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Última atualização: 24/06/2022

Capítulo Um


Eu nunca acreditei no inferno.
Fala sério! Um lugar onde todo mundo fica queimando e em eterna agonia enquanto um cara bonitão ou um bode gigante com bafo de enxofre está lá apenas sentado em um trono, com um enorme garfo na mão, gargalhando por condenar um bando de almas e dando ordens para seus fiéis demônios? Não mesmo. Eu não acredito nessa baboseira.
Também não acredito em céu, em Deus ou qualquer outro tipo de criatura sobrenatural que eu conheço de cor e salteado porque sou uma fã incurável de Supernatural.
E, pensando bem, eu poderia até fingir que acredito com o gostosão do Dean na minha frente. Ou o Sam, porque com aqueles dois escolher seria até contra as leis da natureza e eu adorava um ménage.
Mas voltando ao que eu estava dizendo... Espíritos, fantasmas, vida após a morte? Isso daí é tudo invenção do ser humano para não aceitar a verdade absoluta, porque todo mundo se borra de medo dela. E essa verdade é simples e cruel: não existe nada em outro plano. Você vive uma vez e depois deixa de existir porque cumpriu seu papel biológico na natureza.
Preciso falar que algumas pessoas me odiavam quando conversavam comigo sobre essas coisas? Eu já tive umas discussões bem engraçadas quando esse tipo de assunto surgia.
Preciso falar também que eu não dou a mínima para o que pensam? Ou que também não ligo para nada do que você pode estar achando disso que está lendo aqui?
Ótimo. Porque eu não te daria nenhuma satisfação de pensar assim. Na verdade, eu não devo satisfações a ninguém e quando eu digo ninguém é ninguém mesmo.
Não tenho pais porque minha mãe morreu para me dar à luz e meu pai se foi dezenove anos depois, levado ao fim de sua existência pela porcaria de um câncer na garganta. Ele fumava feito um condenado, então por maior que fosse a dor da perda, não era difícil de prever que algo assim aconteceria com ele. Mas meu pai era um teimoso incorrigível e claramente eu tenho por onde puxar.
Pelo menos na época que ele morreu eu já era maior de idade, então não precisei me mudar para a casa de nenhuma tia chata, ou avós, ou qualquer outro parente. Não é que eu não ame minha família ou seja uma pessoa sem coração, fria feito pedra de gelo, é só que eu aprendi desde pequena a ser prática, então todas as vezes que a vida socou minha cara e me derrubou no chão, eu fiz a doida e levantei rebolando bem a minha bunda só para ficar por cima.
Sempre odiei a ideia de ficar choramingando ou dependendo dos outros. Por isso talvez não seja nenhuma surpresa o fato de eu resolver ir a uma festa da faculdade completamente sozinha.
Havia apenas duas pessoas no mundo que eu considerava minhas amigas de verdade e essas eram Giovanna e Charles, o resto eu diria que eram colegas com quem eu trocava algumas palavras quando meu humor estava pleno.
O caso era que naquela noite Gio estava me deixando fula da vida porque tínhamos um tal paper para entregar no dia seguinte e ela sempre deixava os trabalhos para última hora, o que testava todos os limites da minha paciência. Charles então era um caso totalmente perdido desde que começara a namorar Andrey, talvez a pessoa mais sem graça do mundo e que fazia mais manha que meu cachorro com medo de trovões.
Não me imagine como uma mal amada que fica criticando todo casal que vê pela frente e faz nojinho com demonstrações públicas de afeto, muito pelo contrário. É só que Charles é meu melhor amigo e desde o começo eu tive um pé atrás com o Andrey. Além do nome, que eu achava péssimo, a pessoa e o relacionamento dos dois não me descia. Sem deixar de lado o fato de que uma pulguinha atrás da minha orelha vivia murmurando que o tal Andrey era muito estranho de um jeito ruim e que mais cedo ou mais tarde ele aprontaria para Charlie. Eu torcia para estar errada, o que na verdade não acontecia, mas tudo bem.
Eu acreditava sim na existência do amor e até já me peguei algumas vezes desejando encontrar alguém que me fizesse dividir muito mais do que apenas algumas horinhas de sexo, afinal de contas, eu sou humana e todos os humanos têm os momentos de carência. Talvez eu não fizesse ideia do que realmente era o amor, mas não tinha medo nenhum de descobrir um dia.
Deixando o papo de namoro de lado... Onde eu estava mesmo? Ah é! A festa.
Eu me arrumei toda, catando o vestido mais sexy do armário de Giovanna e fui para lá bem cara de pau. Não precisava conhecer ninguém previamente para me divertir, não é mesmo? Ficar dependendo da boa vontade dos outros era péssimo e nem combinava comigo.
Modéstia à parte, eu estava fabulosa.
O vestido tubinho na cor azul tinha realçado a cor de meus olhos e as ankle boots me deixaram uns bons centímetros mais alta, o que eu amava porque por mais que adorasse ser baixinha um upgrade sempre é muito bem-vindo. Meus olhos estavam bem marcados pela sombra escura e mesmo sabendo que eu viraria um panda no dia seguinte, não me importei muito não, eu só queria sair, beber e me divertir, quem sabe até beijar umas bocas.
Senti olhares em mim quando cruzei o hall de entrada e quando virei meu rosto, detectando um em especial, eu soube que ir até aquela festa sozinha havia sido a melhor coisa que eu já tinha feito esse ano.
Ele era lindo.
Talvez eu não consiga expressar de verdade o quanto, mas quem sabe essas três palavras ditas assim com destaque possam dar ao menos uma ideia dos meus primeiros pensamentos quando meus olhos encontraram aquele homem.
Alto, ombros largos, sorriso molhador de calcinhas e malditos olhos azuis.
Parecia a conspiração do universo, juro! Até os cabelos eram castanhos e batiam nos ombros dele de um jeito sexy que me deixou louca só de olhar!
Eu fui obrigada a desviar meu olhar dele, porque um calor infernal veio de baixo para cima, de cima para baixo e minhas pernas até bambearam. Sem mentira.
Já me disseram trocentas vezes que sou exagerada, mas ele era tão gostoso que eu acabaria desmaiando se mantivesse contato visual com ele por mais tempo. Parecia que alguém tinha lido minha mente e mandado aquele macho especialmente para me atentar.
É sério. Não estou brincando não.
Toda vez que eu ia ler fanfics interativas, aquela era a maldita descrição que eu sempre colocava, então se isso não é coisa do universo, talvez eu comece a acreditar no céu e no inferno, porque aquele homem só podia ter saído de um dos dois.
O negócio é que eu até podia muito bem atravessar a festa inteira e tomar eu mesma a atitude de chegar nele, mas eu não gostava de ir direto ao ponto sem provocar ao menos um pouquinho, então em vez de ir até aquele gostoso eu fui para o lado oposto de onde ele estava, resolvendo caçar alguma bebida, já que a minha garganta estava muito seca.
Será que a água dali foi parar em outro lugar?
Nossa, meus pensamentos sempre foram assim, já que eu não conseguia olhar para um sorvete sem maliciar completamente e por alguns segundos eu praguejei Charles e Giovanna, porque estava louca para compartilhar aquilo com eles.
Conseguia sentir ainda o olhar dele sobre mim quando me afastei, o que me fez manter um sorriso de canto nos meus lábios até eu finalmente encontrar um pouco de cerveja e parar um tiquinho de reparar nos olhares do gostoso só para apreciar minha bebida.
Tem gente que odeia cerveja por ela ser amarguinha. Bom, na verdade, é exatamente disso que eu gosto. Só de sentir o sabor daquela criação maravilhosa já fazia eu querer revirar meus olhos nas órbitas. Eu amava cerveja e definitivamente seria a minha bebida favorita se não existisse outra chamada coca cola de cereja.
— Imagina só uma mistura dos dois! — murmurei comigo mesma e até arregalei meus olhos, porque eu era uma gênia.
Num segundo delirante eu quase senti o resultado daquela mistura em meu paladar, mas aí dei um jeito da Terra me chamar de volta e dei risada de mim mesma por conseguir viajar completamente com as coisas mais simples.
Senti novamente que era observada e não precisei procurar para saber que era de novo a tentação de algum lugar, então eu olhei em sua direção e me permiti observar o olhar que ele lançou em cada centímetro de meu corpo. Um sorriso de canto denunciou que ele havia aprovado a vista e eu umedeci meus lábios antes de retribuir em um mudo “você também não é ruim”.
O bonitão então fez menção de vir até mim e como uma bela criatura travessa que eu sou, resolvi dar mais uma circulada pela festa, quem sabe dançar um pouco no meio da pista de dança improvisada.
Eu sei, tinha um lugar específico no meu corpo me suplicando para deixar aquele homem vir logo e fazer bem mais do que uma análise visual, mas eu não estava na festa há muito tempo e queria dizer que aproveitei ao menos um pouquinho.

💀


Veja bem, a ideia de achar a pista de dança também havia sido uma maravilha porque ali no meio daquele bando de gente eu acabei esbarrando numa menina que com toda certeza era a mais bonita daquele lugar. Sem mentira.
Cabelos castanhos, lábios carnudos, branquinha e com um belíssimo par de olhos verdes.
Sempre fui assumidamente bissexual e gostava de todo tipo de corpos e formas, mas é claro que eu tinha meus preferidos e naquela bendita festa eu havia encontrado não só meu tipo de cara, mas o tipo de garota também, sabe o que isso significa? Ménage a trois!
Brincadeira. Mas se der, eu quero.
— Desculpa! Esse lugar tá uma loucura — me apressei em dizer a ela, falhando miseravelmente em disfarçar que tinha gostado dela, porque meus olhos não pararam em um lugar só.
— Imagina. Eu é que to perdida no meio desse pessoal. Não faço ideia de onde minhas amigas se meteram — fez uma careta lindinha e eu até agradeci mentalmente por isso.
— Sério? Você quer que eu te ajude a procurar por elas? — ofereci, vendo que ela sorria abertamente em seguida.
— Jura que você faria isso? Acho que já andei por todo canto e não as encontro — então ela meio que olhou em minha volta rapidamente, voltando a cravar aqueles olhos lindos em mim. — Não quero te atrapalhar não, hein!
— Atrapalhar o quê? — dei risada. — Eu fui abandonada pelos meus amigos hoje. Vim para cá sozinha mesmo — expliquei, dando de ombros, notando a surpresa nas feições dela.
— Minha nossa. Quando crescer quero ser igual a você! Muita coragem sua vir a uma festa assim sozinha. Acho que eu não consigo — comentou e de repente soltou um gritinho que me fez quase pular de susto. — Eu amo essa música! Vem, vamos dançar! — e me puxou pela mão para um lugar com mais espaço naquela muvuca.
Achei graça do jeito da garota, mas não recusei seu convite porque eu não era nem louca. Segui com ela e comecei a acompanhá-la em sua dança, deixando que a música tomasse conta dos meus movimentos. A uma certa altura, notei que ela me encarava e retribuí seu olhar, mordendo meu lábio inferior de forma discreta porque, nossa, ela era muito sexy.
Não sabia com certeza se ela tinha as mesmas intenções que eu, mas ao sentir a garota se aproximar de mim e colar seu corpo no meu, não tive mais nenhuma dúvida.
— E as suas amigas, uh? Nenhum sinal delas? — perguntei, só por perguntar, porque na verdade eu estava bem concentrada no quanto os lábios dela pareciam ser gostosos.
— Ah, deixa elas para lá. Eu gostei de você — sorri ao ouvir aquilo e resolvi que com ela eu nem queria perder tempo provocando, segurei sua cintura com uma de minhas mãos e a puxei para mim, lhe tascando logo um beijo na boca.
Senti ela rir contra meus lábios antes de retribuir as carícias que foram iniciadas por minha língua e logo as mãos dela seguiram até minha nuca, se enroscando nos meus cabelos. Seu corpo de repente estava tão grudado no meu que eu fiquei absurdamente tentada a me esfregar nela, tamanho calor que aquela garota me provocava.
Levei minha outra mão também à sua cintura e apertei meus dedos por ali, sentido o tecido do vestido que ela usava e deixando a garota parar o beijo por alguns minutos, só para puxar meu lábio inferior com seus dentes. Soltei um suspiro com aquele gesto e logo voltamos a nos beijar tão intensamente que eu até ouvi algumas exclamações ao nosso redor.
A música acabou, outra começou e nós continuamos nos beijando. De repente, eu queria sair com ela dali, mas antes que eu pudesse lhe fazer o convite, uma voz aguda nos interrompeu.
, por Osiris! Nós te procuramos por tudo, mulher — não precisei de muito para saber que eram as amigas dela e um tantinho frustrada parti o beijo, vendo uma careta formada no rosto da garota que agora eu sabia nome.
— Não achei vocês, então fiz uma nova amiga — ela disse, me fazendo rir um pouco.
— Amy está passando mal. Nós temos que ir, amiga — não fiquei tão puta com isso porque já tinha sido interrompida mesmo e por mais que tivesse gostado, não era de ficar mesmo apegada a uma pessoa só a noite inteira.
— Desculpa, elas são minha carona — o biquinho que ela fez foi realmente uma gracinha.
— Não tem problema, — pisquei para ela, vendo-a seguir com as amigas. — Também adorei te conhecer.
Vi ela retribuir a piscadela quando se afastou e fiquei a observando até sua silhueta sumir da festa.
. Um mulherão com toda certeza.
Arrumei mais uma bebida, dessa vez algum drinque que tinha um gosto no mínimo diferente, mas que era bom e era só o que importava.
Voltei a dançar como se estivesse o tempo todo ali fazendo isso sozinha mesmo e reconheci a voz da rainha Ariana, o que me fez rebolar com mais vontade.
Então de novo eu senti um certo olhar sobre mim e não demorei muito para achar o bonitão mais uma vez.
A vida era uma vadia e eu a adorava.
Pelo jeito que ele me encarava eu sabia que dessa vez não iria conseguir fugir, então eu apenas continuei dançando e cantando cada palavra da música que cantava.

Been through some bad shit, I should be a sad bitch
Who woulda thought it'd turn me to a savage?
Rather be tied up with cuffs and not strings
Write my own checks like I write what I sing, yeah (yeah)

My wrist, stop watchin', my neck is flossin'
Make big deposits, my gloss is poppin'
You like my hair? Gee, thanks, just bought it
I see it, I like it, I want it, I got it (yeah)
I want it, I got it, I want it, I got it
I want it, I got it, I want it, I got it


Meu cérebro processou quase uma câmera lenta dele passando a língua pelos lábios e finalmente caminhando na minha direção. Mordi minha boca de leve e com meu melhor olhar de travessura, virei de costas para ele.
Como eu disse, dessa vez fugir não seria uma opção e eu nem queria que fosse, então foi bem por isso que eu adorei quando o senti quase colado em mim, movendo seu corpo gostoso junto com o meu e murmurando contra meu ouvido.
— Pensei que sua amiga se juntaria a nós — céus, aquela voz rouca era mesmo uma delícia.
Perfeito, ele havia me visto com .
— Ah, ela ia, mas precisou ir embora — fiz um biquinho, do mesmo jeito que minha amiga havia feito minutos atrás.
— Hm, isso é uma pena — ele soltou e como se não bastasse aquela gostosura toda o filho da mãe também era cheiroso pra caramba.
— É sim — concordei com ele, empinando minha bunda só um pouquinho. — Mas tenho certeza de que eu e você ainda podemos nos divertir bastante — sorri enviesado.
— Disso eu não tenho dúvidas — respondeu, me fazendo estremecer quando suas mãos seguraram minha cintura e a apertaram devagar.
— Então o que é que está esperando? — o provoquei, quase debochada.
— Você virar para mim — não precisei encará-lo para saber que sorria.
Quando finalmente fiquei de frente para ele, se pensei em dizer algo nem tive tempo de formular palavra alguma, os lábios dele foram de encontro com os meus e eu não hesitei em retribuir, completamente atiçada pelo desejo que estava sentindo por aquele homem delicioso.
Levei minhas mãos até sua nuca, agarrando seus cabelos enquanto sentia suas mãos me pressionarem contra ele. Dizer que aquele homem tinha pegada era muito pouco. E se isso não bastasse, o beijo era delicioso, intenso de um jeito que deixou meu corpo todinho arrepiado.
De repente, me peguei pensando que aquela ideia de vir a uma festa sozinha havia sido a melhor que já tive nos últimos tempos. O pensamento me fez sorrir entre o beijo, descendo minhas mãos da nuca do rapaz até a gola de sua camiseta. Separei meus lábios dos dele e então eu o puxei comigo para algum canto daquele lugar onde eu pudesse aproveitar realmente aquele homem sem que ficassem me esbarrando o tempo todo.
Empurrei-o contra a parede e lhe lancei um olhar de cima a baixo, parando por uns dois segundos em seu baixo ventre, onde eu consegui notar que ele estava tão animado quanto eu.
— Gostou? — escutei ele me questionar, com uma voz rouca que quase me fez gemer.
— Mais ou menos — respondi, vendo-o arquear uma sobrancelha. — Não vi o bastante ainda — pisquei e sua expressão deu lugar a um sorriso tão malicioso quanto a mordida que eu dei em meu lábio inferior.
— Sendo assim, ainda não vou te falar o quanto te achei gostosa — acabei rindo enquanto meus olhos se fixaram nos lábios dele, onde havia resquícios do meu batom.
De repente, eu não queria mais bater papo.
— Acabou de dizer — foi a minha vez de beijá-lo, sem lhe dar tempo para me responder.
Seus braços fortes voltaram a me apertar, puxando com firmeza meu quadril contra o seu e fazendo um carinho tentador em minha cintura. Contive um gemido contra seus lábios, desejando que aquela carícia se estendesse até minhas coxas e erguessem meu vestido no processo.
Espalmei minhas mãos no peito dele e deslizei minhas unhas por cima do tecido de sua camiseta. Um suspiro escapou pelos lábios dele, então desci as mãos até seu abdômen, brincando com o cós de sua calça.
— Assim você vai me deixar louco — ele separou o beijo, levando sua boca até meu ouvido e sussurrando antes de brincar com o lóbulo de minha orelha.
Sorri de imediato e acabei mordendo meu lábio em seguida, sentindo que o calor no meio de minhas pernas já beirava o infernal. Aproveitei para esfregar uma de minhas coxas na perna dele e mais um suspiro escapou dos lábios do bonitão.
— Mas eu nem comecei direito ainda, lindo — sorri enviesado para ele e suas mãos fizeram pressão em minha cintura.
Ele desceu os beijos até meu pescoço de um jeito que fez com que meus olhos quase se apertassem de excitação.
— Não? — sua boca se afastou de minha pele e quando ele me encarou, pude jurar que seus olhos azuis haviam escurecido. — Então vamos sair daqui.
Aquilo não havia sido uma pergunta. Seu tom de voz havia sido taxativo e confesso que meu corpo tremeu inteiro quando ele tomou as rédeas da situação, entrelaçando sua mão na minha e me guiando pela casa.
Me deixei levar para um dos quartos e assim que a porta foi encostada atrás de nós, voltei a sorrir cheia de malícia para ele antes que nossos lábios voltassem a se encontrar cheios de desejo.
Eu não era o tipo de pessoa facilmente impressionável, mas aquela noite e aquele homem seriam difíceis de esquecer.

💀


A primeira coisa que senti foi um calor absurdo no rosto, que denunciou o contato com a luz do sol e ainda assim eu me recusei a abrir meus olhos ou mover um músculo sequer enquanto me praguejava mentalmente por ter esquecido de fechar as cortinas do meu quarto.
Eu nem lembrava como tinha ido para casa, mas isso não vinha ao caso no momento. Parecia que um caminhão tinha passado por cima de mim e meu corpo tinha esperado eu acordar para me mostrar isso.
Cabeça, braços, barriga, pernas... Tudo doía.
Maldita ressaca e maldito homem gostoso!
A noite havia sido ótima, eu jamais seria capaz de negar, mas ele podia ter me deixado um pouco mais inteira, não? Como é que eu ia para a aula naquele estado?
Naquele momento me dei conta de que eu não tinha perguntado o nome dele e ele também não sabia o meu e isso acabou me fazendo rir baixinho.
Suspirei e resolvi enfrentar o sol batendo na minha cara e ir logo caçar algum remédio. Estiquei meus braços, me espreguiçando e foi assim que eu senti minha mão esbarrar em alguma coisa que não demorei a perceber que na verdade era alguém.
Eu tinha levado ele para a minha casa?
Abri meus olhos no susto, me sentando na cama, mas qualquer cenário que eu imaginei encontrar não havia nem chegado perto da loucura ao meu redor.
Eu não tinha ido para casa coisa nenhuma. Ainda estava naquele quarto, na casa de um desconhecido, em uma cama com os lençóis brancos tingidos de vermelho, com minhas mãos ensopadas de sangue e com o homem da noite anterior morto ao meu lado.
Meus olhos se encheram de lágrimas, senti meu corpo tremendo de pânico, mas não tive tempo de soltar o grito que definitivamente viria porque a porta se abriu com um estrondo.
— Polícia! Mãos na cabeça, mãos na cabeça!


Capítulo Dois


Ouvi o despertador apitar ao meu lado e imediatamente me virei em sua direção, soltando um suspiro longo antes de tocá-lo, fazendo com que o som estridente parasse de ecoar por todo o meu quarto. Naquele dia, o aparelho havia sido inútil, visto que eu já estava acordado há algumas horas e aquilo já era motivo para que eu me sentisse levemente frustrado.
Depois dos eventos do dia anterior, imaginei que fosse dormir feito um bebê, mas eu devia ter previsto que minha própria cabeça não me daria uma trégua.
Mais uma vez aqueles pesadelos estavam ali. Mais uma vez eles traziam consigo todas as sensações que eu buscava empurrar para o lugar mais profundo de minha mente, esfregando-os diante dos meus olhos.
E mais uma vez o nó em meu peito e a tremedeira me fizeram despertar, o rompante de pânico subiu por minha garganta e quando retomei a consciência, o grito havia ecoado por todo o ambiente, enquanto meus olhos varriam cada centímetro alcançável.
Minha respiração estava irregular, meus batimentos acelerados e aquele estado de alerta apenas me abandonou quando me dei conta de onde eu realmente estava: dentro de meu quarto, no apartamento em Londres que eu chamava de casa desde que havia me mudado para lá, sozinho.
— Puta merda, ! — exclamei, ouvindo o tom rouco de minha voz, e me obriguei a buscar um pouco de água, parando diante da pia da cozinha e bebendo longos goles do líquido enquanto tentava organizar meus pensamentos novamente.
Aquela luta continuou sendo travada quando retornei à minha cama e por horas a fio enquanto eu permanecia deitado, com os olhos fixos no teto.
Não havia sido o despertador a me acordar naquela manhã. Eu não me lembrava da última vez em que aquilo havia acontecido.
Não importava o que eu fizesse, eu sempre voltava para aqueles pesadelos e eles sempre me despertavam no meio da noite.
O despertador cumpria apenas a função de me avisar que eu precisava me arrumar para ir para o trabalho.

🕵🏼


Eu precisava fumar um baseado dos bons.
Não que eu fosse um viciado que morreria se não ficasse chapado, esse não era exatamente o caso.
Aquela era uma ocasião especial, uma celebração.
— E aí, , está rindo à toa hoje, uh? — olhei na direção de meu colega de elevador, que tinha corrido para me alcançar antes das portas se fecharem por completo, então abri um sorriso enorme.
Por pior que tivesse sido a noite anterior, ou todas as outras antes dessa, eu nunca deixava que aquilo afetasse meu humor no trabalho ou na convivência com as pessoas.
— Sempre estou sorrindo à toa, Lestrade. Mas você sabe bem que hoje tenho motivos — cheguei um pouco para o lado, observando-o solicitar o terceiro andar.
— Esse foi o caso do século, — não discordava dele, mas achei engraçada a cara de convencido de meu parceiro.
— Tenta esconder a animação aí, cara. Quer apostar quanto que aparece outro até o final do dia? — arqueei minha sobrancelha e pela careta que Lestrade fez, ele sabia que eu estava certo. Eu não me importava, na verdade, quanto mais casos melhor.
As portas do elevador se abriram e assim que eu e meu parceiro saímos dele, uma ovação quase me deixou surdo.
Se eu soubesse dessa algazarra, teria real fumado um antes de vir para o trabalho.
— Quem tá de aniversário? — soltei a pergunta em voz alta, fazendo minha melhor cara de surpresa e recebendo algumas risadas como resposta, porque todos me conheciam bem até demais.
— Não é o seu, mas tá de parabéns, hein, . — Escutei alguém gritar e balancei a cabeça em negação.
— Eu tô lisonjeado. Melhor cantada que já recebi, quer meu número? — brinquei, então parei diante da minha mesa e lancei um olhar às duas mesas ao lado, encontrando quem queria. — Mas, falando sério, não teríamos motivos para encher a cara mais tarde no bar, se eu não tivesse meu parceiro Lestrade e os agentes no meu esquadrão para essa operação.
Apontei para cada um deles assim que falava e mais uma salva de palmas se seguiu.
— Agradeço a cada um de vocês por não descansarem enquanto aquela quadrilha não visse o sol nascer quadrado — fui sincero em cada uma das minhas palavras, recebendo acenos de cabeça de cada um deles.
Suspirei alto e balancei a cabeça, deixando aquele momento de lado.
— Agora voltem ao trabalho de vocês, não sou o chefe, mas a bagunça fica para depois. — Pisquei, recebendo mais uma ovação antes do povo dispersar.
Eu estava mais do que satisfeito e nada mudaria meu bom humor naquele dia. Depois de meses tentando descobrir quem era o hacker responsável pelo furto de diversos bancos da cidade, finalmente chegamos à uma quadrilha composta por três bandidos mesquinhos, mas espertos até demais porque sabiam muito bem cobrir seus rastros. Eles só não contavam que os irmãos fossem ainda melhores.
Confesso que, no fundo, a sensação de resolver um caso era melhor do que a vibe da maconha e eu tenho certeza de que meu eu adolescente gargalharia da minha cara se me ouvisse dizer isso. Eu já podia até escutá-lo dizer que só um maluco ia preferir trabalhar a ficar numa boa, curtindo todas as sensações que só aquela planta poderia trazer.
Embora eu me rendesse às influências do meu eu adolescente de vez em quando, ele não tinha metade das preocupações que eu tinha agora. Também não tinha a paixão pela resolução de crimes que eu só fui descobrir alguns anos mais tarde.
Puxei a cadeira para me sentar diante do computador e sorri de canto ao ver a mulher se aproximar e se recostar à minha mesa. Não importavam as circunstâncias, sempre tinha um poder engraçado de tomar toda a minha atenção para ela quando quisesse e eu não digo apenas porque era bonita pra caralho. era o tipo de mulher que exalava determinação por onde passava e eu gostava disso.
— De nada, agente . Sua performance também não foi nada ruim — ergui uma sobrancelha ao ouvir suas palavras e subi meu olhar pela agente até focar em seus belos olhos. O brilho que eu sempre encontrava ali era uma das coisas que mais me agradava nela.
— Já que está analisando performances, agente , tenho mais algumas para te mostrar, se for de seu interesse — provoquei, sem nem tentar me refrear, fazendo com que um sorriso se formasse em seus lábios.
— E se for? Vai continuar só ladrando, ou vai realmente me mostrar dessa vez? — ela piscou para mim, de um jeito que era só dela e eu não vou negar que minhas mãos até ficaram suadas. Falar daquele jeito já era uma coisa, mas morder a boca em meio ao sorriso como ela estava fazendo era golpe baixo, principalmente porque sabia que ali eu não poderia fazer nada a respeito.
— Te mostro o que você quiser, só aceitar sair comigo — retribuí sua piscada, desejando internamente que ela aceitasse o convite e não levasse aquilo como uma espécie de brincadeira. Então escutei alguém bufar, não precisando nem olhar em sua direção para saber quem era, mas o fiz mesmo assim.
— Sério, vocês precisam parar com isso em ambiente de trabalho. — Dei risada ao ver a cara de poucos amigos do outro . Sei lá, o jeito que ele me fuzilava com os olhos era diferente.
— Relaxa, Trevor. Mesmo se a sair comigo, ela vai continuar sendo sua irmã, mas se o ciúmes for de mim, a gente pode conversar também. Só me pagar um drinque — zoei da cara dele, que estreitou os olhos para mim.
— Você não faz meu tipo, . E não estou com ciúmes, é só um alerta porque o chefe não vai gostar de ouvir essas conversas de vocês. Sabe como ele é com esse lance de namoro no trabalho. — Fingi uma cara de ofendido com a primeira parte, mas não ia negar que ele estava certo com o resto.
— Poxa, fiquei até triste. Você super faz o meu. — Não era totalmente mentira, mas faz parte.
— Duvido que o chefe vá demitir ou transferir os melhores agentes desse lugar — retrucou, com uma expressão convencida e Trevor acabou rindo.
— Vocês dois não valem nada, mas tem razão. — Deu de ombros.
— Eu nunca disse que valia, disse? — Ergui uma sobrancelha, fazendo com que os dois irmãos rissem. Trevor então se adiantou e me estendeu os papéis que segurava.
— Preciso que você assine o relatório. Vou entregar ao chefe hoje mesmo — pediu.
— Tá certo. — Peguei uma caneta e folheei as páginas para que pudesse fazer o que ele tinha solicitado. — Vocês vão ao Dart’Agnan hoje à noite, não é? Não aceito não como resposta.
— Eu já comecei a comemorar ontem à noite, , mas não recusaria esse seu pedido carinhoso. — sorriu e Trevor deu de ombros, como se dissesse que não era louco de contrariar.
— Não sei nem por que você ainda pergunta — comentou, fazendo com que eu sorrisse animado.
— Lestrade? — questionei, me dirigindo ao meu parceiro, e só aí percebi que ele não estava ali.
— Foi comprar café — Trevor explicou, rindo da minha cara de espanto.
— Como ele faz isso? — Jurava que não tinha visto ele sair de sua mesa.
— Não precisa de muita habilidade para fazer qualquer coisa enquanto você olha o decote da minha irmã, né, — riu mais ainda e eu acabei rindo junto.
— E falando nisso... Comemorou ontem, é? — Voltei minha atenção para , sorrindo malicioso quando ela assentiu com uma expressão travessa.
— Poderia ter comemorado mais, mas foi divertido. — E agora eu estava formigando de curiosidade para saber.
— Transou com quem? — A cara dela deixava isso quase claro.
— Não transei com ninguém, mas conheci alguém interessante. — Como o fofoqueiro incansável que eu era, com certeza ia perguntar todos os detalhes para , mas antes que eu pudesse fazer isso, percebi nosso chefe se aproximar e parar diante da minha mesa.
, há um caso de assassinato em massa na Kellet Rd. A Scotland Yard foi solicitada e quero você no comando novamente. Pode levar quem for preciso na sua equipe. — Sua expressão era séria e eu assenti prontamente, deixando de lado qualquer brincadeira que fosse e assumindo minha postura profissional.
— Certo, senhor. Estamos indo para lá. Permissão para levar Lestrade e os — solicitei os nomes que com certeza ele já imaginava.
— Concedida — ele assentiu, nos dispensando em seguida.
— Assassinato em massa na Kellet Rd? — disse em tom de surpresa.
— Trevor, preciso que encontre o Lestrade. e eu vamos para a cena do crime, nos encontraremos lá — disse a ele, me voltando para minha colega de trabalho. — Pegue seu kit forense.
— É para já — ambos disseram em uníssono e eu me preparei para o que encontraria naquele endereço.

🕵🏼


Se eu dissesse que não estava um tanto ansioso para chegar àquela cena de crime, eu estaria mentindo com a maior cara deslavada. Desde que entrei para a Scotland Yard, qualquer caso que me passavam era muito bem recebido, não importava o meu nível de cansaço, e a minha curiosidade irrefreável em encontrar os criminosos me fazia pegar cada vez mais gosto pela coisa. No entanto, precisava confessar que os homicídios eram os que mais me ganhavam. Poderia até dizer que foi o que me fez seguir aquela profissão, para início de conversa.
Há alguns anos, qualquer pessoa que me dissesse que eu me tornaria um detetive receberia zoeira pelo resto da vida. Aquela seria a piada do século. Eu era encrenqueiro demais e ligava de menos para o que era certo ou errado perante a lei — até porque, no meu ponto de vista, o certo e o errado são relativos para cada pessoa.
O antigo pulava a janela do quarto para ficar chapado por aí, colocava fogo em galpões com quem ele havia acabado de conhecer, transava dentro de capelas, ensinava gente doida a atirar e se apaixonava pela cafetina da cidade. Algumas coisas dentro de mim permaneciam as mesmas, tipo o hábito de ficar chapado de vez em quando, sem mais precisar pular a janela porque eu tinha minha própria casa para isso. Eu ainda não veria problema em transar em uma capela, gostava de lugares exóticos, e sobre a cafetina, bem, eu tinha certeza de que nunca esqueceria dela nem se eu quisesse, minha paixão por ela não era algo que pudesse ser apagado e mesmo depois de tantos anos eu conseguia ver sua imagem toda vez que fechava meus olhos.
Todas aquelas coisas haviam me moldado a ser aquele novo e no fundo eu sempre seria aquele adolescente porra louca, mas têm algumas marcas que te mudam para sempre e toda vez que eu lembrava o que tinha matado um pedacinho do velho aquilo doía feito o inferno e me revoltava também. Era o que me dava fogo nos olhos e motivação para ser o Detetive .
— Você está estranhamente quieto, . — Olhei para assim que paramos diante da viatura e disfarcei uma careta.
— Só estou me concentrando para não parecer tão animado ao chegarmos à essa cena de crime. Faz meses que não trabalho com um assassinato em massa — respondi, e pela expressão dela, não havia sido tão convincente assim, só que não era do tipo que insistia em um assunto quando via que eu estava desconfortável em ser sincero.
— Nem fala. Computadores são o lance do Trevor. Eu não via a hora de ouvir você me pedir para pegar meu kit forense. — Sua voz adquiriu um tom de animação semelhante ao meu enquanto adentrávamos o veículo.
Antes que eu desse partida, percebi uma expressão assustada tomá-la e arqueei uma sobrancelha.
— O quê? Esqueceu alguma coisa? — perguntei, sem entender.
— Não, eu nunca esqueço de nada, . Só estava pensando no quão estranho é esse negócio de ficarmos animados por termos homicídios para investigar — expressou, e parecia que ela dava voz a alguns de meus pensamentos.
— Fica mais esquisito se eu te disser que prefiro a adrenalina de solucionar um assassinato do que a vibe de um baseado? — Finalmente, dei partida no carro e o tirei do estacionamento, seguindo pelas ruas rumo ao endereço indicado.
riu alto, levando uma das mãos à boca.
, eu jamais te imaginaria desse jeito. — Aquele comentário me fez gargalhar.
— Que jeito? Fumando maconha? — ri mais ainda quando ela confirmou. — É, , você não sabe nem metade das coisas sobre mim. Mas eu nem te culpo, não tem nem como com o trabalho que a gente tem.
— Realmente, não tem mesmo — concordou, e percebi um sorriso de canto ainda nos lábios dela.
— Mas, sobre o lance de ser estranho, me responde uma coisa. O que te motivou a trabalhar para a Scotland Yard? — perguntei, encarando-a de relance, já que precisava me manter concentrado nas ruas.
demorou alguns segundos para me responder.
— Descobrir os assassinos e prendê-los.
— Obviamente, mas por que você quer isso? O que você ganha prendendo bandidos? — tornei a questionar.
— Eu não ganho nada com isso, , quem ganha são as famílias das vítimas, que veem a justiça sendo feita — disse automaticamente.
— Aí está, . Justiça é a chave. Toda vez que me chamam para uma cena de crime, eu penso sempre na sensação de contribuir para que essa justiça seja feita. Acho que, se você começar a focar nisso também, vai ver que não somos tão esquisitos assim — as palavras apenas foram saindo de meus lábios e percebi que ela concordava com cada uma delas.
— Talvez apenas um pouco — sorriu, assim que desliguei o carro.
— É, talvez um pouco — concordei, retribuindo seu sorriso, então nos encaramos por breves segundos antes de sairmos da viatura.
Por mais que eu gostasse de ficar encarando os belos olhos de ou o sorriso que ela me lançava, tínhamos trabalho a fazer.

🕵🏼


Ao nos aproximarmos da cena de crime, havia uma quantidade significativa de curiosos diante do local, o que dificultou um pouco a minha passagem e a de . Precisei erguer o meu distintivo e anunciar em um tom mais enérgico que precisava fazer meu trabalho.
Era totalmente compreensível a vontade de especular o que havia acontecido naquela residência. Eu mesmo, se não fosse investigador, iria querer saber o desfecho de toda aquela confusão.
Não seria necessário fazer o isolamento do local com a fita amarela, já que o crime havia acontecido em um ambiente delimitado pelas portas da casa, mas a área do jardim estava ocupada por alguns policiais e uma ambulância.
— Tentamos manter a população o mais afastava possível, agente — Mark, o policial encarregado de nos deixar a par da situação, disse assim que nos aproximamos.
— Certo. Qual é o relatório preliminar? Algum sobrevivente? — questionei, enquanto me preparava para entrar na residência, colocando os equipamentos de proteção individual.
— Aparentemente, temos um total de seis vítimas fatais e uma sobrevivente, senhor. — A partir daquele momento, eu já utilizava o gravador que me ajudaria a construir o laudo de local de crime com a maior quantidade de detalhes possível. — Das vítimas fatais, temos quatro do sexo masculino e duas do sexo feminino. A sobrevivente, do sexo feminino, foi levada até a ambulância para os procedimentos médicos.
— Certo. A que horário vocês foram requisitados, Mark? — questionei, também tomando nota de algumas coisas.
— Por volta das oito da manhã, senhor — ele me respondeu de imediato.
— Já falei para cortar essa de senhor, cara — soltei uma risada mínima, que fez com que meu colega sorrisse.
— Foi mal, . Força do hábito. — Fez uma careta. — A chamada foi feita por uma vizinha, que pensou ter ouvido alguns gritos suspeitos vindos de dentro da casa. Algumas horas antes, houve uma festa no local.
— Ótimo, festival de impressões digitais — ironizei, lançando um olhar para , que estava quieta e com o olhar espantado, algo um tanto incomum quando se tratava dela. — ?
— Oi, . — Pareceu despertar dos próprios pensamentos e me encarou de volta. Definitivamente, algo estava errado com minha parceira de trabalho.
— Está tudo bem? — questionei preocupado. — Obrigado, Mark — dispensei o policial, já que tinha toda a informação que precisava.
Ele se afastou um tanto receoso porque provavelmente também queria saber qual era o problema com .
, eu estava nessa festa ontem à noite. — Suas palavras me pegaram de surpresa e eu arqueei uma sobrancelha.
— Como é? — perguntei, apenas para confirmar que não havia entendido errado.
— Isso mesmo que você ouviu. Eu estava aqui essa noite. Fui embora um tanto cedo, porque uma das minhas amigas passou mal, mas o local estava lotado de universitários — contou, e antes que eu pudesse responder qualquer coisa acrescentou. — E não me olhe com essa cara, o dono da festa era conhecido ou qualquer coisa assim da Brianna.
— Brianna é aquela ruiva? — soltei, quando a imagem da garota veio à minha memória.
— Sim, a ruiva assanhada. — Estreitou os olhos para mim.
— Com ciúmes, ? — ergui uma sobrancelha e recebi um revirar de olhos como resposta.
— Cale a boca, . Eu não tenho ciúmes de ninguém — respondeu em tom de riso, mas eu conseguia notar que ainda estava tensa com a situação.
— Você quer que eu chame o Mark para entrar comigo? Não estou achando que vai te fazer bem analisar essa cena de crime, — sugeri, porque realmente aquilo poderia lhe afetar demais.
sacudiu a cabeça em negação, respirando fundo e então me lançando um olhar determinado.
— Não precisa, . Eu posso fazer isso — declarou e eu apenas assenti em concordância.
Prosseguimos então para dentro da casa. Assim que Lestrade chegasse, se encarregaria de tomar os testemunhos da sobrevivente, da vizinha que havia efetuado a chamada e de alguns dos outros moradores dos arredores. Toda informação era de grande importância.
Parei diante da porta da casa, deixando tirar algumas fotos e assim que adentramos a sala, resolvemos fazer a perícia do local em zigue-zague. Preferia assim porque pensava ser a melhor forma de cobrir toda a área.
A bagunça era evidente e o cheiro de álcool e drogas me deixou até meio tonto. Era algo perfeitamente normal, já que haviam dado uma festa ali.
Tinha muitos copos atirados no chão, bitucas de cigarro e até umas peças íntimas. foi fazendo algumas fotos para o registro enquanto eu tomava nota e recitava para que ficasse registrado no gravador de voz. Por que eu fazia anotações mesmo usando um gravador? Simplesmente porque eu precisava visualizar algumas coisas no papel para raciocinar com clareza.
Estava começando a questionar se havia mesmo acontecido crimes ali, quando encontrei.
A primeira vítima estava estirada entre a sala e a cozinha pequena, em decúbito ventral. Uma grande poça de sangue rodeava o corpo, mas havia também respingos pelas paredes próximas, assim como na porta branca da cozinha.
— Minha nossa — exclamou, enquanto fazia seu registro e eu me abaixei para analisar a vítima mais de perto.
Era um homem, aparentemente jovem, não devia ter muito mais do que vinte anos. Seus olhos estavam abertos, uma das mãos estendidas, como se morresse tentando pedir socorro e a parte de trás de sua cabeça estava esmagada. Comprovaríamos após o laudo médico-legal, mas a possível causa da morte era o traumatismo craniano.
— Não há sinais de violência sexual, no entanto, a vítima possui algumas escoriações em seus braços, o que pode indicar uma possível luta contra o assassino — recitei, enquanto fazia a minha análise.
Segui para a cozinha, buscando mais evidências e coletando um copo com o que aparentava ser uma mancha de sangue.
— Sem arma do crime no local — olhei rapidamente para , me certificando de que ela estava mesmo bem e parecendo entender minha preocupação, ela assentiu.
Quando subimos as escadas para o segundo andar, notamos que claramente ali que havia se instalado o verdadeiro pandemônio.
De cara, encontramos manchas de sangue pelas paredes e na maçaneta de um dos três quartos, bem como no corredor, o que indicava que uma das vítimas poderia ter se arrastado até o cômodo.
Nossas teorias se confirmaram quando adentramos o primeiro quarto e encontramos uma vítima próxima à porta, também do sexo masculino e sinais de luta corporal, mas este estava em decúbito dorsal e todo o seu rosto estava desfigurado.
Não muito longe dele, em cima da cama, havia mais dois corpos.
— Indivíduos do sexo feminino, idade aparente entre 20 e 25 anos. Sem sinais de luta corporal ou violência sexual. A possível causa da morte seria uma incisão na jugular — franzi o cenho ao citar minhas observações.
Aquele cenário me pareceu um tanto familiar, como se eu já tivesse visto aquilo em outro caso, mas algumas coisas não batiam.
Coletamos algumas evidências que pareciam importantes, como carteiras e aparelhos celulares, que poderiam ser das vítimas, amostras de sangue dos lençóis e algumas impressões digitais.
Continuamos a jornada até o segundo quarto. Mais uma vítima do sexo masculino, com possíveis pancadas na cabeça e sinais de que havia enfrentado o agressor. Coletamos um tufo de cabelos, que parecia ter sido arrancado do couro cabeludo de alguém e no quarto havia uma carreira de pó branco, o que também deveria ser analisado.
Quando paramos diante do terceiro quarto, respirou fundo novamente. Ela havia feito aquilo em cada cômodo por onde passamos e eu fiquei sem entender bem o motivo. Se ela e as amigas partiram cedo, por que a expressão preocupada?
Não ia questioná-la de imediato, porque não convinha naquele momento. Porém, eu era curioso demais para deixar aquelas observações passarem em branco.
Diferente dos outros cenários, o indivíduo no próximo ambiente não possuía lesões corporais aparentes e sua expressão estava serena, como se tivesse adormecido tranquilamente. Poderia até dizer que ele ainda estava dormindo, se não fosse pela incisão na jugular, como eu havia observado nas vítimas mulheres.
Havia alguns fios de cabelos longos na cama e quando meu olhar passou por um dos travesseiros percebi um lampejo prateado.
— chamei minha parceira, indicando que ela fotografasse aquilo. Ergui o travesseiro e ali estava algo interessante.
Uma adaga prateada.
— A arma do crime? — foi que se pronunciou dessa vez.
— Vamos coletar — declarei o óbvio.
Continuamos a análise pelo restante da casa, não encontrando mais nenhum detalhe muito gritante. Era uma cena de crime complicada, principalmente pelo fato de ter acontecido um evento ali poucas horas antes.
Além da vítima sobrevivente e dos vizinhos, teríamos que interrogar cada um dos presentes no local àquela noite. Seria um puta trabalho, mas eu estava determinado a desvendar aquele caso e não aceitava menos do que encontrar o autor daqueles crimes.
Ao descermos até os jardins novamente, encontramos Trevor e Johnathan, que ao me enxergar veio em minha direção.
— Ouvi dizer que encontrou uma cena e tanto lá dentro, — comentou, me conhecendo bem demais para saber que aquele tipo de cena me instigava e muito.
— Você não tem ideia — respondi com sinceridade. — E as testemunhas? — lhe questionei.
— Consegui algumas informações com a vizinha, Lauren. Ela sustenta uma boa parte do relato feito durante a chamada à polícia. Já a vítima sobrevivente, não disse uma palavra sequer. Apresenta alguns sinais de estar possivelmente em choque.
— Vamos ver se consigo alguma coisa — comentei, com o cenho franzido, disposto a seguir até ela.
— Lestrade me chamou, atraindo minha atenção novamente.
— Segundo o relatório policial, ela foi encontrada ao lado de uma das vítimas e as mãos dela estão cheias de sangue. Trevor coletou algumas amostras para análise, já que ela consentiu quando lhe foi solicitado — prestei atenção às informações.
Aquilo alterava um pouco as perspectivas. Além de vítima, a jovem se tornava uma potencial suspeita.
Caminhei até a garota, sentada na ambulância e não eram apenas as mãos dela que estavam cheias de sangue. Seus ombros, uma parte do pescoço e do rosto apresentavam respingos, como se ela estivesse muito próxima de uma das vítimas. Suspeita, definitivamente.
— Olá, eu sou o agente . — Me aproximei, me agachando para ficar na mesma altura que seu rosto e abri um sorriso amigável. Precisava conseguir fazer com que ela falasse.
Mas nada veio.
Suspirei.
— Eu sei que é um momento bem difícil, principalmente porque você foi encontrada junto a uma das vítimas, mas eu estou aqui para te ajudar, tudo bem? Só desejo saber o que aconteceu para encontrar a melhor forma de fazer isso. Como é seu nome? — soltei, de forma gentil.
Ela permaneceu em silêncio por algum tempo, mas não consegui desistir logo de cara.
— Me ajude a te ajudar, moça. Me conta o que você sabe, por favor — insisti.
— Não fui eu! Eu juro que não fui eu! — tomei um susto quando ela me encarou nos olhos, para então começar a gritar e se debater. Lestrade havia dito que estava em choque, mas aparentemente o estado havia passado e ela despertara para o que estava acontecendo.
Por alguns segundos, permaneci sem reação, mas então segurei em uma de suas mãos, chamando a atenção dela novamente para mim. Seus olhos se fixaram nos meus e se encheram de lágrimas.
— Eu não fiz aquilo. Por favor, acredite em mim, eu... Eu acordei com ele morto e não faço ideia do que aconteceu ou de como fui parar ali — foi falando, desenfreadamente.
— Certo. Vamos tentar nos acalmar primeiro, tudo bem? Assim eu vou conseguir te entender e tomar o seu depoimento da forma mais correta possível. Você pode me dizer o seu nome? — pedi, mais uma vez, não sabendo muito bem o que pensar naquele momento.
. .


Capítulo Três


Mesmo depois de algumas palavras trocadas comigo, nas quais pelo menos eu havia descoberto o seu nome, a moça ainda parecia muito abalada e nada pronta para falar sobre o que havia acontecido. Eu sabia quais eram as possíveis explicações para aquele tipo de comportamento: ou ela estava traumatizada por presenciar aquele tipo de violência, ou havia sido a autora do crime.
Baseado nas informações e evidências que eu já tinha, ainda não poderia concluir qual era o papel de naquele cenário, então, nesse caso, a levar para a sede da Scotland Yard era a melhor alternativa.
De qualquer forma, lá eu poderia manter a mulher afastada de todos os olhares curiosos, piedosos ou acusatórios dos populares e tomar seu depoimento sem nenhum tipo de interferência.
Johnathan Lestrade não questionou a minha decisão de levá-la dentro de sua viatura, mudando nossa dinâmica inicial e fazendo com que os retornassem juntos. Naquele momento, eu precisava do meu braço direito e, de qualquer forma, eu sabia que se fecharia em seu laboratório para processar as amostras de DNA.
Eu ainda pediria que ela me explicasse aquela história de estar na mesma festa onde havia acontecido aqueles crimes. Na verdade, o certo a se fazer era tomar o depoimento dela também, ainda mais porque alguma coisa na forma como olhou para quando a informei de que levaria a jovem na viatura de Lestrade me deu a entender que alguma coisa pairava no ar.
— O que você acha? — Escutei Lestrade me perguntar, fazendo com que eu desviasse o olhar da janela do carona para encará-lo.
Ponderei por alguns segundos, tendo a consciência de que a garota logo ali atrás poderia nos ouvir.
— Sinceramente? Que aquela cena foi uma das mais tensas que já analisei, Lestrade. — Soltei um suspiro e notei que o homem arqueava uma sobrancelha para mim. — Sei que está se referindo ao que eu acho que aconteceu lá e a resposta é bem simples. Me parece que alguém teve um surto e saiu matando quem encontrava pela frente.
Johnathan assentiu brevemente, parecendo concordar com a minha colocação, e alguns segundos de silêncio dominaram o ambiente até ele voltar a se pronunciar.
— Acha que foi ela? — Dessa vez, seu tom de voz era mais baixo, mas ainda assim havia escutado, já que notei sua cabeça se erguer sutilmente.
— Não sei, Lestrade — fui sincero. — Mas com certeza nós vamos descobrir isso em breve.
Permaneci observando a mulher pelo retrovisor durante quase todo o restante do trajeto. Eu não era nenhum psicólogo, mas minha experiência na Scotland Yard havia me ensinado o bastante para que eu o fizesse.

🕵🏼


Deixei que Johnathan conduzisse até uma das salas de interrogatório enquanto eu me servia de um copo de café e bebia alguns goles, me preparando e pensando no tipo de perguntas que eu faria a ela.
Senti uma pontada de culpa por trazê-la até ali, fazendo tudo meio que às pressas, já que nem ao menos uma brecha para que ela lavasse as mãos ensanguentadas havíamos dado, afinal, no fim das contas, a deixaríamos aguardando por no mínimo uma hora até o interrogatório ser iniciado.
Veja bem, se ela fosse culpada, quem sabe aquilo ali não poderia ser utilizado ao nosso favor?
De qualquer jeito, tínhamos um protocolo a ser seguido e naquele momento não podia escapar de nossas vistas.
. — Escutei a voz de me chamar e assim que olhei em sua direção, percebi uma pontada de preocupação unida ao anseio de explicar alguma coisa.
— Agora não, — respondi, porque naqueles momentos eu preferia ficar mais calado e concentrado nos meus próximos passos.
— Só me responde uma coisa. — Assenti para que ela prosseguisse. — Vai interrogá-la como vítima ou como suspeita?
Fixei meus olhos aos de minha colega de trabalho, sabendo que em qualquer outra circunstância, eu me perderia ali facilmente. Na verdade, não havia quem não se rendesse ao olhar profundo de , porque ao mesmo tempo em que parecia ler sua alma, eles também te hipnotizavam e puxavam para ela.
— Tem sangue nas mãos dela, — expliquei, a vendo morder o canto da boca e concordar.
— De fato… — Balançou a cabeça, parecendo espantar alguns pensamentos. — Bom, aqui estão os relatórios preliminares. Faça o que tem que fazer e se precisar de mim…
— Te encontro no laboratório, eu sei — cortei a fala dela com um sorriso pequeno, então peguei a pasta com os documentos que ela me oferecia, a abrindo para analisar as informações ali contidas.
Eu não pretendia demorar muito tempo fazendo aquilo, apenas o bastante para que pudesse relacionar tudo o que eu tinha visto ao que estava registrado e assim colher os depoimentos da melhor maneira possível.

— Tudo certo, . — Lestrade se aproximou, sinalizando que a jovem já estava devidamente acomodada na sala de interrogatório.
— Ela disse alguma coisa? Pediu por um advogado? — Questionei, vendo que ele negava com a cabeça.
— Nenhuma palavra. Trevor está fazendo uma busca pelas câmeras de vigilância aos arredores, verificando se houve a entrada ou saída de alguém suspeito — informou, me fazendo assentir mais uma vez.
— Isso vai dar uma tremenda dor de cabeça. Tava rolando uma festa no local do crime. — Lestrade já sabia daquilo, mas acabei comentando mesmo assim.
— Ou não. Se as análises da baterem com o DNA da suspeita na arma do crime, já temos nossa culpada.
Ele parecia quase certo de que a sobrevivente era a nossa assassina, mas eu, que não era de discordar de Johnathan, naquele momento não conseguia acreditar naquela acusação e não saberia dizer exatamente o porquê.
Sem dizer nenhuma palavra, terminei meu café e peguei a pasta para me levantar dali e seguir para a sala de interrogatório, sendo imediatamente acompanhado por ele.
Johnathan foi o primeiro a entrar, se sentando diante da jovem. Pedindo licença a ela, segui para dentro do recinto.
— Muito bem. — Fechei a porta atrás de mim, me aproximando e me sentando na cadeira ao lado de Lestrade. Dessa vez, foi meu parceiro que manteve um olhar fixo na mulher, avaliando as expressões dela, ou a quase ausência delas naquele caso.
Havia um gravador de voz em cima da mesa e, como ordenava o protocolo, eu o acionei para que toda a conduta do interrogatório ficasse registrada.
— Pode nos dizer seu nome completo? — Questionei em um tom amigável, de modo que ela se sentisse mais como se estivesse conversando com alguém do que sendo inquirida.
Alguns segundos de silêncio se seguiram e eu temi que voltaríamos à estaca anterior, mas então a mulher soltou um longo suspiro.
— respondeu em um tom de voz rouco.
, você está aqui para responder algumas perguntas sobre o assassinato em massa ocorrido na madrugada do dia 29 de setembro de 2019. O suposto crime aconteceu na Kellet Rd, tendo um total de seis vítimas fatais, sendo a senhorita a única sobrevivente. Quero deixar claro que você tem todo o direito de acionar o seu advogado. Gostaria de fazer isso? — Expliquei tudo pacientemente e subitamente a garota se agitou.
— Eu… Eu não fiz nada. Já falei que não fiz nada! — A voz dela oscilou e mais uma vez notei o desespero tomar seus olhos.
— Você quer acionar um advogado, ? — Tornei a perguntar, sem quebrar meu contato visual com ela, tentando acalmá-la de alguma forma ao mesmo tempo em que eu precisava manter o profissionalismo exigido.
Os lábios dela tremeram e a jovem balançou a cabeça em negação. Notei que suas mãos também oscilavam quando ela fez menção de levá-las ao seu rosto, mas então se deu conta de que estavam ensanguentadas e essas passaram a tremer violentamente. Seu rosto se contorceu como se ela fosse cair no choro e eu sinceramente quis adiar aquele momento, mas não poderia, não quando aquilo poderia muito bem ser apenas um teatro.
? — Chamei seu nome, escutando a respiração pesada de Lestrade denunciar que ele se sentia incomodado com aquilo também. — ? — Repeti quando, mais uma vez, ela não demonstrou que tornaria a me responder.
então repousou as mãos sobre a mesa e engoliu a seco, respirando fundo, procurando se acalmar e me encarando quando finalmente pareceu ter se recomposto.
— Não tenho um advogado. Eu sou uma universitária que serve mesas para poder bancar os estudos e colocar comida na mesa. Acha mesmo que eu conseguiria pagar um? — Dessa vez, a voz da jovem se tornou um pouco mais firme e carregava uma nota de sarcasmo que eu associei ao estresse da situação.
— Nesse caso, o Estado poderá te fornecer um, caso…
— Estão me tomando como a assassina, não é? Por isso esse papo de advogado — me cortou, fazendo com que eu arqueasse uma sobrancelha.
— É o procedimento padrão te oferecer a chance de ter uma defesa, independente de você ser suspeita ou apenas uma vítima — Lestrade interferiu, a encarando com seriedade e os olhos dela pousaram nele por alguns segundos.
— Ninguém a trouxe aqui para fazer acusações, . Queremos saber o que aconteceu. — Puxei sua atenção de volta para mim. — Pode nos contar a sua versão dos fatos?
Um resquício daquela fragilidade de antes passou pelos olhos dela, mas a mulher simplesmente negou com a cabeça mais uma vez.
— Escute. Nós sabemos que aquela cena não é algo fácil de ser assistido. Vai por mim, estou acostumado a ver muita coisa louca, mas confesso que esse assasinato em massa me pegou de jeito. Então, se você conseguir nos dar o seu depoimento, como o agente disse, vai nos ajudar a entender o que houve lá — Johnathan voltou a falar, mas a mulher permaneceu com seus olhos na minha direção, como se estivesse buscando em mim a certeza de que estávamos sendo sinceros.
Ela então respirou fundo mais uma vez e finalmente assentiu, parecendo tentar adquirir uma postura mais firme. Por mais assustada e apavorada que estivesse, fazia questão de demonstrar o oposto e ali percebi que, como eu, ela não gostava de demonstrar fragilidade.
— Será que vocês podem me arrumar um copo de água? Minha boca está seca — pediu e isso fez com que eu estreitasse levemente meus olhos em sua direção.
Eu já havia perdido as contas de quantos suspeitos já havia interrogado e naquele momento ponderei se não estava usando meios para nos enrolar.
— Claro — acabei concordando, por fim, porque não ia negar aquilo a ela, por mais suspeito que parecesse. Fiz menção de me levantar, mas então Lestrade me parou.
— Pode deixar. — Acenei positivamente e o vi passar por trás da minha cadeira e sair rapidamente.
— Vocês estão atrás da pessoa errada, agente . — Me surpreendi ao ouvir dizer e voltei a olhar para ela, fixando meus olhos aos da mulher e tentando ler o máximo que podia.
Era de certa forma frustrante encontrar apenas o pavor ali. Ela não estava nem irritada por ser suspeita de algo que alegava não ter cometido.
— É o que vamos esclarecer aqui, . O seu depoimento e os laudos periciais vão ajudar eu e Lestrade a entendermos a história do crime — falei de forma calma. — Quanto mais detalhes você me der, melhor.
Escutei então ela bufar baixinho.
— Claro. Você precisa fazer o seu trabalho, não é? Quem é que vai acreditar em uma desconhecida só porque está dizendo que não fez nada! — Seu tom carregava ironia, mas eu sabia que aquilo estava mais para um desabafo.
Não soube o que dizer diante daquilo e agradeci mentalmente quando Johnathan voltou a adentrar a sala, entregando o copo com água para , então nós dois a observamos o levar aos lábios.
Meu olhar recaiu mais uma vez para as mãos ensanguentadas dela e eu me perguntei mentalmente se ela havia esquecido daquele detalhe ou se simplesmente não se importava em sujar o copo de onde sorvia o líquido.
— Muito bem. Buscamos o que nos pediu, agora é a sua vez de nos retribuir o favor. Pode finalmente nos contar a sua versão? — Lestrade a inquiriu e nós a vimos assentir brevemente.
passou a língua pelos lábios, tomando fôlego, então começou a falar.
— Eu fui a essa festa que estava acontecendo na Kellet Rd porque um pessoal do meu curso anunciou no grupo do whatsapp. Gosto de festas e estava louca para relaxar um pouco, então resolvi que eu ia de qualquer jeito. Mesmo quando os meus melhores amigos me deram o bolo e resolveram não ir, ainda insisti porque eu nunca precisei de amigos fixos para me divertir — ela contou.
— Que horas você chegou à festa? — Perguntei, prestando atenção em cada uma de suas palavras.
— Era por volta das oito e meia, quase nove horas da noite, mas a casa já estava cheia. Sinceramente, eu já esperava que fosse dar bastante gente, essas festas são bem populares — respondeu, não parecendo incomodada com meu questionamento.
— Certo — assenti brevemente. — Alguém te acompanhou a essa festa? — Insisti naquele ponto propositalmente.
— Não — ela disse sem pestanejar. — Fui sozinha porque meus amigos tinham outras coisas para fazer.
— Que tipo de coisas?
— Giovanna tinha um trabalho da faculdade para terminar. Ela sempre deixa as coisas para a última hora, sabe? E Charles estava com Andrey, namorado dele.
— Você disse a algum deles para onde iria?
assentiu.
— Os dois sabiam e com certeza Charles contou a Andrey, então temos três pessoas que sabiam onde eu estaria.
— Muito bem. — Umedeci os lábios antes de continuar. — Você encontrou algum conhecido nessa festa ou alguém que possa confirmar a que horas você chegou?
Um sorrisinho irônico se moldou nas feições dela.
— Vários. Era uma festa universitária, eu estudo na King’s College e, como disse antes, sou garçonete de uma lanchonete no campus. Conhecidos ali não me faltavam — disse tranquilamente.
— Qual é o nome da lanchonete? — Lestrade questionou.
— Billy’s coffee — não houve hesitação em sua resposta.
— Em que horário é a sua jornada de trabalho? — Atraí sua atenção de volta para mim.
— Das duas às seis da tarde.
Como se nossos pensamentos estivessem conectados, eu e Lestrade direcionamos nossos olhares para o relógio, que marcava quatro e vinte e quatro da tarde, então nos entreolhamos.
— Você tinha que estar trabalhando esta tarde, certo, senhorita ? — Johnathan se ajeitou na cadeira ao voltar a encará-la.
— Tinha — confirmou.
— E o que mais aconteceu, ? — A instiguei a continuar seu relato.
— Bom… Como eu disse antes, acabei resolvendo ir a essa festa sozinha. Encontrei algumas pessoas conhecidas por lá, bebi um pouco, dancei… Nada muito diferente do que se faz numa festa, não é? — Soltou um riso anasalado. — Conheci uma garota que era simplesmente sensacional, mas ela acabou indo embora cedo por causa de uma amiga e depois teve esse cara…
Seu cenho se franziu então, o que fez eu me empertigar um pouco em minha cadeira.
— Notou algo suspeito nele? — Perguntei.
— Na verdade, não… — Negou com a cabeça. — Se bem que eu não parei para olhar para ele dessa forma, se é que me entende — completou, e, pelo canto do olho, percebi Lestrade arquear uma sobrancelha de leve.
— Entendi. — Não sabia se ela se sentiria desconfortável ou não se fosse mais específica, mas precisávamos disso e eu estava prestes a questioná-la quando tomou a iniciativa.
— Eu o vi um pouco depois que cheguei à festa. Não me lembro de tê-lo visto pelo campus, talvez fosse alguém de fora ou algum calouro, não sei dizer, mas ele era totalmente o meu tipo. Assim como a garota também era… — Suspirou, parecendo se perder em pensamentos por um momento. — Não sou nenhuma puritana, então vou ser bem franca porque acho que é isso que vocês estão esperando, não é?
— Por favor — Lestrade pediu.
— Eu e ele tivemos uma conexão engraçada. Ele me cercou, eu provoquei um pouco, nós dançamos e quando me dei conta eu estava subindo com ele para um dos quartos. Entramos em um que estava desocupado e… foi isso — finalizou.
— Como assim foi isso? — Johnathan questionou o que eu mesmo pensava.
— Foi isso. Eu só me lembro de entrar com ele me beijando e tirando toda a minha roupa. Depois disso, eu acordei no mesmo quarto, com uma dor de cabeça horrível, um gosto amargo na boca e o mesmo cara morto do meu lado. Ah! Sem esquecer isso aqui. — Ergueu as mãos ensanguentadas.
Pisquei algumas vezes enquanto processava as informações que ela havia me passado, tentando imaginar a dinâmica do crime baseado no que descreveu, mas o apagão em sua memória me parecia algo de certa forma estranho.
Como é que simplesmente não lembrava nem se tinha chegado a transar com o cara?
— Você lembra o nome dele pelo menos? Ele te disse alguma coisa? Te ofereceu alguma bebida? Tentou te forçar a alguma coisa? — Disparei uma série de perguntas novamente de forma proposital, já que assim poderia analisar ainda mais as suas reações.
— Eu… — titubeou. — Eu não lembro.
— Vocês tiveram algum tipo de discussão em algum momento da noite? — Johnathan também questionou.
— Não sei. — Percebi os lábios dela tremerem.
— Você subiu com ele por livre e espontânea vontade? Ele te ameaçou ou algo do tipo? — Olhei bem sério para ela, estudando as suas reações.
— Até onde eu me lembro, subi por livre vontade. Nós não conversamos muito além das provocações — sua voz ecoou um tanto rouca.
— Ele era algum conhecido seu? Aluno da universidade? — Lestrade sabia que ela já tinha dito aquela informação, mas era importante repetirmos algumas perguntas para avaliar se a mulher iria se contradizer.
— Não. Eu nunca o vi antes. Tenho certeza de que não teria esquecido caso tivesse — comentou pensativa.
— No entanto, não se lembra do nome dele. — Percebi que Johnathan escondia o sarcasmo.
— O resto da noite simplesmente sumiu da minha cabeça. Estou sendo sincera. É como se tivessem passado uma borracha pelo meu cérebro. Num instante, estou com esse homem me beijando. No outro, ele está morto ao meu lado… Tem sangue espirrando por todo o lado… A polícia chega e me manda erguer minhas mãos pra cima. A quantidade de sangue é absurda… Eu nunca mais vou me esquecer desse cheiro… — as palavras foram ecoando dos lábios da garota e subitamente ela pareceu entrar numa espécie de transe, o que fez com que eu e Johnathan trocássemos um breve olhar.
? — Chamei, a fazendo voltar a focar em mim.
— Me desculpe — soou rouca. — Eu não posso mais fazer isso.
Então ela se levantou.
— Está tudo bem. Precisa de mais um copo de água? — Ofereci, preocupado porque de repente ela já não estava mais centrada como antes. Parecia completamente agoniada, suas mãos voltaram a tremer e embora suas feições trouxessem dor, não haviam lágrimas em seus olhos.
— Não. Eu quero ir embora daqui. Eu preciso ir embora daqui. — Então trouxe sua mão na direção da minha que estava em cima da mesa, tocando meu braço e o apertando forte. — Me tire daqui, agente .
Estudei seu olhar completamente transtornado.
— Acalme-se, senhorita . Está tudo bem. Ninguém aqui quer te fazer mal… — Lestrade se pronunciou.
— Eu quero sair daqui — ela repetiu, sem desviar o olhar do meu.
Suspirei alto, então, num gesto gentil, fiz com que me soltasse.
— Tudo bem. Acho que temos o bastante — acabei concluindo.
Na verdade, nós tínhamos mais umas porcarias de perguntas, mas claramente não conseguiríamos mais nada dela. precisava de atendimento psicológico.
— Vamos lá. Eu te acompanho até a saída — Johnathan se prontificou, indicando a porta para a mulher, que imediatamente se deixou ser guiada por ele.
— Muito obrigado pelo seu depoimento, — soltei, fazendo a mulher me lançar um rápido olhar perturbado, parecendo incapaz de me responder até parar diante da porta.
— Vocês acham que fui eu que fiz aquilo, não é? — Ela se virou de repente, me olhando com acusação.
— E você, ? Acha que fez? — Devolvi a pergunta, a observando com atenção.
Dessa vez, não recebi nenhuma resposta. Ela simplesmente me deu as costas e me deixou ali naquela sala com meus pensamentos a mil, tentando processar todas aquelas informações.

🕵🏼


Não demorei muito tempo ali dentro, apenas o suficiente para que pudesse me recompor e nisso encarei meu braço, notando a mancha de sangue seco que havia feito quando me segurou.
Suspirei, saindo em direção ao meu armário porque eu sempre deixava ali algumas camisas extras. Trabalhando na Scotland Yard, o certo era estar preparado para tudo todos os dias.
As palavras de ficaram ecoando na minha mente e eu tentava fazer alguma conexão entre o que eu tinha presenciado e as informações que a mulher havia me fornecido.
Todas as súplicas dela de que era inocente pareciam de alguma forma ser verdadeiras, mas ao mesmo tempo se contradisse em vários momentos, o que formava um verdadeiro nó em meu cérebro. Nó esse que eu sinceramente esperava que fosse desatado quando os laudos periciais ficassem prontos.
? — Escutei a voz de Lestrade me despertar dos pensamentos e só então me dei conta de que ainda estava na frente do meu armário, sem camisa, enquanto segurava a peça suja de sangue em minhas mãos. Balancei a cabeça de leve e ergui meu olhar para ele. — Tudo bem?
Demorei uns dois segundos para concordar, o que fez com que meu parceiro franzisse o cenho.
— Isso tudo é demais para qualquer pessoa. Talvez você devesse dar o dia por encerrado e ir para casa relaxar um pouco. Tenho certeza de que você tem horas extras até demais para cobrar — me aconselhou, fazendo com que dessa vez eu fizesse uma careta.
— Não. Eu não posso ir para casa agora, Lestrade. Eu preciso analisar tudo o que foi dito nesse interrogatório — neguei, o ouvindo bufar em resposta.
— O caso é nosso, . O que significa que você não precisa e nem vai fazer tudo sozinho — frisou em um tom sério.
Johnathan estava certo em tudo, aquilo realmente havia sido demais e eu realmente precisava descansar porque assim minha mente ficaria ainda mais limpa. Porém eu sabia muito bem o que ir para casa e deitar minha cabeça no travesseiro significava, então era mais fácil eu simplesmente continuar ali, trabalhando e até acumulando ainda mais horas extras, desde que isso me deixasse exausto o suficiente para capotar sem ter nenhum daqueles pesadelos que sempre vinham me atormentar.
— Pode deixar que quando eu ficar realmente cansado, vou para casa. — O vi abrir a boca para retrucar a minha resposta e rapidamente continuei, sem lhe deixar brecha. — A não ser que você queira me ajudar a relaxar. — Um sorriso de canto se formou nos meus lábios quando lancei um olhar significativo em sua direção.
— Não vou cair nessa, . Flertar quando quer desviar um assunto não funciona comigo, sabe disso — soltou em um tom mais leve, rindo do que eu havia dito.
— Poxa, assim fico chateado. — Até torci a boca, fazendo ele negar com a cabeça.
— Não fique. A ideia de te ajudar a relaxar é ótima, eu só não vou dar corda pra você vendo que tá quase se enforcando. — Deu de ombros, me fazendo rir junto dele.
— Melhora se eu disser que vou transcrever o interrogatório e depois vou pra casa? — Me virei para meu armário, pegando então uma camisa limpa e a vestindo.
— Mais ou menos, mas tá, acho que tá valendo — Lestrade concordou por fim.
— Então pronto. Eu só preciso de mais um café. — Sorri, terminando de abotoar a camisa e encarando por breves segundos a peça suja que eu tinha deixado de lado.
A imagem das mãos sujas de e suas expressões que mudavam de repente tomaram meus pensamentos. Por fim, eu a coloquei em uma sacola e guardei no armário de volta. Manchas de sangue eram um saco para tirar, mas aquele era o menor dos meus problemas no momento.
Caminhei com Lestrade ao meu lado em silêncio, imaginando que ele devia estar tentando organizar os pensamentos da mesma forma que eu.
, eu sei que você tem suas dúvidas quanto à culpa dela, mas aquele comportamento é no mínimo suspeito — quebrou o silêncio quando chegamos às nossas mesas.
Suspirei.
— Sim. Eu concordo com você. — Me sentei em minha cadeira giratória, me virando na direção dele.
— Em um segundo ela está catatônica. No outro, começa a falar contigo normalmente. De repente, ela simplesmente surta e te agarra pelo braço e depois exige saber se achamos que é a assassina ou não — Lestrade foi enumerando as coisas enquanto minha mente trazia as lembranças recentes conforme eram citadas.
— Eu honestamente ainda estou tentando processar o que foi aquele surto que ela teve no meio do interrogatório — comentei. Aquilo de fato havia sido o que mais me incomodou.
— Você lembra o que me disse antes do interrogatório? Do que parecia ter acontecido naquela cena de crime? — Ele me questionou com um olhar significativo.
— Um ataque de histeria — respondi de imediato, abaixando meu olhar e refletindo por alguns segundos sobre aquilo. — É tudo muito estranho, Lestrade. Esse lapso na memória que ela diz ter… Como alguém que não lembra do que aconteceu descreve que o sangue estava espirrando?
— Não fui o único a perceber esse detalhe. Ótimo. — Ouvi-lo dizer aquilo fez com que eu o olhasse novamente. — E se ela realmente estiver falando a verdade e não consegue lembrar do que aconteceu, o que garante que isso não é uma consequência do surto?
Eu não tinha como argumentar contra aquilo porque Johnathan estava certo. Tudo o que dizia fazia sentido, mas ainda tinha uma parte minha que insistia que ele poderia estar errado. Que poderia sim ser uma vítima como todas aquelas pessoas que foram assassinadas. E se esse era o caso…
— Por que ela é a única sobrevivente? — Externei a pergunta, só então percebendo que meu olhar se encontrava perdido na direção dele.
— Como? — Johnathan questionou, parecendo despertar dos próprios pensamentos.
— Se ela realmente for apenas uma vítima como todas as outras. Por que só ela sobreviveu? O que tem de especial, Lestrade? — Repeti, explicando com mais clareza o que se passava pela minha cabeça.
— Talvez o assassino pensou que tinha matado ela? Nós já vimos esse tipo de coisa acontecer, — cogitou, fazendo uma careta que demonstrava que ele não acreditava muito naquilo.
— Sim, nós já vimos e não dá para descartar essa hipótese. — Pensei mais um pouco. — E o sangue nas mãos dela?
— Ela se apavorou e mexeu no cadáver? Alguns policiais disseram que gritava muito quando foi encontrada. — Assenti ao ouvir aquilo.
— Faz sentido — comentei, o instigando a continuar falando, já que o percebi fazer menção disso.
— Imagine só acordar com pessoas mortas à sua volta, ainda mais naquele cenário. Tinha sangue por todo o lado...
Por alguns segundos, as palavras de Lestrade ficaram um tanto distantes em minha mente.
Realmente, como não entrar em pânico com aquilo? Como passaria aquela noite depois de presenciar aquela cena?
— Sinceramente? Pensando por esse lado, é completamente compreensível aquele surto que teve conosco. está terrivelmente abalada, Lestrade. Ela acordou com um cara morto do lado e a polícia chutando a porta. Qualquer um surtaria com isso. — E pensar daquela forma só fazia com que o nó na minha cabeça aumentasse.
— Porra, precisamos logo desses laudos de sangue — Johnathan bufou e eu desviei meu olhar dele mais uma vez enquanto o passeava pelo departamento sem me fixar em nada especificamente.
— Temos alguns dias de espera pela frente. Enquanto isso, precisamos conversar com cada uma das testemunhas isoladamente e… — De repente, uma situação no mínimo curiosa entrou em meu foco e eu franzi o cenho com aquilo.
— Que foi? — Lestrade questionou intrigado.
— E colher os depoimentos. Analisar tudo com muito cuidado e ver o que bate com o depoimento de — completei, sem desviar meu olhar até que fui pego em flagrante, mas não me senti nem um pouco intimidado por aquilo.
— Já volto aqui, Lestrade. Preciso esclarecer uma coisa — murmurei, sem esperar por uma resposta dele.
Levantei do meu lugar então e caminhei rapidamente até o outro lado do departamento, seguindo em direção ao corredor por onde eu tinha visto se esgueirar acompanhada por .
Veja bem, o que me deixou intrigado não foi o fato de ver as duas juntas, porque poderia muito bem ter resolvido amparar a mulher. O que me colocou a pulga atrás da orelha foi notar que o tom de conversa das duas não era o de uma policial ajudando uma possível vítima. Havia uma intimidade entre elas.

“— , eu estava nessa festa ontem à noite. — Suas palavras me pegaram de surpresa e eu arqueei uma sobrancelha.
— Como é? — perguntei, apenas para confirmar que não havia entendido errado.
— Isso mesmo que você ouviu. Eu estava aqui essa noite. Fui embora um tanto cedo, porque uma das minhas amigas passou mal, mas o local estava lotado de universitários…”


Aquela lembrança me fez arregalar os olhos, principalmente quando veio seguida por aquela outra, apenas algumas horas atrás, onde havia afirmado ter conhecido alguém interessante na noite anterior. Para fechar com chave de ouro, pouco antes do interrogatório minha parceira de equipe havia questionado se nós trataríamos como vítima ou suspeita. Isso sem citar que a própria havia mencionado uma garota incrível que conheceu, mas precisou ir embora mais cedo por causa de uma amiga.
No fundo, eu nem precisava reunir todas aquelas informações para enxergar o que estava acontecendo ali. O olhar assustado de ao ser pega em flagrante com já havia sido o suficiente para que eu ligasse os pontos.

Merda, eu precisava falar com .


Capítulo Quatro


Eu estava completamente perdida.
Desde o momento em que ouvi o endereço daquele local de crime, deveria ter previsto a avalanche de emoções que tomaria conta de mim, porém nunca fui de recuar, independente da situação.
Não recuei quando percebi que o meu maior sonho era ser uma agente do FBI. Não recuei quando escolhi seguir para a Scotland Yard, porque sabia que meu irmão precisava de mim. Não recuei ao ouvir a minha vida inteira que meu lugar não era na polícia e sim fazendo algo mais “feminino”, muito menos quando as pessoas também me julgavam por conta da minha sexualidade.
Pelo contrário, cada uma das adversidades sempre me tornou mais forte e foi por isso que, em vez de dizer a que ele deveria chamar outra pessoa para acompanhá-lo, eu segui em frente.
A minha carne tremia quando adentrei aquela cena de crime. Eu reconheci quase todos os cantos daquele lugar e, em meio aos corpos, também percebi alguns rostos que havia visto na noite anterior.
Às vezes ter uma ótima memória não era tão bom assim.
Meu coração parecia que ia saltar pela boca a cada passo que eu dava e a angústia só foi embora quando constatei que ela não estava entre as vítimas.
Era irônico que alguém me afetasse tanto em menos de quarenta e oito horas. Especialmente porque a vida havia me feito levantar inúmeras barreiras ao redor do meu coração, mas, por algum motivo, um simples sorriso daquela mulher havia sido capaz de me derreter inteira.
Tudo bem que eu já a vi em outras festas, mas nunca tinha realmente parado para olhar para ela.
.
Um nome único para alguém ainda mais peculiar.
Uma mulher tão espontânea que talvez a verdadeira pergunta a ser feita era: Como não ficar completamente encantada por ela?
Independente do que eu estivesse sentindo, não importava naquele momento.
teria ido embora antes daquela tragédia toda acontecer?
Eu deveria saber que não, porque a vida sempre se encarregava em preparar algo ainda pior.

Processar as amostras coletadas naquela cena de crime talvez entrasse para a lista das coisas mais difíceis que eu teria que fazer, mas precisava, não é?
No entanto, eu me vi inquieta demais para ir de fato até o laboratório, então preferi permanecer ali na minha mesa, dando continuidade ao laudo de local de crime e aquilo funcionou por hora, já que eu acabei me distraindo ao ficar imersa no trabalho. Cheguei até a perder a noção de quanto tempo fiquei fazendo aquilo, mas, conhecendo bem os agentes e Lestrade, eu sabia que haviam sido algumas horas.
Ergui minha cabeça assim que minha visão periférica captou a silhueta de .
Foi impossível não notar o pavor em suas feições enquanto a mulher saía da sala de interrogatório e, por mais que suas mãos ainda estivessem sujas de sangue, era difícil de acreditar que ela poderia ser culpada por todas aquelas mortes.
Honestamente, uma boa parte de mim até se recusava àquilo e se havia algo do qual eu poderia me orgulhar, era a minha habilidade de ler as pessoas.
Desde o início, até mesmo antes de eu de fato conversar com ela, sempre se mostrou sincera em todas as suas ações. Eu até ouvia as pessoas comentarem sobre ela por conta disso. Então por que mentiria sobre o que aconteceu naquele lugar? Por que cometeria uma atrocidade como aquela pra começo de conversa?
? — Levei alguns segundos para me dar conta de que a mulher me encarava a poucos metros e assim que focalizei meu olhar nela, notei seus olhos ficarem marejados.
Por um instante, eu não soube o que fazer, porque o meu desejo era correr até ela, abraçá-la e deixá-la certa de que tudo acabaria bem no final, mas eu não podia fazer aquilo. Primeiro, porque era a principal suspeita e eu tinha minhas responsabilidades como agente, e segundo, porque aprendi de maneira trágica que não devemos prometer aquilo que não podemos cumprir.
Eu não fazia ideia do que aconteceria, então não tinha como afirmar que as coisas ficariam bem para ela.
Me limitei então a me aproximar da mulher, fazendo sinal para que me acompanhasse até um corredor menos movimentado. Assim que paramos de andar, a analisei com cuidado, tentando decifrá-la da forma mais discreta que conseguia.
— Como foi lá dentro? — perguntei, mesmo que eu fosse acabar sabendo uma hora ou outra. Seria bom ouvir a versão dela.
— Péssimo. — Seus lábios tremeram, desviou o olhar e eu bem que tentei, mas não consegui refrear o impulso de quebrar ainda mais nossa distância, levando uma mão ao seu queixo para fazê-la tornar a me encarar. — Seus colegas acham que sou culpada.
Franzi o cenho.
— Eles te disseram isso? — Pela forma com que meus colegas trabalhavam, eu sabia que não era bem assim, mas necessitava de fato ouvir o que ela estava pensando.
— Não precisaram — suspirou e fungou baixinho, e eu segurei a vontade de imitar o primeiro gesto.
— Olhe para mim, meu bem — me limitei àquele pedido, e em poucos segundos me atendeu, fixando seus belos olhos nos meus.
Tentei não me deixar levar pela onda de arrepios que tomou conta do meu corpo inteiro. Era realmente surreal o quanto eu estava afetada por alguém que mal conhecia, mas não sabia explicar. Parecia que algo nos atraía, uma espécie de força sobrenatural contra a qual eu nem queria lutar.
Era como se diante de mim estivesse o paraíso ou a minha maior ruína.
— Você é culpada? — Não soube de onde consegui aquela firmeza para questioná-la, mas agradeci mentalmente mesmo assim.
Lágrimas escorreram pelas bochechas de , trazendo um incômodo chato ao meu peito, então ela abaixou seu olhar outra vez e negou com a cabeça, aparentemente incapaz de encontrar a própria voz.
Não podia negar que o fato de ela também não conseguir me encarar nos olhos ao responder era, sim, um tanto suspeito, porém eu acabei respirando fundo e mantendo o meu tom firme.
— Então você não tem o que temer — completei por fim.
assentiu enquanto permanecia olhando para o chão, então engoliu a seco, tornou a erguer seu olhar para o meu e abriu um sorriso fraco.
— Obrigada, .
Retribuí instantaneamente, desejando que de fato estivesse apenas eu e ela ali, assim eu poderia abraçá-la como queria.
— Não precisa me agradecer.
Antes que pudesse, então, me dizer qualquer coisa, notei que éramos observadas e assim que meu olhar foi de encontro ao de , eu soube que as coisas estavam prestes a se complicarem ainda mais.

Poucos segundos depois, também olhou na direção dele e eu percebi seu corpo se retesar quando respondeu algo a Lestrade e começou a caminhar em nossa direção.
— Acho melhor eu ir embora, . A… A gente se vê. — Notei sua voz ficar ainda mais trêmula e assenti, desviando minha atenção para encará-la firme.
— Se você precisar conversar, me liga ou manda uma mensagem. — Levei uma mão até meu próprio bolso e tirei de lá um cartão com meus contatos.
Tinha aderido àquilo só para zoar Lestrade, mas acabei achando bem útil com o tempo. Me poupava de ter que ficar ditando o meu número.
— Eu vou ligar mesmo. — Aquilo atraiu meu olhar novamente e abri outro sorriso para . — Até mais.
E se afastou poucos segundos antes de ter seu lugar ocupado por .
— Pelo seu olhar, acredito que eu esteja encrencada, não é? — comentei, cruzando meus braços e desviando meu olhar da direção que havia seguido para o agente .
Uma careta se formou no rosto dele e eu quase ri com aquilo.
— Tá bom, agora eu me senti como se fosse seu pai ou algo do tipo. — O comentário dele me fez negar com a cabeça.
— Você é charmoso demais para ser meu pai, . — Pisquei para ele, notando-o conter um sorriso malicioso.
— Sou, é? — Então diminuiu o tom de voz. — Mas não é sobre isso que eu vim falar contigo.
— Eu sei. Vai me perguntar algo sobre , não é? — suspirei.
— Vocês me pareceram bem próximas, . Por um acaso ela é o alguém interessante com quem você esteve na festa? — Sua pergunta foi certeira, mas eu não estava surpresa por aquilo. era bastante perspicaz.
— Sim. É ela, . Não tenho motivo algum para mentir para você sobre isso.
Foi a vez dele suspirar.
— Sabe o que isso significa, não é?
Engoli a seco. Sim, eu sabia muito bem. Mais uma vez eu estava em um conflito de interesses e me retirar do caso era o correto a se fazer.
… — tentei argumentar ainda assim.
— Veja bem, , não é apenas com a integridade da investigação que estou preocupado. Eu jamais me perdoaria se você saísse machucada dessa história. — Encarei os olhos dele, completamente transparentes naquele momento, e senti vontade de apertá-lo por aquilo.
Não conseguia pensar em uma pessoa mais leal e cuidadosa do que .
— Eu sei disso, . Mas você me conhece muito bem — fui enfática, o que lhe arrancou outro suspiro.
— Sim, eu conheço. Você só não é mais teimosa que seu irmão. — Lançou um olhar rápido na direção da mesa de Trevor, porém ele não estava ali naquele momento porque tinha se fechado no laboratório de audiovisual.
— Então sabe que eu não posso me retirar desse caso. Não me importa o risco de me magoar ou qualquer coisa desse tipo, . Só preciso da verdade e não vou descansar enquanto eu não encontrá-la
— Eu posso te forçar a se retirar, — ele ameaçou e eu pude jurar que seu tom estava cansado.
— Mas não vai fazer isso.
trouxe uma mão até meu braço e o tocou de forma delicada.
— Apenas me prometa que no menor sinal de que isso vai te magoar de verdade, você vai se retirar do caso, . Se achar que não consegue ir em frente…
— Tudo bem. Eu peço pra sair, . — Sorri fraco para ele, então segurei sua mão e a apertei com meus dedos. — Obrigada por isso.
— Me diga o que eu não faço por você, .

🕵🏻‍♀️


— Senhora Harris? — chamei a mulher que me aguardava, mantendo minha expressão o mais neutra possível em uma situação como aquela.
Era o quinto familiar que eu atendia naquele dia, mas não importava quantas vezes eu tinha feito aquilo, nunca ficaria mais fácil.
No olhar da mulher de cabelos negros era possível notar o quanto ela temia o que encontraria naquele necrotério e as feições um tanto duras denunciavam o quanto se continha para não desabar ali mesmo.
Eu não precisava de muito para saber que aquilo estava prestes a mudar.
A senhora não me disse nada, apenas se levantou e assentiu em minha direção.
— Está sozinha? — questionei, desejando internamente que a resposta fosse um não e quando ela repetiu o gesto afirmativo, precisei conter um suspiro melancólico.
Honestamente, eu não desejava aquele tipo de situação nem mesmo para meu pior inimigo.
— Me acompanhe então, por favor — pedi, por fim, indicando com a mão que ela viesse ao meu lado.
Seguimos em silêncio pelo restante do departamento. O necrotério ficava na parte inferior do prédio, então foi preciso descermos uma pequena rampa.
Eu estava prestes a abrir uma das portas para que a senhora Harris passasse, quando o som de destrave foi acionado e John Lestrade passou por ela.
— Tudo bem, ? — questionou, deixando seu olhar ir ao meu encontro e depois seguir para a mulher ao meu lado.
— Sim. Estou apenas levando a senhora Harris para fazer um reconhecimento — expliquei, abrindo um sorriso fraco.
As feições de Lestrade se distorceram em uma careta disfarçada, que eu só percebi porque o conhecia muito bem.
— Quer que eu a leve? Eu só estava subindo para levar uns documentos, mas posso fazer isso depois — seu tom macio me fez agradecer por trabalhar com pessoas como ele.
Johnathan sabia que aquele tipo de atendimento sempre me deixava afetada. Provavelmente não tanto quanto , que ficava estranhamente quieto durante o restante do dia, mas ainda assim eu ficava com aquele nó esquisito no estômago.
— Não precisa, John. Tá tudo bem, obrigada. — Toquei um de seus ombros, apertando de leve para demonstrar que estava sendo sincera, então o homem assentiu.
— Vou acompanhá-las então.
— Lestrade…
— Eu insisto — ele me cortou e eu concordei porque no fundo não estava mesmo querendo fazer aquilo sozinha.
— Tudo bem então — assenti e voltei a caminhar com a senhora Harris em nosso encalço.
Ela não havia dito nada durante todo o trajeto e eu sinceramente não sabia o que era pior.
Talvez se ela gritasse comigo eu me sentiria menos tensa, o que era algo muito louco de se pensar.
Foi Lestrade quem abriu a porta da sala grande, onde havia as macas utilizadas nos procedimentos de necropsia, painéis com algumas ferramentas, as pias e logo adiante as conservadoras, que eram uma espécie de geladeiras onde ficavam os cadáveres.
Eu não gostava da ideia de mostrar um cadáver para a senhora Harris, pensava que para mim seria uma experiência traumatizante identificar meu irmão daquela maneira, mas o que eu poderia fazer além de cumprir o meu trabalho?
— Senhora Harris, este é um procedimento padrão para o caso em questão. Mas saiba que a senhora pode se retirar a qualquer momento. Se não se sentir confortável, iremos proceder apenas com os exames genéticos — alertei a mulher, olhando para ela e estudando suas reações.
Imaginei que a senhora fosse apenas assentir, como havia feito nas outras vezes, mas me surpreendi quando, pela primeira vez, ouvi sua voz.
— É muita gentileza sua oferecer isso, mas quero seguir em frente já que… — Por um instante, sua fala morreu e ela respirou fundo, engolindo em seco. — Já que cheguei até aqui.
Contive um suspiro com aquilo e troquei mais um olhar breve com John, notando um brilho nas pupilas dele que deixavam claro o quanto ele entendia e estava preparado para o que pudesse acontecer.
— Tudo bem então — concordei brevemente, então segui para a conservadora de número doze, onde estava o cadáver que a senhora Harris teria que dizer se parecia com seu filho.
— Deixe que eu faço isso, agente — Lestrade se prontificou e eu me afastei sem fazer objeções.
— Pronta? — questionei a mulher e quando vimos o sinal positivo, meu colega de trabalho abriu a porta, puxando para fora a maca de uma forma lenta para não causar tanto impacto.
Sendo honesta, eu duvidava que houvesse ajudado muito. A senhora Harris não estava acostumada a ver cadáveres, era o que eu imaginava, e sua reação de dor foi tão perceptível que meu peito se apertou no mesmo instante.
O rapaz era talvez uns cinco anos mais novo que eu e meu irmão e, como a mulher, seus cabelos eram negros. A pele estava extremamente pálida, como já esperado, e os lábios estavam opacos.
Eu sabia que o ferimento do rapaz estava na parte de trás da cabeça, então agradeci mentalmente o fato de aquilo não ser tão perceptível naquela posição. Não havia acontecido o mesmo com a família que John havia atendido no dia anterior, por exemplo.
Meus pensamentos foram interrompidos quando escutei um grito desesperado e eu não precisei perguntar mais nada. Soube ali que aquele poderia ser, de fato, Paul, o único filho da senhora Harris.
— Nós sentimos muito — soltei de forma quase automática, me aproximando mais da mulher, mas sem invadir o espaço dela.
— Oh, meu menino… Meu doce menino — sua voz soou desesperada, as lágrimas desceram pelas bochechas dela e uma de suas mãos cobriu os lábios, numa tentativa vã de sufocar o soluço.
Nunca era fácil realizar aquele procedimento, ainda mais quando se tratava de um assassinato brutal como aquele.
Eu não sabia o que dizer. Na verdade, não havia nada bom o suficiente para consolá-la, então apenas permaneci ali, ao lado dela, contendo a vontade de chorar que eu mesma sentia.
Pela expressão de Lestrade, a cena também o afetava, mas ele era muito melhor do que eu em esconder emoções. Eu só sabia porque o conhecia muito bem.
— O que foi que fizeram com você? Quem foi que fez isso com você? — Harris estava inconsolável e por mais que eu quisesse enchê-la com promessas de que íamos pegar o responsável por aquilo, não seria sensato de nossa parte.
Depois de mais alguns minutos ali, onde esperamos que a mulher se despedisse daquele que acreditava ser seu filho, conseguimos convencê-la a nos acompanhar até a pequena sala ao lado.
— Nós encontramos alguns pertences com o seu filho. Após fazer o reconhecimento deles também e realizarmos a coleta de uma amostra sua, podemos liberá-la — Lestrade informou enquanto caminhávamos.
— E quanto ao… Ao corpo? — Sua voz estava fraca.
— A senhora será informada quando a liberação estiver pronta, tudo bem? — respondi, vendo-a assentir.
— Obrigada, querida.
Meu coração doeu de novo com aquilo e eu senti que meu chão desabou mais um pouco quando, mais uma vez, um pensamento cruzou minha mente.
O de que vários fatores apontavam como culpada.
Então eu soube que não conseguiria deixar aquilo como estava.
Precisava encontrá-la novamente e olhar em seus olhos mais uma vez.

🕵🏻‍♀️


— Que merda você está fazendo, ? — Encarei meu reflexo no vidro retrovisor do carro e deixei que um longo suspiro ecoasse de meus lábios.
Eu não fazia ideia de como estava conseguindo dirigir. O nervosismo falava mais alto que qualquer outra emoção naquele momento.
Se soubesse para onde eu ia, com certeza me tiraria do caso sem dar mais nenhuma chance para contestações.
Aquela talvez fosse a coisa mais antiética que eu já havia feito em toda a minha carreira, mas não podia simplesmente deixar para lá. Precisava conversar com , olhar em seus olhos e tentar ouvir dela o que diabos havia acontecido naquela cena de crime.
O conflito interno quase fazia minha cabeça explodir e durante todo o trajeto, eu não tinha certeza se de fato conseguiria ir até o fim.
Quando avistei o restaurante onde havia marcado com , minhas pernas chegaram a tremer e por meio segundo eu quis recuar. Então meus olhos se focaram nela e eu soube que não podia.
Encarei meu reflexo mais uma vez e engoli a seco, tentando me preparar o máximo possível para o que estava por vir, e acabei fazendo uma careta de desgosto.
Minha cara estava péssima. Consequências de uma noite inteira no laboratório porque eu me recusava a ir para casa e relaxar. O máximo que fiz foi tomar um bom banho e me arrumar para o que quer que eu estivesse fazendo.
— Vamos lá, , você sabe muito bem o que isso parece… Um maldito encontro — resmunguei e me senti idiota por estar ali falando sozinha.
Olhei novamente na direção de , e esta acenou para mim.
Ótimo, ela já tinha me visto.
Nada de recuar.
— Você consegue. Ou seu nome não é . — Adquiri uma postura determinada, então peguei minha bolsa e finalmente saí do carro.
Eu havia escolhido uma roupa bem simples. Uma calça jeans, uma blusinha verde escura soltinha e botas de canos baixos e saltos curtos para complementar.
, por outro lado, estava simplesmente perfeita.
O cropped branco deixava à mostra sua barriga e, como se não bastasse aquela parte dela exposta, ela também usava uma saia jeans um tanto acima dos joelhos. Seus pés calçavam um vans preto que lhe dava um ar mais despojado e seus cabelos estavam soltos, do mesmo jeito que havia deixado na fatídica festa.
— É tão bom ver você, — sua voz ecoou aliviada e eu desejei falar com ela da mesma forma, porém a forma como fiquei afetada ao vê-la só me alertou mais.
— É bom te ver também, meu bem — respondi, me aproximando mais dela e me surpreendendo quando a mulher venceu a distância entre nós, tocando minha cintura com uma mão e depositando um beijo singelo em minha bochecha.
Se eu dissesse que o gesto não me deixou totalmente arrepiada, definitivamente estaria mentindo.
— Você quer entrar já? — perguntou, ao se afastar, e a forma como seus olhos me analisaram fez com que mais arrepios percorressem meu corpo.
— Quero. A noite até está agradável, mas eu estou faminta. — Soltei uma risada baixa.
Não era mentira. Fazia talvez umas oito horas desde a minha última refeição. Nada saudável, eu sei, e provavelmente meu irmão me daria uma meia hora de sermões sobre a importância de se alimentar de três em três horas, mas como é que se faz isso com um bolo na garganta?
— Não sei se você já comeu aqui, mas eles têm um burrito sensacional. — Senti sua mão se entrelaçar à minha e, no segundo seguinte, me puxava para dentro do estabelecimento.
— Não, é minha primeira vez — murmurei, dando uma boa olhada em volta do local assim que o adentramos.
Eu não podia negar que tinha um ar bastante aconchegante e o cheiro de comida era bom demais, o que só aumentou a fome que eu sentia.
Nós encontramos uma mesa um tanto mais afastada, em um canto para que pudéssemos ficar à vontade e, ao contrário do que eu esperava, não se sentou de frente para mim e sim ao meu lado, em um banco acolchoado.
O cheiro dela era simplesmente delicioso, adocicado, mas ao mesmo tempo forte, do tipo que dava vontade de afundar o nariz na curva de seu pescoço.
Pelo jeito, eu estava certa. Ir com ela até aquele lugar havia sido um erro terrível. Como eu conseguiria separar o pessoal do profissional se eu estava absurdamente atraída por uma suspeita?
— Como foi o seu dia? — Fui pega de surpresa ao ouvir sua pergunta e até precisei de alguns segundos para processá-la.
— Ah, não foi lá muito fácil. Além da correria, precisei fazer algumas coisas que não sou muito fã — fui sincera.
— Que tipo de coisas? — A pergunta de era óbvia e inocente, e eu me xinguei mentalmente porque não era certo comentar detalhes daquela investigação com ela.
— Ah, nós recebemos algumas famílias que foram reconhecer… Os corpos. — Fiz mais uma careta, então neguei com a cabeça. — Mas é melhor não falarmos sobre isso, não é? Nada legal falar de cadáver na hora do jantar.
soltou uma risada.
— Não se preocupe com isso, . Não tenho nojo, se é o que está pensando. — Deu de ombros, então suspirou. — Mas eu imagino que não tenha sido um trabalho fácil.
— Não. Não é. A todo momento a gente precisa lembrar que não podemos nos deixar levar pela emoção.
Me senti hipócrita dizendo aquilo. A emoção tinha me carregado até aquele encontro.
— Eu admiro muito vocês por isso. Acho que eu não conseguiria não me envolver com essas coisas.
— Obrigada, . Nem sempre a gente consegue, mas é normal, não é? Ninguém consegue manter segredos para sempre.
Juro que o comentário não foi intencional, mas se pensou algo nesse sentido, não demonstrou.
— Com certeza. — Sorriu largamente. — O que você quer comer? — Indicou o cardápio na minha frente e só então eu me dei conta de que não havia sequer tocado nele ainda.
— Ah, sim. Claro — concordei, então tratei logo de analisar o que eles serviam ali.
Meu olhar foi percorrendo cada linha, mas eu simplesmente não conseguia me concentrar. Não quando a todo momento eu me questionava se aquela mulher ao meu lado era mesmo culpada.
Percorri todo o menu pelo menos umas três vezes, então acabei desistindo.
— Sabe de uma coisa? Minha intuição tá dizendo para eu pedir o mesmo que você. Tenho certeza de que vai me surpreender. — Lancei uma piscadela em sua direção.
Ela me encarou por uns dois segundos, então um sorriso torto se formou em seus lábios.
— Tudo bem então. — Se inclinou e pegou o cardápio das minhas mãos.
Eu poderia achar que seus dedos roçaram nos meus por acidente, mas, ao perceber a forma como continuou me olhando, eu tive certeza de que foi intencional.
Contive um suspiro. Ah, como eu queria que ela não fosse a principal suspeita de um assassinato em massa.
— Mas e você, , como foi o seu dia? — Resolvi puxar assunto, observando-a enquanto seus olhos se voltaram para o menu.
— Nada demais. Por conta do que aconteceu, eu ganhei alguns dias de folga no trabalho e na faculdade, então basicamente fiquei em casa assistindo séries. — Deu de ombros, dessa vez sem dirigir o olhar a mim.
— Você não foi atrás de nenhum advogado? — questionei surpresa e uma risadinha irônica ecoou dos lábios dela.
— Eu não tenho como pagar um advogado, . Tenho que me contentar com o que o Estado me forneceu.
Senti mais uma vez aquele aperto no peito.
— Quem sabe eu posso te ajudar com isso. Conheço um que...
— O que você acha da gente não falar sobre isso por hoje? Não me leve a mal, . É que seria incrível passar pelo menos umas duas horas sem ficar pensando naquela tragédia o tempo todo. — E por mais que suas feições parecessem inexpressivas, eu consegui identificar mesmo assim em seu olhar o quanto ela estava abalada.
Pela primeira vez, eu não consegui encontrar a minha voz para respondê-la, então apenas assenti.
logo chamou o garçom para fazer nossos pedidos e um silêncio um tanto desconfortável se instalou entre nós até que ele trouxesse nossas bebidas e se retirasse.
— Que curso você faz? — puxei assunto, após tomar um gole generoso de meu chá gelado.
— Jornalismo. — Ela puxou seu copo para mais perto e também bebericou um pouco.
— Jura? — Bebi mais um gole, só me dando conta do quanto eu estava com sede naquele momento.
— Por que a surpresa? — ergueu uma sobrancelha enquanto colocava seu copo de volta à mesa.
— Ah, não achei você com muita cara de jornalista para falar a verdade — confessei, o que arrancou um sorrisinho esperto dela.
— Sério? E do que é que eu tenho cara então?
— Hm… — Fiz uma pausa enquanto pensava na resposta. — De quem gosta de liberdade. Te imaginei fazendo artes plásticas ou algo do tipo.
— Olha que eu até pensei em fazer algo assim, mas a minha paixão pela escrita sempre foi bem maior. — Deu de ombros.
— Entendo o que você quer dizer. Eu cheguei a pensar em engenharia ou algo desse tipo, mas, no fim das contas, a ciência forense me pegou de jeito. — Uma careta se formou nas feições dela. — O quê?
— Ainda bem que você mudou de ideia. Se você fosse engenheira, eu não ia nem querer chegar perto de você.
Ergui uma sobrancelha.
— Ah, é? E eu posso saber o porquê? — indaguei completamente intrigada.
— Porque eu não consigo confiar em quem gosta de matemática.
O comentário me fez rir.
— Então você vai odiar o meu irmão — acabei soltando sem nem pensar.
— Já está querendo me apresentar para o seu irmão, uh? — Foi a vez de erguer uma sobrancelha.
Tornei a beber o chá gelado só para ganhar um pouco de tempo enquanto sentia minhas bochechas esquentarem.
— Relaxa, . Estou brincando com você. — me lançou uma piscadela. — E, se quer saber, eu já conheci o seu irmão.
Não consegui esconder minha expressão de surpresa.
— Conheceu?
— Ele não é o nerd da computação lá no seu departamento?
— O próprio. — Continuei intrigada. — Como sabe disso?
— Bom, para começar, vocês dois são super parecidos, e depois eu vi quando o agente fortão chamou por e vocês responderam ao mesmo tempo.
Eu teria rido por ela ter se referido a John como “agente fortão”, mas não deixei de pensar que a percepção de não estava tão afetada quanto eu imaginava.
Uma pessoa psicologicamente abalada consegue mesmo se dar conta de detalhes como aquele ao seu redor?
Talvez fosse paranoia minha, eu realmente não tinha muito conhecimento sobre psicologia para falar qualquer coisa.
? — Sacudi a cabeça ao perceber que havia me perdido em pensamentos a ponto de precisar me chamar.
— Desculpa. Acabei me distraindo. — Sorri. — Você é mais perspicaz do que eu imaginei, — externei meus pensamentos, notando o exato momento em que o olhar dela adquiriu um brilho curioso.
— É isso que me fará uma boa jornalista investigativa. Ou pelo menos foi isso que um dos meus professores disse esses tempos — finalizou com uma careta divertida.
— Você quer ser jornalista investigativa, é? — questionei, tentando não soar tão interessada e falhando de maneira miserável.
— Eu sempre gostei de um bom mistério, então essa é uma boa opção até eu vender algum best-seller.
— Quantos outros talentos seus eu ainda vou descobrir, ? — Abri um sorriso para ela, vendo que me retribuiu de forma tendenciosa.
— Quantos você desejar, . — Ela umedeceu a boca e piscou para mim mais uma vez.
Por alguns segundos, eu acabei me perdendo no desenho dos lábios dela e me peguei tendo uma vaga lembrança do quanto o toque era macio contra os meus.
Desejei poder senti-los novamente.
E pela forma como o olhar de se fixou no meu e depois desceu até minha boca, eu tive certeza de que ela queria o mesmo.
Por que eu precisava me refrear mesmo?
Todos os motivos se esvaíram da minha mente quando senti uma mão dela se entrelaçar à minha, enquanto a outra foi até a ponta do meu queixo. Seus dedos fizeram um carinho gostoso em minha pele e aproximou seu rosto do meu, roçando nossos narizes em uma provocação muda.
Em resposta, eu apertei meus dedos contra os seus e agarrei sua cintura com a mão livre.
Nossos olhares ficaram conectados e nada ao nosso redor importava mais. Da forma mais clichê possível, era como se de repente tudo à nossa volta tivesse desaparecido e o que importava estava bem diante de meus olhos.
Em uma fração de segundos, nossos lábios se tocaram e sem hesitação o beijo foi aprofundado.
Eu não fazia ideia de quem havia tomado a iniciativa, mas aquilo também não tinha nenhuma importância.
O gosto do beijo de era doce e ficou ainda mais evidente por causa da bebida que ela havia escolhido. A constatação só me fez intensificar ainda mais a forma como eu enroscava minha língua na dela, puxando seu corpo para mais perto do meu, sentindo o calor emanar do corpo dela de um jeito gostoso e deixando um gemido baixinho ecoar abafado por nossas bocas.
Céus, ela era deliciosa e eu poderia passar o resto da noite beijando aquela mulher, provando cada centímetro do corpo dela.
desceu a mão até meu ombro, o apertando e deslizando suas unhas pelo meu braço em um carinho capaz de espalhar vários arrepios pelo meu corpo. Em resposta, eu suguei seu lábio com mais vontade, ofegando e sentindo-a sorrir.
Foi quando eu senti sua mão roçar meu seio que o alerta piscou em minha cabeça.
Que merda eu estava fazendo? Me agarrando com a principal suspeita do caso que estava investigando daquele jeito?
Eu só podia estar ficando louca.
E só me dei conta de que havia parado de corresponder ao beijo quando afastou seu rosto do meu e me encarou preocupada.
, tá tudo bem?
Foquei meu olhar no rosto dela sem conseguir de fato vê-la e até pisquei meus olhos lentamente.
Mas onde é que eu estava com a cabeça para fazer um negócio daqueles? Se ficasse sabendo, não havia nada que eu pudesse dizer para convencê-lo a não me tirar da investigação e talvez ele estivesse certo. Eu estava envolvida demais para um julgamento mais claro.
?
Sacudi a cabeça e apertei meus dedos contra os seus, mordendo minha boca e percebendo que meus lábios estavam um tantinho inchados devido ao beijo.
… Me perdoe, eu… — minha fala morreu porque de repente era difícil demais dispensar aquela mulher.
Como aquilo era possível?
No entanto, não foi necessário, porque se seu olhar não deixasse bem claro que havia compreendido tudo, suas palavras deixariam.
— Tudo bem. Você não pode se envolver comigo, não é isso?
— Você é uma mulher incrível, , e não faz ideia do quanto me deixa afetada, mas…
— Eu também sou suspeita de assassinato. Não se preocupe, eu entendi. — Ela soltou sua mão da minha e qualquer contato que tivéssemos foi rompido, o que, confesso, me incomodou bastante.
— Sinto muito.
— É… Eu também sinto. — Seu olhar se desviou do meu e eu acabei deixando um longo suspiro ecoar de meus lábios.
Outra vez houve um silêncio desconfortável entre nós e eu odiei aquilo, principalmente porque uma certa pergunta tornou a povoar meus pensamentos.
Antes que eu pudesse fazê-la, mais uma vez se pronunciou antes.
— Em quem você acredita?
Franzi o cenho com aquele questionamento.
— O que quer dizer?
— Em quem você acredita, ? Em mim ou nos seus colegas de trabalho? — Seu tom de voz ficou duro e foi impossível não me sentir incomodada e até mesmo desconfiada com aquilo.
Minha expressão também se fechou quando eu a respondi.
— Eu acredito no que as evidências me mostrarem, .
Os olhos de queimaram em minha direção, mas, diferente de momentos antes, quando exalavam desejo genuíno, naquele momento eles transbordavam raiva.
— Então por que você está aqui?
— Porque queria ouvir a sua versão dos fatos, o que claramente foi um erro.
— Claramente.
Odiei ver aquela mudança brusca no humor dela, mas, mais do que isso, senti um arrepio com aquilo, uma sensação conhecida me alertando da necessidade de sair dali naquele momento.
E, sem dizer nada, sem fazer questão alguma de me despedir, eu me levantei e obedeci aos meus instintos.

🕵🏻‍♀️


Os dias foram passando e tudo o que eu mais queria era concluir de uma vez aquelas análises. Preferi não dizer nada a ou a qualquer um de meus colegas sobre o encontro que tive com porque depois daquilo não havia mais nada capaz de atrapalhar o meu julgamento.
Ou ao menos era isso que eu pensava.
Todas as ações dela desde o momento em que havíamos nos encontrado no Departamento de Homicídios eram, no mínimo, questionáveis e, embora eu não pudesse tirar nenhuma conclusão baseada apenas em interpretações minhas de seu comportamento, aqueles eram sinais suficientes para que eu enxergasse a razão e focasse em meu trabalho.
Como eu mesma havia dito a : as evidências diriam a verdade, e era nisso que eu estava me firmando.
Foram coletadas amostras de sangue e impressões digitais na possível arma do crime. Na cena, havia bastante fios de cabelo e outros fluidos, mas precisávamos de muita cautela, já que ocorreu uma festa no local e isso significava também uma festa de DNA.
Aqueles sempre eram os casos mais difíceis de processar, mas, sendo honesta, eu adorava um bom desafio. Tornava tudo ainda mais interessante e pensar que algo naquela história toda ainda era capaz de me deixar empolgada trouxe até um pouco de alívio.
Nos dias seguintes, fizemos todos os procedimentos necessários para as identificações das vítimas e utilizamos os resultados para as comparações com alguns vestígios encontrados, obtendo alguns sucessos em meio aos vários fracassos, algo que já era esperado.
e Lestrade se dedicaram aos interrogatórios e conversaram com todas as pessoas que estiveram naquela festa, além de alguns amigos e parentes próximos. Era um trabalho cansativo e muito minucioso, que exigia cada gota de esforço de cada um de nós.
Trevor, meu irmão gêmeo, ficou com a parte das análises nos aparelhos celulares, o que também lhe requeria muito, já que precisava ler conversas, interceptar chamadas e procurar qualquer conteúdo compartilhado em redes sociais.
A cada resultado promissor que meus colegas obtinham, eu sentia algo em meu estômago se afundando.
Para começar, várias pessoas haviam visto naquela festa. Ela era conhecida no campus, mesmo que não fosse a pessoa mais popular de todas, e vários relatos demonstraram surpresa porque a mulher não estava acompanhada de seus fiéis amigos, como era usual em qualquer evento onde marcava sua presença.
Os depoimentos de Giovanna, Charles e Andrey deixaram claro que desde o momento em que enviou uma mensagem informando estar saindo de casa, não tiveram mais nenhum tipo de comunicação com ela, nem mesmo quando foi liberada do interrogatório.
Na verdade, o primeiro contato de com Giovanna havia sido por volta de cinco dias depois.
Não bastasse isso, a jovem foi vista por algumas pessoas enquanto ia até o quarto onde foi encontrada, acompanhada pelo homem que havia morrido ao seu lado.
O único cadáver não reconhecido por familiares.
Se ninguém aparecesse, ele seria enterrado como indigente e eu sinceramente não sabia o que era pior.
— Segundo o que constatamos, os crimes ocorreram no final da festa, quando apenas as vítimas estavam presentes no local. Ninguém avistou nenhuma atividade suspeita, embora tenhamos que levar em consideração que a maioria das pessoas estava alterada pela ingestão de álcool e outras drogas. — A voz de Lestrade se fez ouvir e eu encarei meu colega de trabalho.
Nossa equipe havia se reunido na sala de reuniões para repassarmos as últimas informações obtidas, e assim que o equipamento terminasse de processar minhas amostras, eu teria uma resposta quanto a quem pertencia o material genético encontrado na arma do crime e nas mãos de .
— Algum sucesso na identificação da última vítima? — questionou, mesmo já sabendo qual seria a resposta.
— Nada. Tentei comparar com o que temos no CODIS. Vamos torcer para que apareça algum resultado satisfatório. — E aquilo funcionava para mim mesma. Eu realmente estava agoniada com aquilo.
Talvez a vítima fosse alguém importante para , afinal, ela havia passado a noite com ele, certo?
Tentei me lembrar se havia o visto durante a festa, mas, sendo honesta, eu realmente não tinha prestado atenção em muita coisa desde que meus olhos bateram em .
Levei um susto quando o timer em meu celular apitou e de repente eu senti um nó na garganta trazer toda a ansiedade que achava ter ido embora enquanto estava concentrada no trabalho.
— Chegou a hora. Ficaram prontas as análises de DNA.
ergueu seu olhar até mim e, pela forma como me encarou, eu soube que não conseguiria esconder nada dele. Quando queria, conseguia me ler como ninguém.
— Eu vou com você.
Pelo seu tom de voz, eu soube que não poderia recusar, então apenas assenti e o deixei me acompanhar até o laboratório.
Minhas mãos tremiam quando segurei o mouse do computador e o apontei para clicar na mensagem dizendo que meu procedimento estava concluído.
Prendi a respiração conforme os gráficos foram aparecendo diante de meus olhos e quando eu estava prestes a fechá-los, me sentindo incapaz de interpretar qualquer resultado, senti a mão de em meu ombro, apertando-o de leve e me passando toda a segurança que eu precisava.
— Vamos lá. Você é e consegue fazer qualquer coisa. Até mesmo aturar o mau humor do seu irmão.
Aquele comentário me fez rir baixinho e eu neguei com a cabeça.
— Só você mesmo, .
— Te fiz rir, então já está valendo. — Piscou pra mim. — Agora vamos ver esses resultados.
E no momento em que eu tornei a encarar a tela do computador, senti de verdade o quanto havia errado em achar que aqueles resultados me trariam paz de espírito.
Todos os dados indicavam que a culpada por aquele assassinato em massa era .


Capítulo Cinco


Tentei me manter impassível, sabendo o que estava prestes a acontecer dali a alguns minutos. Com a confirmação do DNA de na arma do crime, foi decretada a sua prisão preventiva e ela permaneceria detida até seu julgamento, caso o advogado não entrasse com algum pedido de liberdade provisória.
Não sabia dizer o que mais estava me incomodando. Se era o fato de que, por mais suspeitas que as atitudes de fossem, algo não me parecia certo, ou se era a forma como estava lidando com as coisas.
Eu a conhecia o suficiente para saber que procurava sempre agir com a razão, independente da situação, reprimindo qualquer emoção que sentisse. Mas era exatamente por conhecê-la que eu sabia também que isso era tudo uma grande mentira. tentava esconder, mas, no fim das contas, suas emoções acabavam vindo à tona. Isso aconteceu no dia em que a vi conversando com .
A uma certa altura, houve mais algo. Uma virada de chave que trouxe para uma determinação maior em descobrir o resultado dos laudos. Como se ali existisse um ponto decisivo para ela, o que só comprovou o lance de deixar as emoções ditarem as coisas.
Eu não a julgava. Nosso trabalho exigia racionalidade, mas, no fim das contas, éramos humanos. Nem sempre conseguimos nos blindar de tudo.
Desde o momento que os números indicaram que havia grandes chances de ser a culpada, adotou uma postura inexpressiva. Qualquer informação sobre o caso era recebida com uma certa frieza, porém os olhos dela diziam outra coisa.
Diziam que ela estava machucada. negou em todas as vezes que tentei conversar, mas estava.
Lestrade e eu ficamos responsáveis pela prisão de . E no momento em que meu parceiro me perguntou se eu estava pronto, assenti mesmo que, na verdade, me sentisse o completo oposto.
teve uma reação completamente diferente da que nós esperávamos.
Por conta do surto que ela teve durante o interrogatório, assumimos que gritaria, se debateria e protestaria a plenos pulmões, tentando nos convencer de sua inocência.
No entanto, quando abriu a porta de seu apartamento e ouviu Lestrade dizer que a levaríamos para a prisão, a mulher simplesmente assentiu, mordendo a boca e desviando o olhar para os próprios pés. Suas mãos se estenderam voluntariamente para receber as algemas e durante todo o trajeto não ouvimos uma palavra sequer dos lábios dela.
Será que estaria em choque mais uma vez? Ou todos aqueles surtos na verdade faziam parte de uma atuação?
— Que loucura. Eu tava preparado para levar uns pontapés, juro pra você — deixei escapar, assim que eu e Lestrade saímos da área das celas.
— Isso é muito esquisito, . Ela é muito esquisita. — Meu parceiro me encarou, fazendo uma careta.
Eu não podia discordar dele, na verdade. Todos os comportamentos de eram confusos demais.
— Esse caso todo é. Eu ainda tô tentando entender o porquê de ela usar uma adaga em apenas algumas vítimas. — Pensei um pouco alto, ouvindo meu parceiro suspirar.
, eu acho que foi um truque para nos enganar. Assim como todo o teatrinho no dia do interrogatório. — A voz de Lestrade estava cansada e eu com certeza não estava muito longe. Os últimos dias foram totalmente intensos.
Pelo menos até o julgamento teríamos um pouco de folga. Ainda precisávamos nos preparar para dar suporte à acusação, mas ainda assim tudo seria menos turbulento, ou ao menos era o que eu desejava.
— Depois desses laudos da , não dá nem pra discordar de que era um teatro mesmo. — Me dei por vencido e logo estávamos de volta às nossas mesas.
Os irmãos imediatamente nos olharam e a expressão de Trevor era mais ansiosa que a de , embora ela não desgrudasse os olhos de nós até que alguém se pronunciasse.
— Está feito. Ela não resistiu à prisão, o que foi bem estranho. — Foi Lestrade quem disse.
— Estranho ou não, pelo menos conseguimos resolver esse caso. — Trevor estava satisfeito. — Vamos comemorar?
Acabei olhando mais uma vez para , captando o exato momento em que sua expressão vacilou, porém logo em seguida ela voltou à postura inabalável.
— Pior que eu poderia mesmo tomar umas cervejas — Johnathan aprovou e se voltou para mim. — ?
— Lógico que eu to dentro. — Eu nunca recusava aquele tipo de coisa.
— Ótimo. Então vamos ao Dart’Agnan. — Era até engraçado ver Trevor combinando de ir a algum lugar porque normalmente ele odiava interações em lugares públicos, porém, pela forma como olhava para a irmã de vez em quando, entendi que na verdade ele estava tentando distraí-la.
— Na verdade, eu vou dispensar a saída hoje, rapazes. Vão vocês e se divirtam por mim. Estou exausta — finalmente disse alguma coisa e precisei reprimir uma careta com aquilo.
Notei que Lestrade e Trevor se entreolharam e, antes que qualquer um dos dois respondesse, uma ideia me ocorreu.
— Ou nós podemos todos ir lá pra sua casa e pedir pizza. — Ela abriu a boca para protestar, mas a interrompi para completar. — Por minha conta.
fez uma careta.
— Nem pense em recusar. Comida de graça não se recusa, maninha — Trevor interveio e ela suspirou, vencida.
— Tá bom. Mas você vai limpar a bagunça que esses dois fizerem. — Apontou na direção onde eu e Lestrade estávamos.
— Até ia protestar, mas sei que você tem fotos da última vez. — A encarei com uma expressão travessa e acabei me sentindo aliviado quando riu. Ainda não era do jeito de sempre, havia algo um tanto mecânico ali, mas já era um começo.
— Não faça eu me arrepender de ter aceitado, . — Ela estreitou os olhos para mim.
— Não vai. Deixo até você escolher o sabor da pizza. — Pisquei.
— Achei que isso já estava decidido.
— E estava mesmo. — Sorri e a vi retribuir de soslaio.
Assim que encerramos o expediente, os foram em um carro e acabei indo com Lestrade em outro porque naquele dia eu estava sem o meu.
Sabia que uma noite da pizza não consertaria as coisas para , mas ao menos aliviaria um pouco o peso dos últimos dias. E se eu fosse receber mais risadas e sorrisos dela, faria aquilo mais vezes.


— É sério. O que você tanto faz nesse celular, Trevor? Larga isso e presta atenção aqui, palhaço! — Meio segundo depois, Lestrade atirou uma almofada na direção dele.
Eu tinha certeza de que ia acertá-lo em cheio no rosto, porém os reflexos do estavam em dia, porque ele simplesmente desviou sem qualquer dificuldade.
Troquei um olhar com Lestrade, realmente surpreso com aquilo e riu de nós dois.
— Com certeza tá jogando alguma coisa. Nunca vi alguém tão viciado em jogos. — Ela revirou os olhos e deu de ombros. Johnathan bufou, fazendo a maior cara de tédio.
— Nerd — resmungou, terminando mais uma garrafa de cerveja e se levantando para pegar outra. — ? — Olhou para mim, já imaginando que eu ia pedir outra para mim também.
— Valeu, sugar daddy. — Ele revirou os olhos ao ouvir aquilo.
— Já cansei de dizer pra não me chamar assim.
— Não sei nem por que você ainda tenta. — Acabei rindo, erguendo uma sobrancelha em malícia para quando notei que me encarava segurando o riso.
— Eu devia cuspir na sua cerveja, . — Ele tentou um tom de ameaça, mas falhou miseravelmente, porque também controlava a vontade de rir.
Lhe lancei um olhar significativo e sorri de canto.
— Você pode cuspir onde você quiser, na verdade. — E aquela foi a deixa para todos caírem na risada.
— Me pergunto o que você vai fazer se um dia o Lestrade ceder às suas investidas, . — A voz de atraiu minha atenção para ela.
— É sério essa pergunta? Se ele ceder, eu vou aproveitar, ué. E o mesmo vale pra você. — Pisquei.
Mais uma vez, riu.
— Você realmente não vale nada, . — Ela negou com a cabeça, bebendo um pouco de seu copo de martini.
Nunca vi alguém gostar tanto daquilo quanto .
Trevor continuava meio calado e totalmente focado em seu celular, o que atraiu minha atenção. Aceitei a cerveja que Lestrade trouxe para mim e estreitei meus olhos na direção de , percebendo que ele continha um sorriso enquanto seu rosto ficava um tanto vermelho.
Não foi muito difícil ligar os pontos sobre o que o prendia tanto naquele aparelho.
Bebi um gole da cerveja e desviei meu olhar para e Johnathan, entretidos em alguma conversa aleatória.
— Sinto te informar, mas seu irmãozinho não está jogando, não, — interrompi o papo deles, os encarando sugestivo.
ergueu uma sobrancelha, desviando seu olhar para Trevor, que finalmente voltou sua atenção para a nossa conversa.
— Ah, não? Essa é nova. — Ela continuava encarando o irmão.
— Não. Eu tenho certeza de que ele tá é conversando com alguém. E provavelmente é safadeza. Olha como ficou vermelho. — Indiquei com um aceno de cabeça e John soltou uma risada.
Trevor, por outro lado, bufou e revirou os olhos.
— Cala a boca, . Não é nada disso — resmungou, mas o seu tom de voz não convencia absolutamente ninguém.
— Me deixa ver o seu celular então, maninho? — se levantou e foi até a poltrona onde Trevor estava, estendendo a mão para pegar o aparelho.
Prontamente, ele o puxou, desviando da mão dela.
— Isso é sério, ? Dá um tempo! Eu não fico tentando ver o que você fala com o . — Continuou tentando se esquivar da irmã, que riu, negando com a cabeça e desistindo de pegar o celular. Ela claramente só tinha feito aquilo para comprovar o que estava na cara. Trevor realmente andava conversando com alguém.
— Nós dois podíamos estar conversando também, mas você nunca me responde, Trev. — Fiz um bico, fingindo estar verdadeiramente chateado com ele.
Mais uma vez, Trevor revirou os olhos.
— Você é péssimo, . Já te disseram isso, né?
— Sabe o que eu queria que me dissessem? Com quem você tá conversando. — O encarei com malícia. — Conta aí. É alguém que nós conhecemos?
— É, conta aí, — John incentivou, sem sair da posição completamente relaxada no sofá.
— Essa pizza já demorou demais, não acham? Acho uma boa ligar pra lá e perguntar se tá vindo — Trevor mudou de assunto, o que me fez estreitar os olhos.
Boa tentativa, . Boa tentativa.
— Certeza que já tá chegando. Mas não pense que vai escapar. Desembucha logo! — insisti, doido para saber logo daquela fofoca.
Trevor então me encarou bem sério.
— É a sua irmã.
Meu sorriso imediatamente se desfez, então estreitei meus olhos para ele.
Minha irmã nem morava em Londres, ela havia ficado em Bristol, mas vai saber.
— O quê? — Senti os olhares de Johnathan e em mim.
— Eu tô falando com a sua irmã, . Satisfeito? — Ele continuava sério e procurei por qualquer sinal de que aquilo era brincadeira.
Precisei de uns segundos para processar aquilo, afinal, qual era o problema? Trevor não era um cara escroto como os últimos namorados de Juniper haviam sido, mas…
— Pelo amor de Deus, , ele tá zoando da sua cara! — me chamou de volta à realidade e quando tornei a olhar para Trevor, ele não se aguentou e caiu na gargalhada.
Lestrade e o acompanharam.
Abri a boca, incrédulo, então neguei com a cabeça e acabei rindo junto.
— E depois eu que sou péssimo — resmunguei, me sentindo idiota por ter caído naquela.
O problema era que falar de Juniper sempre me deixava meio fora dos eixos. Eu sentia uma falta desgraçada da minha irmã e desejava todos os dias que ela tivesse aceitado o meu convite de vir comigo para Londres.
— Você tinha que ter visto a sua cara. Por um momento, achei que ia bater no Trevor — John comentou risonho, bebendo mais uns goles de sua cerveja.
— Eu não faria isso, não. — Soltei mais uma risada.
— Não sei, não, . Parecia que ia mesmo — concordou com Lestrade, então ergueu seu olhar na direção do interfone quando o ouviu tocar.
— Finalmente essa pizza chegou. — Trevor se levantou, aliviado, e ele mesmo foi atender.
— Ele tá desesperado de fome, pelo jeito. Nunca atende o interfone. — O comentário de fez eu e John rirmos mais uma vez.
Minutos depois, estávamos ocupados demais devorando nossas fatias de pizza para mantermos qualquer conversa.
De vez em quando, meu olhar se fixava em e, com o máximo de discrição possível, eu a analisava, procurando qualquer sinal que me mostrasse como ela estava. Sabia que se perguntasse, a resposta seria que tudo estava bem, porém claramente não era verdade.
Vez ou outra, o olhar de se perdia em algum ponto e seus lábios tremiam ligeiramente. Então ela respirava fundo e tomava mais um pouco de seu martini, como se daquela forma engolisse qualquer emoção que estava prestes a aflorar.
Quando se levantou para pegar mais bebida na cozinha, aproveitei a deixa para acompanhá-la, alegando que queria outra cerveja.
Assim que adentrei o cômodo, me olhou de soslaio e eu me aproximei, parando ao seu lado.
? — ela questionou, sem entender, e foi aí que eu percebi que ainda não havia falado nada.
Suspirei.
, seja sincera comigo. Eu sei que nada está bem. — Foquei meus olhos nos seus.
Ela vacilou e desviou, mirando os pés. Então respirou fundo e tornou a me encarar.
— Não está. Mas eu não quero falar sobre isso, . Por favor. — Suas feições se contorceram em uma careta que acabei imitando.
— Desculpe. Eu tô preocupado contigo e quero que saiba que não tá sozinha nessa, . Sempre estarei aqui — frisei, sem me preocupar com a intensidade do meu olhar sobre ela. Mais uma vez, eu estava completamente preso nos olhos de . Não sabia o que havia neles, mas nem me importava também.
Um meio sorriso se formou nos lábios dela.
— Obrigada, . Isso significa muito pra mim, você não faz ideia do quanto. Hoje eu só quero aproveitar alguns minutos de paz com meus amigos. Os problemas ainda estarão lá de manhã. — Deu de ombros e ela tinha toda a razão.
— Tudo bem então. Não tá mais aqui quem falou de problemas! Me diz que você tem vodca aí. Acabei de ter uma ideia.
— Ainda bem que amanhã ninguém tá escalado pra trabalhar. Pelo jeito você e o Lestrade vão dormir por aqui. — Ela negou com a cabeça, enquanto abria o armário e tirava de lá a garrafa de vodca.
— Isso foi um convite? — Ergui uma sobrancelha para ela, que me analisou de cima a baixo e sorriu.
— E se foi?
Sério, precisava parar com aquilo. Nós vivíamos nos provocando de brincadeira, mas de uns tempos pra cá eu sentia que nas minhas poderia haver um fundo de verdade.
O que era realmente péssimo, já que ela claramente estava envolvida com .
— Se foi, vai ser bem difícil escolher entre fazer conchinha com você ou com o Lestrade — brinquei, arrancando uma gargalhada dela.
Fiquei feliz com aquilo. Era bom ouvir rir, principalmente depois de todos aqueles dias sem expressar emoções.
— Ih, descartou o meu irmão, foi? — Foi a vez dela arquear a sobrancelha.
— Sabe como é. Enquanto ele não me levar pra jantar, nada feito. — Pisquei para , que riu mais ainda.
— Você é muito besta, . É por isso que eu te adoro. — Ela deu um tapa leve em meu ombro, deixando sua mão ali e me encarando nos olhos.
— Também te adoro, . — Sorri, segurando na mão dela e entrelaçando nossos dedos. — Só quero te ver bem.
— Obrigada. Mesmo. — Retribuiu meu sorriso, então me puxou de volta para a sala. — Agora vem. Tô curiosa pra saber o que você vai aprontar com essa vodca.
— Bem que poderiam ser uns body shots, mas, como conheço bem o seu irmão, vamos só jogar sueca. O que acham? — sugeri, então olhei para Lestrade, assim que paramos perto dos sofás.
— Eu não bebo mesmo. Façam o que quiserem — Trevor se meteu, dando de ombros.
— Droga. Se foi a minha ideia de te embebedar. — Fingi estar desapontado, fazendo-o revirar os olhos pela milésima vez.
— Quer saber? Eu vou participar só para embebedar você, .
— Opa! É assim mesmo que eu gosto. — Aprovei de imediato e ouvi os outros dois rirem.
Jogar sueca poderia até soar como algo meio besta, mas era bom ter a chance de fazer algo bobo em meio a tantos problemas.


🕵🏼


Conforme os dias foram passando, o julgamento de se aproximava e com ele a tensão aumentava. havia amenizado um pouco a postura inexpressiva e agia cada vez mais como a que nós conhecíamos, porém a qualquer menção do nome de , ela se retirava ou desviava o assunto.
Aquilo tudo era meio louco, mas eu não a julgava, porque realmente havia acreditado em .
Honestamente, eu mesmo, de certa forma, também acreditei. Mesmo com vários sinais da culpa da mulher, algo me dizia que havia verdade em suas palavras, eu só precisava analisá-las corretamente para entender.
No entanto, no fim das contas, tudo não passava de atuação de .
Será que ela havia se divertido com aquilo? Com a ideia de ter enganado não apenas um, mas dois agentes da Scotland Yard?
Em uma forma de, por fim, colocar um ponto final nessa história toda, resolvi ter uma última conversa com antes do julgamento. Eu queria uma confissão dela. Queria que admitisse o que havia feito.
Tentei convencer a fazer o mesmo, quem sabe ela também precisasse daquilo, porém, como eu esperava, recusou meu convite. Mais do que isso, ela deixou claro que só compareceria ao julgamento porque sua presença era essencial. Do contrário, queria o máximo de distância possível de .
Me senti culpado por aquilo. Eu deveria ter afastado do caso quando percebi o envolvimento entre as duas, mas havia me deixado levar pelo olhar suplicante dela. Era realmente difícil negar qualquer coisa a quando me encarava daquela forma.
Suspirei enquanto adentrava a sala de interrogatório, onde já estava, com as mãos algemadas sobre a mesa e correntes em seus pés.
Exatamente como na outra vez em que eu e Lestrade a interrogamos, o olhar da mulher estava perdido em um ponto qualquer. Ela parecia imersa em seus próprios pensamentos e sequer se mexeu quando me sentei à sua frente.
— Olá, . — Tentei olhá-la da forma mais gentil possível.
Por alguns segundos, não recebi resposta alguma dela. nem mesmo olhou na minha direção e contive um suspiro.
No entanto, quando estava prestes a iniciar uma conversa mesmo assim, ela se pronunciou.
— Quero falar com a . — Foi direta, com um tom de voz extremamente rouco, provavelmente porque a mulher não falava com ninguém fazia um tempo.
Precisei lutar bastante para não formar uma careta. Naquele momento, o profissionalismo deveria falar mais alto da minha parte e eu não me deixaria enganar como na outra vez. já não era mais uma vítima ou possível suspeita, ela era culpada.
— A agente não está disponível no momento, . Mas…
— Não quero falar com você, agente . Quero falar com ela. Apenas com ela — a mulher me interrompeu, finalmente se virando para me encarar.
Seus olhos ficaram marejados, me levando a entender que evitava o contato visual para não desabar.
A encarei por uns dois segundos, fixando meu olhar no seu e procurando ali qualquer sinal de que conseguiria sua confissão.
— Olha, eu vou ver o que posso fazer quanto a isso, tudo bem? Mas você querendo ou não, nós dois precisamos conversar. — Coloquei mais firmeza em minhas palavras. Eu tentava ser gentil, mas não aceitaria grosseria de volta.
estreitou seus olhos para mim, como se daquela forma pudesse me fuzilar e não desviei meu olhar até ela bufar alto.
— Tá. Que seja. — Deu de ombros.
, como o seu pedido de liberdade provisória foi negado, você já deve ter uma ideia de que as coisas não estão boas para o seu lado — comecei, fazendo uma pausa para analisar suas feições.
— Isso é uma pergunta? — Ela claramente estava irritada com tudo aquilo e eu começava a me sentir da mesma forma.
Quanto antes ela confessasse, melhor seria.
— Não. Estou só te colocando a par da situação — suspirei. — Dentro de alguns dias, você será julgada e com o tanto de evidências contra, acho que já sabe o resultado que te espera.
Percebi que fechou as mãos em punho e seus lábios tremeram ligeiramente.
— Eu não sou uma assassina, agente . Eu não fiz nada daquilo. Quantas vezes preciso repetir? — De repente, ela explodiu, deixando as lágrimas escorrerem por suas bochechas.
Não posso dizer que não me assustei com a intensidade daquela reação. E o fato de ela continuar negando me fez erguer uma sobrancelha.
— Você entende que seu DNA estava na arma do crime? Nas armas, na verdade. Porque você usou dois tipos, não foi? — revelei aquele fato, tomando cuidado apenas para não dizer tudo que havíamos conseguido contra ela.
— O quê? — me olhou atordoada.
— Você usou dois tipos de arma. Por que não começa me falando sobre isso? Por que cortar a garganta de algumas vítimas e esmagar o crânio de outras? — Aproveitei aquela brecha para questioná-la.
Ela continuou me olhando, seu queixo tremia devido ao choro e as lágrimas continuavam a escorrer, pingando na mesa. No entanto, não parecia mais que estava ali, parecia que minhas palavras haviam a transportado para outro lugar.
— Foi por conta do gênero? Homens mereciam uma punição mais bruta? Nesse caso, o que o seu companheiro de quarto tinha de especial? — Prossegui, atento a cada uma de suas reações.
Então soltou um urro desesperado.
— Eu não fiz isso! Eu não fiz! Pare. Eu não fiz isso! — Ela começou a se debater, então usou as duas mãos para socar a mesa com brutalidade. As algemas a impediam de bater em qualquer outro lugar e a cortavam em meio ao ato.
Automaticamente, me levantei, arregalando os olhos, sem realmente esperar uma reação como aquela.
! — chamei, tentando me aproximar para contê-la.
— Não fiz! Eu não fiz nada! Está me ouvindo? Por que você não me ouve? — Consegui, por fim, segurar em seus braços e fazer com que parasse de se debater.
Eu corria o risco de levar uma cabeçada dela ou algo do tipo, mas não me importei com aquilo.
— Ei, eu estou te ouvindo agora. O que você tem pra me dizer? — chamei a atenção dela, olhando-a com atenção.
me encarou de volta e o desespero estava nítido ali.
— Eu não sei como vou provar isso. Mas não fui eu. Como pode ter sido eu? Eu nunca fiz mal a ninguém. — Quando tornou a falar, a voz de era fraca.
Suspirei.
— Você já parou para pensar que pode ter feito, mas não se lembra? — Eu não devia discutir aquele tipo de coisa com ela, mas simplesmente não consegui me conter.
— Não pode ser. Eu nunca matei ninguém, agente. Nunca nem me envolvi com brigas.
— Eu sinto muito, . Infelizmente, todas as evidências estão contra você. E uma confissão pode ao menos reduzir um pouco da sua pena. — Retomei ao que, de fato, eu havia ido fazer ali.
Mais uma vez, os lábios dela tremeram, vacilantes.
— Não posso confessar algo que não fiz. — Por fim, ela desviou o olhar do meu e eu me afastei, constatando que não ia surtar mais.
Eu estava frustrado por não conseguir aquela confissão e ao mesmo tempo sentia algo que preferi ignorar.
— Bom. É realmente uma pena, . Nos vemos no tribunal, eu acho. — De repente, eu já não suportava mais estar ali, então me despedi dela e fiz sinal para que os policiais a levassem.
Estava tudo contra aquela mulher. Tudo apontava que era ela a culpada, que ela havia matado seis pessoas de forma cruel. Mas por que aquilo não parecia certo?


🕵🏼


Abri meus olhos no susto, como se alguém tivesse acabado de assoprar contra o meu rosto. Meu sono normalmente era leve e por isso não me surpreendi nem um pouco ao ser acordado daquela forma, mesmo constatando segundos depois que não havia ninguém no meu quarto. Provavelmente era apenas impressão minha.
A noite lá fora era fria, mas havia calefação em meu apartamento, então eu não precisava nem mesmo me cobrir, só o fazia por puro hábito.
Sentando na cama, me inclinei para pegar o celular e conferir as horas, suspirando frustrado ao constatar que eram apenas duas e vinte da manhã. Eu ainda teria um bom tempo para voltar a dormir, mas me conhecia bem o suficiente para saber que não conseguiria.
Mesmo assim, resolvi tentar, voltando a me deitar e puxando as cobertas até quase cobrir meu rosto todo. Quem sabe o ar quente ali debaixo ajudaria a me embalar no sono.
Então algo em particular me chamou a atenção. Algo que provavelmente eu não havia notado porque estava concentrado demais pelo fato de ter acordado naquele horário. Era um cheiro forte, que definitivamente tomava conta de todo o apartamento. Um cheiro pungente. Metálico.
Arregalei meus olhos.
Sangue.
Levantei num rompante, esquecendo de qualquer coisa, até mesmo de colocar algum calçado nos meus pés e eu tinha certeza de que havia fechado a porta do quarto antes de me deitar, no entanto, ela estava completamente aberta.
As luzes estavam apagadas. A única iluminação vinha da lua lá fora e enquanto eu caminhava apressado pelo corredor, a fim de alcançar o interruptor na outra ponta, senti meus pés tocarem alguma coisa viscosa no chão. Escorreguei e, antes que pudesse me segurar, desabei.
O cheiro ficou ainda mais forte e o que antes apenas tocava meus pés agora havia lambuzado minhas pernas e meu braço esquerdo, que eu havia usado para tentar amparar a queda.
Quis gritar. Quis questionar ao nada que porra era aquela, mas minha voz havia sumido. Por mais que abrisse minha boca, nada saía. Eu nunca havia me sentido daquela forma. Como se cada som reprimido fosse um pedaço de minha sanidade se desfazendo.
Tentei me levantar, escorregando no que eu tinha quase certeza de que era sangue, então respirei fundo, quase vomitando ao sentir o cheiro metálico adentrar minhas narinas com ainda mais intensidade. Era como se penetrasse meu cérebro e se instalasse lá. A náusea estava me deixando ainda mais louco.
Tomando mais um impulso e cuidando o máximo para não cair de novo, consegui me levantar, então segui até o interruptor, acendendo a luz e sentindo meu corpo inteiro tremer ao ver o tom rubro do líquido espalhado no chão de meu apartamento.
Não sei o que me apavorou mais. Se foi o fato de ter sangue ali ou ver que a trilha seguia até o quarto de hóspedes, em uma mancha mostrando claramente que alguém havia sido arrastado até lá.
Paralisei, de repente me sentindo incapaz de seguir em frente, me acovardando à ideia do que eu poderia encontrar naquele lugar.
No entanto, eu não podia ficar ali parado. Não podia porque uma hora ou outra eu teria que descobrir o que me aguardava atrás da porta.
Respirei fundo mais uma vez, ignorando o odor repugnante, então venci o restante da distância e, trêmulo, empurrei a porta, que não me surpreendi em ter encontrado parcialmente aberta.
Eu jamais estaria preparado para encontrar aquilo.
— Juniper! — Minha voz finalmente escapou em um grito esganiçado e, sentindo o desespero percorrer cada centímetro do meu corpo, corri na direção do corpo atirado em cima da cama.
O corpo da minha irmã.
Não havia mais ar em meus pulmões. Era como se alguém tivesse pegado meu coração e o apertado com toda a força e eu não consegui pensar em nada, nem mesmo no fato de que era impossível ela ainda estar viva com a garganta cortada daquele jeito.
— Juniper! Por favor, não! Não, Juniper! — No instante seguinte, eu estava atirado sobre o corpo dela, sacudindo-a pelos ombros como se aquele gesto fosse trazê-la de volta. — Não! Não! Não!
Lágrimas desceram pelas minhas bochechas. Ela não acordava. O que ela tinha vindo fazer na minha casa? Quem havia feito aquilo?
— Não. Juniper, não! — Eu tentava puxar o ar, mas não conseguia. O cheiro de sangue piorava tudo e as coisas começaram a girar ao meu redor.
Me levantei da cama e comecei a andar desatinado pela casa, procurando algo sem fazer ideia do que era.
Eu não conseguia acreditar que minha irmã estava morta. Não podia ser. Aquilo não podia ser real.
Parei de caminhar e ironicamente estava diante de um espelho que tinha na sala. Encarei meu reflexo e mais uma vez naquela noite arregalei meus olhos.
Havia uma adaga prateada nas minhas mãos.



— Juniper! — Dei um pulo, percebendo que havia adormecido no sofá de casa e, ainda tomado pela adrenalina daquele pesadelo, olhei à minha volta.
Porra, havia sido tão real. Eu ainda podia sentir o cheiro do sangue e até o gosto metálico na minha boca.
Levantei e caminhei até o espelho, encontrando apenas o meu reflexo desgrenhado e fiz uma careta, levando as mãos até meus cabelos e os puxando para trás.
— Puta que pariu — resmunguei. — Foi só um pesadelo, — repeti aquilo mais algumas vezes até realmente me convencer.
Só para ter certeza, andei até o quarto de hóspedes, constatando que estava exatamente do jeito que o deixei pela última vez, então segui até o meu. Não havia sinal algum de sangue ou de outra presença ali.
Eu não estava surpreso com o pesadelo. Estava surpreso porque Juniper estava nele.
Voltei até a sala, não me dando nem o trabalho de ver quais eram as horas e rapidamente disquei o número da minha irmã no aparelho celular.
? — A voz dela ecoou incerta e ligeiramente sonolenta do outro lado.
Suspirei, só então percebendo que minhas mãos tremiam e senti que meus olhos ficaram marejados.
— Juni, está tudo bem? — Tentei fazer minha voz soar o mais normal possível, mas ela me conhecia bem demais.
— Tô ótima. Você que não me parece nada bem. Aconteceu alguma coisa? — Eu podia até imaginar a forma como me encararia ao questionar aquilo.
— Não. Eu só queria ver como você estava — menti, falando rápido demais.
— Esqueceu que eu te conheço, ? Anda. Me fala o que tá acontecendo — ela insistiu e eu deixei escapar um suspiro trêmulo.
— Tive um pesadelo — murmurei.
— Outro pesadelo? — Ela era a única pessoa em quem eu confiava o suficiente para falar dos meus pesadelos, embora não desse detalhes de todos eles.
— Sim. — De repente, me vi incapaz de completar.
— Eu estava nele? — Juniper adivinhou.
— Como sabe disso? — Franzi o cenho, me jogando no sofá e tentando relaxar.
— Porque você me ligou às quatro da manhã e a primeira coisa que perguntou foi se tudo estava bem. — Realmente, era meio óbvio. — Mas não se preocupe comigo, . É sério, tá tudo bem.
— Você sabe que não pode me pedir isso, Juni. Sempre vou me preocupar. Queria que estivesse aqui comigo — confessei, soltando mais um suspiro.
— Sabe que não posso abandonar a mamãe aqui com o nosso pai. — Pelo jeito que falava, provavelmente ela sorria.
— Traz a sua mãe então. — Como se aquilo resolvesse mesmo a questão.
— Não é tão simples, . Mas eu posso passar uns dias com você, ao menos. O que acha?
Tentei ignorar a imagem do pesadelo onde eu segurava a adaga que havia a matado, então sorri com a possibilidade de Juniper vir me visitar.
— Me fala a data que te mando a passagem. — Por mais que ainda sentisse todas as sensações ruins do pesadelo, acabei sorrindo.
— Não vai mandar nada. Não tô te pedindo para pagar, garoto!
Era engraçado ouvi-la me chamar daquele jeito, o que deixou tudo momentaneamente mais leve.
— Mas eu vou e não se fala mais nisso. Eu vivo com milhas extras por conta das viagens do trabalho, sabe disso. — Antes mesmo de terminar de falar, eu já sabia que havia vencido aquela discussão.
Juniper suspirou.
— Tudo bem. Tô pensando em ir no sábado, mas confirmo direitinho pra você.
Seria dois dias depois do julgamento de . Com certeza a companhia dela viria na hora perfeita.
— Tá bom. Vou esperar então. — Mais uma vez, sorri.
— Agora me deixa dormir. Tenho um ensaio daqui a algumas horas. — A voz manhosa dela só entregava o que eu já sabia. Juniper odiava acordar cedo.
— Boa sorte então. E boa noite, Juni. Desculpa te incomodar. — Vacilei no final, me sentindo culpado.
— Tudo bem, . Achei bonitinho você todo preocupado. — E riu.
Revirei os olhos.
— Te amo, bobinha. — Acabei rindo também.
— Boa noite, . Também te amo. — E desligou.
Soltei um suspiro e me aconcheguei ali no sofá mesmo. Duvidava que conseguiria dormir na minha cama depois daquilo. Na verdade, duvidava que conseguiria dormir.
Infelizmente, eu já estava acostumado com aquele tipo de coisa.


🕵🏼


Por mais que eu tentasse me controlar, minhas pernas não paravam de tremer. Eu mantinha meu olhar no que acontecia, mas, de vez em quando desviava para olhar , sentada ao lado de Lestrade. A expressão dela era impassível, mas estava bem nítido que evitava encarar um ponto específico daquele lugar.
O dia do julgamento de havia enfim chegado e naquele momento, estávamos diante do juiz, assistindo o advogado de defesa fazer uma série de perguntas a Charles, um dos amigos da mulher.
— A senhorita já demonstrou algum comportamento suspeito ou até mesmo violento durante esse período em que vocês se conhecem? — Antes mesmo do homem terminar a pergunta, Charles já negava veementemente.
— Violento, não. Nunca. Não acho que ela seria capaz de matar nem mesmo uma mosca, quem dirá um monte de gente — ele respondeu prontamente, arrancando um sorriso satisfeito do advogado.
— E suspeito? — insistiu naquilo e eu até me inclinei um pouco para escutar melhor quando o amigo de engoliu em seco, lançando um olhar rápido para a mulher. — Senhor Robbins?
— Não. Quer dizer, não sei se isso pode ser considerado suspeito, mas percebi que, de uns tempos para cá, o humor dela não anda muito estável. Outro dia, eu e Giovanna tivemos que levá-la para o estoque do café onde ela trabalha porque um cliente a irritou. Não que fosse bater nele, mas as mãos dela tremiam. E nós não dissemos nada sobre porque imaginamos que ela estava sob muito estresse. Não é fácil trabalhar e estudar, entende? E a morte do pai dela não é recente, mas é um agravante e… — Charles suspirou. Tinha desviado o olhar para as próprias mãos, evitando encarar . — Nós só queremos vê-la bem. Todos nós.
De soslaio, olhei na direção de , percebendo que as feições dela estavam neutras, embora seu olhar estivesse fixo em Charles.
— Senhor Robbins, onde estava na noite do crime? — Aquela era uma pergunta apenas para seguir o protocolo.
— Em casa com Andrey, meu namorado. — Indicou o rapaz na plateia, com um aceno de cabeça. — Nós dispensamos o convite dela para irmos à festa porque era nosso aniversário de três meses de namoro.
— E você teve algum contato com a senhorita além desse convite para saírem com ela?
— Uma resposta dela de que ia sozinha e depois outra mensagem sobre um cara que ela conheceu na festa.
— Ela deu algum detalhe sobre esse homem? Um nome?
— Nada. — Charles negou com a cabeça.
— Obrigado, Charles. Sem mais perguntas, meritíssimo. — O advogado de defesa passou a palavra para o promotor.
Quando chegou a vez de Giovanna prestar seu depoimento, novamente foi levantado o assunto sobre os comportamentos estranhos de . A mulher ainda acrescentou que a amiga já havia tido um episódio em que esqueceu completamente de um trabalho que as duas tinham se reunido para executarem juntas.
Aquilo me deixou um tanto intrigado, principalmente porque a defesa insistia naquelas perguntas.
então foi chamada para o seu depoimento, já que havia sido a perita responsável pelas análises de sangue e da arma do crime.
Procurei seu olhar, esperando lhe passar alguma confiança, porém ela continuava impassível e caminhou determinada até o lado do juiz, se sentando após fazer o juramento.
, você pode nos dizer qual foi a sua participação na investigação do caso? — o promotor iniciou e ela assentiu.
— Eu sou perita forense da Scotland Yard. Fui encarregada tanto da coleta dos vestígios, quanto da análise, e redigi os laudos de DNA das manchas de sangue e impressões nas armas do crime — informou prontamente, olhando apenas para o promotor.
— Certo. Pode explicar mais sobre o que descobriu? O que seus laudos apontaram?
— Com certeza. Meritíssimo, foram encontradas duas armas utilizadas para cometer os crimes. Uma delas era uma adaga prateada, encontrada debaixo do travesseiro da ré, enquanto a outra era um martelo, deixado a alguns metros de Paul Harris, que acreditamos ter sido a penúltima vítima. Haviam impressões digitais de em ambas as armas do crime, bem como células da pele dela embaixo das unhas de três vítimas. foi encontrada com as mãos ensangüentadas e, após coleta do material e análise, constatamos que o sangue pertencia a pelo menos quatro das seis vítimas fatais.
— Não! Isso é mentira! Eu não fiz nada disso! Eu não matei ninguém! Não matei! — Me assustei com os gritos de e de repente todos os olhares se voltaram para ela, que havia se levantado da cadeira, apontando para com uma fúria bastante nítida. — Por que está fazendo isso comigo? Por quê?
Ela ameaçou avançar na direção de , mas foi impedida por dois policiais, que se aproximaram para segurá-la.
— Acalme-se, senhorita, ou terei que mandar a retirem — o juiz soltou, ríspido, mas não lhe deu ouvidos.
Do mesmo jeito que havia feito na sala de interrogatório, ela começou a se debater, tentando se soltar das mãos dos policiais, que a seguraram com mais força.
Olhei na direção de e ela estava estática, encarando a cena num misto de choque e uma certa tristeza. Realmente, aquelas duas coisas descreviam muito bem tudo que estava acontecendo.
No fim das contas, o juiz decidiu fazer um recesso por algumas horas e quando saí de dentro do tribunal, parecia que um elefante estava pisando nas minhas costas.
Os gritos de ainda ecoavam na minha mente. Seu desespero parecia bastante genuíno e, ao mesmo tempo, os depoimentos de seus amigos encaixavam algumas peças.
Durante as investigações, também conversamos com eles, mas, por algum motivo, aquela informação sobre a instabilidade tão evidente de era nova para nós. Isso me deixou com uma pulga atrás da orelha, e, parecendo ouvir meus pensamentos, a voz de Lestrade chamou a minha atenção.
— Engraçado os três usarem as mesmas palavras para dizer que não andava estável.
Olhei para ele, assentindo pensativo.
— Sim. Você viu a reação dela a cada um deles? Nada. Nem a tremedeira nas mãos estava lá. — Aquele era um outro ponto que ficava martelando em minha cabeça.
— Que porra tá acontecendo? — Lestrade soltou baixo e irritado.
— O que tá acontecendo é que é dissimulada e manipuladora — disse, em algum ponto atrás de mim, o que me fez virar para encará-la, arqueando uma sobrancelha, surpreso por aquelas palavras. Os olhos dela brilhavam em fúria. — Tenho certeza de que vão alegar insanidade.
O estalo finalmente veio.
Era óbvio. Agora tudo fazia sentido. Porém algo dentro de mim ainda parecia se recusar a aceitar o que havia dito sobre .
— Puta merda. É claro! — Lestrade exclamou, até batendo na própria testa, incrédulo por não ter pensado naquilo. — Faz todo o sentido ser uma nova estratégia da defesa, porque em nenhum dos depoimentos que coletamos aqueles três falaram sobre mudanças no comportamento de .
— O que foi, ? — percebeu a careta em meu rosto.
— Não sei. Algo ainda me parece estranho nessa história toda. Vocês acham então que tudo aquilo era fingimento? — Nem precisei me explicar, eles sabiam que eu estava me referindo aos gritos.
suspirou.
— Honestamente? Eu não achei que fosse até o juiz anunciar o recesso e ela se acalmar num piscar de olhos. — Me olhou significativamente.
Ela tinha razão. Eu não tinha reparado na reação de naquele momento, mas tinha e eu confiava nela de olhos fechados.
… — De repente, senti de novo aquela necessidade de cuidar dela, de saber o que passava em sua mente.
— Agora não, . Eu estou bem. Só com raiva porque… Bom, não importa. — E suspirou mais uma vez.
— Se aceitarem o lance da insanidade, vocês sabem que não acabou, certo? Não dá pra descansar até descobrir se realmente esse negócio procede. — Foi Lestrade que comentou o que todos nós já imaginávamos.
— Porra, eu vou enlouquecer com isso tudo. Achei que com os laudos tudo ia se esclarecer, mas parece que piorou ainda mais — desabafei, passando a mão por meus cabelos.
— Só nos resta torcer para estarmos enganados, . — John tocou meu ombro com uma das mãos e me lançou um sorriso condescendente.
Cerca de vinte minutos depois, fomos todos chamados de volta ao tribunal.
Eu e Lestrade também tivemos que prestar nossos depoimentos e esclarecer alguns detalhes sobre a investigação. foi a última a ser chamada, porém pouquíssimas informações foram tiradas dela. Outra vez, a mulher começou a se debater ao ser questionada sobre as armas do crime e o sangue das vítimas em suas mãos, o que me fez refletir mais uma vez sobre as palavras de .
Seria mesmo tudo fingimento?
No entanto, sendo ou não, aconteceu o que previu. A defesa usou o argumento da insanidade e foi o sustentando, fazendo um discurso que era realmente convincente. Trouxeram até mesmo um laudo psiquiátrico, defendido pelo profissional que o havia redigido.
Fixei meu olhar em , analisando seu olhar distante e seus lábios fechados em uma linha, como se ela estivesse mordendo-os por dentro.
A decisão do júri levou cerca de cinco longas horas.
Quando estávamos prestes a questionar se seríamos dispensados, veio a segunda convocação para retornarmos ao salão.
Não sei em que momento prendi minha respiração, porém só percebi que havia feito quando de repente me senti sem fôlego.
Meu coração batia absurdamente rápido, minha boca tinha secado e eu só queria que aquilo tudo acabasse de uma vez, fosse qual fosse o veredicto, o rumo que as coisas tomariam para nós dali para frente.
O representante do júri por fim se colocou de pé e de repente parecia que todos ali também pararam de respirar.
— Após decisão em consenso por todos os membros do júri, declaramos a ré, , culpada por todos os crimes. Perante a alegação de insanidade da ré e apresentação de laudo psiquiátrico, ela deverá cumprir pena perpétua no Hospital Berkeley para Criminosos Insanos.
Exclamações foram ouvidas de todos os lados e, de repente, eu não conseguia me mexer.
Por algum motivo, a minha própria imagem diante do espelho, segurando a adaga voltou aos meus pensamentos.
Sacudi a cabeça, sentindo um formigamento me avisando que eu era observado. Ao olhar na direção, encontrei o olhar de .
Diferente de todas as expressões que ela fez e eu captei durante o julgamento, naquele momento havia a súplica. Então seus lábios formaram duas palavras para que eu apenas lesse.
— Me ajuda.


Continua...



Nota da autora: Gente do céu, chegou mais uma att com fogo no parquinho pra vocês!
E agora? No que vocês acreditam? A pp1 é insana mesmo ou foi tudo jogada pra ela não pegar sentença de morte?
Sou só eu que me acabo com o pp1? Juro pra vocês que shippei ele até com o Lestrade já kkk.
Comentem aqui embaixo o que acharam!
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Beijos e até breve.
Ste.



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