camisa nove, que jogou um beijo para ela e Susana, o não deu nem uma olhada sequer na direção da arquibancada. Embora aquela fosse exatamente a atitude que esperava que ele tomasse, não conseguiu prestar atenção em mais nada do que acontecia dentro do campo. Toda vez que seus olhos caíam em , a sensação era de que toda a história que tinham construído juntos tinha deixado de existir de uma hora para outra.
Ao fim do treino, os jogadores foram liberados para passar um tempo com seus familiares. Em meio ao pequeno tumulto que se formou, pôde ver o coque do sumindo pelo túnel. Ele foi o único jogador a se retirar, como se não tivesse ninguém à sua espera. Ela não se prendeu muito a isso, no entanto, pois se apressou a alcançar Zinédine antes que ele também conseguisse fugir.
— É impressão minha ou você tá me evitando, tio? — disse ao se aproximar dele no centro do campo.
— Por que eu estaria te evitando? — Zizou rebateu, os olhos voltados para o tablet que tinha em mãos.
— Talvez pra não ter que falar sobre a escalação do jogo de amanhã.
Ele riu levemente, como se já estivesse esperando por aquilo.
— Não se dê o trabalho, . Você vai saber qual será a escalação amanhã, assim que eu divulgar.
— O não vai começar o jogo, né? — ela perguntou, mesmo que já soubesse a resposta. — Tio, ele fez cinco gols nos últimos quatro jogos.
— Tenho que admitir que é um desempenho admirável… — ele disse, como se estivesse considerando o argumento, porém rebateu em seguida: — Mas não é o único que está em boa fase.
— Cinco gols nos últimos quatro jogos — repetiu, frisando os números. — Nem o Cris, que é uma máquina de fazer gols, tá numa fase tão boa assim.
Zinédine a encarou no fundo dos olhos, um olhar analítico que fez se sentir intimidada.
— Por que você está aqui intercedendo pelo ?
Por um instante, ela ficou sem palavras.
— Porque eu não acho justo — disse com sinceridade. — Você sabe que ele merece essa titularidade. Como treinadora, não consigo te ver fazendo essa besteira e ficar calada.
— Presta atenção numa coisa, — Zizou falou em um tom paternal. — Você precisa entender que não pode ter o controle de tudo nessa vida, muito menos quando se trata de consequências com que outras pessoas precisam lidar por causa de atitudes que elas tiveram. Cada um colhe o que planta. É a principal lei da vida.
— O problema é que você tá misturando o pessoal com o profissional. Não é assim que tem que ser.
Ele suspirou, passando a mão pela careca.
— Preciso ir para a coletiva agora, mas a gente pode continuar essa conversa depois. — Ele se aproximou e a beijou na testa, como que para selar um acordo de paz.
, resignada, apenas o observou deixar o campo.

🏆🌟⚽

Existem gols inesquecíveis. tivera o privilégio de ver alguns deles ao vivo, no estádio, em meio ao calor da torcida. No topo de sua lista figurava o que havia consagrado o Real Madrid como campeão europeu pela nona vez. Ela tinha apenas 12 anos na época, mas a jogada ainda estava viva em sua memória. Com assistência do lateral-esquerdo brasileiro, Roberto Carlos, o voleio de Zinédine Zidane pegou o goleiro do Bayer Leverkusen desprevenido, e o Hampden Park veio abaixo quando a bola explodiu na rede.
Por muitos anos, o gol da final de Glasgow havia sido considerado pela própria UEFA o mais bonito de toda a história da competição. costumava pensar que nenhum outro seria capaz de desbancá-lo, inclusive em relação ao valor sentimental que representava para ela, como sobrinha e afilhada do autor daquela obra-prima do futebol, mas só até o momento que permitiu que entrasse em sua vida.
poderia passar horas a fio enumerando as qualidades que enxergava no , como a simplicidade, embora se tratasse de um dos jogadores mais bem pagos do mundo; a generosidade que demonstrava ao ajudar as pessoas ao seu redor sem esperar nada em troca; e a delicadeza com que tratava todo mundo. No entanto, a perseverança era a qualidade que ela mais admirava nele. nunca se permitia desistir do futebol, por mais que as lesões viessem se tornando cada vez mais recorrentes. Entrava em campo e dava o máximo de si, fosse qual fosse o contexto.
E gols inesquecíveis, apenas jogadores perseverantes são capazes de marcar.
Se alguém viesse a desbancar aquele gol de seu tio em outra final da Champions League, era a primeira a acreditar que poderia ser esse jogador. Por isso, não se surpreendeu quando ele entrou em campo substituindo Isco e, apenas dois minutos mais tarde, marcou o mais novo primeiro lugar da lista de gols inesquecíveis dela.
Novamente com assistência de um lateral-esquerdo brasileiro — dessa vez, o Marcelo —, saltou no ar e golpeou a bola em uma bicicleta, surpreendendo o goleiro do Liverpool. O Olympic Stadium veio abaixo quando a bola explodiu na rede.
deixou as lágrimas rolarem livremente enquanto recebia abraços eufóricos que não foi capaz de retribuir. Em meio à confusão que o segundo gol do Real Madrid causou na arquibancada, seu olhar cruzou com o preocupado de Véronique. Sorriu para tranquilizar a tia e secou o rosto com os dedos, mostrando que eram apenas lágrimas de emoção.
O jogo terminou, o capitão Sergio Ramos levantou a taça mais importante do futebol europeu mais uma vez, e se viu dentro do campo. A sensação de estar ali como torcedora, não mais como parte da equipe, era completamente diferente. Todos estavam espalhados pelo campo, tirando fotos com familiares e amigos, e ela se sentia como uma intrusa ao não encontrar o jogador de quem era convidada em lugar nenhum.
Girou em torno de si mesma, olhando para todos os lados, e avistou o sorriso de orelha a orelha que estampava o rosto de Karim Benzema. Ela deu uma corridinha até ele e o envolveu em um abraço caloroso.
— Precisava ter humilhado o menino daquele jeito? — empurrou o amigo pelo ombro, como que o repreendendo pelo gol oportunista que ele havia marcado para abrir o placar, pegando o goleiro do Liverpool desprevenido em uma saída de bola.
— O marcou aquele golaço de bicicleta e eu que humilhei o cara? — Karim gargalhou, abaixando-se para pegar Mélia no colo.
Logo atrás, estavam Susana, Chloé e alguns familiares dele. Embora estivesse um pouco deslocada em meio a tantos franceses, Susi parecia confortável na presença da ex-namorada de Karim. ficou feliz por isso. Como amiga de ambas, tinha certeza de que as duas se dariam bem, mas sabia que a espanhola estivera um pouco receosa quanto àquele encontro.
— Vocês acabaram com a carreira do coitado — sorriu. Por mais que sentisse pena de jogadores que cometiam erros tão bobos quanto os do goleiro alemão, Loris Karius, naquela final, não podia estar mais orgulhosa de seus dois meninos. Karim com um gol e com dois, sendo um deles um golaço. — Pelo menos ele é bonito. Se levar um chute na bunda do Liverpool, pode virar modelo.
— Deixa o teu namorado ouvir isso aí — Benzema debochou.
— Não que ele fosse se importar muito, né? Não fala comigo desde o fim de semana passado. — Ela sorriu ironicamente.
— Pega leve com o , . Ele desabafou um pouco comigo nesses dias que você passou em Paris — o atacante revelou.
— O que ele disse? — perguntou, sem disfarçar a curiosidade.
— Acho que é melhor você ouvir da boca dele. Sou amigo dos dois, não vou me meter nisso — disse com sinceridade. — Mas vocês vão se resolver, só precisam conversar.
— Conversar como se eu não consigo encontrar ele em lugar nenhum? — Ela abriu os braços, indicando o ambiente ao redor.
— Ele deve estar na coletiva, mas espera lá no vestiário. Assim, não vai ter como ele fugir de você — Karim acrescentou em um tom divertido.
— A que ponto eu cheguei… Tendo que encurralar meu próprio namorado.
deixou o amigo rindo para trás e seguiu em direção ao túnel, mas fez pequenas paradas para parabenizar os jogadores com quem ainda não havia falado que cruzavam seu caminho.
Daquela vez, ninguém a impediu de adentrar o vestiário do Real Madrid. A maioria do time ainda comemorava a conquista no campo, mas alguns funcionários de apoio já estavam por ali, arrumando um pouco da bagunça que havia sido feita no intervalo.
Sentado no banco, sob o módulo de número onze, estava . Com a mão erguida, ele segurava o celular em frente ao rosto, fazendo uma chamada de vídeo. No rosto, tinha o sorriso tranquilo de quem estava satisfeito consigo mesmo.
se aproximou a passos vagarosos e, quando estava próxima o bastante para ouvir o som que saía do alto-falante, reconheceu as vozes dos pais dele. Naquele ano, devido à longa viagem de a Kiev, Deborah e Frank optaram por assistir ao jogo de casa. Pensar em como devia estar se sentindo sozinho, sem nenhum familiar para compartilhar aquele momento, foi o que lhe fez tomar a decisão de deixar todos os pensamentos confusos de lado e se sentar ao lado dele.
— Oi, Debbie! Oi, Frank! — apoiou a mão no ombro de e aproximou a cabeça da dele, de maneira que pudesse aparecer na câmera. Pôde ouvir a respiração dele ficar mais pesada. — Tá faltando vocês aqui.
! — Deborah exclamou, animada. — Viu o gol que esse menino fez?
— Eu vi — ela respondeu, rindo. — Um golaço que só um jogador genial como o filho de vocês poderia marcar.
Queria tanto estar aí, mas realmente não deu pra ir. A gente não quis deixar a Vicky sozinha pra resolver as coisas do bar, ainda mais sabendo que o movimento aumentaria por causa da final.
— Daqui a pouco ele vai estar aí e vocês vão poder comemorar todos juntos.
Amém! — disse Debbie. — Dá um beijo nele por mim, por favor.
virou a cabeça e estalou um beijo na bochecha de . Ele se remexeu, incomodado, e esboçou um sorriso sem graça.
— Pronto, o beijo está dado. — Ela riu, tentando agir naturalmente.
A conversa não se prolongou muito, pois o vestiário começou a ficar cada vez mais cheio e barulhento. Ao encerrar a chamada de vídeo, se inclinou para a frente, apoiando os cotovelos nos joelhos, e permaneceu em silêncio enquanto checava as dezenas de mensagens que recebera no WhatsApp.
— Vai continuar fingindo que eu não existo até quando? — chegou um pouquinho para o lado, desencostando-se dele.
— Pensei que era você que vinha fazendo isso — ele respondeu, sem tirar os olhos da tela do aparelho.
— Você foi pra sem me avisar e esperava que eu ficasse correndo atrás de você? — ela disse, debochada. — Fui passar uns dias com a minha mãe em Paris, mas esperava que você me ligasse pra dar alguma explicação.
— Não é o que você faz o tempo todo? — rebateu, olhando-a sobre o ombro. — Quero dizer, você vive fazendo planos e não me avisa.
o fitou por um instante e viu mágoa em seu olhar. Com um risinho irônico, balançou a cabeça negativamente.
— Você tá de brincadeira, né? Tudo isso porque eu saí num sábado à noite pra comemorar o fim da minha primeira temporada como treinadora de um time masculino?
— Não é por causa de sábado. Isso é algo que vem acontecendo há meses.
— Eu sinceramente não sei o que você espera, . — cruzou os braços. — Quer ficar controlando cada passo que eu dou?
— Caramba, , por que você sempre leva pra esse lado? Eu nunca nem tentei te proibir de fazer qualquer coisa, não tem nada a ver — ele disse, sem esconder a indignação, mas tentando não se exaltar muito para não atrair espectadores.
— Nunca proibiu, mas fica fazendo pirraça pra que eu me sinta culpada e faça o que você quer.
— Você acha que eu fui pra pra te atingir de alguma forma? — rebateu, ofendido. — Esse é o problema, você vive no seu mundinho e não presta atenção em nada do que tá acontecendo ao seu redor.
— Como assim? — ela questionou, observando-o se pôr de pé.
— É melhor a gente conversar em casa.
não contestou, porque Marcelo chegou bem na hora e, como ela estava sentada entre o módulo de e o dele, também se levantou para dar espaço ao brasileiro. Ela suspirou quando jogou uma toalha sobre o ombro e saiu em direção aos chuveiros. Olhou para o lado e viu Toni Kroos sentado no banco, tirando as chuteiras.
— Ei, Antonio — disse, encostando a parte interna do tênis na canela dele para chamar sua atenção.
— Ah, não! — ele exclamou ao levantar os olhos. — Eu já falei pra não deixarem minhas fãs entrarem no vestiário, mas não adianta.
— Idiota. — riu. — Parabéns pela quarta Champions.
— E ainda dá pra mais, hein? — Toni piscou um olho, levantando-se para abraçá-la. Além de ter sido campeão europeu com o Real Madrid por três temporadas seguidas, ele também havia sido uma vez com o Bayern München, em 2013. — Depois eu te dou um autógrafo, tá? Não precisa insistir.
Ela não teve tempo de responder a provocação do alemão, pois um Lucas Vázquez eufórico chegou com uma garrafa de champanhe e ela saiu correndo antes que levasse um banho.

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O avião pousou em Madrid ao amanhecer, e se sentiu até aliviada ao desembarcar. Diferentemente de , que passara pelo menos três das quatro horas de voo dormindo feito pedra no assento ao lado, ela não conseguira pregar os olhos. Por mais contente que estivesse por aquela conquista tão significativa para pessoas que eram importantes para ela, não estava no clima para comemorações. O ambiente à sua volta fazia ela sentir como se existisse uma nuvem chuvosa apenas sobre a sua cabeça, como em um desenho animado.
Ônibus providenciados pelo clube levaram toda a equipe e seus familiares até a Ciudad Real Madrid, o ponto de dispersão da viagem. No estacionamento, parou para se despedir dos tios e primos.
— Precisa de carona? — Zizou perguntou, abraçando-a.
— Não, obrigada. Eu vou com o mesmo. — Em reflexo, ela olhou na direção do carro do e o viu acompanhado por Jaime, seu fisioterapeuta de confiança. Voltou-se para o tio e continuou: — A noite foi tão confusa que eu nem consegui te parabenizar direito, né?
— Não tem problema, você me parabeniza até nas derrotas — ele falou, rindo.
— Vai almoçar lá em casa, — disse Véronique. — Chama o também. A gente se reúne e conversa um pouquinho antes de eles irem para a comemoração na Cibeles.
riu ao ver a careta resignada que Zinédine fez.
— Boa ideia, tia. — Piscou um olho. — Então a gente se vê mais tarde. Bom descanso pra vocês.
jogou um beijo no ar e deu uma corridinha até o carro de quando viu que ele mantinha o porta-malas aberto para que ela acomodasse sua mala junto às outras.
— Vou deixar o Jaime na casa dele — avisou.
— Sem problemas — ela disse, encaminhando-se para a porta do passageiro.
O trajeto foi animado para e Jaime, que não pararam de falar por nem um segundo sequer. , no entanto, preferiu ficar na sua. Observava as ruas passarem pela janela, mas sua atenção estava completamente voltada para o . Era a primeira vez, em todas aquelas horas em que estava na presença dele, que o via conversar, brincar e rir abertamente. Naquele momento, percebeu que fazia algum tempo que não o via genuinamente feliz daquele jeito. E ela amava vê-lo daquela forma. Às vezes, olhava discretamente para o lado e até sentia o coração bater um pouco mais forte.
Não sabia se tratava-se de semanas ou meses, mas acabou se dando conta de que não vinha reparando muito em . Será que era a isso que ele se referia ao afirmar que ela não prestava atenção no que acontecia ao seu redor?
Quando eles chegaram em casa, a primeira coisa que fez foi entrar debaixo do chuveiro para tomar um banho. Estava louca para trocar a calça jeans e a camisa do Real Madrid, roupa que vestia desde a tarde do dia anterior, por um pijama. Seus pensamentos continuavam perdidos em e na voz dele, que, embora quase não tivesse escutado desde que deixaram Jaime em casa, ainda ecoava em sua cabeça.
Enquanto se ensaboava, tentava se lembrar da última vez que os dois tinham passado algum tempo juntos, curtindo um ao outro. Puxou na memória o Natal em , o Ano Novo em Paris para comemorar o primeiro ano de namoro, seu aniversário em um restaurante árabe… E não conseguiu se lembrar de mais nada. Nem mesmo no Dia de São Valentim tinham estado juntos, pois estava com o time, enfrentando o PSG pelas oitavas de final da Champions League. Ou seja, fazia quase cinco meses que eles haviam caído na rotina. O sexo continuava frequente e prazeroso, mas sabia que não era isso que definia um bom relacionamento.
Ela se sentiu mal ao perceber como eles haviam se distanciado aos pouquinhos ao longo daquela temporada em que não estavam mais no mesmo time. Antes, não precisavam se preocupar com isso porque estavam sempre juntos em casa e no trabalho, tinham os mesmos horários e os mesmos dias de folga. A partir do momento em que ela assumira o comando do Real Madrid Castilla, as coisas tinham mudado completamente. Não era a esse relacionamento desgastado que se propusera quando decidira não mais direcionar seus esforços apenas à vida profissional, mas, também, à amorosa. Se queria ter uma relação saudável e duradoura com , algumas mudanças eram necessárias para que eles, como um casal, não se perdessem.
Mais desperta ao sair do banho, desceu para o andar térreo da casa e seguiu os sons que emitia ao se movimentar pela cozinha. Para a sua surpresa, encontro-o vestindo calça social e camisa polo.
! — ela exclamou, pasma. O , que lavava a louça do café da manhã, virou-se assustado. — Você não pretende ir jogar golfe, né?
Por dois segundos, os olhos dele percorreram seu corpo de cima a baixo. conteve um sorriso de satisfação. Não fora despretenciosamente que havia escolhido uma camisola curtinha e meio transparente para vestir.
— Qual é o problema? — ele indagou, voltando-se na direção da pia para finalizar a tarefa.
— Você acabou de passar a madrugada em um avião — ela respondeu em tom de obviedade. — Depois de jogar uma final, vale ressaltar.
— Não tô com sono, consegui descansar um pouco. — deu de ombros.
— Pois eu pretendo dormir até a hora do almoço.
se aproximou do balcão ilha, pegando uma maçã na fruteira, e deu uma mordida. Apoiou os cotovelos no mármore de cor bege e ficou observando o namorado de costas.
Aquela paixão de por golfe era algo que nunca entenderia, embora a respeitasse. Mais do que um hobby, percebia que era uma válvula de escape. Nos últimos tempos, ele ia todos os dias para o clube de golfe antes de ir para Valdebebas. Levantava da cama quando o dia ainda nem havia amanhecido por completo e a deixava sozinha na cama. Às vezes, tinha vontade de lhe pedir para ficar, mas sabia que ele passaria o dia de péssimo humor se não seguisse aquela rotina.
Pelo menos gostava de vê-lo naquelas roupas que, de uma maneira surpreendente, o deixavam ainda mais gostoso.
encaixou o copo no escorredor e pegou um pano de prato para enxugar as mãos antes de voltar a encará-la do outro lado da bancada.
— Não acha que já passou da hora de dormir? — questionou, seus olhos descendo discretamente para os seios dela.
— Então, tá na hora de quê? — soltou em um tom provocante antes mesmo de se dar conta do que estava fazendo.
permaneceu em silêncio, como que processando a pergunta. Diferentemente dela, que havia se esquecido completamente de que estavam brigados, ele parecia estar em uma luta interna para não ceder ao seu joguinho. Por fim, pigarreou e se virou para pendurar o pano de prato no suporte.
— Hora de jogar golfe — respondeu, um sorrisinho debochado em seus lábios.
rolou os olhos e jogou o que restava da maçã no lixo.
— Bom, vou tentar dormir um pouquinho. Divirta-se.
Ela se virou para se retirar da cozinha, mas parou no meio do caminho e se voltou para novamente.
— O que foi? — Ele franziu o cenho.
— Posso te dar um abraço? — perguntou, temendo a resposta, e acrescentou rapidamente: — É que eu não te dei os parabéns pela vitória e pelo golaço que você fez. Mesmo que o clima entre a gente esteja péssimo, eu fiquei muito feliz.
— Um golaço que só um jogador genial poderia marcar — com um sorriso divertido nos lábios, repetiu as palavras ditas por ela na noite anterior.
— É por isso que eu não gosto de te elogiar muito — disse, fazendo-o rir.
tomou aquela brincadeira como uma resposta afirmativa e se aproximou para envolvê-lo em um abraço. O retribuiu, enlaçando sua cintura. Ela deitou a cabeça no ombro dele e inspirou e expirou o ar profundamente, ansiando poder ficar ali, nos braços de , para sempre.
Afastou-se a contragosto, mas sem se distanciar o suficiente para que seu corpo desgrudasse do dele. Seus rostos ainda estavam bastante próximos, e ela sabia que bastava um movimento mínimo para beijá-lo. Contudo, não ousou executar a ação, pois não tinha certeza se ele corresponderia e não queria ter que lidar com uma rejeição naquele momento.
— Bom golfe — desejou, dando um passo para trás.
Quando deu meia volta para, enfim, se retirar, segurou seu braço, impedindo-a de se afastar. Antes que pudesse entender o que estava acontecendo, ele a puxou pela cintura para junto de seu corpo e chocou os lábios contra os dela. correspondeu no mesmo instante, com igual voracidade. Embrenhou os dedos no cabelo do , bagunçando o coque perfeitamente arrumado, e despejou tudo o que sentia naquele beijo.
Uma das mãos de ainda estava na cintura de , os dedos afundados na pele coberta pelo tecido fino da camisola, mas a outra subiu para a nuca, sustentando a cabeça dela de uma forma que o possibilitava guiar o beijo.
gostava de ter o controle. Ficar por cima, falar sacanagens para vê-lo corar de vergonha. Mas não podia negar que aquele que tomava iniciativa e a dominava… Aquele a fazia perder o rumo.
Ela o segurou pelo cós da calça, puxando-o consigo para fora da cozinha. Eles saíram aos tropeços pela casa, beijando-se intensamente. No pé da escada, a prensou contra a parede e puxou uma de suas pernas, fazendo-a envolver seu quadril. Quando ele desceu os beijos para o seu pescoço, jogou a cabeça para trás e puxou o ar com força, tentando recuperar o fôlego.
Em meio a um suspirou, ela puxou a camisa que o vestia de uma só vez de dentro da calça. Ele a soltou para se livrar da peça de roupa, que foi largada no chão, e aproveitou a deixa para desafivelar seu cinto.
— Desistiu do golfe, mon amour? — sussurrou ao pé do ouvido dele, sentindo-o estremecer.
Um sorriso quase imperceptível surgiu nos lábios de , mas ele não respondeu. Ao menos não com palavras. Segurando atrás das coxas dela, deu o apoio necessário para que ela tomasse impulso para rodear seu quadril com as duas pernas, e a carregou escada acima.

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Por incrível que pareça, duas horas de sono foram o suficiente para repor as energias. Lembrava-se de ter dormido aninhada ao corpo de , mas não estranhou ao acordar sozinha, pois não acreditava que ele abriria mão de ir para o clube jogar golfe.
Ela continuou na cama mais algum tempo, aproveitando o momento de sossego para conferir o celular. O grupo que tinha com os amigos da adolescência tinha mais de duzentas mensagens novas. Não leu todas, mas rolou a tela rapidamente e viu que parte delas se tratava de comentários sobre a final e, o restante, de planos para a viagem à Rússia que eles fariam para assistir aos jogos da Seleção Francesa na Copa do Mundo. Nem se atreveu a ler tudo, apenas mandou uma mensagem diretamente para Margot, pedindo as informações importantes. Era ela quem havia ficado responsável por planejar a logística da viagem, reservar apartamentos próximos aos estádios e ver outros detalhes.
Depois de curtir algumas publicações em que havia sido marcada no Instagram, fotos da noite anterior em Kiev, arrumou-se para ir almoçar na casa dos tios. Vestiu uma calça jeans e uma camiseta qualquer da Adidas e disfarçou as olheiras com uma maquiagem leve. Quando desceu para o andar inferior, para a sua surpresa, encontrou o namorado na área externa, nadando.
saiu para o quintal e parou próxima à piscina, cobrindo os olhos com a mão para protegê-los do sol forte. Conteve a vontade de tirar a roupa e dar um mergulho também.
Ao notar sua presença, apoiou as mãos na beira da piscina e subiu com um salto. Vestindo apenas um calção de banho, ele torceu o cabelo para tirar o excesso de água. Pegou a toalha sobre uma das espreguiçadeiras e começou a se enxugar superficialmente.
— Vai sair? — ele perguntou, reparando que ela não estava de pijama e até calçava um par de tênis.
— Meus tios chamaram a gente pra almoçar.
jogou a toalha sobre o ombro e passou por ela, caminhando até a parte coberta.
fitou as costas dele, estranhando a falta de resposta.
— Você não tá muito a fim de ir almoçar com meus tios, né?
— Não é isso, . — abaixou-se para pegar o celular, que havia deixado sobre a mesinha de centro da varanda, e se voltou para ela. — A gente precisa conversar.
Por mais que concordasse que eles tinham alguns pingos para colocar nos “is”, que ela própria ainda tivesse algumas coisas entaladas na garganta, não achava que aquela conversa tinha tanta urgência assim depois do que havia acontecido naquela manhã.
— Hoje é um dia de comemoração, . — encolheu os ombros e os relaxou com um suspiro. — Será que a gente não pode deixar esses assuntos de lado um pouquinho e aproveitar o momento?
— Eu preciso te falar uma coisa — ele disse, coçando os olhos avermelhados pelo cloro, como se estivesse evitando encará-la.
— Certo. — Ela caminhou até a varanda e acomodou-se em um dos bancos estofados. — Sou toda ouvidos.
O se sentou ao seu lado, mas voltado para a mesinha de centro.
— Eu pedi pro Barnett ouvir algumas propostas — revelou, referindo-se ao agente que cuidava de sua carreira como futebolista.
— Propostas de transferência? — franziu o cenho, e ele concordou com a cabeça, fitando o celular, que rodava nas mãos.
— Já venho pensando nisso há algum tempo, mas nessa última semana, ficou bem claro pra mim que meu ciclo no Real Madrid está se encerrando.
— Então você não quer saber a minha opinião, só está comunicando que vai embora. — Ela sentiu o estômago afundar ao constatar aquilo. — Eu compreendo, mas pensei que você conversaria comigo sobre isso antes de decidir qualquer coisa. Você simplesmente está me excluindo da sua vida.
— Não é como se você demonstrasse que se importa. — Ele riu, mas sem nenhum traço de bom humor. — Não posso estar te excluindo se foi você quem criou essa barreira entre a gente. Nem nas suas férias me incluiu.
Eu não te incluí nas minhas férias? — Ela apontou para si mesma, desacreditada. — Você sabe dos meus planos desde o início do ano e que eles sempre te incluíram. Quem fez pouco caso foi você.
— O que você queria, ? — retrucou, como se fosse algo óbvio, virando-se na direção dela. — Era pra eu disputar a Copa com a minha seleção na Rússia, não assistir a jogos da França no meio de um monte de franceses.
— Um monte de franceses que são ninguém mais, ninguém menos que a sua namorada e os amigos de adolescência dela. De certa maneira, seus amigos também — contrapôs, franzindo o cenho. — É bom saber que a sua opinião é essa. Se você tivesse se classificado, eu não pensaria duas vezes antes de abandonar todos os meus planos pra acompanhar os jogos da sua seleção.
— Mas eu não consegui a classificação, né? Então não jogue na minha cara uma situação hipotética.
Aquele era um assunto delicado, sabia. Classificar a Seleção para a Copa do Mundo havia virado quase que o objetivo de vida de . Ela acreditava que ele teria outras oportunidades, pois ainda era um jogador jovem e estava em forma, mas sabia que, para ele, tratava-se de mais um fracasso. Mais um verão em que veria tantos colegas irem disputar o maior torneio de futebol do mundo enquanto ele assistia aos jogos pela televisão.
— Eu não tô pedindo que você venha comigo para a Rússia, disse cautelosamente. — Se quiser, será bem-vindo, mas não precisa fazer isso. Você tem total liberdade de fazer o que bem entender nas suas férias.
— É exatamente o que eu vou fazer.
— Eu dou o maior apoio, mas depois não coloque em mim a culpa por estarmos afastados. Lamento que você não tenha conseguido a classificação, mas não vou abrir mão de uma tradição que tenho com meus amigos há anos por causa disso.
— Claro que não vai. — Ele esboçou um sorriso irônico. — Você nunca está disposta a abrir mão de nada.
o encarou, surpresa.
— Pode até ser que eu seja egoísta mesmo, mas você não é muito diferente de mim. Sempre espera que eu faça o que você quer.
— Eu só esperava que você demonstrasse que se importa com alguma coisa além de você mesma.
— Ah, me poupe, ! — Ela se pôs de pé em um pulo. — Você foi pra sem avisar e não falou comigo por uma semana inteira! Entendo que você quisesse desanuviar a mente, mas não podia ter me mandado uma mensagem? Eu fiquei que nem uma doida atrás de você quando cheguei em casa de madrugada e não te encontrei. A coitada da Vicky me atendeu às 2 da manhã pra me dar notícias suas.
— Em algum momento, você parou pra pensar que eu podia estar precisando de espaço?
— Você queria chamar a atenção, isso sim — rebateu em um tom debochado. — Fazer eu me sentir culpada por ter saído num sábado à noite.
riu, passando as mãos no rosto.
, quando a gente decidiu ficar juntos, a ideia que eu tinha era um pouco diferente — ele admitiu. — Sei que você está buscando crescer profissionalmente e respeito isso, mas parece que você não se importa com mais nada além do seu trabalho. E eu tenho me sentido sozinho. Se estivesse sozinho de verdade, eu lidaria com isso. Mas eu não tô! Eu tenho uma namorada que mora na mesma casa que eu e passa mais tempo com a comissão técnica dela do que comigo.
analisou a expressão aflita que ele tinha no rosto por um momento e voltou a se sentar.
, seja sincero — pediu em um tom mais calmo. — Isso é sobre o Álvaro?
— Eu tenho algum motivo pra estar preocupado com o Álvaro?
— Você sabe que não.
— Bom, não sou eu que tô colocando o seu segundo treinador no meio da nossa conversa.
— Sabe o que ficou parecendo, pra mim? Que você se sentiu contrariado por eu ter saído com ele e os garotos naquele dia — ela disse honestamente. — E não foi a primeira vez que você demonstrou ser contra a minha proximidade com ele.
— Todas as vezes que demonstrei qualquer descontentamento em relação a isso foi porque você estava exagerando. — Ele se defendeu. — Já passa o dia todo trabalhando com o cara e, quando chega em casa, ainda fica trocando mensagens com ele o tempo inteiro. Eu não tenho o direito de achar isso ruim?
— Tenho uma profissão que exige que eu pense sobre ela vinte e quatro horas por dia. O que eu posso fazer?
— Conversar comigo! — rebateu, exasperado. — Não sou treinador e nem pretendo ser, mas também entendo de futebol.
— Não é você que diz que não gosta de conversar sobre futebol no tempo livre? — ela retrucou na defensiva. — Você só quer jogar golfe, falar de golfe, ver golfe… — ironizou.
— Esse é o meu hobby, mas não quer dizer que eu não abriria uma exceção pra minha namorada. É você quem não me procura.
— Você podia ter conversado comigo e me dito que se sentia assim em vez de ir pra sem falar nada.
— Eu precisava de espaço pra pensar. Tem sido bem complicado desde que voltei da última lesão. Mesmo marcando gol em todos os jogos dessa reta final da temporada, eu já sabia que o Zizou não ia me escalar pra final — o desabafou. — No avião, quando estava voltando de Vila-real, eu só pensava em passar um tempo com você. Mas cheguei em casa, e você estava se arrumando pra sair… Você entende que é frustrante?
— Não tenho bola de cristal, . Por que não me disse que estava mal? Eu teria desmarcado com eles.
A resposta não veio, mas não esperava realmente por uma. Sabia, mais do que ninguém, que o namorado preferia sofrer calado a incomodar os outros. Toda a irritação que ela sentiu ao descobrir que tinha ido para a casa dos pais, interpretando a atitude como uma pirraça, voltou-se para si própria. Inclusive, o desabafo dele a havia deixado um pouco envergonhada. Será que era uma pessoa tão egocêntrica assim, para não perceber que seu próprio namorado se encontrava naquele estado?
Ela deslizou sobre o estofado, aproximando-se.
— Me desculpa, tá? — falou, apertando de leve a coxa dele. — Eu sei que exagero um pouco em relação ao trabalho, mas é porque me sinto muito pressionada a não falhar nunca. O fato de eu ser uma mulher tentando abrir caminho num meio masculino torna as coisas mais difíceis. Sinto que qualquer errinho pode acabar com a minha carreira.
— Eu entendo isso, mas...
— Mas eu vou encontrar um meio termo — ela acrescentou rapidamente. — Onde você quer passar as férias? Se for te deixar feliz, eu desisto dessa Copa do Mundo. O pessoal vai entender.
— Não quero que você faça isso por minha causa.
— E se eu assistir à fase de grupos e depois for te encontrar? — sugeriu, fazendo-o rir.
— Qual o sentido disso? Se a França chegar à final, você vai ver pela TV?
— E se não chegar, vou me arrepender de ter passado metade das férias longe de você à toa. Não tem jeito, preciso fazer uma escolha.
deixou o celular de lado e penteou os fios de cabelo úmidos para trás, prendendo-os em um coque feito de qualquer jeito, com um elástico que levava no pulso.
— Eu acho melhor a gente passar as férias separados — falou, voltando a encará-la. — Acho que pode ser bom passarmos esse tempo longe um do outro. Sinto que eu preciso olhar pra dentro de mim um pouco e analisar o rumo que quero dar pra minha carreira.
Por algum tempo, o encarou sem dizer nada, as sobrancelhas erguidas em um misto de surpresa e confusão.
— Você está pedindo um tempo do nosso namoro? É isso? — Diante da falta de resposta, continuou: — Vai me desculpar, , mas eu não gosto desse tipo de solução. Quem realmente quer resolver um problema, não foge dele. Vamos passar um mês separados pra chegarmos à conclusão de que é melhor cada um seguir o seu caminho? Isso só faz prolongar o sofrimento. É melhor terminar de uma vez.
— Se você prefere assim…
Por um momento, ficou sem palavras. Não havia sugerido o término pensando que realmente encararia como uma opção. Só queria que ele enxergasse que dar um tempo não era a melhor saída. A Copa do Mundo nem teria graça se eles estivessem naquela situação.
— Não joga a responsabilidade pra cima de mim, não! — ela exclamou, ofendida. — Não quero dar tempo nenhum, só quero que a gente se resolva. Você que não tem coragem de terminar e tá vindo com esse papinho de dar um tempo.
Fez-se um silêncio incômodo entre eles. Um silêncio que por si só já era uma resposta.
— Não dá mais pra mim.
Por mais que a conversa estivesse se encaminhando para aquilo, as palavras de atingiram como um tapa na cara.
Lembrou-se da noite de réveillon em que eles começaram a namorar, na virada de 2016 para 2017. As declarações na ponte que cruzava o lago do condomínio, os beijos trocados à meia-noite. O pedido oficial só veio mais tarde, em um dos tantos jantares românticos para os quais costumava convidá-la com frequência, mas foi naquele momento tão simples e especial que tudo havia começado para valer. E ela tinha que admitir que, se não fosse a coragem dele, talvez eles não tivessem chegado até ali.
Um ano antes, quando ela recebera a oferta para treinar o time do Malaga, fora quem a fizera acreditar que eles poderiam dar certo mesmo à distância. Agora, vê-lo ser o primeiro a desistir lhe dava a sensação de que o relacionamento deles havia morrido de vez.
— E você chegou a essa conclusão antes ou depois de transar comigo hoje de manhã? — riu, mas sentia um nó apertado na garganta. — Me fez acreditar que tava tudo bem, pra agora falar isso.
Ela nunca havia chorado na frente de um cara antes. Nem mesmo quando era adolescente e levava fora atrás de fora, porque não era tão feminina quanto esperavam que ela fosse. Mas, naquele momento, deixou que as lágrimas escorressem livremente por seu rosto. Diante de , ela nunca se preocupava em parecer forte o tempo todo.
, eu não queria… — O tentou segurar sua mão, mas ela se esquivou do toque.
— Não, tá tudo bem — falou, secando as lágrimas com a ponta dos dedos. — Se você não tiver mais nada relevante a acrescentar, prefiro encerrar a nossa conversa por aqui.
Ele baixou os olhos, permanecendo em silêncio.
se levantou sem dizer mais nada. Ao se afastar, levou a mão ao pescoço involuntariamente, em busca da Bola de Ouro, mas não a encontrou. O pingente de bola de futebol que ganhara de quando começaram a se aproximar havia se tornado simbólico, quase como um amuleto da sorte, e sempre a acalaventava de alguma maneira. Percebeu, naquele instante, que fazia algum tempo que não o usava.
Ela se retirou sem se permitir olhar para trás, pois sabia que desmoronaria se o fizesse.

🏆🌟⚽

— Quer jogar, ? — Theo perguntou, estendendo o controle do videogame.
— Não, hoje eu vou só assistir mesmo — ela respondeu, abraçada a uma almofada no canto do sofá.
Enzo foi quem pegou o controle e se sentou ereto, preparando-se para enfrentar Luca, o vencedor da última rodada.
Após o almoço em família, havia se juntado aos primos na sala de televisão para vê-los disputar corridas acirradas de Fórmula 1 no videogame. Embora seus olhos estivessem voltados para o jogo, ela não estava realmente prestando atenção. dominava seus pensamentos.
Aquele não havia sido seu primeiro término, talvez nem fosse o último, mas, pela primeira vez, ela se sentia sem rumo. Não sabia se deveria conversar com mais uma vez, para tentar consertar as coisas, nem se deveria ir à comemoração no Santiago Bernabéu à noite. E o que faria agora que eles não eram mais namorados e não tinham mais por que morar sob o mesmo teto? Para onde ela iria?
Eram muitas questões que rondavam sua mente, e ela nem ao menos tinha um local para se refugiar e chorar até aquele aperto no peito sumir.
, vem aqui rapidinho?
A voz de Véronique trouxe de volta para a realidade. Ela se levantou do sofá e seguiu a tia até a sala de visitas.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou quando Véronique fechou a porta dupla, abafando a gritaria dos meninos.
— Só quero conversar um pouquinho com a minha afilhada. Não posso? — Ela sorriu, puxando-a pela mão pelo tapete felpudo que revestia o chão. As duas se acomodaram em um sofá, uma de frente para a outra. — Você nem me contou como foi em Paris. Tudo bem com a Sylvie?
— A gente só se via à noite, pra falar a verdade. Minha mãe tem estado muito ocupada com a agência — explicou. — Mas tá tudo ótimo. Nunca a vi tão animada antes.
— Acho que ela soube lidar com o divórcio melhor do que o Nourredine. Zizou vive reclamando que o seu pai está insuportável.
— Eu que o diga! — rolou os olhos. — Quase me arrependi de tê-lo convidado pra me agenciar. Ele quer se meter em tudo, tia. Tudo!
— Uma nova namorada faria bem pra ele. Não acha?
— Eu concordo, mas quem vai aturar esse homem assim?
Véronique riu de sua indignação, e nem ela mesma aguentou se manter séria, por mais que fosse quem mais sofria com o péssimo humor do pai.
— E a sua mãe? Tem saído com alguém?
— Eu desconfio que sim — confessou. — Outro dia ela voltou tarde da noite e deu uma desculpinha qualquer. Eu achei melhor não forçar a barra, vou esperar ela se sentir confortável de me contar.
— E o que você pensa sobre isso?
— Ah, eu não tenho que pensar nada. É a vida dela. — Deu de ombros. — Vai ser um pouco estranho ver meus pais com outras pessoas, mas sei que isso vai acontecer mais cedo ou mais tarde. Espero que aconteça, na verdade. Eles ainda são novos demais, e não quero vê-los sozinhos pelo resto da vida.
— E você? — Véronique entrou no assunto que ela temia, mas sabia que seria inevitável. O fato de ter aparecido desacompanhada para o almoço provavelmente não havia passado despercebido por ninguém. — Você está muito quieta hoje. Achei melhor não perguntar na frente de todo mundo, mas tem a ver com a ausência do ?
respirou fundo, sentindo um nó se formar na garganta. Quando abriu a boca para responder, sua voz não saiu. Limitou-se a apenas menear a cabeça em sinal de assentimento, incapaz de conter o choro.
— Ah, , vem cá.
Ela não pensou duas vezes antes de se aconchegar nos braços da tia, deixando-se envolver pelo acalento proporcionado pela mistura de fragâncias doces que emanavam da pele dela. Mais do que sua madrinha, Véronique era como uma segunda mãe. Ao logo de sua vida, muitas vezes havia sido uma figura materna até mais presente do que Sylvie. Véronique tinha o poder de fazer todos os problemas de parecerem pequenininhos quando demonstrava que ela não precisaria enfrentar nenhum deles sozinha.
— Ele me pediu um tempo — disse ao conseguir controlar as lágrimas, com a voz ligeiramente embargada. — Mas eu não aceitei. Não vejo sentido nisso, sabe? Prefiro terminar de uma vez.
— Mas qual foi o argumento dele pra isso? — Véronique pegou um guardanapo no aparador atrás do sofá e o ofereceu a ela.
— É que a gente se afastou um pouco nesses últimos meses — começou a explicar, distanciando-se para assoar o nariz. — E ele também não tá contente no Real Madrid, então quer aproveitar as férias pra pensar sobre o futuro.
— Eu sei que essa é a última coisa que você quer ouvir nesse momento, mas dê tempo ao tempo, . Pode ser que esse distanciamento faça bem. As férias vão passar rápido, e vocês vão poder ter uma nova conversa com os ânimos mais calmos.
— Mas e se ele for embora mesmo? Quais são as chances de a gente conseguir se acertar à distância?
— Olha, alguma coisa me diz que o não vai sair do Real Madrid nesse momento.
— Eu acho muito difícil, tia. Sei que ele quer ir embora por causa do Zizou. Eles viraram inimigos mortais.
Véronique não conteve uma risada.
— Também não é pra tanto. Mas… — ela disse, hesitante — é exatamente por isso que eu acho que ele não vai embora.
franziu o cenho ao notar a certeza com que a tia afirmava que permaneceria no time.
— Como assim? — ela perguntou, mas, antes mesmo de obter uma resposta, sua ficha caiu. — Você tá querendo dizer que meu tio… Ele…
A conversa foi interrompida quando as portas da sala de visitas se abriram de uma só vez. O próprio Zinédine Zidane, em um terno Hugo Boss, fez uma entrada triunfal.
— Como estou?
Véronique se pôs de pé em um pulo e caminhou até o marido.
— Lindo, como sempre — falou, sorrindo —, mas me deixa ajeitar essa gravata.
— Tio! — exclamou, pasma, aproximando-se. — Você tá pensando em sair do Real Madrid?
Zizou trocou um olhar com Véronique, que apenas encolheu os ombros.
— É, eu decidi pedir demissão — ele confirmou. — Espera aí. Você estava chorando ou é impressão minha?
— Eu e o terminamos. — suspirou, baixando os olhos por um instante, porém logo voltou a encará-lo. — Mas você enlouqueceu? Por que vai fazer isso?
— Se minhas decisões não estão agradando, então acho que é a hora de eu me retirar.
— O Presidente já sabe?
— Ainda não — Zinédine respondeu. — Vou ter uma reunião com ele amanhã e o anúncio oficial provavelmente vai ser feito ainda essa semana.
— Tem certeza disso, tio? Você acabou de ganhar três Champions seguidas e tem tudo pra conquistar a quarta.
— Não é bem assim, . Muita coisa precisa mudar e eu não me sinto no direito de dizer quem tem que sair ou ficar pra jogadores que ganharam tanto em tão pouco tempo. Vai ser melhor pra todo mundo.
Tão surpresa estava, que não soube o que dizer. Se nem ela, sobrinha e afilhada de Zizou, havia percebido a bomba que estava prestes a explodir, aquela notícia certamente surpreenderia a todos, sem exceção. Zinédine se encaixava tão bem no Real Madrid que ela o imaginava como um novo Alex Ferguson, técnico do Manchester United por quase trinta anos, ou Arsène Wenger, que deixara o comando do Arsenal no mês anterior, depois de vinte e dois anos no cargo.
— Você tá bem, ? — Zizou se aproximou para envolvê-la em um abraço.
— Vou ficar — ela respondeu, deitando a cabeça no ombro do tio.





Continua...



Nota da autora: Como diz o hino do Fluminense: quem espera sempre alcança! 😅
Se alguém aí pensou que essa continuação de BDO nunca sairia, saiba que não foi a única. Isso passou pela minha cabeça diversas vezes ao longo de 2021, toda vez que tentava escrever e tinha vontade de deletar tudo e fingir que tinha sido apenas um surto coletivo. Além de ter tido a pior crise criativa da minha vida (consequência da crise de ansiedade que tive por conta da pandemia), eu não tava conseguindo acertar a mão pra escrever esse começo da história de jeito nenhum. Tinha postado parte do primeiro capítulo no final de 2020, como vocês devem lembrar, mas sentia que aquelas cenas e até mesmo os personagens não estavam na vibe de BDO. Tava tudo muito confuso e esquisito. Ao longo de 2021, eu pensei, repensei, escrevi umas três versões diferentes pra esse capítulo… E finalmente, agora em 2022, consegui me encontrar.
Bom, nessa segunda temporada de BDO, vamos entrar num universo completamente novo e bastante familiar ao mesmo tempo. Os personagens que a gente ama estão mais maduros, vivendo novos desafios profissionais e pessoais, mas deixando a sensação de que não passou nem um dia sequer desde o final da primeira parte. É a sensação que tô tendo ao revisitar essa história. Espero que vocês sintam isso também, mesmo que a realidade do Real Madrid esteja completamente diferente, inclusive com o Bale de saída (fingindo plenitude enquanto, por dentro, tô destruída).
Não deixem de comentar (nem que seja apenas um “continua” - pode ser aqui ou no grupo do Facebook), pra eu saber que vcs não desistiram desse casal complicado. Até a próxima att! 💖





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