Contador:
Última atualização:31/03/2022

Lótus

Lótus: Esse tipo de flor possui oito pétalas, que estão relacionadas com as oito direções do espaço.
Por esse motivo, elas costumam ser também consideradas como o símbolo do novo caminho e da harmonia cósmica.



– Eu nem consigo acreditar que você já está indo. – Maisie choramingou, esfregando as costas da outra enquanto a sufocava em um abraço apertado.

Era tarde do último dia da terapeuta ocupacional em uma das maiores e mais conceituadas clínicas de reabilitação de Birmingham, Inglaterra. A terapeuta era responsável por recuperar desde crianças queimadas, crianças com deficiência, ou acidentadas de alguma forma, até adultos com as mais diversas lesões neurológicas ou traumato-ortopédicas. Trabalhava na companhia de seus dois melhores amigos da época da faculdade: a terapeuta Maisie Winslet, uma inglesa baixinha e com espírito mais alternativo do que a maioria, com grandes olhos brilhantes e humor deturpado, e Louis Thompson, um médico de quase trinta anos que não era levado a sério por parecer ter pouco menos que vinte.
O trio se formara durante os últimos anos da faculdade, enquanto tentavam sobreviver às provas finais e a dívida estudantil. Vivendo os últimos anos como estudantes, aproveitando as festas, os jogos e sendo apenas mais três pontos na imensidão de universitários do país.
Maisie e , apesar de estarem no mesmo ano, não eram exatamente amigas até serem forçadas a trabalharem juntas, como dupla de atendimentos.
Inicialmente, fora o inferno na Terra. As duas, com suas diferenças, enlouqueciam o estudante de medicina que as acompanhava nos atendimentos, Louis. Mas entre discordâncias sobre planos de tratamento e atividades, as duas descobriram que até mesmo água e óleo podiam se misturar se feito do jeito certo. E depois disso, nunca mais haviam se separado. Nem de Louis.
Depois da faculdade, graças a influência da família de Louis, os três estavam empregados na clínica, atuando juntos, mas agora como melhores amigos. O trabalho interdisciplinar e multidisciplinar exercido pelo trio era destaque na clínica, e através disso, Louis, e Maisie somavam publicações científicas em seus nomes.
A rotina perfeita, no trabalho perfeito, com o trio dos sonhos durou cinco anos, até que considerasse a ideia de se mudar. A princípio, a decisão da britânica não havia sido muito bem recebida pelos amigos, principalmente por Maisie, que considerava um desperdício de talento e ofensa pessoal a saída da terapeuta da equipe. Mas almejava perseguir seus próprios objetivos. Depois da faculdade, atuar com reabilitação não era sua primeira opção, mas antes que pudesse perceber, já estava contratada, cuidando de síndromes do túnel do carpo. Ela queria mais, queria perseguir seus objetivos, seus sonhos da época da faculdade, queria trabalhar com jovens e adolescentes, queria atuar principalmente com esportes. Era seu sonho.
não era conhecida por se acostumar com as coisas ou ser contrária a mudanças, até mesmo sua aparência a enjoava, era figurinha conhecida nos salões de beleza de Birmingham.
Por isso, quando encontrou por acaso o e-mail de uma de suas professoras, sugerindo uma vaga de emprego em outro país, com a possibilidade tão almejada de trabalho junto a atletas, a terapeuta se permitiu ser impulsiva e disse sim.
Apesar da surpresa, frustração e negação, os amigos, aos poucos, cederam a ideia e se tornaram os maiores apoiadores de . Conheciam a amiga e sabiam que a decisão era tão difícil para ela quanto para eles, embora a melhor a ser feita, por isso a acompanharam em todos os passos, até o fim.

– Eu também não, passou mais rápido do que pensei. – sorriu contra os ombros da amiga. – Estou sem dormir há umas quatro noites por causa da ansiedade.
– Já sabe o que vai fazer lá? Com quem vai trabalhar? – Maisie perguntou, afastando-se um pouco da amiga, que se sentou em uma das cadeiras disponíveis da sala de descanso.
– Não sei quase nada, é tudo um grande mistério. – suspirou um sorriso envergonhado. – Ainda nem conheço meu chefe, mal sei o nome dele ou dela. – Confessou.
– Está brincando? – Maisie arregalou os olhos, apoiando o corpo em uma das bancadas reservadas para o café.
– Não, eu juro. – sorriu mais uma vez, depois arrastou alguns papéis que estavam sobre uma mesa próxima e passou a dividir com eles sua atenção. – Eu só sei o último nome, Vierula, e a razão social. Minhas reuniões sempre foram com outras pessoas. Tudo que sei é que ele trabalha com atletas de ponta, alto rendimento, gente com muita grana, mas que agora quer expandir, mas sabe-se lá o que vou fazer.
– Com quem será que você vai trabalhar? – Maisie se empolgou, sentando–se na mesa com a outra e apoiando os cotovelos, com olhar cheio de expectativas.
– Nas reuniões eles mencionaram alguns jogadores de hockey no gelo e algumas tenistas. – contou, erguendo os olhos para a amiga. – Pilotos também.
– Que legal! Esportes que fazem sentido para sua atuação. – A outra piscou, sorrindo.
– Não sei...– A terapeuta riu nervosa e balançou a cabeça negativamente. – Eu não sei nada sobre hockey ou tênis...imagine, e se eles me perguntarem alguma coisa? Ou se acharem que não sirvo para o trabalho porque não sei uma das regras principais do esporte? – externou sua mais recente preocupação, erguendo os ombros tensionados.
– Que besteira. – Maisie negou com a cabeça, esticando as mãos sobre a mesa, até que alcançasse as mãos da amiga. – Se te conheço bem, você vai chegar lá com todas as regras desses esportes decoradas, assim como as principais lesões. E eu, sinceramente, não acho que te recrutaram para isso. Você sabe como tratar uma lesão de flexor longo de polegar, não sabe? – assentiu com a cabeça, apertando os lábios num sorriso fechado. – Está vendo? Ele recrutou a melhor terapeuta ocupacional desse hemisfério. Não há com o que se preocupar. – Ela cantarolou sorridente.
– Vou torcer para que você esteja certa, então. – sorriu apertando os lábios, direcionando a amiga um olhar de gratidão.
– Por que não fui convidado para essa reunião? – Louis se fez ser ouvido, estava parado na porta, de pé, com o cenho franzido e uma sobrancelha arqueada.
– Porque aqui é o espaço seguro, sem médicos. – Maisie provocou rolando os olhos e os outros dois sorriam.
– Já está pronta para ir, bonitinha? – O médico perguntou, esfregando rapidamente o braço de ao se aproximar das duas.
– Sim, mas não posso pensar muito nisso para controlar a ansiedade.
– Vamos sentir sua falta aqui. – Louis sorriu amoroso. – Eu não vou suportar ficar com a Maisie, ela é péssima. Já tomou o café que ela faz? – Ele provocou e foi empurrado pela outra terapeuta, que fez careta.
– Eu espero que minha nova equipe seja pelo menos um por cento do que vocês são. – projetou o lábio inferior.
– Desculpe, mas não vai ser possível. Somos únicos. – Maisie levantou o queixo orgulhosa e Louis apontou para a colega, numa confirmação silenciosa.
– Tem tempo para mais um caso? É rápido. – O médico sorriu, entregando a mulher um prontuário, cortando o assunto.
– Oba! Meu último caso e eu estou fazendo hora extra no meu último dia, espero que me paguem muito bem por isso. – brincou, folheando o prontuário em busca de informações. – O que temos?
– Homem, trinta e dois anos, se cortou com uma garrafa de vinho, preciso que avalie a cicatrização. – O médico explicou. – É simples, mas quero aproveitar você o máximo possível.
– Não vou sentir falta de traduzir sua letra horrível nos prontuários. – A terapeuta ironizou enquanto li as folhas. – O que você quis dizer aqui? Isso é um o ou um c? – Questionou, apontando para um trecho do documento e mostrando–o ao médico.
– Ah, é um c, c de cirúrgico. – Louis riu abafado, franzindo o cenho, esforçando–se para entender a própria letra. – Houve uma lesão muito pequena no tendão do abdutor curto do polegar, como um leve arranhão. Mas ele usa as mãos para viver, estou preocupado com a formação de aderências e também tem um pouco de edema. Pode avaliar para mim? Confio no que disser.
– Claro, chefe. – Ela piscou e sorriu, ficando de pé. – Meu último novo paciente.
– Sala dois. – Louis avisou enquanto a terapeuta saía pela porta.

ajeitou a máscara ao rosto e com os prontuário em mãos, cruzou o grande corredor que a levaria até as salas de atendimento. Tocava as paredes vez ou outra, sentindo a energia do prédio pela última vez, tentando memorizar as sensações, a cor das paredes, a decoração, o cheiro que tinha, enquanto se lembrava de todos os momentos que havia passado entre aquelas paredes. Encontrou alguns pacientes e outros membros da equipe pelo caminho, ocupados com seus afazeres no vaivém normal e cotidiano de uma clínica do tamanho aquela, e cumprimentou a todos com um aceno e sorrindo com os olhos.
Definitivamente sentiria falta dali, sequer havia partido e já sentia o peito apertar. Morreria de saudade de seus amigos, da família, de seus restaurantes favoritos, do humor péssimo de seus vizinhos, da música ruim que alguns insistiam em ouvir assim que o sol nascia. Sentiria falta dos festivais que sempre aconteciam em Birmingham, das lojas favoritas e de vez ou outra precisar atravessar gravações externas de Peaky Blinders antes de chegar ao trabalho. Ah, Birmingham...
Assim que alcançou a ala de atendimentos, a terapeuta direcionou–se a sala preparada e separada para paramentação. Higienizou as mãos com álcool, retirou a máscara e a descartou, substituindo por outra nova, fechou os últimos botões do jaleco, separou e vestiu um dos aventais, amarrando com firmeza, fazendo o mesmo com sua touca. E enfim estava pronta para cruzar a última porta que a separava de seu último paciente, em seu último dia no trabalho dos sonhos.

Higienizou as mãos de novo, bateu duas vezes na porta e girou a maçaneta.
– Boa tarde. – Cumprimentou sorrindo com os olhos.
– Boa tarde. – O homem respondeu, virando o corpo para ver a mulher.

Ele estava sentado à mesa, com a mão direita sobre o colo, usava máscara e um suéter creme estampado. Enquanto se aproximava, voltou a folhear o prontuário rapidamente, buscando o nome do paciente. Não era comum começar um atendimento assim, mas por alguma razão desconhecida ou pegadinha do destino, havia se esquecido daquele grande detalhe e agora, diante ao paciente, não se lembrava de seu nome.
– Senhor..., olá. – Sorriu, mas antes que seus olhos pudessem alcançar o homem, voltaram para o documento novamente.

?
?
?
repetia em sua mente, mal podia acreditar no que estava acontecendo, não podia ser real, devia ser só uma coincidência estranha. Seus olhos então correram para a figura do homem que a encarava num misto de confusão e impaciência. Era mesmo ele, ou alguém que tinha o mesmo nome e a mesma aparência. Apesar da máscara, era impossível não ser, conhecia aqueles traços, era basicamente a fundadora do fã clube do piloto finlandês de Fórmula Um. era seu piloto favorito, não havia um dia em que a terapeuta ocupacional inglesa não tivesse notícias sobre ele, sobre as corridas dele, sobre a vida dele ou que passassem sem defende-lo nas redes sociais de homens que acreditavam que mulheres não eram capazes de gostar do esporte.
Acorde, , seu cérebro implorou. Precisava se controlar, ali não estava a fã de Fórmula Um e seu ídolo, mas a terapeuta ocupacional e seu paciente. coçou a nuca e tossiu, como se tentasse sinalizar que ainda estava ali, esperando. A terapeuta, então, conseguiu retomar o controle sobre seu corpo, balançou a cabeça e limpou a garganta, tentando se concentrar. Era hora de adotar a persona terapeuta profissional, inabalável e concentrada.

– Desculpe. – Pediu engolindo seco. – Senhor . Sou , terapeuta ocupacional, o doutor Thompson me pediu para vê-lo.
– Certo, ele me disse. – concordou com um aceno.

deixou o prontuário sobre a mesa e se sentou do outro lado, higienizando as mãos mais uma vez.

– Então, soube que houve um acidente, posso ver sua mão? – Pediu sorrindo com os olhos.
– Claro. – O homem esticou o braço devagar.
– Que susto, não é? Você, machucar logo a mão. – Disse ela sorrindo, fazendo muito esforço para se conter, mesmo que não funcionasse.
– É...um pouco de azar. – Ele respondeu hesitante.
– Pelo menos não temos corrida nos próximos dois finais de semana, seria uma pena você não correr. Eu provavelmente surtaria. – Quando a terapeuta se deu conta, já havia dito.

mordeu a língua e se xingou internamente, não respondeu, apenas acenou com a cabeça e concentrou o olhar em sua mão. Que estúpida, pensou, concentre-se, concentre-se, não é hora de dar vexame.
Quando terminou de retirar as faixas da mão do piloto, encontrou a ferida bem cicatrizada, sem sinal de inflamação, apenas com um pouco de edema nas bodas, mas nada fora do normal. Abrindo uma das gavetas da mesa de atendimento, encontrou seus kits para a avaliação de sensibilidade. Filamentos coloridos com espessuras diferentes, que serviam para avaliar o grau de sensibilidade e outros pequenos objetos de texturas variadas e tamanhos diferentes.

– Vou testar sua sensibilidade aqui, tudo bem? Não vai poder ver. – Avisou e o homem assentiu com a cabeça mais uma vez.

Mal podia acreditar que estava com a mão de seu maior ídolo e crush entre as suas, tocando-a, segurando. Mal podia esperar para deixar a sala, pegar seu celular e contar para todo mundo o que havia acontecido. Queria gritar, dar pulinhos e comemorar, tudo isso enquanto torcia para que suas mãos não suassem mais que o normal, ou que tremessem. puxou em sua direção uma pequena placa que ficava sobre a mesa, antes usavam uma venda, mas isso não era possível por causa da pandemia, então usariam uma pequena placa que impedia que o paciente visse onde estava sendo tocado.

– Sente isso? – Perguntou enquanto tocava ao redor do ferimento com um pedaço de algodão.
– Sim, sinto.
– E agora, o que me diz? – Quis saber ela, utilizando um dos filamentos mais finos.
– Sim. – Respondeu e uniu as sobrancelhas.
– O que foi? Algum incômodo? – o examinou com o olhar, alerta.
– Não, é só que...parece diferente, quando você toca uma parte ou outra. – Explicou ele, encarando a mão.
– Isso é normal. Perceba a diferença. – A terapeuta piscou, tirando de seu kit um pedaço áspero de tecido e tocando a ponta de um dos dedos do piloto. – Preste atenção em como sente e como estou tocando. – Pediu e ele assentiu. – Agora veja. – tocou ao redor da cicatriz da mesma forma que havia tocado o dedo dele.
– Ai. – reclamou e puxou sutilmente a mão, num reflexo.
– Está tudo bem, é normal que a sensibilidade esteja diferente, esse é um tecido novo. – Explicou estendendo a própria mão, num pedido silencioso para que o homem fizesse o mesmo e a devolvesse a mão. – O que você sentiu? Dor?
– Não, está mais para um incômodo. – Ele contou, deixando a mão sobre a mesa de novo. – Uma sensação esquisita.
– Provavelmente vai desaparecer com o tempo, não se preocupe. Agora, dobre seu polegar para dentro, assim. – Pediu a terapeuta, afastando a placa e mostrando para ele como fazer. – Não precisa se preocupar, faça no seu limite.
– Incomoda um pouco. – Admitiu.
– Não precisa ter medo de abrir a cicatriz, não vai acontecer. De zero a dez, quanto é o incômodo? – quis saber, apoiando a mão do piloto, para que ele não compensasse o movimento.
– Dois. Queima um pouco embaixo da cicatriz. – Os olhos azuis intensos de tocaram os da terapeuta. – Será que o corte realmente não afetou mais nada que não sabemos.

ficou presa nos maravilhosos tons daqueles olhos, lindos olhos azuis, nunca havia visto olhos tão bonitos e intensos tão de perto, esqueceu por alguns instantes que ela era a terapeuta e que devia dizer alguma coisa.

– Não, não acho. – Negou balançando a cabeça rapidamente, tentando retomar a concentração. – Você tem mexido a mão ou cuidado dela como um bebê recém-nascido?
– Acho que um pouco dos dois. – Ele confessou apertando os olhos e riu abafado.
– Às vezes, , durante a cicatrização a pele gruda nos outros tecidos, atrapalha o movimento e causa essa sensação que está sentindo. – Explicou sorrindo, mesmo que ele não pudesse ver, por causa da máscara. – E nós precisamos que sua cicatriz tenha tanta aderência quanto pneus slick em pista molhada. – Ela brincou.
– Entendi. – riu também.
– Me desculpe pela piada, é que...bom, sou fã do esporte. – confessou, levantando os ombros e sorrindo com os olhos. – Não sei se deixei transparecer.
– Não, você foi muito sutil. – ironizou sorrindo com os olhos.
– Eu estou tentando, juro. Não é todo dia que temos a chance de atender um ídolo. – falou animada, distraindo-se um pouco de seu atendimento. – Eu mal posso acreditar que você está aqui...claro que preferiria que não, porque imagino que deve ter se preocupado com sua lesão, mas que bom que está. – A terapeuta desatou a falar, enquanto o homem apenas concordava. – Quer dizer, além de todos os problemas atuais, uma lesão...mas não, que bom que não, e é um coisa simples.
– Obrigada, obrigada mesmo. – Ele agradeceu quando teve a primeira chance de abrir a boca.
– Não precisa agradecer, é sério. É uma honra para mim. – garantiu, tocando o peito.– Nem posso explicar o quanto estou feliz. Eu sei que você deve ouvir isso o tempo todo, mas estamos com você, eu estou com você. Mesmo com todas aquelas coisas que aconteceram, sabe? Não terem comemorado sua vitória...e quando o Lewis Hamilton não seguiu a estratégia da equipe? Nossa, é muito frustrante. E Mônaco? Como a equipe quer cobrar bons resultados se não conseguem fazer o mínimo?
– Eu não...– tentou falar.
– E o Russell no final da temporada passada? As pessoas acham que qualquer um pode vencer com aquele carro, e isso é a coisa mais estúpida que eu já escutei. – voltou a falar sem parar e apenas assentia educadamente. – E será que ele é realmente tão bom assim? Eu posso pensar em pelo menos cinco outros nomes. E eles simplesmente desconsideram tudo isso quando julgam, desconsideram a falta de apoio da equipe, que nitidamente tem um favorito. Além é claro da situação com o campeonato desse ano, cobrando como se você tivesse algum tipo de responsabilidade. Ainda desconsideram a pressão psicológica e tudo que...– limpou a garganta, tentando interrompe-la.
– Eu realmente estou focado nesta temporada e nas próximas corridas, não em resultados que não posso mudar. – Sentenciou ele, emburrado.
– Claro, claro, tem razão. Tem toda razão. – concordou animada, voltando a olhar para a mão dele e movimentar seu polegar levemente. – Nesse resto de ano e no próximo, em outra equipe, talvez seja o ano de realmente ir à caça, sabe? Não como um filhote, mas como um lobo crescido...de ser mais selvagem, mais firme...como seus antepassados vikings, sabe?
– Vikings não são finlandeses. – respondeu num tom levemente austero e direto. – E eu sei como devo me comportar e como fazer meu trabalho.

engoliu seco, não teve coragem para olhar nos olhos do homem. Quem é que não sabe que os vikings são da Dinamarca, ? Indagou a si mesma. Uma gigantesca bola fora.

– Desculpe, você tem razão. Me excedi. – Pediu e agradeceu por estar tão paramentada que dificilmente seria reconhecida por ele caso por algum milagre se reencontrassem. – Me desculpe, não falei por mal.

não respondeu.

– Deve continuar mexendo seu polegar, sempre respeitando seu limite e não force, mas não deixe de fazer. Isso deve reduzir e evitar a aderência. A sensibilidade vai passar também, tente tocar superfícies com texturas diferentes, algodão, tecidos ásperos. E continue com os exercícios, logo vai estar totalmente recuperado. – orientou, ainda roxa de vergonha, enquanto ajeitava as faixas na mão do piloto.
– É só isso? Estou liberado? – quis saber.
– O doutor Thompson vai vir vê-lo mais uma vez, vou chama-lo. – Avisou depois de arrumar a mesa tão rápido quando uma volta em um circuito de Fórmula Um, enquanto se levantava. – E mais uma vez, me desculpe, eu realmente sinto muito.
– Tudo bem. – Ele deu de ombros.

caminhou para a porta de cabeça baixa, se pudesse, cavaria um buraco no chão para de esconder. Tinha tido a chance dos sonhos, o momento perfeito, mas obviamente estragaria tudo. Era a sua cara estragar tudo por falar demais, por não conseguir pensar antes de dizer.

– Obrigada. – agradeceu.
– Não por isso. – respondeu num sussurro e deixou a sala, quase correndo.

O mais rápido que pode, retirou toda aquela tralha e a descartou, chamou Louis e juntou suas coisas, partindo a passos rápidos para o estacionamento. Sem conseguir levantar o olhar, com medo de cruzar com o piloto finlandês ou com qualquer um que soubesse de seu fracasso ou da imensa vergonha que nunca mais esqueceria.

– Ei, garota. Onde vai com tanta pressa? – Maisie a interceptou, a terapeuta a estava aguardando na entrada do estacionamento, sentada no banco do motorista de uma caminhonete alta que contrastava com a altura de Maisie. – Entre aqui.
– Vou fugir do país. – contou chateada, correndo para se esconder dentro do carro da amiga. – Eu definitivamente estraguei tudo.
– Do que está falando? O que aconteceu? – Ela quis saber, enrijecendo a postura.
– Esse paciente, era um piloto de Fórmula Um. – Contou, empalidecida, com as mãos apertando o assento do carona e o lábio inferior projetado numa careta de choro.
– É, eu sei. – Maisie sorriu, atraindo um olhar confuso de . – Louis te chamou por isso, nós sabemos que você adora as corridas, era um presente de despedida.

Ao ouvir aquelas palavras, a terapeuta choramingou e escorreu pelo banco, ainda mais incrédula com seu lapso de falta de profissionalismo e língua grande.

– O que foi? Não foi legal? Ele te tratou mal? – Maisie se preocupou.
– Não, não, não. – A terapeuta se lamentou cobrindo o rosto com as mãos. – Eu. Eu comecei a falar várias coisas, acho que acabei ofendendo ele. Sabe como eu sou, falo sem pensar.
– Ai, ai, ai. – A outra balançou a cabeça negativamente e franziu os lábios. – Foi muito ruim? Numa escala em que errar o nome dele é igual a um e xingar a família dele é dez.
– Talvez entre cinco e sete. Mas eu sou fã dele desde...sei lá desde quando, e agora ele certamente me odeia. Preferia quando não me conhecia.
– Ah, então não foi assim tão ruim. – Maisie amenizou enquanto dava partida no carro e manobrava, tentando sair da garagem. – E ele nem vai se lembrar de você, deve ouvir esse tipo de coisa o tempo todo. Pense positivo, provavelmente ele nunca saberá que você é você, graças a máscara e tudo isso. Não precisa desse drama todo.
– Não é drama, é a realidade. Que morte horrível. – suspirou. – Eu só quero um hambúrguer bem grande e uma morte lenta.

Maisie sorriu e sacudiu a cabeça, sentiria falta dela.

❄❄❄


Sair de casa, deixar seu país, seus amigos, sua cultura e tudo mais que conhecia não era uma tarefa fácil. Principalmente rumo a um país tão diferente como o futuro lar de . Segundo o e-mail que recebera naquele fim de noite, a terapeuta iria para Mônaco, o principado que por muitas vezes se misturava com a França e Itália. Para a fã de Fórmula Um que vivia dentro dela, era um sonho se tornando real. Andar pelas ruas com a chance mais que possível de encontrar um piloto, ou alguém da equipe, um ex-piloto ou chefe de equipe. Era mais que mágico, apesar de ter destruído seu sonho de fanfiqueira com seu piloto favorito , o que ainda a deixava vermelha ao lembrar, mesmo tendo acontecido horas atrás.
Mônaco exalava luxo e riqueza, precisou usar de todas suas técnicas de controle e manejo de ansiedade para não surtar com sua situação. Era uma inglesa comum, não tinha roupas caras ou estilosas, não tinha o corpo bronzeado ou cabelos loiros impecáveis, ou silicone. Talvez, com seu novo salário, pudesse comprar e viver sua vida como uma pessoa rica. Se imaginava em partidas de tênis durante as tardes quentes, passeios de iate durante as manhãs, drinks em bares de hotéis no início da noite e festas animadas e caras até o dia amanhecer.
Faria exercícios, academia, teria um corpo digno para ostentar biquínis, talvez fizesse bronzeamento artificial. Silicone parecia uma ideia muito convidativa, talvez preenchimento labial. , que estava deitada sobre sua cama, aproveitando o máximo que pudesse de seu conforto, ficou de pé e se dirigiu ao espelho grande no canto do quarto.
Não se parecia em nada com uma garota de Monte Carlo, vestia uma calça de moletom puída e já descolorida pelo tempo, meias grandes demais para seus pés e um moletom da faculdade. No rosto, óculos de grau de armação cor de rosa, e o cabelo estava preso em um coque desajeitado. riu de si mesma, “Quem você quer enganar, ?” Precisava de uma intervenção do esquadrão da moda, de uma boa esteticista e talvez, nascer de novo, se quisesse se parecer com uma garota de Monte Carlo.

– Bom, é isso que temos. – Riu, passando as mãos no rosto, tentando limpar a oleosidade da testa. – Você vai se tornar a esposa que vai ao pilates no meio da tarde e depois busca os filhos com roupa de academia? – Se perguntou em voz alta, virando-se para ter uma visão melhor de seu corpo. – Vai passar os dias em eventos beneficentes, ou viajando por aí? Postando sobre sua rotina de treinos e acompanhando seu marido a qualquer lugar que ele vá? – encarou a si mesma no espelho, tentando se imaginar com aquela rotina, mas falhou e gargalhou. – Quem eu quero enganar? – Negou com a cabeça, ainda sorrindo e voltou para cama, recuperando o saco de pipoca que estava apoiando a um dos travesseiros. – Como disse Cher, mãe, eu sou o homem rico.

negou com a cabeça, ainda se divertindo com seus pensamentos e ligou a TV. Pipoca, chocolate, batata frita, um belo hambúrguer ou uma pizza grande e seu seriado favorito preenchiam qualquer necessidade que a inglesa tivesse, em Birmingham ou em Mônaco.

❄❄❄


O Principado de Mônaco é uma cidade-estado soberana ao sul da França, banhada pelo mar Mediterrâneo. Fundado e comandado pela Família Grimaldi, ficava a menos de vinte quilômetros a leste da cidade de Nice, não que a uma referência fizesse sentido, não conhecia Nice. Mônaco também era o segundo menor Estado do mundo, atrás apenas do Vaticano, e é o estado com a densidade populacional mais alta do mundo, e também tinha uma família real, Sua Alteza Sereníssima, o Príncipe Alberto II do Mônaco era quem comandava.
Em Mônaco, os habitantes nativos eram minoria. E haviam os grandes cassinos, pouquíssimos impostos e muito incentivo fiscal. Uma vez disseram que é mais fácil que um camelo passe pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus. Em resposta, os ricos se uniram e criaram Mônaco.
Aquilo era óbvio enquanto arrastava as malas para a saída do aeroporto do principado. Tinha um endereço gravado no celular, e caso o celular descarregasse, tinha escrito em dois pedaços de papel, um estava no bolso e o outro na carteira. Caso algo acontecesse com os papeis, também o tinha memorizado, só por precaução. O endereço era de um apartamento reservado por seu novo chefe para ela, uma casa completamente desconhecida.
O tradutor também estava a postos, aberto na tela do celular, não falava mais que dez palavras em francês, embora tivesse se empenhado nos últimos dias a aprender. Torcia para que a história sobre o inglês ser a língua mais falado no mundo fosse verdade.
Estava cansada, com fome, mal dormira no avião por causa de uma criança que chutava seu assento insistentemente durante todas as horas de viagem.
Tinha aquele frio na barriga, o medo de que tudo desse errado e as milhares de possibilidades de fracasso, embora soubesse se tratar de um sintoma da ansiedade. Mas agora precisaria lembrar a si mesma disso sempre, antes tinha Louis e Maisie para se ocupar da tarefa, mas agora estava só.
Não estar próxima aos amigos era algo novo desde a faculdade, uma realidade completamente desconhecida. Quando se mudou para fazer faculdade, aprendeu a conviver com a distância da casa dos pais, com a distância do suporte que eles lhe davam, embora constantemente se flagrasse se culpando por tê-los deixado sozinhos. Mas mesmo longe da família, não estava só, tinha amigos e algum apoio. Agora, longe da família, de sua cultura e de seus amigos, estava completamente sozinha, cem por cento, zero.
Quando Louis e Maisie a acompanharam até o aeroporto, os dois pareciam pensar sobre isso também. Como terapeutas, as duas não podiam evitar considerar o quão problemático seria para viver em um lugar se qualquer tipo de vínculo, sem nenhum tipo de rede de apoio formal ou informal. Sem seus referenciais culturais, históricos e familiares.
Mas a vida era assim, precisava dar aquele passo, sair de sua zona de conforto. Muitos haviam feito o mesmo antes dela, conseguiria também, era nisso que tinha que acreditar.

– Oi, com licença. – A terapeuta se aproximou de um taxista de meia idade, que auxiliava uma mulher a retirar do carro sua bagagem. – O senhor está livre? – Perguntou em inglês e o homem respondendo com um rosnado não muito simpático.
– Não? Certo. – se encolheu, assentiu e tentou procurar outro táxi.

Alguns passos e outro carro estava estacionado, e do lado de fora, o motorista segurava uma placa com o nome de quem esperava. Havia uma fila extensa deles, motoristas de táxis com suas placas e aparentemente os ricos haviam monopolizado também os taxistas.
Andou um pouco mais, se amaldiçoando por não ter escolhido um vestido e salto alto, em vez de moletom e calça jeans. Os taxistas livres pareciam ter um ataque sempre que a terapeuta dizia a primeira palavra em sua língua materna, ou apenas por olharem e perceberem ser pobre. Péssimo dia para não ser uma loira com silicone e bronzeado em dia.
digitou algumas coisas no tradutor rapidamente antes de se dirigir ao último táxi estacionado, empenhada e fingindo estar segura de si. O motorista era jovem, alto, moreno e tinha cabelos curtos castanhos, estava recostado sobre seu carro como quem passa a tarde com os amigos.

– Excuse, j'ai bison d'un taxi. – Pediu por um taxi, tentando soar firme, e o taxista sorriu com os olhos, depois a olhou dos pés à cabeça e esticou a coluna.
– Oui, m'dame. – Ele piscou.

O motorista parecia manter uma expressão irônica no rosto, mas a terapeuta não tinha certeza, o rosto dele estava coberto por uma máscara. Depois de ajuda-la com as malas, enquanto tentava fingir ser inatingível e rica, o taxista cordialmente abriu a porta do carro e acenou com a cabeça.
– Estrangeira. – Ele chamou com voz serena, causando choque a inglesa. – É melhor tomar cuidado por aí, nem todo taxista pode estar interessado em bisontes. – Ele piscou, baixou a cabeça e depois a encarou outra vez, arqueando uma sobrancelha.

não respondeu, apenas baixou os óculos escuros e se jogou no banco traseiro do táxi, torcendo para que o banco a engolisse.
Strike um.

❄❄❄


– É um apartamento no terceiro andar, mãe, não acho que tenha risco de ser invadido pela janela. – respondeu para a mais velha, ao telefone.
– Mesmo assim, é melhor manter as janelas bem fechadas a noite. – Lisa, sua mãe, reforçou.
– Mãe, eu não estou fazendo isso pela primeira vez, lembra? Já moro sozinha desde a faculdade. – Lembrou a terapeuta.
– Mas no seu próprio país, isso é diferente.

expirou pesadamente e balançou a cabeça negativamente, não tirava razão da mãe, mas não era como se não soubesse de todas aquelas coisas.

– Mãe, eu sempre me virei sozinha, sempre fui independente. Não é agora que isso vai mudar, certo? Eu sei me virar. – Disse, mas mordeu a língua em seguida, arrependida do tom rude. – Olha, eu entendo sua preocupação, mas pode ficar tranquila. Acho que essa deve ser a cidade mais protegida do mundo.
– Mesmo assim. Você está longe de todo mundo, sozinha...
– Mãezinha, acabei de chegar ao apartamento, só tive tempo de tirar os tênis, mas depois de amanhã vou ter a primeira reunião com meu chefe, não vou ficar sozinha. Prometo que vou deixar o celular ligado sempre, e sempre avisar sobre o que estou fazendo. – Prometeu.
– Vou esperar. – Falou a mãe, um pouco contrariada.
– Como estão as coisas aí? – tentou mudar de assunto, enquanto caminhava pelo pequeno apartamento, olhando a vista das janelas.
– Tudo bem. Todos bem.
– Certo. Me avise caso aconteça alguma coisa, certo? Não tentem esconder nada para não me preocupar. – Pediu.
– Tá, tá bem.
– Tenho que desligar, preciso comer, desfazer as malas, conhecer minha nova casa. – sorriu.
– Tudo bem, um beijo. – A mãe se despediu.
– Tchau, mãe.

jogou-se sobre o sofá, cansada.
Mal havia passado pela porta quando recebera a ligação de sua mãe. Entendia a preocupação de sua família, mas não era como se fosse uma caloura na arte de morar só. Sabia todos os truques, todas as táticas de segurança para mulheres que viviam sozinhas e apostava tudo que tinha que Mônaco devia ser muito mais seguro do que sua antiga vizinhança.
O novo apartamento era pequeno, duas pessoas transitando e a casa já teria sua lotação esgotada. Tinha um pequeno quarto, uma cozinha integrada a sala, um banheiro que parecia ter sido construído no tempo dos apóstolos de Jesus, e apenas isso. Nada de varanda, jardim ou quarto extra. As janelas da sala e do quarto tinham vista para os prédios vizinhos, que pareciam tão antigos quanto o dela. As cortinas eram tão antigas quanto e transparentes, não protegeriam do sol ou de olhares espiões.
encarou sua nova casa, tentando respirar o ar da cidade, que entrava pela janela aberta, imaginando como poderia deixar o espaço com sua cara. Talvez flores aqui e ali, quadros, mas sequer sabia que existiam aquele tipo de lojas em Mônaco. Tudo parecia tão caro e chique, que o único lugar a encontrar objetos decorativos que coubessem em seu orçamento seria a lojinha de souvenires do aeroporto.

❄❄❄


Era fim de uma tarde ensolarada em Mônaco, o sol era convidativo para caminhadas e o clima ameno, a brisa do mar Mediterrâneo tornava passeios pela cidade o melhor programa do dia. havia pisado pela primeira vez em terras monegascas no meio da tarde do dia anterior, e ainda não havia tido tempo para explorar a cidade, seu bairro e todo o resto.
Como terapeuta ocupacional, entendia a importância de estar conectada ao território e todos os recursos que ele oferecesse, apesar de, em seu caso, serem recursos extremamente caros. Escolheu jeans, tênis e camiseta, a primeira escolha sempre que mirava no conforto. Tentaria se parecer com francesas despretensiosas, nada de maquiagem, cabelos soltos e roupa simples, torcendo para enganar.
Caminhava devagar, olhando a paisagem, do outro lado da rua em que estava podia ver o mar, a marina com seus iates e lanchas, o sol fazendo o mar se transformar em ouro líquido bem diante de seus olhos. Passava por calçadas simples, com vasos grandes onde estavam plantadas pequenas árvores com florezinhas coloridas aos seus pés, ora palmeiras e outras plantas com folhas diferentes, tropicais. As lojas pareciam simples lojas comuns, e talvez aquele fosse o segredo de Mônaco, tudo era absurdamente caro, mas parecia não ser. Uma ao lado da outra, Gucci, Valentino, Hermés, Lalique, Prada, pareciam lojas pequenas, com a mesma cara se olhada de fora, mas não se atreveu a entrar. Tudo parecia ainda mais chique se olhado de perto, as fachadas pintadas de cores neutras, misturadas a referências neorromânticas, neoclássicas. Era cenário de filme, de um filme chique e com muitas pessoas ricas.
No bolso, a inglesa sentiu o celular vibrar, o nome de Maisie e uma foto da inglesa de cabelo castanho acendia a tela.

– Desculpe, mas a senhorita não pode atender agora? Quer agendar um horário? – brincou ao atender e ouviu a amiga rir do outro lado.
– Eu sou VIP, sua chefe não te avisou? – Fingiu, entrando na brincadeira.
– É que a lista de prioridades mudou desde que a sede se tornou Mônaco. – tentou forçar o melhor tom de tédio e indiferença.
– Você é uma desonra para a raça, ! – Maisie rosnou do outro lado, fazendo a amiga gargalhar distraída e se chocar com um transeunte qualquer que passava ao seu lado.
Pardon. – A inglesa tentou dizer em seu francês arranhado e carregado de sotaque, baixando a cabeça envergonhada. – Viu o transtorno que me causa? Atropelei algum rico agora. – Resmungou.
– Cuidado para não cair na rua e ser fotografada. – Maisie gargalhou do outro lado da linha.
– Existem tantos famosos aqui que eu duvido que alguém perceba que eu caí. Poderia ficar estirada no chão por dois anos. – Contou sorrindo. – Esse é um ponto positivo, os negativos são que eu preciso falar francês e além de não saber nada e só passar vergonha, ainda acho horrível. E todo mundo aqui parece tão rico e tão chique, nunca me senti tão pobre em toda minha vida. Hoje de manhã, olhei pela janela e do outro lado da rua, tenho certeza que era o Bono, do U2 que estava fazendo uma caminhada. E agora já é final de tarde aqui, estou andando despretensiosamente como se fosse rica e cruzei com o Novak Djokovic, o tenista. Ele estava saindo de um restaurante japonês e passou por mim como se não fosse famoso.
– É sério? – Maisie se sobressaltou, animada. – Será que é com ele que vai trabalhar?
– Não tenho ideia. – deu de ombros, enquanto olhava alguns carros caríssimos estacionados. – Mas é estranho, é como se ninguém fosse famoso ou rico, como se todos fossem normais em um mundo onde os rios são de ouro e as árvores de diamantes da Tiffany. – Brincou a terapeuta.
– Ótimo dia para encontrar um sugar daddy. – Maisie sugeriu divertida. – E o apartamento? É bom? – Quis saber, era a primeira vez que as duas conversavam depois da chegada de ao principado de Mônaco.
– Menor que o meu aí, mas bem mais caro. Ontem entregaram um piano com ajuda de um guindaste, para um dos meus vizinhos no meio da noite. – Contou.
– É o preço do sucesso, querida.
– Cada vez que erro a pronuncia do francês me pergunto se estou mesmo disposta a pagar esse preço. – sorriu, parando frente a vitrine minimalista da Prada. – Nota para quando você vier me visitar, o calor aqui é pegajoso, o ar tem sal demais e tudo é absolutamente muito caro. Ah, e claro, a água é péssima para o cabelo, muito, muito péssima. Faz vinte quatro horas que cheguei e meu cabelo já pediu clemência.
– Com esse argumento você acabou de me convencer. – Maisie riu abafado. – Quando começa a escrever sua carta de demissão?
– Eu acho que primeiro preciso conhecer minha chefe, não? – mordeu o lábio inferior, voltando a caminhar. – Vou vê-la amanhã cedo.
– Sua chefe? No feminino? – Maisie estranhou.
– É, apenas sei o último nome, tenho liberdade poética para acreditar que ela é uma mulher incrível, inteligente e que se formou em alguma das instituições mais renomadas do mundo. – sorriu, dando de ombros.
– Eu adorei, até vale a pena se for. Onde coloco meu currículo? – Maisie brincou e as duas gargalharam.



Gladíolo

Gladíolo: Esse tipo de flor pode ser encontrado com várias cores e em comum têm apenas o formato de uma espada.
Por essa razão, o gladíolo é considerado como a flor da luta, da lealdade e da fidelidade.



No faceoff os Pelicans levaram a melhor. , o capitão, recebeu de Otto Nieminen, o ala direito, e conduziu o disco rapidamente até a saída da zona defensiva do time de Lathi. se viu perto demais de um dos defensores do time rival, teve tempo suficiente para lançar o disco para Topi Jaakola, um dos defensores do Pelicans, antes que fosse empurrado com violência contra a proteção, causando um grande estrondo. acompanhou com o olhar Topi passar o disco para Aleks Haatanen, ala esquerda, que o conduziu, cercado por três jogadores rivais até o final da zona neutra.
Ao entrar na zona ofensiva, Aleks encontrou Otto Nieminen à sua direita, um pouco adiantado e sozinho, à sua esquerda dois rivais e atrás deles, o capitão. Aleks deu um tiro certeiro na direção de Otto, que recebeu bem o disco e avançou a toda velocidade em direção ao gol. O ala era seguido de perto por todo time rival, mas nada foi suficiente para impedir o tiro único e certeiro do jogador finlandês, que acabava de marcar um short-handed. Ponto para os Pelicans. Foi o que disseram no alto-falante da Isku Arena. estava preso com seu taco engatado no de um jogador defensivo rival, o capitão não viu o gol, mas ouviu a comemoração dos amigos e ergueu o olhar para o telão no teto, e quando entendeu o que acontecia, ergueu seu taco e comemorou.

– Wo-hoo! – Gritou, apressando-se em se aproximar dos companheiros de time, com um sorriso grande nos lábios.

se juntou a Otto Nieminen, Aleks Haatanen, Topi Jaakola e Matias Rajaniemi, que se abraçavam no canto do gelo, enquanto We’re gonna win, de Bryan Adams tocava nos quatro cantos da arena.

– Bom trabalho, irmão! – Aleks parabenizou e gritou o mais alto que pode em seguida, fazendo os companheiros do time rirem alto.
– Eu amo vocês, pessoal! – O capitão gritou também, bateu a cabeça contra a de Otto Nieminen. – Wo-hoo! Isso foi incrível, Otto!
– Bom trabalho, pessoal! – Matias também comemorou.
– Obrigada, pessoal. – Otto celebrou.

Enquanto a arbitragem se preparava para o novo faceoff para que a partida recomeçasse, a linha dos Pelicans era trocada. ainda sorria com leveza enquanto deslizava até o banco.
– Wo-hoo. Isso foi incrível. – Ainda comemorava ele.

O capitão se juntou ao banco de reservas, cumprimentando os companheiros de time que entravam em seus lugares.

– Que grito, huh, Aleks? – riu.
O grito, vadia. – Haatanen devolveu, sem prestar muita atenção no capitão, que abriu a boca, chocado, para em seguida sua expressão se transformar em um sorriso malicioso.
– Meu Deus, isso foi tão sujo...– provocou, acompanhando a movimentação do amigo com os olhos, mantendo o sorriso sujo.
– É o que você merece. – Aleks retorquiu.
– Sabe, eu tenho a melhor coisa que você provavelmente vai ver bem aqui. – implicou e o amigo respondeu lançando sobre ele uma toalha encharcada de suor.

Três para o Sport Vaasa e quatro para os Pelicanos de Lathi, dez minutos era o tempo que faltava para o fim do terceiro período. Os pontos da noite tinham sido feitos por: Topi Jaakola, o defensor havia aberto o placar nos primeiros cinco minutos do primeiro período. Em seguida, dois jogadores do Vaasa, e o primeiro período terminou com vantagem para os visitantes.
O segundo tempo fora marcado por pontos de Waltteri Merelä, o ala da segunda linha havia acertado a rede duas vezes, trazendo o empate para o time da casa. Mas nos últimos segundos do segundo período, o Vaasa conseguiu um empate milagroso, deixando a decisão para o terceiro período. Três a três.
Agora, após o acerto de Otto Nieminen, a linha era formada por Miika Roine, ala esquerda, Janos Hari como central e Waltteri Merelä como ala direita, Santtu Kinnunen e Mikko Kousa da defesa estavam no gelo. O entrosamento entre os jogadores daquela linha era admirável, e certamente dificultava a vida dos defensores rivais.
Waltteri Merelä estava inclinando para frente, segurando o taco com firmeza, olhos no árbitro prestes a lançar o disco, preparado para uma resposta motora rápida e eficiente. O disco mal tocara o gelo, num movimento ágil, Waltteri o direcionou para Janos Hari, que esperava mais atrás. Hari tentou levar o disco até o canto esquerdo do gelo, na zona neutra, mantendo a posse, mas fora espremido contra a proteção por três jogadores rivais, até que Santtu enfiasse seu taco entre eles e conseguisse puxar o disco. O defensor guiou o disco por uma grande extensão, passando por trás do goleiro e escapando de um encontrão bruto com outro jogador que tinha como objetivo lança-lo contra a proteção. Os movimentos precisavam ser rápidos e calculados, precisava desviar da fúria dos jogadores rivais enquanto encontrava um companheiro livre.
Ao redor do goleiro estava uma confusão pelo lado direito, todos os dez jogadores de linha estavam aglomerados ali, se acertando com seus tacos, cercando Santtu. Mas um pouco atrás, pela esquerda, Waltteri estava livre e fora do campo de visão do goleiro e dos jogadores rivais.
Santtu usou toda destreza que tinha para passar o disco para o ala, mesmo sendo jogado contra a proteção no ato. Waltteri recebeu e com apenas um movimento, atirou o disco no fundo da rede, sem qualquer chance para o goleiro, que caiu no gelo derrotado. Cinco a três.

– Yeah! – Waltteri comemorou, erguendo o taco e correndo em direção aos companheiros.
– Você é o cara! Você é o cara! – Santtu gritou, abraçando o amigo.
– Bom trabalho, pessoal! Bom trabalho. – Janos parabenizou enquanto Bryan Adams ressoava em seus ouvidos outra vez.

Merelä deslizou até o banco de reservas, e com a mão erguida tocou rapidamente as mãos dos companheiros que ali estavam. Muitos já sentados sobre o muro, aguardando para entrarem no gelo.
– Esse foi dos bons! Woo! – gritou ao cumprimentar Waltteri, que sorriu e tomou seu lugar no banco, enquanto ia para o gelo em seu lugar e o jogo recomeçava.

❄❄❄


O Lathi Pelicans era mais do que apenas um time de hockey de uma cidade no sul da Finlândia, era uma família, uma ideia, um legado. O time profissional finlandês integrava a Liiga, a Liga de Elite Finlandesa, principal liga profissional de hockey no gelo da Finlândia e uma das seis ligas fundadoras da Liga dos Campeões de Hockey, o torneio das principais equipes das ligas de primeira linha de países de toda a Europa.
O Pelicans fora fundado em 1891, como Viipurin Reipas, em Viipuri cidade russa localizada na divisa entre Finlândia e Rússia. Após a Guerra de Inverno, entre a Finlândia e União Soviética, disputando o controle sobre a cidade, que surgia como um importante porto e a quarta maior cidade da Finlândia, Viipuri foi tomada pela União Soviética.
Durante a Guerra de Inverno, mais de setenta mil pessoas foram evacuadas de Viipurin para outras partes da Finlândia. A Guerra de Inverno foi concluída pelo Tratado de Paz de Moscou, que transferiu Viipurin e toda Carélia ao controle soviético, e mais uma vez os finlandeses que ainda estavam na cidade eram evacuados para outras regiões do país. A revolta dos evacuados fomentou sua união e formação de uma importante força política que buscou apoio da Alemanha nazista contra a União Soviética. Como resultado, a Finlândia e a Alemanha nazista lutaram do mesmo lado na Segunda Guerra Mundial.
Em 1941, Viipurin foi capturada pelas tropas finlandesas, e o governo da Finlândia anexou formalmente a cidade junto com as outras áreas perdidas no Tratado de Paz de Moscou. No entanto, esta anexação não foi reconhecida por nenhum estado estrangeiro, nem mesmo pela Alemanha.
Mas na Guerra de Continuação, entre a Alemanha Nazista e Finlândia contra a União Soviética, a cidade voltou ao domínio finlandês.
Em 1942, cerca de 70% dos evacuados da Carélia finlandesa já haviam retornaram após a reconquista para reconstruir suas casas saqueadas, mas foram novamente evacuados após a ofensiva soviética do Exército Vermelho. No Armistício de Moscou, de 19 de setembro de 1944, entre Finlândia, Reino Unido e União soviética, encerrou-se a Guerra da Continuação, restaurando o Tratado de Paz de Moscou. A Finlândia retornou às fronteiras estabelecidas pelo Tratado de Paz e cedeu mais terras do que o tratado originalmente exigia. E com o tratado de paz de Paris de 1947, a Finlândia renunciou a todas as reivindicações de Viipurin.
Assim, o time de hockey fundado em 1891, com as guerras foi forçado a se mover dentro das fronteiras finlandesas. Em 1945, o Viipurin Reipas mudou-se oficialmente para Lathi, a nova cidade natal dos evacuados de Viipurin.
E desde lá, a equipe havia passado por intensas transformações, mudanças no nome, rebaixamentos, retorno ao grupo de elite, problemas financeiros, declínios, êxodo de jogadores para ligas estrangeiras, principalmente a NHL, uma liga nacional com times dos Estados Unidos e Canadá.
Durante a temporada de 2018-19, os Pelicans alcançaram sua segunda posição e total de pontos mais altos em sua história, terminando em terceiro lugar, com cento e quatro pontos. Classificando-se para a Liga dos Campeões de Hockey pela primeira vez. No entanto, os Pelicans ficaram desapontados nas quartas de final, com uma eliminação pelo HIFK. Na Liiga, na temporada de 2019-20, a equipe começou a cair gradualmente na classificação após um início promissor e, finalmente, após uma decepcionante sequência de apenas quatro vitórias em dezesseis jogos, o técnico fora substituído por Petri Matikainen, o homem responsável por levar o time quase a glória na temporada anterior.
Mas a equipe ainda se mantinha com seu principal problema, financiamento. A saída encontrada fora a venda de ações da equipe para grandes investidores finlandeses e amantes do esporte, atletas aposentados e cidadãos ilustres do país. Estava funcionando. Na temporada de 2021–22 a equipe estava forte, jogadores formados no time agora voltavam com mais experiência. Quanto ao investimento recebido, os Pelicans de Lathi estavam entre os cinco times mais ricos da Liiga, com maiores investimentos na infraestrutura. Se na temporada anterior, os azuis conseguiam uma vitória a cada dez jogos, agora os números eram de aproximadamente oito vitórias a cada dez partidas.
De maneira isolada, os números do elenco formado por Lauri Pöyhönen, o diretor-gerente e Petri Matikainen, o treinador, eram ainda mais animadores. O goleiro principal, Atte Tolvanen, tinha recordes impressionantes e estava entre os cinco goleiros menos vazados na temporada. Durante a atual temporada, dos vinte e três jogos disputados, em quinze o time de Lathi saiu vitorioso, perdeu em cinco das partidas e venceu três no over time ou shoot out . Distribuídos entre as linhas estavam as outras joias da coroa dos Pelicanos. Aleks Haatanen, Waltteri Merelä, Santtu Kinnunen e . Os quatro jogadores de linha eram, sem dúvida as maiores estrelas na nova fase do time. O defensor Santtu Kinnunen, depois de uma temporada no Florida Panthers retornou a equipe com excelentes números, seis gols e nove assistências, além de armar ótimas jogadas e ser brilhante no quesito roubo de disco.
O ala direito, Aleks Haatanen também era um dos nomes que mais apareciam nos noticiários e colunas de esporte sobre o assunto. O jogador de vinte e um anos era o que muitos chamam de garçom, suas assistências eram precisas e poucas eram as vezes em que o jovem não conseguia domínio sobre o pequeno disco preto. Na conta de Haatanen estavam treze gols e o surpreendente número de dezoito e oito assistência na temporada. Mas se Aleks era o garçom, não havia cliente mais satisfeito que . O central e capitão do time tinha em sua conta vinte e cinco gols e quinze assistências. era detentor de inúmeros recordes em sua carreira, era o jogador com recorde de mais pontos consecutivos em uma sequência de jogos fora de casa, estava entre os maiores pontuadores da Liiga. Era um jogador forte, do alto de seus um metro e noventa e um, com quase cem quilos de músculos, era de muita eficiência nos combates corpo a corpo pelo disco, além de organizar jogadas limpas e efetivas. No mundo ou na Finlândia, todos os olhares estavam voltados para o pivô de Lathi.
E se era uma estrela fixa ao firmamento do time, outra despontava no oriente, Waltteri Merelä. O ala direito era a aposta do time para o retorno aos playoffs, e cumpria bem seu papel, com dezessete gols. Waltteri se movia bem pelo gelo, mas destacava-se principalmente por sua velocidade, e acompanhado por Santtu, a dupla não costumava perder chances de contra-ataques ou gols em short-handed. Com um elenco tão misto e estrelado, muitas eram as histórias sobre competitividade entre os jogadores, rixas entre os centrais ou entre as principais estrelas. Era tudo mentira, mas o assunto constantemente aborrecia o time nas entrevistas após os jogos.

– No jogo de hoje Waltteri Merelä marcou três vezes, enquanto esse foi seu quinto jogo sem marcar. Como você enxerga isso?
– Vejo como uma vitória para o time. – respondeu de forma direta.

Por mais extrovertido e bem-humorado que fosse com o time ou em sua vida pessoal, diante câmeras o central adotava características que lhe renderam o apelidos de homem de gelo, sempre inabalável, pouco expressivo e direto.
O responsável pelas assessoria de imprensa do time apresentou outro jornalista, que se ergueu para fazer um pergunta.

, como você julgaria a nova conformação de hoje. Diria que as mudanças de linha fizeram diferença na partida de hoje?
– Conseguimos boas chances...– Hesitou enquanto pensava. – Aah...e alcançamos a zona de ataque muitas vezes. Foi um jogo bem rápido...bem forte...aah...acho que é cedo para dizer o que funcionou ou não. – Falou ele, levando a mão até o boné, coçando a lateral da cabeça por cima do tecido. – Temos mais jogos para testar.

Dizendo isso, o atleta se despediu com um aceno de cabeça e se afastou dos jornalistas. No corredor estavam alguns outros jogadores, aguardando por sua vez de participar da coletiva de impressa.

– Atte. – Alguém chamou o goleiro, que seria o próximo.

Atte cumprimentou o amigo quando se cruzaram no corredor, virando a aba do boné de para trás, despertando um sorriso leve na feição marmorizada do central.

– Bom jogo. – cumprimentou Waltteri, que também aguardava por sua vez. – O último foi uma jogada ótima. Achei que Santtu tentaria avançar e tentar um tiro.
– Eu também. – Waltteri assentiu sorrindo. – Sabe, eu estava quase atrás do gol, não sabia se ele conseguia me ver. Tinha toda aquela confusão na frente dele. – Merelä explicou, gesticulando com as mãos.
– Mas ele te viu? Pensei que fosse um rebote. – Comentou .
– Viu, nós treinamos jogadas assim depois do último jogo. Levamos dois assim, goleiro adiantado e alguém livre no ponto cego. – Contou.
– Claro. Eu me lembro. Três a seis, perdemos. – Lembrou o central, com uma careta frustrada.
– Eu tenho pesadelos até hoje com aquele uniforme vermelho. – Waltteri riu nasalado.
– É, mas agora eu aposto que para cada pesadelo que teve, o Sport Vaasa terá três a mais com você. – Brincou , terminando a frase com uma gargalhada, acompanhada por Waltteri.

❄❄❄


– Aí vem ele! – e Aleks ergueram os copos de cerveja quando perceberam a aproximação de Atte Tolvanen, que enfim havia chego ao bar.
– Demorou tempo demais arrumando o cabelo hoje, Atte. – Aleks zombou.
– Espero que tenham pedido uma cerveja para mim. – O goleiro resmungou ao se sentar na mesma mesa que os dois estavam, nos fundos do bar.
– Viemos vestidos em sua homenagem. – abriu um sorriso, estufando o peito para que o amigo pudesse reconhecer sua marca estampada no moletom que usava, e Aleks fez o mesmo. – INTO Scandinavian Clothing estampado em nossos corações.

Atte baixou os ombros e riu abafado.

– Eu amo vocês. – Declarou.
– Sabemos disso. – Aleks piscou, erguendo a mão para um garçom. – Tudo para ajudar os amigos.
– O que vocês fizeram? – Atte ergueu uma sobrancelha.
– Como assim? Nada. – uniu as sobrancelhas, jogando sutilmente a cabeça para trás.
– Por que acha que fizemos algo? Saímos do mesmo lugar que você. Do jogo. – Aleks alegou ao mesmo tempo em que uma caneca de cerveja era deixada sobre a mesa, para Atte.
– Porque conheço meus inimigos. – Atte os analisou com olhos estreitos, enquanto os outros dois trocavam olhares divertidos e bebiam suas cervejas. – E vocês não são nada confiáveis.
– Irmão, relaxe. – piscou, esticando-se para tocar o ombro de Tolvanen. – Estamos em um bar, depois do jogo em que você foi brilhante, tomando nossa cerveja e usando as roupas da sua marca. Tudo está perfeito.
– É, não é como se algum de nós estivesse querendo sair com a sua irmã. – Aleks deu de ombros.
– Vocês estão querendo sair com a minha irmã? – O goleiro arregalou os olhos, quase cuspindo a cerveja que bebia.
– Não. Não. Tô não. – negou rápido com a cabeça.
– Não fiquei tímido, . – Aleks piscou para o central. – Sabe como ele é travado com essas coisas, não sabe? – Perguntou a Atte.
– Olha, , nós somos amigos há anos e tal...mas a minha irmã...– Atte inclinou-se sobre a mesa, tentando ser o mais respeitoso que conseguia naquela situação.
– O que? Claro que não. – também se aproximou da mesa. – Eu não quero sua irmã, Atte. – Falou com certo desespero na voz, com sobrancelhas erguidas. Com a mesma expressão que alguém com alergia a frutos do mar deve ter quando insistem que ele prove um prato com camarão. – Nada contra, mas não quero não.

Atte estreitou o olhar encarando , depois procurou Aleks, que assistia a cena com um sorriso quase demoníaco no rosto e os observava por debaixo das sobrancelhas.

– Não é estranho que um quase adolescente toque o terror na gente? – Atte franziu o cenho, apontando com o polegar para , que tinha os lábios repuxados em uma careta impaciente para Haatanen.
– Quase adolescente, não. – Aleks ergueu um dedo. – Tenho vinte e um anos.
– Devíamos sair com pessoas da nossa idade. – rolou os olhos e Atte assentiu, enquanto Aleks virava de uma vez o conteúdo de seu copo e erguia a mão, chamando sorridente ao garçom.

A amizade quase improvável nascera quando Aleks Haatanen se tornara profissional, alguns anos antes. Atte e tinham dois anos de diferença, mas na prática aquilo não significava nada, os dois eram amigos desde a infância, quando os pais de se mudaram de Viipurin, na Rússia, para Lathi, na Finlândia. Desde a escola os amigos eram inseparáveis, fosse nos jogos de hockey, nos banhos na água congelante do lago ou em qualquer coisa que fizessem. Onde estava , estava Atte. Por obra do destino, os dois estavam juntos mais uma vez, jogando no time da casa e fazendo história entre as paredes da Isku Arena.
Quando Haatanen passou a integrar o time profissional, e Atte o acharam peculiar, diferente dos outros. Aleks era desinibido, não tinha qualquer bom senso ou senso de ridículo, um humor complexo e perigoso e uma habilidade invejável com o taco. A dupla não teve o que todos chamam de poder de escolha, Aleks era fã de , a presença do central no time fora o ponto decisivo para que o ala acertasse com os Pelicanos. Do dia para noite Aleks se tornara sombra da dupla, seguindo-os em todos os lugares, no gelo ou fora dele.
Primeiro, à força, mas depois era como se a dupla sempre tivesse sido um trio. Aleks era cinco anos mais jovem que e sete anos mais jovem que Atte, isso fazia do jogador uma espécie de irmão caçula pentelho e super sádico. O sadismo que faltava nos outros dois era abundante no mais jovem. Atte era mais sério, estava preocupado com seus investimentos, sua marca, a carreira, seus estudos e tudo que pudesse lhe ajudar a se tornar uma pessoa melhor. era o que muitos chamam de cão do trio, era doce, carinhoso, sempre empolgado com tudo que os amigos faziam, embora diante câmeras ou para assuntos que envolvessem o trabalho, tivesse criado uma casca protetora com o passar dos anos.
Talvez as características dos três, combinadas entre si fosse o que fazia tão sólida aquela amizade.

❄❄❄


lançou o galho o mais forte que conseguiu, para perto da margem do lago e assistiu Felix, seu cão e amigo, correr para busca-lo. Era uma das coisas que mais gostava de fazer nas folgas, passear com seu cão, aproveitando a natureza exuberante de Lathi nas trilhas, perto do lago. Não havia nevado ainda, apesar do clima frio, e Felix mal podia passar meia hora sem destruir um móvel ou um tênis, a saída era os passeios. Não que reclamasse, também amava passar algum tempo longe do celular, emaranhado entre o silêncio da natureza e a algazarra de seu cachorro. O Aussie Bernedoodle de quase um ano tinha temperamento dócil, pelagem preta e branca e era fruto do isolamento durante a pandemia de Covid-19. mal piscara e Felix estava de volta com seu galho meio encharcado. se abaixou, acariciando a cabeça do animal, recebeu o galho e o lançou outra vez, mas agora em outra direção, mais para perto do bosque. Ainda tinha o olhar preso ao cachorro quando seus ouvidos captaram o som característico do motor de uma caminhonete conhecida. virou o rosto para a estrada, Atte se aproximava devagar, usava boné e tinha um braço apoiado a janela de modo despreocupado.
o assistiu estacionar de qualquer jeito, descer do carro e caminhar até ele com as mãos dentro dos bolsos frontais do moletom cinza de sua marca que usava. Enquanto se aproximava, Felix retornou com seu galho, entregando-o ao dono.

– Felix te trouxe para passear? – Atte brincou ao se juntar ao amigo, baixando-se um pouco para acariciar o cão, que pulava em suas pernas.
– É dia de folga. – sorriu fraco, baixando a cabeça. – O que faz aqui? Achei que tivesse muito trabalho hoje.
– Eu tinha. – O goleiro deu de ombros. – Mas fiquei entediado, resolvi dar uma volta. Fui até sua casa e quando não te achei, imaginei que estivesse aqui.
– Pois é. – concordou, em seguida atirou o galho para longe outra vez.
– O que você tem feito nas folgas? – Tolvanen perguntou quando se pôs a acompanhar que caminhava devagar na direção que havia lançado o galho.
– Sei lá. – O central deu de ombros. – Acho que estou sempre tão ocupado com o trabalho, que quando tenho algum tempo sozinho quero aproveitar para fazer vários nadas.
– Defina nada. – Pediu o outro sorrindo.
– Ah...– Hesitou. – Assisto coisas que gosto, cozinho, aprendo coisas novas.
– Seus hobbies de obsessão? – Atte provocou, empurrando-o pelo ombro e sorriu.
– Não deixam de ser hobbies. – Falou, abaixando-se para receber o galho trazido por Felix, mas não o lançou. – Mas, e você? Está tão sem trabalho que resolveu se preocupar com o meu tempo livre?
– Estou precisando de inspiração para a próxima coleção. – Confessou o goleiro.
– E achou que fosse encontrar em mim. – sorriu inflando as bochechas.
– Não, seu estilo é colorido demais. Esses chapéus, as estampas, é meio adolescente que faz sucesso no Tiktok. – Apontou Atte, para o moletom roxo e o bucket hat da mesma cor que o central usava, e o lançou um olhar ofendido. – É só a verdade, companheiro. – Piscou. – Eu gosto de coisas mais neutras, minimalistas.
– O que você quer então?
– Conversar com meu melhor amigo, liberar a mente para que minha criatividade volte a florescer.
– Você fala como um coach. – implicou.
– Tecnicamente eu sou, fiz um curso. – Respondeu Atte, e o amigo o acertou com o cotovelo nas costelas, fazendo o goleiro rir. – Quando foi que ficou tão antissocial, ?
– Eu não lido bem com coachs. – Brincou ele. – Nem com goleiros.
– Você está muito estressado. – Atte apoiou as mãos nos ombros do amigo, sacudindo levemente. – Aleks e eu tivemos uma conversa. – estreitou o olhar ao ouvir aquela frase. – Você devia arrumar uma namorada.
– Ah, não. – apressou o passo. – Não. Nem comece.
– Aleks diz por farra, pura diversão, mas eu não posso discordar dele. – Atte tentou acompanha-lo. – Já faz quanto tempo desde a última vez?
– Não importa quanto tempo faça. Eu não estou disponível. – disse pausadamente. – Meu foco é outro, não preciso de relacionamentos me distraindo.
– Você não pode viver para o trabalho, também. – Atte parou de andar. – Principalmente aqui. – o imitou, e devagar, depois de respirar fundo, voltou-se para o amigo.
– O que você quer dizer?
– Você sabe. – Tolvanen se aproximou. – Sabe que devia estar na NHL há muito tempo. Sabe que por mais que o Pelicans seja o time no nosso coração, não dá para ficar aqui para sempre.
– Ah, para...– desviou o olhar.
– É sério, parceiro. – Tolvanen apoiou uma das mãos nos ombros de outra vez, a fim de capturar sua atenção. – Não quer se abrir a vida, a novos relacionamentos por estar focado no trabalho? Tudo bem, posso entender isso, embora não concorde. Mas aí vai precisar se concentrar realmente no trabalho.



Íris

Íris: A íris é considerada como a flor da fé, do recomeço e da esperança.



se apoiou a parede da academia para tentar retomar minimamente o ritmo de sua respiração. O treino havia sido intenso demais e se sentia realmente cansado.
– Você devia ter acompanhado a lesão comigo e com o pessoal da equipe, não com profissionais externos. – Antti, seu preparador e amigo falou, atirando sobre ele uma toalha.
– Eu sei disso, você já disse, mas eu não estava aqui, estava lá. – Explicou o piloto, enxugando o rosto. – Foi lá que levei os pontos, tirei os pontos...não vi problema. Foi tudo muito discreto também. Só houve esse episódio...– Riu abafado com a lembrança.
– Hoje em dia qualquer pessoa que pensa entender de Fórmula Um acha que está capacitada para falar. – Antti Vierula, finlandês, amigo íntimo e preparador físico de , torceu os lábios em reprovação.
– É, no início eu fiquei um pouco desconfortável, mas achei que não teria nada de mal em ouvi-la, mas as coisas mudaram de caminho rápido demais. – Disse o piloto.
– É por isso que eu sempre digo para evitar profissionais externos, somente em casos de necessidade. Quem essa mulher pensa que é para falar aquilo? Como se você fosse algum tipo de frouxo...– Antti balançou a cabeça negativamente e encarou o chão. – Eu tenho uma equipe, tenho profissionais para isso. Para auxiliar você a ser o melhor sempre.
– É, e eu agradeço. – sorriu educado, sem mostrar os dentes, pegou uma garrafa de água e foi até a janela, observar a vista para o mar Mediterrâneo.
– Aliás, eu preciso apresentar a você uma pessoa que vai trabalhar com a gente agora. Na verdade, não sei se vocês vão se ver muito, ela vai ficar com o time de hockey, como combinamos...

Antti dizia, mas não prestava tanta atenção, preferia se concentrar nas cores diferentes que o céu tomava, tons de rosa, laranja e azuis, misturados numa aquarela brilhante. Era início da manhã e a grande Mônaco ainda não estava tão movimentada quanto costumava ser algumas horas mais tarde. Estavam em um local com vista privilegiada para o mar, a marina e os barcos. Se olhasse bem, podia encontrar seu barco no ancoradouro, junto a outros semelhantes a ele na cor e tamanho.
Constantemente se cansava do barulho da carreira, das luzes e flashes, e sempre que isso acontecia, se refugiava no barco por alguns dias ou horas. No mais completo silêncio, apenas o mar e seus pensamentos, nada do ritmo acelerado de todos os dias. Ainda com olhar preso à marina, percebeu que Antti não falava mais, e ouviu a porta ser aberta. Instantes depois duas vozes se misturavam, a de Antti e uma que lhe era um pouco familiar. O piloto lamentou quando Antti o chamou para o apresentar a quem quer que fosse, porque se pudesse decidir, ficaria observando aquela vista pelo resto do dia.
O deu um longo gole em sua garrafa de água e secou o rosto mais uma vez, girando em seu próprio eixo e deu alguns passos, para encontrar a figura desconhecida.

– Não. – Disse num ímpeto. – Não, você não. – Ele arregalou os olhos, completamente chocado.
? – Antti indagou confuso, o encarando com as sobrancelhas juntas.
– O-ou. – mordeu o lábio inferior com força, sentindo o estômago gelar.

Não precisava que explicassem, sabia exatamente o que estava acontecendo. Por alguma pegadinha do destino, que àquela hora devia estar dando risadas as custas dos dois, e estavam novamente frente a frente.
Para , o dia que tinha tudo para começar maravilhosamente havia se transformado em uma série de infortúnios. O infortúnio número um: Vierula, seu chefe, era um homem e não uma mulher; o número dois: aparentemente seu principal cliente e chefe era ninguém menos que o finlandês presidente do clube de seus odiadores, possivelmente a pessoa que mais detestava no mundo. Mas diferente do dia infeliz na clínica, tinha os cabelos arrumados e não usava toda aquela parafernália de proteção, vestia suas roupas comuns, jeans, um suéter chique que fora presente de natal e uma máscara de cor neutra, nada de estampas ou roupas estranhas. Parecia uma mulher de respeito, do cabelo arrumado até a ponta de sua bota, não entendia como o piloto a podia reconhecer.
– O que aconteceu? Vocês já se conhecem? – Antti questionou, olhando de um para o outro, perdido.
– Espera, como você sabe que eu sou...eu? – quis saber, tocando o próprio peito.
– Os olhos. – respondeu, ainda sério e um pouco desconfortável.
– Nossa, você se lembra dos meus olhos? – repetiu surpresa e agitada, não conseguindo conter um suave sorriso que se formou em seus lábios. Mas desviou o olhar rapidamente, não dando importância a ela.
– Ela...é ela...– O piloto hesitou. – A mulher que eu te falei. Da clínica na Inglaterra. – Contou e apertou os olhos, encarando o chão, tentando pensar em maneiras para ter seu antigo emprego de volta.
– A mulher que disse que você era frouxo? – Antii encarou com olhar fulminante.
– Ei, não disse isso. – A terapeuta se defendeu, unindo as sobrancelhas. – Não disse, disse muitas coisas, mas isso não.
– É, ela não usou essa palavra. – concordou, levantando o ombro e maneando a cabeça.
– Eu estou resumindo tudo que ela disse em apenas uma palavra. – Vierula acusou, cruzando os braços sobre o peito.
– Mas está resumindo errado, eu jamais diria isso sobre ele. – tentou se defender de novo.
– Não importa. – O homem deu de ombros. – Entendo que não queira trabalhar com ela, ...vamos resolver isso da forma mais rápida. – Disse ao piloto e depois se voltou para com expressão severa. – Eu e você. – Falou, apontando para , que arregalou os olhos assustada.
– Como assim? Do que você está falando? – O piloto franziu o cenho, alarmado.
– Não vejo como ela pode continuar integrando nossa equipe.

Ótimo, , brilhante, conseguiu, pensou ela. Será que entro para o livro dos recordes com essa demissão?

– Tudo bem, não precisa ser tão...duro. – amenizou. – Ela já me pediu desculpas, e de qualquer forma, não vai trabalhar comigo. Não vai, não é? Não vamos trabalhar juntos? – Quis se certificar e o encarou, chocada com o temor estampado no rosto sem máscara do finlandês.
– Não, ela ficaria com os Pelicans, na Finlândia. – Antti deu de ombros, coçando o queixo.
– Finlândia? – repetiu erguendo as sobrancelhas e permitindo que seu queixo caísse, encarando os homens que apenas a ignoraram.
– Não pode demiti-la. Isso nem seria justo. – argumentou. – Não foi nada tão sério a esse ponto, de todo jeito.
– Finlândia. – sussurrou para si mesma, encarando o chão e tentando se convencer de que tudo era um grande erro ou pegadinha.
– Mesmo depois de tudo...não sei, acho que isso pode gerar algum problema no time. Muitos comentários. – Antti sussurrou, fingindo se importar com o fato da terapeuta estar o escutando.
– É uma fã, é normal. – lembrou. – Ela fica lá em Lathi, com os Pelicans e eu aqui, com você. Tudo resolvido. Não precisamos causar problema.
– Ela é boa e foi bem recomendada, talvez você tenha razão. – Antti ponderou, observando a inglesa pelo canto dos olhos. – Tudo bem, , você fica. Graças a generosidade do .
– E eu devia agradecer? – soou mais sarcástica do que planejara, ainda estava estática com o efeito que a palavra Finlândia lhe causara.
– Talvez...seria educado. – devolveu, surpreso pelo tom da mulher.
– Obrigada, senhor . – fingiu sorrir. – Mas espera aí. Eu acho que entendi errado, você não disse Finlândia, disse? – Sorriu nervosamente, mesmo que coberto pela máscara e viu os dois homens se entreolharem.

❄❄❄


– Calma, não surta. – Louis pediu, tentando acalmar a amiga ao telefone. – Respira fundo, devagar.
– Eu não quero respirar, Louis. Eu quero cometer um assassinato! – gritou, chutando o sofá azul da sala. – Eu quero tortura-lo, cortá-lo em pedacinhos com uma faca cega, até que ele morra de dor.
– E aí iria para a cadeia. Não é uma forma muito inteligente de gastar o réu primário. – O médico tentou brincar.
– Eles pensam que sou um tipo de brinquedo? Que podem jogar de um lado para o outro? Quer dizer, primeiro Mônaco, e agora por um capricho daquele babaca, eu vou ter que ir para a Finlândia? – estava revoltada, irada, com sangue nos olhos após a reunião com seus novos chefes. Por sorte, antes que fizesse alguma besteira, Louis ligou. – O que eu vou fazer na Finlândia? Por que ele só não me demitiu?
– Não tenho essa resposta, bonitinha. – o médico tentou amansar a amiga, usando de seu tom mais doce. – Talvez não quisesse ser processado, ou tivesse medo de você ir a imprensa.
– Eu devia mesmo ir. – choramingou de ódio, enquanto chutava o sofá outra vez, depois se jogou nele, cansada de viver.
– Escuta, você pode deixar isso para lá, também. – Disse o médico. – Pode fingir que nada aconteceu, se demitir e voltar para nós.

Por alguns segundo a terapeuta considerou aquela questão. Não precisava admitir um riquinho babaca e seu preparador lhe dando ordens, mandando e desmandando sobre sua vida sem qualquer empatia, não tinha que se sujeitar a isso. Mas ao mesmo tempo, antes de se mudar para Mônaco havia assinado um contrato, vendido suas coisas e entregado seu apartamento. Caso decidisse voltar, não teria um lar para o qual voltar.
Teria que viver com Maisie e Louis por algum tempo, ou pior, voltar para a casa dos pais e começar tudo outra vez, todo progresso de cinco anos jogado no lixo. E ainda precisaria lidar com os olhares, com os comentários que fariam, “eu te avisei”, “sabia que aceitar emprego em outro país não seria uma boa ideia”, “se tivesse me escutado...”, “dissemos que não ia dar certo”.

– Definitivamente não. – falou com os olhos arregalados, apavorada com os comentários que se formavam em sua mente. – Não. Eu não vou voltar atrás, não posso. Nunca. Não. Eu posso lidar com e Antti Vierula me dando ordens no sigilo, mas não com os olhares da minha família, das pessoas que conheço.
, ninguém vai te julgar. – Louis tentou convencê-la. – Você não pode fazer uma coisa que não quer apenas por medo do que as pessoas vão pensar.
– Quem está na chuva é para se molhar, não é? – A inglesa tentou disfarçar.
– Você pode ficar na minha casa, ou na casa da Maisie. Podemos até arrumar um canto no almoxarifado da clínica para você, se quiser. – Brincou ele. – Não vai ser uma caminhada da vergonha.
– Vai, você sabe que vai, no fundo sabe. – esfregou os olhos com as costas da mão livre, depois tentou ajeitar os cabelos. – Eu não vou voltar atrás, Louis. Não posso.
– Não me parece uma boa ideia. – O médico fez um barulho contrariado com a boca. – Não precisa aceitar por orgulho. Pense bem, é um país mais longe, com um idioma que você não fala, costumes diferentes.
– Eu posso aprender, como estava tentando aprender francês. – Alegou.
...não pode fazer algo que não quer apenas por não querer desapontar pessoas, ou por buscar validação e aprovação.
– Quando virou meu terapeuta? – Ela riu, tentando contornar a situação. – Eu tô bem, Louis. Sério. Só estou com raiva, mas vou ficar bem. Vai passar e eu sei me cuidar. Sempre fui independente, isso não vai mudar agora.

mal podia acreditar no que estava acontecendo, parecia um pesadelo bizarro e sem fim. Primeiro, se mudar para outro país com língua e hábitos completamente diferentes, passando por todo tipo de perrengue existente; segundo, quase ser demitida no primeiro dia por questões antigas com seu chefe e que agora era seu mais novo piloto mais odiado na Fórmula Um; terceiro, ser obrigada a se mudar para um iglu na Finlândia se quisesse continuar empregada ou lidar com os olhares estreitos e caretas de desaprovação da família.
Teria que refazer a mala, se despedir da casa que estava se esforçando para amar, arrumar tudo de novo e ir para outra casa qualquer, sem nem ideia do que iria encontrar. Fora informada antes de sair da presença dos chefes, que a equipe de Antti prepararia um apartamento para ela, assim como prepararam em Mônaco. Mas o problema não era esse, era sequer saber que raios tinha na Finlândia, não sabia nada do país, não sabia seu idioma, seus costumes, um grande zero. Sentia-se tão frustrada e irritada que parecia prestes a chorar, tudo parecia dar errado. Em menos de setenta e duas horas sua vida tinha virado de cabeça para baixo, como se dentro de um liquidificador sem tampa, batendo enlouquecidamente e espirrando coisas para todo lugar.
Parte sua, uma parte que a terapeuta gostaria de enforcar se pudesse, estava chocada e feliz por ter a defendido de seu novo chefe carrasco e não a ter demitido, por ter se lembrado de seus olhos. Mas outra parte, a mais inteligente e sensata, estava completamente desapontada por ser forçada a se mudar para, literalmente, o fim do mundo apenas para não incomodar um homem. Aquilo era demais para uma fã aguentar, muito além do que era demais, na verdade. Jamais poderia imaginar que seu piloto favorito fosse alguém tão imaturo, tão mimado a ponto de exilá-la em outro país longe o suficiente para que não a visse mais.

– Só pense com calma, tá?! – Louis disse. – Pode desistir a hora que quiser.
– Obrigada, amigo. Vou me lembrar disso.
– Se cuida, eu amo você e não vá presa. – Ele implicou, fazendo a inglesa sorrir.
– Também te amo.

❄❄❄


mirou o fundo da rede e com precisão acertou o disco com seu taco. Com a força da jogada, o central tocou o chão com o joelho direito, enquanto acompanhava com o olhar a trajetória do biscoito preto em direção aos fundos da rede. Em silêncio, acompanhando os movimentos do resto do time, o capitão deslizou até o canto direito do rinque, buscando outro disco perdido por ali e o trazendo para perto da trave outra vez. Aproveitava para deslizar o máximo que podia, velocidade era um dos seus pontos fracos e sabia que precisava melhorar.
Era grande e pesado, não que a maioria dos praticantes daquele esporte não fosse assim também, mas no número trinta e quatro do Pelicans aquelas características ressoavam diferente. Tinha resistência contra os choques, conseguia se manter com o disco, com firmeza, mesmo quando encantoado por jogadores rivais. Mas não era um dos mais velozes do time, com duas toneladas de esforço a mais que a maioria, conseguia estar entre os cinco mais rápidos, mas ainda não era suficiente.
Não fazia a linha “eu quero ser o melhor do time”, desde o início, ser uma referência, um atleta quebrador de recordes não era o que almejava. Mas gostava de fazer o melhor que podia sempre, e assim, o resto era pura consequência. era perfeccionista consigo mesmo, se cobrava ser o melhor, não o melhor do time ou da liga, mas o melhor que pudesse ser, até a última gota de suor. Tudo que fazia era em nome do grupo, ser o melhor capitão que o grupo merecia, o melhor central para que pudesse auxiliar o time a voltar para a Liga dos Campeões de Hockey.
Por isso as horas a mais de treino, o tempo passado estudando adversários, pensando em jogadas, treinando na academia. Nem sempre se pode nascer com todos os dons, mas nada nunca impediu ninguém de se esforçar para obtê-los.

– Terminem com os discos e chega por hoje. – Petri, o treinador, gritou, batendo palmas para chamar a atenção do grupo.
– Até que enfim. – Aleks passou por , deslizando em direção a saída e o central sorriu.
. – Petri chamou, acenando para o capitão.

expirou e deslizou até o treinador de cabeça baixa, sentia-se cansado, mas seu plano era continuar no gelo por mais algum tempo e a conversa com Petri atrapalharia isso. Ao se aproximar, o central ergueu o rosto, olhando para o outro homem, que tinha uma das mãos apoiadas a proteção do banco de reservas.

– Como se sente? – Perguntou o mais velho.
– Bem. – uniu as sobrancelhas rapidamente, mas logo voltou a relaxar a face.
– Você sabe melhor que ninguém da situação do próximo jogo, huh? – Petri fez uma pergunta retórica e viu o central apertar os lábios e inclinar sutilmente a cabeça para trás, esperando e analisando, queria vendo onde exatamente o técnico pretendia chegar. – É um número importante se der certo. Caso tudo funcione como deve, vai ser mais um recorde quebrado.
– Eu sei. – assentiu com a cabeça, baixando-a rapidamente e enrugando o nariz, ao se dar conta que o treinador trazia à tona o assunto do novo recorde de número de gols que o central podia quebrar no próximo jogo.
– Vamos fazer o máximo para que tudo dê certo e que você tenha uma noite boa, mas sobretudo, o objetivo da noite será vencer. Certo? – Outra pergunta descabida e o capitão torceu suavemente um dos cantos dos lábios, num meio sorriso incrédulo. – Vamos fazer nosso melhor e tentar conseguir as duas coroas. – Petri finalizou, batendo nas costas do jogador e acenando com a cabeça. – É só isso.

assentiu e se afastou.
Não entendia porque as vezes algumas pessoas pareciam receosas em lhe falar, era um jogador como qualquer outro, nada daquilo era necessário. Não era necessário também, que o treinador viesse lhe lembrar se tratar de um esporte coletivo. No próximo jogo, contra o SaiPa Lappeenranta, se marcasse, teria seu nome entre os maiores do time, alcançando o quarto lugar no quesito jogadores com mais gols da história do time numa série de cinco jogos consecutivos em casa. Ao todo, tinha cento e noventa e sete gols durante sua carreira com a camisa azul dos pelicanos de Lathi.
Mas era óbvio que não exigiria que todas as jogadas o tivessem como alvo apenas para ultrapassar um número, sabia que teria milhões de chances para isso. Seu objetivo era ajudar o time a ir o mais longe possível, talvez chegar aos playoffs, com muita ousadia, talvez vencer e se sagrar campeão.
Se imaginar como tipo de jogador com estrelismo, que mantem a atenção concentrada sobre seu umbigo lhe fazia rir.

, quer ouvir uma piada? – Aleks surgiu ao seu lado, assim que o capitão entrou no vestiário.
– Qual é? – Incentivou, já prevendo que se arrependeria, enquanto procurava seu espaço para se sentar.
– Você dá atenção a ele, por isso ele é assim. – Atte o repreendeu, torcendo a boca em clara reprovação.
– O que faz uma piada se tornar uma piada de pai? – Aleks Haatanen indagou, encarando os dois com expectativa.
– Quando ela fica muito idiota? – Atte arqueou uma sobrancelha, enquanto tentava pensar.
– Quando ela vai embora e nunca mais volta. – Aleks ergueu as sobrancelhas, com um sorriso sádico no rosto, capturando as reações dos amigos.

Atte não se moveu, mas um de seus olhos piscou de modo involuntário, tinha a boca aberta, ensaiou dizer algo, movendo os lábios, duas vezes, mas não teve reação.

– É boa, né? – Haatanen balançou a cabeça positivamente, sorrindo, enquanto assentia, apenas porque não conseguia dizer mais nada.

❄❄❄


– Então é isso aí, garota. – disse a si mesma, respirando fundo e olhando mais uma vez para cada canto da sala. – É só mais um apartamento. Nada especial. Você mal alguns dias nele. – Tentava convencer a si mesma.

Estava com as malas prontas, aguardando junto a porta, já havia chamado o táxi e não havia mais nada que representasse a terapeuta naquele apartamento de meio metro. Apesar do período breve, tinha se apegado a ideia de viver ali, desde que saíra da Inglaterra, todas suas expectativas eram direcionadas ao pequeno principado e a vida nele. E agora, basicamente, tinha todas suas expectativas e planos trucidados, amassados, triturados como em uma máquina e pisoteados sem qualquer cuidado.
certamente tinha um lugar reservado no hall das pessoas com péssimo caráter. Se não bastasse se sentir péssima e frustrada por seus planos de festas, iates, martinis e roupas caras, ainda se sentia traída por tudo aquilo ser culpa de seu maior ídolo. Antigo maior ídolo, repetiu em seus pensamentos. Mal podia esperar para torcer contra o finlandês na próxima corrida, para que lhe furassem o pneu, para que chovesse dentro de seu carro, que rasgasse sua roupa favorita ou que seu sapato furasse em meio a um evento importante.
Mas era perigoso, estava indo justamente para o país dele, seu covil. Seria apedrejada por todos caso descobrissem sobre seu ranço, e pior, se as pessoas para qual fossem trabalhar soubesse...estaria morta. Entraria por uma porta e sairia por outra.
Talvez fosse melhor ter aceitado o conselho de Louis e pedido demissão, evitaria o transtorno de se mudar para a Finlândia apenas para ser demitida e sair de lá escorraçada.

– Adeus sofá azul horrível. – tocou o sofá, permitindo que seus dedos sentissem a textura do tecido do móvel. – Adeus cortina feia. – Despediu-se, aproximando-se da janela. – Adeus vista. Adeus prédios velhos, céu azul e sol. – Choramingou tocando o vidro, colando o nariz na janela. – Adeus mar Mediterrâneo, lojas chiques que nunca fui, iates que nunca vou, silicone que não vou precisar mais, bronzeamento artificial...adeus boates badaladas, festas...

suspirou quando ouviu a notificação do celular, o táxi já devia a estar esperando. Arrastou-se até a porta, olhando por sobre os ombros para o pequeno apartamento, que a àquela hora da tarde era iluminado por raios de sol que atravessavam o vidro da janela.

– Adeus, vida em Mônaco. – Despediu-se em tom fúnebre, abrindo a porta e olhando para trás mais uma vez, antes de apagar a última luz e fechar de vez aquele ciclo. – Adeus.

respirou fundo, apagou a luz e trancou a porta, arrastando as malas consigo, sem olhar para trás. Chamou o elevador e esperou alguns segundos até que a caixa metálica abrisse as portas em seu andar. Haviam várias mensagens não lidas em seu celular, dos pais, irmãos, dos amigos, todos curiosos sobre a mudança e um pouco preocupados, cada um à sua maneira, sobre como o futuro da terapeuta seria.
Outra notificação, a inglesa conferiu a tela, podia ser seu motorista avisando que havia desistido e que procurasse outro, era literalmente o que faltava. Mas para sua surpresa, um e-mail com arquivos de seu novo trabalho, a inglesa fingiu estar prestes a vomitar e rolou os olhos ao ler o remetente, mas achou melhor abrir.


Senhorita ,

Estão anexados a este e-mail a cópia de seu contrato de locação do apartamento em Lathi, favor nos reenviar depois de assinado. Estão anexados também sua passagem para a Finlândia, voucher para táxi e alimentação durante o trajeto, endereço do apartamento e da Isku Arena.
A pedido da equipe do time, seguem também alguns arquivos prévios sobre a situação dos jogadores, a equipe do clube e outras informações que julgamos serem essenciais para início.
A senhorita é aguardada na Isku Arena na próxima segunda-feira, às nove horas, para uma reunião com o sr. Janne Laukkanen – diretor executivo e com o sr. Lauri Pöyhönen – diretor gerente do Lathi Pelicans.


Desejamos boa sorte e boas-vindas ao maior time de hockey da Finlândia.
Bem-vinda à família Pelicans.



– Mas que p...


❄❄❄


– Vamos! – Waltteri cumprimentava cada um dos companheiros de time na saída do túnel. – É nossa noite, Santtu. – Bradou ao tocar a mão calçada de luva do amigo defensor que passava por ele.
– Vamos lá! – Jasper Patrikainen, um dos goleiros, gritou, pulando sobre o ala direita. – Estou usando minha meia da sorte e sentindo que vamos ter um ótimo jogo. – Anunciou ele, pendurado a Waltteri enquanto caminhavam em direção ao gelo.
– A que você não lava a meses? Vamos vencer se jogarmos ela sobre os caras, não vai ficar ninguém no gelo, ou nas arquibancadas e na arena. – Implicou Merelä, vendo o amigo franzir o rosto em uma careta de reprovação.
– Não venha me pedir ajuda quando estivermos perdendo de quatro a zero.
– Estão falando da meia de novo? – Otto Nieminen, outro ala, se meteu na conversa assim que os dois alcançaram o gelo. – Ouvi dizer que detectaram níveis altos de radiação, estão vindo para levar o Jasper.
– Não se pode brincar com coisa séria, legal? – Patrikainen reclamou enfezado. – Não culpem a mim se os deuses do hockey não quiserem estar ao lado de vocês essa noite.
– Não importa o que estejam fazendo. – Mikko Kousa, o calvo defensor se aproximou deles de repente, com ao seu lado, assim que ouviram a conversa dos três. – Ninguém toca nas meias desse homem. – Advertiu cismado, Waltteri e Otto o miraram confusos. – Uma vez eu lavei minhas meias da sorte, era um jogo olímpico. Perdemos de dez a zero. – Contou ele, assombrado, piscando um olho involuntariamente enquanto arqueava as sobrancelhas de modo assustador.
– É sério? – Waltteri piscou uma vez, devagar e Otto desviou o olhar e baixou a cabeça, tentando disfarçar o riso. – É só uma superstição boba.
– Nunca é só uma superstição boba. – admoestou, puxando de dentro o uniforme a corrente prateada com uma hamsá pendurada, que sempre usava, e em seguida arqueando as sobrancelhas para eles.
– Viu, só? Eu disse. – Jasper deslizou para mais perto de e Mikko, encarando os amigos. – Nunca se pode brincar com essas coisas.
– Okay, mas isso é bem diferente de usar uma meia fedida por meses. – Otto argumentou.
– Anos, eu nunca lavei. – Jasper corrigiu, e os amigos fizeram careta.
– Não se lavam meias da sorte. – Atte Tolvanen passou por eles, dando sua opinião e chamando a atenção do grupo e do capitão, que o seguiu, afastando-se do assunto.
– A nova geração me assusta às vezes. – brincou, sorrindo e o amigo o imitou.
– Viu quem está aí? – Perguntou o goleiro, maneando a cabeça em direção a arquibancadas.
– Sim. – acompanhou o olhar de Atte, sorrindo fraco para os pais, sentados em seus lugares.

Os pais de , que viviam em Viipurin, nem sempre podiam estar presentes nos jogos dos filhos, mas vez ou outra davam o ar da graça. tinha adoração pela família, os amava enlouquecidamente e seu maior temor sempre fora o de decepcioná-los. O casal estava junto há quase trinta anos e tinham três herdeiros, duas mulheres e , o filho do meio.
Ivan e Ema estavam sentados em um dos lugares reservados à família, e acenaram sorrindo para assim que perceberam o olhar do filho. sentiu um desconforto o atingir por dentro, como uma pontada no coração. Não marcava há alguns jogos e sabia que, por trás das cortinas, o assunto era seu jejum de gols. Não se importava com a pressão externa, lidava bem com aquilo, mas com os pais era diferente, eles estavam ali, haviam dirigido e se esforçado para assistir aquela partida, precisava fazer algo para deixá-los orgulhosos e não desapontá-los.

– Relaxa. – Atte deslizou de costas, fitando o amigo e percebendo a mudança em seu semblante. – Vai ser um bom jogo, vai quebrar o jejum de gols. – Piscou, enquanto acertava alguns discos espalhados pelo gelo, se aquecendo. – Sua esquerda. – Tolvanen apontou para uma família que segurava um cartaz junto ao vidro, onde podia ser lido Fã Nº 1 de ..

sorriu para o garoto, que usava um uniforme pelo menos três vezes maior que o seu tamanho, depois arrastou um disco que jazia solitário no gelo até perto de onde o menino e sua família estavam e o segurou nas mãos. Aproximou-se da proteção e jogou, com cuidado, o disco por sobre ela. O menino o segurou com carinho junto ao peito, sorrindo grande e assentiu, sorrindo de volta.
É, vai ser um bom jogo, pensou o central.

❄❄❄


Lathi.
Que diabos era Lathi? Pensava enquanto analisava a paisagem. Que diabos ia encontrar naquele país esquecido, a geladeira da Europa.
A Finlândia era um país no norte da Europa, fazia fronteira com a Suécia a oeste, com a Rússia a leste e com a Noruega ao norte, enquanto a Estônia está ao sul através do Golfo da Finlândia. O novo lar de era também, surpreendentemente, o oitavo maior país da Europa em extensão e o país menos densamente povoado da União Europeia. A língua materna de quase toda a população é o finlandês, e a segunda língua oficial, o sueco, nenhuma das que a terapeuta dominava.
O país foi uma parte da Suécia e em 1809, um Grão-Ducado autônomo dentro do Império Russo. A Declaração de independência da Finlândia foi feita em 1917 e seguida por uma guerra civil, guerras contra a União Soviética e a Alemanha nazista e por um período de neutralidade oficial durante a Guerra Fria.
Parecia um paraíso perdido, um lugar inteligente, verde, confortável e bom para se viver, se não fosse pelo clima de geladeira e pela língua diferente. Na Finlândia o sul costumava ficar coberto de neve de três a quatro meses por ano, e o Norte, até sete meses durante o inverno. A estação era extremamente rigorosa, podendo atingir temperaturas glaciais, com baixas de até menos quinze graus em janeiro e fevereiro ao sul, e menos trinta ao norte. Mal ou bem, Lathi ficava ao sul, como a maioria das cidades importantes. Seu nome significa baía em finlandês e Lathi ficava há mais ou menos uma hora de trem ou carro de distância de Helsinque.
Fora pouco mais de sete horas de voo, primeiro de Mônaco para a França, depois da França para Helsinque. Ao desembarcar, um táxi gentilmente aceitou a viagem até Lathi. poderia ter pego um trem, mas preferiu não correr o risco, não sabia falar, ler, sequer gesticular em finlandês, nem mesmo a pronúncia era parecida com sua língua. Achou por bem se garantir e não correr mais riscos, enfrentando a viagem de cerca de uma hora de táxi até seu novo lar, ao menos por hora.
Estava cansada, fora uma longa viagem, emocionalmente falando, seu corpo pedia por descanso, e assim que se sentou no banco traseiro do táxi, deu início a uma guerra violenta para manter os olhos abertos. Era difícil, o movimento do carro nas estradas lisas e margeadas de verde, a penumbra do dia que estava terminando, o calor aconchegante dentro do carro. Sabia que se dormisse ali, podia nunca mais acordar e acabar sendo devolvida à família dentro de um saco preto, mas o cansaço era maior do que podia aguentar. Então, devagar e depois completamente, adormeceu com a testa encostada ao vidro da janela.

❄❄❄


– Onde está o Merelä? – Foi a primeira coisa que Petri perguntou ao adentrar como um furacão na sala de conferências, onde os jogadores estavam reunidos.
– Deve ter perdido a hora, o garoto merece, fez um jogo excelente ontem. – Topi Jaakola, um dos defensores, tentou amenizar o lado do ala – Comemorações as vezes vão até muito tarde quando se tem vinte e poucos.
– Mas eu tô bem aqui. – Aleks Haatanen reclamou, cruzando os braços sobre o peito, enfezado.
– Você não marcou três gols ontem. – Atte implicou, sorrindo com deboche e sussurrando na direção do mais jovem.
– Alguém encontre ele e o acorde, nem que seja com um balde de gelo. – O treinador ignorou a defesa de Topi e tomou seu lugar no centro do time. – Bom, não há muito o que falar. Fizemos boas jogadas, muitas boas chances, pressionando até o fim e aproveitando toda falha da defesa deles. Vamos manter o ritmo e tentar seguir esse padrão. Bom trabalho Santtu, Atte, Miika Roine e Merelä que não está aqui. Agora vamos em frente, temos outro jogo amanhã e não temos tempo para conversa. – O treinador bateu palmas, com intuito de dispersar o time.
– A segunda linha parece inspirada. – Atte sussurrou, aproximando-se de assim que ficaram de pé. – Quanto tempo até que alguém leve Waltteri para outra liga? – Indagou ele, arqueando uma sobrancelha e rolou os olhos, entediado.
– Ah, claro. Pessoal. – Petri os chamou de volta, fazendo com que os que já alcançavam o corredor dessem meia volta. – Quase me esqueci. Teremos um novo membro no time, uma pessoa vinda da Inglaterra. – Contou e os jogadores se entreolharam, aquela era uma boa notícia. – É uma mulher. – O time se entreolhou outra vez, agora com um pouco mais de estranhamento. – Uma terapeuta ocupacional.

Os que conseguiam disfarçar, mantiveram suas expressões surpresas, os que não tinham essa capacidade, denunciavam sua confusão pelo modo com que franziam o cenho e entortavam a boca, o capitão e seu amigo goleiro faziam parte do segundo grupo.

– O que exatamente é isso? Acham que não estamos ocupados o suficiente? – Janos Hari, outro central, indagou com um sorriso fraco nos lábios.
– Não preciso de terapia também. – Mikko Kousa, da defesa, também se fez ser ouvido.
– Bom, é um pedido especial de , e ele, pessoalmente a enviou. – Petri enfatizou, a fim de esconder que ele, assim como o resto do time, não fazia ideia do motivo da presença daquela profissional. – Só vamos dar uma chance, fazer o máximo e acolher como sempre fazemos. É isso, estão dispensados. Podem ir para suas atividades. – O treinador balançou uma das mãos e outra vez, os jogadores tomaram rumo para fora.



Amor Perfeito

Amor Perfeito: Ela é um símbolo do amor romântico,amor verdadeiro, a paixão eterna e infinita.



O elevador era pequeno, mal caberiam quatro pessoas ali, mas era melhor que subir quatro andares de escadas. O prédio parecia bem conservado, embora não aparentasse ser novo, ficava em uma área silenciosa e residencial, com outros prédios de aspecto tão impessoal quanto. Kirveskatu 10, 15800 Lahti, Finlândia, era o que dizia o e-mail, e onde o taxista misteriosamente a havia acordado na noite anterior. Cinco graus célsius, segundo o termômetro do táxi. O motorista não a ajudara com as malas, nem ele e nem ninguém e a àquela hora da noite tudo parecia demasiado silencioso.
O apartamento tinha duas portas, a primeira era de madeira envernizada, com fechadura, olho mágico, campainha e um espaço para correspondência e para o nome dos novos moradores, onde estava escrito de forma preguiçosa, com uma letra garranchada e à caneta. A segunda porta ficava logo atrás da primeira e não fazia sentido nenhum para a terapeuta inglesa, que a princípio, pensou se tratar de algum tipo de pegadinha. Era branca, lisa e com uma fechadura simples, as portas eram divididas por um mini hall de cerca de um metro.
Uma vez dentro do apartamento, à esquerda havia o interfone e um armário com espaço para casacos e sapatos, e à direita uma porta de madeira envernizada que abriu com curiosidade, era um banheiro pequeno e desorganizado, com vaso sanitário, lavatório e chuveiro, havia também uma máquina lava e seca, mas sem banheira. O hall de entrada era um pequeno corredor que levava ao resto do apartamento, as paredes eram de tijolos pequenos e pintados com uma cor que a fazia lembrar da espuma de cappuccinos, como o exterior do prédio. deixou as malas ali e caminhou devagar, tocando as paredes com as pontas dos dedos, sentindo a energia do lugar. No fim do corredor a cozinha ficava à direita, com uma bancada que parecia servir para separar o cômodo do resto da casa. A bancada era escura, sobre ela luminárias pendentes um pouco empoeiradas, e à direita dela a pia e fogão, com exaustor e armários sobre e sob a pia. Havia também uma janela grande de vidro, que iluminava o pequeno cômodo, à esquerda dela, outros armários e ao lado deles, uma geladeira grande.
Do lado esquerdo do corredor, uma sala relativamente ampla, com duas janelas grandes, uma TV e um belo e confortável sofá branco. Impessoal, mas confortável. Atrás do sofá, uma mesa de jantar redonda com cinco lugares, de madeira. Do outro lado, outra porta, ali era o quarto, amplo e iluminado por outras três janelas grandes, uma atrás da cama, e duas outras na parede oposta a porta, uma cama de ferro grande e alta. Dentro do quarto haviam outras duas portas, uma que se abria para um closet grande e iluminado, com armários do chão ao teto e um grande espelho. A outra se abria para um banheiro mais amplo, com banheira, outro espelho grande e uma sauna, que tomava metade do banheiro.
Não era completamente diferente do antigo apartamento da terapeuta, talvez por diferenças pontuais, detalhes no posicionamento de móveis e eletrodomésticos, e divisão dos cômodos. Podia ser pior, pensava a inglesa a todo momento, sempre podia.
Naquela noite, não se preocupou com a decoração ou com qualquer coisa relativa ao apartamento, sua única preocupação era com a limpeza do lugar e sobre como dormiria. Não se atrevia a deitar-se naquela cama sem saber a quanto tempo aquele colchão estava ali. Então, estendeu seu maior casaco sobre o sofá e dormiu ali, só percebeu que o dia havia amanhecido quando os primeiros raios de sol invadiram a sala e incomodaram seus olhos. Estava com fome, mas não havia nada em casa, apenas barrinhas de cereal, suco de caixinha e biscoitos na bolsa, e aquele fora seu café da manhã antes de tomar um bom banho, escolher uma roupa decente e sair para sua reunião.
O endereço da arena estava no GPS, segundo o aplicativo, levaria onze minutos a pé, e estava com seus tênis mais confortáveis, então resolveu arriscar.

❄❄❄


caminhava por uma das ruas de Lathi, observando as centenas de prédios que iam de cinza a marrom, absolutamente todos. As ruas eram limpas, vazias e arborizadas, tudo parecia tão limpo, nada de poluição visual ou fora do lugar. Os letreiros e placas faziam a terapeuta se sentir uma analfabeta cega, não poderia encontrar um café ou uma farmácia se sua vida dependesse daquilo. Os carros iam e vinham, um trem devia estar passando em algum lugar próximo e o frio era de matar.
Devia estar na Isku Arena a pelo menos uma hora, mas já havia entregue sua vida e destino a Deus, estava completamente perdida, apesar da resiliência em fazer e refazer o trajeto várias vezes, mas a àquela altura já não saberia mais nem mesmo voltar para casa. Tudo que restava a inglesa, além de um celular descarregado e dedos congelados, era vagar pelas ruas até fosse salva por uma ambulância depois de desmaiar, ou que a polícia a levasse. Enquanto isso, tentava fingir não estar perdida, analisando quantos tons de marrom e cinza os finlandeses conheciam e fingindo plenitude, embora seu semblante denunciasse outra coisa.
Cabisbaixa e tonta de tanto andar, distraidamente invadiu o caminho de uma bicicleta, quase causando um acidente sério quando o ciclista invadiu a rodovia para desviar da transeunte tapada. O ciclista, um jovem loiro de olhos azuis e cabelo bonito disse algumas coisas em finlandês, mas , que ainda não sabia nada na língua nativa do país, apenas juntou as sobrancelhas e uniu as mãos na frente do corpo.

– Desculpe. – Pediu, tentando enfatizar sua vergonha.
– Não fala minha língua? – O rapaz constatou com simplicidade.
– Ai meu Deus! – A terapeuta comemorou, esticando a coluna com a pequena surpresa, vendo uma luz no fim do túnel. – Não, não falo nada. Que bom que você me entende. – Ela riu aliviada
– Entendo. – O outro sorriu com os olhos, por causa da máscara que usava.
– Me desculpe, mesmo. Eu não tive intenção, estava distraída demais, não vi você. – Explicou ela, juntando as mãos novamente, um tanto mais aliviada.
– Tudo bem, acontece. – O rapaz deu de ombros, se ajeitando a bicicleta e firmando os dois pés no chão.

sorria, enquanto o ciclista se perguntava o que aquela mulher estava esperando para liberar o caminho. Mas para a terapeuta inglesa, aquela era sua única salvação, então ponderava sobre pedir ajuda a um estranho, não podia piorar sua situação, não é? Pensou.

– Desculpe, mas eu...é que preciso de ajuda, se puder... – Disse e o rapaz não negou, mas também não assentiu, então ela continuou. – Você por acaso sabe onde fica a Isku Arena? Sabe, hockey e essas coisas. – Perguntou incerta, apertando os olhos.
– Se eu conheço? – O ciclista gargalhou.

Em seguida afastou as mãos da bicicleta e começou a abrir o casaco escuro e grande que usava, deixando ligeiramente alarmada, ponderando qual seria o momento certo para correr. Mas quando o pesado casaco foi afastado, a terapeuta percebeu um uniforme de hockey preto e azul, com o símbolo dos Pelicans no centro.
– Obrigada, Deus! – Comemorou de novo, quase com um pulinho. – Você é dos Pelicans? Que sorte!
– Sou, porque? – O rapaz pareceu sorrir, vestindo o casaco novamente.
– Eu estou atrás de vocês. Quer dizer, não literalmente, mas estou. – sorriu nervosamente, coçando a testa. – É que eu devia estar na arena há algum tempo, mas me perdi...é tudo tão igual. – Lamentou.
– Mas e as placas? – Ele lembrou, mas no instante seguinte se corrigiu. – Não conseguiu ler. – Assentiu e o acompanhou, sorrindo envergonhada. – Quem é você?
. – Sorriu esticando a mão. – Sou a nova terapeuta do time.
– Sério? Que surpresa. – O rapaz estreitou o olhar e pareceu sorrir. – Não sabia que teríamos gente nova. De qualquer forma, seja bem-vinda. – Ele acenou.
– Obrigada. – Ela sorriu, desviando o olhar rapidamente, torcendo que o estrago com ainda não tivesse alcançado aquela lado do planeta.
– Vamos, eu te acompanho, estou indo para o treino. – Ele acenou e saltou da bicicleta, passando a caminhar, empurrando a bicicleta na direção oposta à que se dirigia anteriormente. – Aliás, meu nome é Waltteri. Waltteri Merelä. – Sorriu.
– Isso é um nome comum por aqui? – Ela franziu o cenho, surpresa. – E que quase literalmente me persegue. – sorriu, guardando as mãos no bolso depois de ajeitar a máscara no rosto e afastar o cabelo dos olhos.
– Depende do ponto de vista. – Waltteri riu distraído.
– Estamos muito longe? – A terapeuta quis saber.
– Está vendo aquelas árvores logo ali? – Ele apontou com o queixo. – É atrás delas. Você vai curtir, é um lugar bacana.
– É, tenho certeza que sim. – Concordou educada.
– Você gosta de hockey, então? – Waltteri puxou assunto.
– Nossa, muito, adoro hockey. – Mentiu, encenando um sutil soco no ar, embora não soubesse exatamente porque fazia. – Se tem uma coisa que gosto é de hockey. Com certeza.
– Ah, que bom. Você vai gostar do time, o nosso capitão, o é muito legal, e os outros caras...– Waltteri contava animado, enquanto tentava repetir o nome do capitão, acostumando sua língua aos novos sons.

Não era tão ruim, Lathi parecia uma cidade calma, um pouco chata, mas calma. Era bem mais fria que Mônaco e bem mais séria, mas mesmo assim ainda parecia ser um bom lugar. Definitivamente, a pior parte seria a língua, sua boca parecia se recusar a pronunciar corretamente qualquer sílaba e também havia o fato de todos parecerem estar tão preocupados com suas próprias vidas que não se incomodavam com alguém perdido no frio, mas talvez fosse só impressão.
Enquanto caminhavam próximos a rodovia, fora apresentada por Waltteri a uma escola, e após mais alguns minutos caminhando, a dupla tomou um acesso lateral, deixando a rodovia principal. As laterais eram arborizadas e quase silenciosas, o único som a ser ouvido eram os carros apressados que cortavam aquela rodovia.

– E aqui estamos nós. – O jogador anunciou assim que viraram em uma rua à esquerda, numa decida sutil na estrada e lá estava a entrada da arena, uma estrutura enorme e cinza, sem arquitetura chocante, simples, rodeada de árvores e com um estacionamento grande do lado direito do a arena.
– Lar doce lar. – suspirou, antes de sorrir e seguir Waltteri para dentro da arena.

Dentro da arena, todos que cruzavam o caminho dos dois cumprimentavam o jogador, pareciam acolhedores, simpáticos. Waltteri a guiou por corredores largos e bem iluminados, aquecidos e até acolhedores. A medida com que se aproximavam do coração da arena, podiam ouvir o vozerio agitado e alegre que parecia atravessar paredes. Depois de subirem alguns lances de escadas e passarem por mais alguns corredores, alcançaram um grupo de pessoas que conversavam distraídos no idioma local no meio de um corredor.

– Essa é a minha deixa, vou para o vestiário. – Waltteri avisou, piscando. – O treinador está ali, conversando com aqueles dois. O diretor executivo e o gerente. – Indicou com o olhar.
– Obrigada, mesmo. Você me salvou hoje. – agradeceu e o jogador assentiu, se afastando.

Aquela era a hora, não sabia o que esperar depois dos últimos acontecimentos. Se seu novo carrasco chefe tivesse contado sobre a situação com , provavelmente seria a recém contratada mais odiada do país. Os homens, dois bem vestidos, com ternos escuros que pareciam ser caros e cabelos alinhados, e o outro vestia roupas de treino, nada tão elegante ou profissional, nada tão executivo.

– Com licença. – Disse ela ao se aproximar um pouco vacilante, atraindo a atenção dos três homens. – Boa tarde. Eu sou . – Se apresentou tentando soar confiante.
– Ah. – Um dos homens balbuciou, analisando a mulher com cuidado. – Tínhamos uma reunião há duas horas atrás.
– Eu sei, sinto muito. – A terapeuta tentou manter o timbre firme. – Me perdi na cidade.
– Tudo bem. – Ele anuiu, embora um pouco incerto. – Janne Laukkanen, e esses são Lauri Pöyhönen, nosso diretor-gerente e Petri Matikainen, nosso treinador. – Apresentou-os apontando com o queixo.
– É um prazer. – Tentou sorrir com os olhos, enquanto apertava as mãos dos homens.
– Estou de saída agora, mas volto em uma hora e então podemos nos reunir. Enquanto isso, Petri pode apresentar você aos jogadores. – Janne aconselhou rapidamente e despediu-se com um aceno e se foi, junto com Lauri, sem qualquer chance de dizer qualquer coisa.
, não é? – Petri, o treinador, quis confirmar. Era um homem loiro com barba rala, alto e magro, rosto marcado.
– Sim, mas pode me chamar só de . – Ela sorriu, tentando disfarçar a timidez e vergonha pelo atraso.
– Venha, vou te apresentar ao time. Eles estão no vestiário se preparando para o treino. – Contou, guiando a terapeuta pelo corredor. – Então, você é a novidade. – Brincou ele.
– Novidade? – fingiu não entender.
– É, o novo recurso. Terapeuta ocupacional. – Petri riu entredentes. – Há pouco tempo mal tínhamos equipe médica, e agora temos uma terapeuta.
– Imagino que seja algo novo, mas não se preocupe, logo as minhas competências ficarão claras e...– tentou explicar, mas Petri a interrompeu.
– Não precisa me explicar. Sabemos que deve ser boa coisa, não te mandaria para cá se não fosse. – O treinador acenou com a cabeça e mordeu o lábio, pensando em qual seria a reação do treinador se soubesse o motivo de ter sido exilada para Lathi. – Só me preocupo se meus atletas estarão bem e com a cabeça focada para os jogos.
– Eu garanto que vou fazer o meu melhor para isso. – A terapeuta afirmou. – O melhor possível ou impossível.

❄❄❄


amarrava com cuidado os patins, ajeitando o cadarço para que ficassem bem firmes nos pés, apertando com um nó em um e depois no outro. O time se organizava para o treino no gelo do dia, antes do almoço. O clima era descontraído no vestiário, com jogadores indo e vindo de um lado para o outro, seminus, vestidos ainda com suas roupas normais ou já paramentados para o treino, ou como vieram ao mundo, sem se importar com quem quer que estivesse presente no recinto.
O vestiário tinha as cores azul, cinza e laranja, as cores do time, misturadas a madeira envernizada que separava cada baia e que dava tom aos bancos acolchoados com um tecido que imitava couro azul. Alguns jogadores se vestiam em silêncio, cuidando de suas próprias vidas, ou pensando nas que haviam deixado em casa, outros faziam piadas e se provocavam, implicando sobre o tamanho disso e daquilo, sobre como era torto ou sobre quem conseguia dar o maior arroto. A outra parte tentava conseguir o apoio da parte quieta do time contra os baderneiros e zombadores, mas não pareciam ter muito sucesso. O cheiro era de suor, meias sujas, desodorante masculino e spray analgésico.
Depois de terminar com seus patins, ficou de pé, no seu canto, e tomou nas mãos um de seus tacos, batendo-o no chão duas vezes, era seu ritual. Como se com isso, algo dentro de si fosse ligado, uma engrenagem que o ajudava a se concentrar nos treinos.
O capitão estava de costas para a porta e para o time, inclinando a cabeça sobre o ombro esquerdo e depois o direito, rodando os ombros, tentando relaxar os músculos. Fora desperto e arrancado de seu estado concentrado quando Janos Hari, sentado próximo a , o cutucou com o taco, apontando com a cabeça para a porta. se virou e enquanto fazia isso, ouviu o assovio conhecido e as palmas de Petri, o treinador, e então parou. Petri estava parado diante deles, com as mãos abertas e gesticulando, como sempre, ao falar, mas havia algo completamente diferente naquele vestiário. Atrás do treinador estava uma mulher, uma figura de pouco mais de um metro e setenta, cabelos em um tom diferente do loiro comum no país, queixo erguido e olhar firme. A mulher vestia um suéter grosso de lã e um casaco cinza, uma touca preta, jeans e tênis, mas sua postura carregava naturalmente um ar profissional que contrastava com a escolha de roupas dela.

– Pessoal, preciso da atenção de vocês. – O treinador começou a dizer, mas os olhos de não saiam da mulher junto a ele. Os olhos dela estavam voltados para o time, mas não parecia vê-los. – Quero apresentar o mais novo membro da nossa equipe. Direto da Inglaterra, , a nova terapeuta do time. – Petri apresentou e o capitão estreitou o olhar rapidamente, analisando-a melhor.
– Terapeuta ocupacional do time. – A mulher deu um passo à frente e o corrigiu, erguendo o dedo indicador e olhando para Petri. Seu tom de voz talvez denunciasse o sorriso que a máscara que usava devia estar escondendo.

Petri arqueou uma sobrancelha, surpreso com a correção, enquanto o time se encarregava de manter o silêncio constrangedor no vestiário. tossiu, tentando limpar a garganta, e aproximou-se mais um pouco do grupo, ficando alguns centímetros a frente do técnico e unindo as mãos na frente do corpo. Certo, inglesa, você tem minha atenção, o capitão disse a si mesmo por pensamento, admirado com a postura dela.

– Eu sou a nova terapeuta ocupacional do time. – Ela falou com seu tom suave e manso, notou que quando o fez, a terapeuta pareceu buscar o olhar de um jogador especifico, que sorriu de volta e acenou com a cabeça. Waltteri Merelä era o único sorrindo e estreitou os olhos para isso. – É um prazer enfim conhece-los.
– Bom, poderia te dizer todos os nomes agora, mas não sei se adiantaria alguma coisa. – O treinador voltou a falar, e quando o fez, Janos, Atte e Mikko Kousa sorriram com certo deboche, o capitão afastou o olhar da recém-chegada rapidamente, para repreendê-los com um olhar mais duro. – . – Chamou Petri, apontando para onde estava, ainda de pé e com os braços cruzados sobre o peito. Devagar, o central afastou o olhar dos companheiros de time e mirou o treinador e a terapeuta. – , nosso capitão.

acenou com a cabeça, tentando se manter sério, não esperava ser apresentado daquela forma, devia ser algo mais pessoal, quem sabe pelo menos um aperto de mão. Não soube o que fazer, queria ter feito mais, mas não podia parecer tocado na frente do time. A terapeuta acenou de volta, balançando a cabeça uma vez.

– O resto você consegue aprender sozinha. – O treinador continuou e ela assentiu. – Temos treino agora, assista um pouco. Vai me ouvir muito gritando seus nomes.

❄❄❄


O treinador andava rápido, atravessando corredores largos, com várias portas, ora movimentados ora vazios. Parecia concentrado, ou apenas sério, ou apenas finlandês. queria fazer perguntas, mas tinha medo de ser invasiva, havia lido durante o voo sobre a frieza dos finlandeses e temia desrespeitá-los, mesmo reconhecendo que os ingleses não eram um povo exatamente quente. A medida com que se aproximavam do vestiário, puderam ouvir o vozerio agitado e alegre que parecia atravessar paredes. O treinador também pareceu notar e piscou para , levantando os ombros.
Logo a dupla alcançou o vestiário e por alguns instantes, o time pareceu não os notar, alguns falando animados sobre qualquer coisa que não podia compreender por causa da barreira da língua, outros absortos em seu próprio mundo. Enquanto Petri batia palmas e assoviava, chamando atenção do time, tentava encontrar o olhar de Waltteri, o rapaz que a havia ajudado antes. Era um pouco intimidador se enxergar praticamente sozinha em um espaço cheio de homens, também não estava acostumada a se meter em vestiários, entre meias sujas e uniformes suados. O cheiro do lugar era péssimo, e os homens seminus a obrigava a encarar a pequena faixa de trinta centímetros que ligava o teto as paredes, desviando o olhar dos atletas, mas ainda os dando impressão de prestar atenção ao grupo.

– Pessoal, preciso da atenção de vocês. – O treinador começou a dizer, enquanto tentava se concentrar e permanecer firme ao lado dele. – Quero apresentar o mais novo membro da nossa equipe. Direto da Inglaterra, , a nova terapeuta do time. – Petri olhou para o lado, onde se mantinha parada, congelada, encarando os homens estranhos, absortos no discurso do treinador.
– Terapeuta ocupacional do time. – corrigiu, dando um passo à frente e erguendo o dedo indicador um pouco incerta, mas sem pensar muito antes de fazer, como sempre.

O treinador arqueou uma sobrancelha e o time a encarou em completo silêncio constrangedor e esquisito. tentou limpar a garganta, era péssima naquele tipo de situação e a cada segundo que passava, odiava mais tudo e todos que a tinha levado a aquele momento.

– Eu sou a nova terapeuta ocupacional do time. – Se apresentou dando mais um passo, ousadamente e com muito esforço para que sua voz não soasse trêmula, unindo as mãos na frente do corpo e torcendo os dedos de modo ansioso. – É um prazer enfim conhece-los. – Mentiu e enfim conseguiu encontrar o par de olhos azuis que procurava, Waltteri estava sentado em um banco, sorrindo e já vestido com o uniforme do time, a terapeuta sutilmente ergueu as sobrancelhas para o finlandês, que sorriu e acenou com a cabeça.

Ao menos um rosto conhecido entre as feições masculinas estranhas e ameaçadoras por natureza. correu os olhos pelo time, tentando parecer confiante, mas sua vozinha interior gritava o contrário, travando uma luta interior intensa sobre correr gritando ou fingir um desmaio. A terapeuta não sabia o que fazer com as mãos, nem como se comportar diante a tantos olhares curiosos, e torcer os dedos já estava ficando constrangedor.

– Bom, poderia te dizer todos os nomes agora, mas não sei se adiantaria alguma coisa. – Petri falou outra vez e alguns jogadores sorriram com certo deboche que captou pelo canto dos olhos. – . – Ele chamou e apontou para um homem alto como os outros, mas mais largo, de cabelos escuros e expressão de desdém, que estava de pé e com os braços cruzados na frente do corpo. Segundo a linguagem corporal, aquilo não devia ser um bom sinal, pensou ela. – , nosso capitão. – O homem olhava para o outro lado enquanto o treinador falava, segunda bandeira vermelha, e quando ouviu seu nome, virou o rosto devagar em direção a .

acenou com a cabeça, os lábios unidos em algo que podia ser um quase sorriso irônico, ou uma expressão de puro desdém. O modo com que os olhos do capitão estavam estreitados fez pensar se ele não sabia de toda sua história com um dos donos do time e a estava julgando em silêncio, como os gatos fazem. Ava acenou com a cabeça, de forma rápida e depois voltou seu olhar ao treinador, incomodada com a forma estranha que o capitão a mirava e com os olhares e sorrisos de deboche de outros jogadores.

– O resto você consegue aprender sozinha. – O treinador continuou. – Temos treino agora, assista um pouco. Vai me ouvir muito gritando seus nomes.

assentiu.


Poucas coisas na vida podem ser tão desconfortáveis quanto estar em um lugar estranho, com pessoas estranhas, sem entender o que dizem e o que estão fazendo. se sentia um peixe fora d’água, mais especificamente, um peixe jogado para morrer sobre o gelo. Fechava as mãos com força, tentando canalizar sua ansiedade e incômodo, vez ou outra se apoiava no muro de proteção que cercava o gelo e era obrigada a fingir normalidade sorrindo quando um jogador passava por ela. Estava perto do banco de reservas, tentando manter uma expressão séria e concentrada, como se entendesse o que os atletas estavam fazendo, mas a quem queria enganar? Até mesmo os nomes dos jogadores eram quase impossíveis pronunciar.
Não duraria uma semana.
Já se imaginava de volta à clínica, implorando por seu emprego e torcendo com muita intensidade por qualquer um que corresse contra . Péssima ideia aceitar o trabalho, péssima ideia vir para Finlândia, devia ter ficado em Mônaco e arranjado um emprego de garçonete ou coisa do tipo. Finlândia... Que droga.
estava debruçada sobre a proteção do banco de reservas, assistindo ao treino do time, que consistiam, até então, a os jogadores dominando os discos enquanto corriam entre obstáculos, tentando acertar as redes no fim. Estava distraída, encarando o gelo e pensando em como não conseguia chegar a nenhuma solução para seus problemas, e sobre como não saberia voltar para casa sozinha ou que não teria uma cama limpa para se deitar e chorar, até que percebeu a aproximação de um dos jogadores.
Fez uma breve pausa para orações, implorando a Deus para que se tornasse invisível e que ele não viesse até ela, torcendo para que aquele homem miserável mudasse de ideia, mas não funcionou. O jogador apoiou os cotovelos no muro de proteção e retirou seu capacete de modo despreocupado, observando os companheiros de time em suas atividades por algum tempo, em completo silêncio.
Por alguns instantes, pensou que ele estivesse ali apenas para descansar, se recuperar do ritmo pesado do treino e que nem a tivesse notado, mas obviamente não era o caso.

– Inglaterra, então. – O jogador disse entre meio um suspiro, sem muita empolgação e devido o silêncio da terapeuta, ele inclinou o rosto para olhá-la e maneou a cabeça, com um quase sorriso de canto.
– É. Sim. Inglaterra. – Ela assentiu rápido, usava máscara, mas ele não.
– O que faz alguém da Inglaterra vir para cá? – Ele perguntou outra vez, voltando a encarar o treino, dando-lhe as costas novamente.
– Contas a pagar? – respondeu sem pensar.

Era isso que fazia quando estava nervosa, falava coisas sem pensar, sem qualquer filtro. Péssimo, , ela se repreendeu em pensamento e mordeu a língua, baixando a cabeça. O jogador riu abafado e ainda apoiado no muro, girou o corpo, encarando-a.
– A sinceridade é tudo, não é? – Ironizou, rindo de modo sincero. – . – Ele ergueu o queixo num cumprimento.
– O capitão. – se deu conta, com as peças se unindo em sua cabeça, a conversa primeira com Waltteri e o jogador apresentado no vestiário.
– É o que dizem. – mantinha o olhar preso ao rosto de , enquanto a terapeuta se esforçava com muito afinco para evitar o contato visual. Felizmente, embora tardio, suas preces foram ouvidas e os dois ouviram o nome de sendo chamado de volta ao treino. – A gente se esbarra por aí. – O capitão piscou e grunhiu um “okay”.
Depois, se afastou, deslizando de forma despreocupada, olhando para trás algumas vezes.
Seria uma longa, bem longa temporada.

❄❄❄


Enquanto o time atravessava uma trilha de obstáculos até alcançar a trave, não conseguia executar muitos movimentos sem que seus olhos voltassem para a figura feminina no banco de reservas. O central tentava se posicionar de modo quase inconsciente para que parecesse mais alto, mais forte, ou até mais bonito aos olhos dela, mesmo sem entender exatamente o porquê. A terapeuta se mantinha séria, as vezes acompanhava o treino com atenção, as vezes acenava quando alguém passava por ela, e no resto do tempo estava com olhos presos ao gelo, pensativa.
Era o capitão, pensava, precisava se apresentar direito, conversar, garantir que ela soubesse seu nome. De algum modo, queria ser notado por ela e vê-la mais de perto. Mas se era pura curiosidade profissional ou algo mais, ainda não sabia.
Ignorou a fila para atravessar os obstáculos e deslizou até o banco de reservas de modo despretensioso, ainda não tinha certeza sobre o que queria dizer ou como queria dizer, ou se devia dizer algo. A atmosfera o deixava nervoso. apoiou os cotovelos no muro de proteção, de costas para , que ao contrário do esperava, não sorriu ou o cumprimentou, apenas baixou a cabeça em silêncio. retirou seu capacete, fingindo não se importar com a postura da terapeuta, mantendo os olhos no time, tentando passar uma imagem de bom capitão, observador, em completo silêncio.

– Inglaterra, então. – perguntou, depois de travar e vencer sua luta interna, mas sua hesitação foi denunciada quando um suspiro escapou de sua garganta no momento em que tentara falar e respirar ao mesmo tempo.

A terapeuta não respondeu, ansioso, inclinou o rosto, buscando seu olhar e maneou a cabeça, com um quase sorriso de canto, quase implorando internamente por atenção.

– É. Sim. Inglaterra. – A recém-chegada assentiu rápido, evitando o contato visual.
– O que faz alguém da Inglaterra vir para cá? – insistiu, voltando seu olhar para o treino, dando-lhe as costas, inseguro.
– Contas a pagar? – respondeu direta e virou o rosto para ela, sorrindo chocado e curioso.

A inglesa baixou a cabeça e maneou negativamente, riu abafado e ainda apoiado no muro, girou o corpo, mirando-a de frente. Havia algo realmente diferente naquela mulher, o central apenas não tinha identificado, ainda.

– A sinceridade é tudo, não é? – Ironizou sorrindo grande. – . – Ele se apresentou, erguendo o queixo e a olhando nos olhos, com um sorriso satisfeito no rosto.
– O capitão. – pareceu reconhece-lo e se sentiu tomado por um misto de vaidade e satisfação.
– É o que dizem. – sorriu, ainda a fitando, mas a terapeuta parecia se esforçar muito para evitar o contato visual.

ainda a observava, tentando adivinhar o resto do rosto que a máscara escondia, tentando imaginar se a postura da inglesa era mesmo aquela ou se tudo era apenas a timidez da chegada. Independente disso, a terapeuta parecia ter personalidade, embora aparentemente não fosse muito aberta ou quisesse falar com o capitão, o que era triste na opinião de . Infelizmente, antes que tivesse chance de tentar outro assunto, ou ao menos chamar a atenção dela de outra maneira, os dois ouviram o nome de sendo chamado de volta ao treino.

– A gente se esbarra por aí. – O capitão piscou, embora não quisesse mesmo ir, e sussurrou algo parecido com “okay”, sem qualquer animação.

Depois, se afastou, voltando para junto do grupo, mas sem deixar de olhar para trás, para .
Seria uma longa, bem longa temporada.



Margarida

Margarida: Conhecida por muitos como a flor da inocência,
a margarida, devido à sua cor, também é considerada como a flor da pureza.



Recomeçar não era uma tarefa fácil, nunca era.
No cenário de parecia ainda pior, tudo era estranho e desconhecido. E para piorar, não era como se aquilo fosse uma escolha do coração, fora forçada a se mudar, forçada a começar aquele trabalho, um trabalho cujo não se sentia sequer minimamente preparada para realizar. O time não parecia exatamente aberto a sua chegada, com exceção do capitão com olhar estranho e de Waltteri, ninguém havia sido muito simpático em sua recepção.
Não os culpava, podia ser estranho receber alguém de repente, ainda mais quando se tratava de um profissional que ninguém conhecia, ou sabia sobre o trabalho que realizava. Mas isso era sua parte racional e saudável pensando, porque em sua cabeça, de forma recorrente, era exibido o filme em que a desmascarava frente a todos. Viveria com aquele pânico, não que se importasse muito com o emprego, mas queria a qualquer custo evitar a humilhação e desaprovação por parte de todos aqueles homens.
O dia já havia sido denso e cansativo demais, depois de ser forçada a assistir treinos infinitos no gelo, tivera a reunião com os dirigentes, que servira para nada além de contar a história do time e enfatizar o quanto estavam felizes e satisfeitos com a nova fase financeira do Pelicans. Talvez pensassem que de algum modo, poderia levar aquelas informações para o piloto, dono de parte do clube. sorriu fraco e sacudiu a cabeça, pensando em quão ingênuos deviam ser se estavam pensando mesmo assim.

– Hey, ! – Alguém a chamou de repente, atraindo a atenção da terapeuta, que atravessava estacionamento distraída.

Dois metros à frente estava Waltteri Merelä com seus olhos azuis e cabelo impecável, acenando da janela de uma SVU preta. caminhou até ele, ajeitando a máscara ao rosto.

– Estava pensando se não quer uma carona. – Ele sorriu com os olhos, mas estava sem máscara, o que fez a inglesa se perguntar sobre qual devia ser o problema daquela gente com máscaras.
– Você estava de bicicleta, não estava? – Ela franziu o cenho, com uma careta confusa e ele riu.
– Sim, está na mala. – Contou apontando para trás com o queixo. – Tivemos um jogo bom ontem, saí com o pessoal e deixei o carro. Mas e aí, quer a carona?

mordeu os lábios, indecisa, sabia que não podia ficar aceitando caronas estranhas por aí, mas não estava segura se conseguiria chegar em casa sozinha e estava cansada demais para andar. Além disso, Waltteri era a pessoa menos estranha naquele país naquele momento, não havia mal em aceitar a carona do jogador, certo? Dizia ela a si mesma, por fim, convencendo-se.

– Certo. – sorriu. – Aceito.

Waltteri pulou do carro e acompanhou a terapeuta até o lado do passageiro, abrindo a porta para ela gentilmente,e depois voltando ao seu lugar, enquanto pensava sobre a fama dos finlandeses frios e fechados não passar de um mito.

– Foi uma noite intensa, ontem. – Waltteri voltou a falar, assim que deu partida no carro. – Perdi a hora e quando fui procurar meu carro, ele já não estava lá, precisei vir de bicicleta e me atrasei algumas horas tentando me lembrar onde tinha estacionado. – Narrou ele, rindo.
– Talvez tenha sido o dia do atraso por aqui, então. – concordou.
– Deve ser por isso que todos estavam tão estressados. – Disse o jogador, com um sorriso simpático. – Onde vai ficar? – Waltteri indagou assim que o carro alcançou a rodovia principal, a que tinha uma escola.
– Kirveskatu. – repetiu o nome da rua que havia memorizado e depois riu envergonhada. – É assim mesmo? A pronúncia está certa? Não xinguei ninguém sem querer, não é?
– Não, você está bem. Pronúncia perfeita. – Ele piscou.
– Ainda estou me acostumando com essas coisas, com endereços, nomes de coisas...– Confessou. – Aliás, preciso saber sobre o horário de funcionamento das lojas aqui, preciso comprar lençóis e comida, e coisas, e limpar o apartamento. Será que alguns vendedores falam inglês?
– Eu não faço ideia. – Merelä riu pelo nariz. – É urgente?
– Muito urgente. – enfatizou, gesticulando e girando-se no banco, para vê-lo melhor. – Cheguei ontem à noite e dormi sob um casaco. Eu me sinto uma sem teto, mas com teto.
– Bom, se quiser, posso te ajudar nisso. – Merelä se ofereceu.
– Não, imagina. – negou com a cabeça. – Eu já estou abusando da sua boa vontade, não posso aceitar.
– Relaxa, . – Waltteri sorriu balançando a cabeça. – Nós vamos fazer compras.
– Eu não quero mesmo te incomodar. – A inglesa insistiu, mas o jogador apenas negou com a cabeça, concentrando-se na rodovia, e se deu por vencida. – Então pelo menos me faça outro favor. – Pediu e ele a mirou. – Não me chame de , me chame de . Só . – Merelä assentiu e os dois sorriram, talvez o dia não estivesse sendo completamente um desperdício.

❄❄❄


– Italianos devem odiar os finlandeses e agora eu entendo o porquê. – riu alto assim que a porta de seu apartamento fora aberta. – Pizza com abacaxi? Quer dizer, eu tenho certeza que algum italiano enfarta toda vez que alguém pede uma dessas.
– Você sabia que a pizza foi inventada na China, não é? – Waltteri arqueou uma sobrancelha, entrando logo atrás dela com caixas e sacolas penduradas nos braços.
– Não a pizza, só a massa. Eles inventaram a massa. – corrigiu, e depois de pendurar sua bolsa, casaco e touca no armário do corredor, voltou-se para Merelä. – Me deixa te ajudar com isso. – Pediu, tirando o peso das mãos do jogador.
, vocês ingleses literalmente tem chouriço, feijão e pão frito no café da manhã. – Waltteri rolou os olhos, enquanto tirava os casacos. – Não é exatamente seu lugar de fala.
– É, mas esse é o ponto, nós temos nossa própria culinária gordurosa e horrível, mas não estragamos invenções de outros países. – Ela argumentou, separando a caixa de pizza das outras sacolas de compras e colocando sobre a bancada. – Me sinto tão mais preparada agora. – A inglesa sorriu ao tirar de outra sacola um frasco de álcool com borrifador e ergue-lo para o jogador.
– É um apartamento legal. – Ele comentou, aproximando-se da cozinha, analisando o espaço, depois de tirar seu casaco, mas ainda com sua touca branca.
– Eu acho que tem potencial. – assentiu, imitando-o. – Gosto das paredes de tijolos, tem uma boa estética.

Enquanto Waltteri conhecia a sala de e conferia a vista da janela, a terapeuta desempacotava alguma louça e talheres, higienizava tudo com álcool e servia a pizza e o refrigerante. Haviam sido compras proveitosas, Waltteri gentilmente tinha traduzido rótulos e intermediado conversas com vendedores, e agora tinha edredons, mantas, lençóis, alguns pratos e talheres, duas panelas, quatro copos e alguns mantimentos.
Apesar de ser estranho ter um homem semidesconhecido em seu apartamento, se sentia segura. O atleta do Pelicans era mais jovem que a inglesa três anos, mas tinha uma aura madura e bem resolvida e nunca era ruim fazer amigos, principalmente se tratando de um país onde sequer possuía domínio da língua.

– É legal, só precisa de uma limpeza. – Waltteri comentou, voltando para junto da inglesa. – Deve ter poeira do meteoro que matou os dinossauros nesse apartamento. – Ele disse e gargalhou.
– Achei que vocês finlandeses não soubessem rir. – Implicou ela, ao servir a pizza.
– Hey, isso é quase preconceituoso. Xenofóbico. – Merelä reclamou, trancando a expressão, fingindo estar aborrecido. – Finlandeses tem um ótimo senso de humor, ótimas piadas, nós só não gostamos de contato físico. É diferente. E somo objetivos, sem muito açúcar. – Completou, abrindo a lata de refrigerante e brincando com o lacre entre os dedos.
– Ou qualquer outro tempero, não é? – provocou e Waltteri atirou o lacre da lata de refrigerante, sobre ela.

Em instantes, os dois estavam prestes a realizar a primeira refeição no novo apartamento. encarou a bancada com seus poucos utensílios de cozinha e a refeição da noite, em seguida respirou fundo, dizendo a si mesma por pensamento que aquela seria a primeira de muitas. Depois, ergueu os olhos para Waltteri e sorriu, o jogador a acompanhou com seu sorriso branco perfeito, e em seguida, ergueu sua lata de refrigerante.

– A você e a nova casa. – Propôs ele.
– A mim e a nova casa. – repetiu, erguendo sua lata também e brindando com seu novo amigo, em sua nova casa.

❄❄❄


Era dia de jogo.
Todo time estava deixando o gelo depois do último aquecimento para voltarem em seguida, quando a partida teria seu início. O jogo era fora de casa, contra o SaiPa Lappeenranta, em Kisapuisto, na cidade de Lappeenranta, a cerca de duas horas de distância de Lathi. Apesar da folga curta de apenas um dia após a vitória contra o Sport Vaasa, o time parecia tranquilo e motivado para a partida. O corredor era tomado por risos, gritos, cantorias e brincadeiras entre os jogadores e a comissão técnica do time.

– Merelä. – Jasper Patrikainen se aproximou do amigo. – Apostei dinheiro em você, não me decepcione.
– Apostou em mim? – Merelä franziu o cenho, sorrindo chocado.
– Por que apostou nele? – Otto Nieminen reclamou. – Sabe, seria bom ter o apoio dos meus amigos, pelo menos. – O ala cruzou os braços sobre o peito, emburrado.
– Mas você tem, eu te apoio totalmente. – Jasper piscou, abraçando-o de lado. – Quem não te apoia é a minha grana.
– Não implique com ele. – Santtu, que ouvia a conversa em silêncio, caminhando na frente de Waltteri, advertiu. – Ou vão leva-lo para ver a inglesa.
– Isso seria ruim? – Fora vez de Jasper unir as sobrancelhas em uma careta confusa.
– Eu não iria querer. – Santtu deu de ombros e Otto assentiu em silêncio, enquanto Waltteri negou com a cabeça.
– Vocês deviam dar uma chance a ela. – Pediu, atraindo o olhar chocado dos três. – O que foi?
– Como assim dar uma chance? – Otto indagou, fazendo aspas invisíveis com as mãos.
– Dar uma chance, ué. – Waltteri ergueu os ombros. – Estão criando resistência e ainda nem a conhecem. é legal.
– Espera, espera aí. – Santtu parou de andar bruscamente, travando o fluxo de atletas no corredor e encarando o amigo ala. – Você fez o que?
– Não fiz nada. – Waltteri negou, tentando sair do meio dos amigos e destravar o congestionamento. – Eu só estou dizendo que todos deviam dar uma chance a ela. é engraçada, simpática, vocês vão gostar dela.
– Assim como você. – Jasper completou, com certa malícia no tom de voz.
– Não foi o que eu falei. – Merelä respondeu e deu-lhe as costas, deixando o trio baratinado.

Atrás dos três, misturado ao resto do time, se encontrava outro jogador, tão perdido e confuso quanto os outros sobre a fala de Waltteri Merelä, tentava encontrar algum sentido naquelas palavras. Então, sua intuição estava certa, havia mesmo algo entre Merelä e . No dia anterior, quando fora apresentada ao time, a inglesa pareceu buscar o olhar do ala. Certamente os dois deviam se conhecer fora dali, o que para o central, era minimamente estranho e alarmante, mesmo que não entendesse o porquê.
Subitamente, se viu irritado com Merelä por nenhum motivo razoável, como se de repente, o companheiro de time se tornasse um tipo de rival, foco de todo seu ranço e impaciência.

❄❄❄


Depois de um dia intenso de trabalho, lendo e traduzindo documentos e anotações inelegíveis do finlandês para sua língua materna, tinha mais um grande desafio: participar da conversa do técnico com o time antes da partida da noite.
Era difícil memorizar os nomes, as posições, o que cada posição tinha como objetivo e o que seu trabalho podia contribuir para evolução, melhorar os resultados. Os nomes dos jogadores pareciam trava-línguas, diferenciar um do outro parecia ainda mais impossível. Quase todos, com exceção ao capitão, eram loiros e tinham olhos azuis, uns mais baixos, uns mais altos, rostos finos, rostos redondos, com barba ou sem, era um desespero.
Aos poucos, o time entrava no vestiário, assistia do corredor, só entraria quando Petri, o técnico, também fizesse. Detestaria ver mais homens desconhecidos nus, ou se meter em meio a toda aquela testosterona sem que fosse de extrema necessidade.

– Ansiosa para o primeiro jogo? – Petri perguntou, encarando os próprios pés, com as mãos nos bolsos do paletó.
– É, eu... – hesitou. – Muito, sabe como é. Super ansiosa e animada. – Mentiu, fingindo um sorriso sem jeito por debaixo da máscara.
– É bom que veja o jogo aqui, vai saber os pontos fortes e fracos para começar a trabalhar junto com o Jakkos e a fisioterapia. – Falou pensativo.
– Eu espero que sim. – mentiu outra vez, embora não completamente. – Eu mal posso esperar.
– Vamos, eles já estão atrasados. – Chamou o técnico, depois de algum tempo em silêncio e a inglesa apenas assentiu e o seguiu.

Dentro do vestiário, os atletas já estavam vestidos, se concentrando para a partida. Petri cumprimentou a todos, um por um, sussurrando coisas, dando batidinhas nas costas e encorajando. sorriu e acenou para os que a notavam, até que Merelä se aproximou, ajeitando o uniforme.

– Nervoso? – Ela sorriu.
– Com frio na barriga, sempre fico. – O ala confessou.
– Oi, vocês dois. – Outro jogador se juntou a eles, direcionando a um olhar analítico e talvez um pouco especulativo. Era alto, tinha cabelos loiros escuros e grandes, penteados para trás, olhos castanhos e rosto quadrado, com a testa um pouco mais larga que o queixo.
, esse é Jasper Patrikainen. Goleiro. – Apresentou Waltteri e sorriu com os olhos, acenando com a cabeça.
– Certo, é um prazer conhece-lo, Jasper.
– É, é isso aí. – Ele piscou. – E vocês, já se conhecem? De onde se conhecem? – Jasper quis saber.
– Waltteri me ajudou a chegar na arena ontem, e me ajudou com algumas coisas na casa nova. – A terapeuta sorriu, desviando o olhar do goleiro para o ala. – Na verdade ele salvou minha vida.
– Então vocês são tipo...íntimos, então. – Concluiu Jasper, fazendo arregalar os olhos e Waltteri balançar a cabeça negativamente. – Hey, Otto, Santtu. – O goleiro chamou os amigos, que conversavam distraídos no outro canto do vestiário. – Eles são íntimos. Eu venci a aposta. – Jasper contou sem qualquer cerimônia e sentiu que desmaiaria a qualquer momento.
– Ah, droga. Te devo cinquentinha. – Otto reclamou, enquanto Santtu estreitava o olhar em direção a Waltteri.
– Como você consegue fazer isso em tão pouco tempo? – Santtu indagou.
– Mas eu não fiz nada. – Waltteri negou. – Jasper está exagerando.
– Quer dizer que eu não perdi a aposta? – Otto Nieminen apertou os olhos, olhando de Waltteri para Jasper.
– Vocês fizeram uma aposta sobre mim? – perguntou boquiaberta, e Santtu ergueu um ombro, como quem deseja dizer que sente muito.
– Não exagerei nada. – Jasper se defendeu. – Ela disse que você a ajudou a ir para a arena, que ajudou com a casa nova...
– Caramba, Merelä, quem tem limites é município. – Otto zombou. – Você não perde tempo.
– Por favor, quantos anos vocês têm? Doze? – Merelä rolou os olhos.

Enquanto os quatro jogadores argumentavam sobre a relação da inglesa com o jogador, sentia a pressão cair se vendo em meio àquela bagunça. Sentindo-se exposta e assustada, até uma aposta a envolvendo os jogadores haviam feito.

Idiootit!(Idiotas!) – Santtu chamou a atenção dos amigos ao perceber a expressão acuada no rosto da terapeuta, e sua postura corporal assustada, encolhida e com ombros caídos. – Nossa, vocês são realmente péssimos. – Ele balançou a cabeça negativamente. – Não os leve a mal, , são uns idiotas. Eu me chamo Santtu, Santtu Kinnunen. O idiota maioral é o Jasper Patrikainen, o babaca insensível é Otto Nieminen, e você já conhece pateta que é Waltteri Merelä.

não respondeu.

– Santtu tem razão. – Waltteri voltou-se para ela. – Desculpe por isso. Jasper não está acostumado a lidar com seres humanos. – Tentou amenizar, mas foi empurrado pelo ombro por Patrikainen.
– Vocês fizeram uma aposta sobre mim? – Era o que ecoava na mente de desde que ouvira as palavras saindo dos lábios deles.

Os quatro se entreolharam, como se envergonhados por terem sido flagrados em uma posição muito constrangedora, o que de fato era.

– Não é o que você está pensando. – Otto ergueu as mãos, na defensiva, e a inglesa estreitou o olhar.
– É, tipo...– Jasper coçou a nuca, hesitando na resposta. – Parece ruim, mas não é tão ruim assim.
– Bom, estou esperando uma explicação. – cruzou os braços sobre o peito, irritada.
– Ansiosamente. – Waltteri completou, encarando os amigos, que se entreolharam.
– Certo. – Jasper tossiu, limpando a garganta. – Pode ser que...não é nada demais...mas talvez, só talvez, pode ser que a gente tenha apostado que o Merelä estava dando em cima de você. Sabe, interessado. Pode ser que tenha se passado na nossa cabeça, nada sério. – Ele enrolou.
– Por que vocês pensariam isso? – questionou, encarando Merelä, que apertou os lábios um pouco angustiado, sem saber o que dizer.
– Não é culpa dele. – Otto interveio. – Waltteri só nos disse que você era legal, e que devíamos dar uma chance antes de criar barreiras. Foi só uma interpretação errada. – Confessou envergonhado.
– Qual é o problema de vocês? – balançou a cabeça, encarando-os, completamente pasma.
– Acredite, eu sempre me faço a mesma pergunta. – Santtu torceu os lábios, inflando a bochecha.

não respondeu, sem se despedir ou pedir licença, se afastou deles, saindo do vestiário sob o olhar atento dos quatro e de alguns outros jogadores.

– É, você tinha razão, Waltteri. – Jasper sorriu, apoiando-se ao ala. – Ela é legal, quero ser amigo dela.

❄❄❄


O terceiro tempo começava com um faceoff e com os visitantes levando a melhor. Num ágil movimento, conseguira agarrar o disco e lança-lo por debaixo das pernas do central rival, Aleks Haatanen recebeu e avançou pela zona neutra carregando o disco com velocidade. Mas o ala da equipe de Lathi foi desarmado com ajuda de um encontrão de um dos defensores rivais, que o jogou no gelo de modo covarde. Quatro a dois, com os Pelicans em desvantagem, os ânimos estavam a flor da pele, era o fim de uma sequência de vitórias, caindo fora de casa com um placar vergonhoso. Por isso, quando Aleks fora derrubado as cabeças entraram em ebulição. Num piscar de olhos, Topi Jaakola, um dos defensores, e Otto Nieminen, o outro ala, partiram para cima do jogador rival, com empurrões, acuando-o contra a proteção, enquanto Aleks ainda estava deitado no gelo, sem conseguir se levantar por causa da confusão de patins.
No segundo seguinte, três jogadores do SaiPa Lappeenranta já estavam envolvidos na confusão, um deles trocava socos com Matias Rajaniemi, outro defensor do Pelicans que havia se juntado a briga. O árbitro tentava afastar os jogadores dos dois times, enquanto Matias perdia seu capacete por causa de um soco. e o alguém do SaiPa se empenhavam para afastar os dois que brigavam. Não por se incomodarem com a briga, mas porque a equipe de Lathi tinha pressa para que o jogo recomeçasse.
Custou, mas a briga estava resolvida e Matias, junto a dois jogadores rivais, estavam de fora, era mais um power play para a equipe azul de Lathi.
A linha foi substituída, , Otto, Aleks e Topi voltaram para o banco, para que Waltteri, Janos, Miika e Santtu fossem para o gelo. O clima ainda continuava tensionado, mais pancadas que o normal, a frustração estampada nas feições de cada jogador sempre que um passe era mal executado, ou que perdiam a posse. Os atletas bufavam, olhavam para o teto como em busca de uma resposta, batiam com o taco no gelo, chutava a proteção, gritavam, tentando externalizar o que sentiam.
Santtu Kinnunen, brilhantemente, interceptou o disco na zona de defesa e o levou consigo até a zona de ataque, quando encontrou Merelä livre e lançou. Waltteri Merelä recebeu o disco e, antes do confronto direto com um defensor rival, atirou para o central, Janos Hari, que passou por alguns outros jogadores, correndo por trás da trave, e depois lançando outra vez para Santtu. O defensor tentou um tiro rápido e limpo, estava livre e não tão distante, mas o disco ressoou na trave e voltou para o gelo, sendo dominado pelo SaiPa. A tensão continuava a crescer, dez minutos já haviam se passado com chances frustradas do time visitante. O goleio do SaiPa havia acabado de fazer uma defesa importante, e no contra-ataque todo time laranja estava na zona de defesa dos Pelicans, quatro defensores estavam no gelo junto a Janos Hari. Uma confusão no vinco, na frente da trave, uma briga intensa e barulhenta de tacos e depois a torcida da casa comemorando. Cinco a dois. Santtu bateu o taco com tamanha força na lateral da proteção que a peça se dividiu em dois.
No banco de reservas, os jogadores, angustiados, se penduravam à proteção, sentados, esperando sua deixa para entrar em campo e tentar fazer alguma coisa para mudar aquele resultado desastroso. Era terrível. Os olhos de corriam do telão para o gelo, e depois para o telão outra vez, enquanto o atleta tentava encontrar brechas na defesa firme do SaiPa. Waltteri estava sentado, havia voltado do gelo a pouco, o ala tentava se hidratar, pendurado ao taco, enquanto assistia a derrota do time.
O tempo parecia correr e era como se houvesse uma proteção invisível cobrindo a trave do time da casa, impedindo que qualquer coisa passasse pelo goleiro. As jogadas aconteciam, mas desviavam para cima, para o lado, desafiando as leis da física e do esporte.
O nervosismo tomava conta dos atletas, a ansiedade também. Estavam no último minuto de jogo, o cronômetro começava sua contagem de segundos quando ao entrar na zona ofensiva, lançou o disco para Waltteri, que estava à sua direita, um pouco adiantado e sozinho, à sua esquerda dois rivais e atrás deles, Janos Hari. Waltteri, depois de empurrar um pouco o disco, devolveu o passe com um tiro certeiro na direção de , que recebeu bem o disco e avançou a toda velocidade em direção a trave. O capitão era seguido de perto por todo time rival, que rapidamente se aglomerou junto ao goleiro. Na confusão de pernas, tacos e disco que batiam contra os tacos e voltava, para depois se chocar contra a trave e voltar para outro taco, o cronômetro zerou. Fim de jogo. Vitória do time da casa.
Os jogadores de Lathi se ergueram e deixaram o gelo em silêncio, cabisbaixos, enquanto o SaiPa se reunia ao redor do goleiro, cumprimentando e o parabenizando.

❄❄❄


apenas havia percebido o fim do jogo quando as pessoas ao seu redor se levantaram e começaram a sair em silêncio. Se alguém perguntasse qualquer coisa sobre a partida da noite, não saberia dizer sequer o número de gols feitos. Parte sua se culpava por isso, outra parte culpava a ansiedade pela procrastinação. Estava incomodada e chateada com o fato de estar em um país diferente, trabalhando com atletas pouco receptivos em um esporte sobre o qual nada sabia.
Passara todo jogo remoendo o que tinha acontecido no vestiário, a aposta e os comentários idiotas de quatro dos atletas. Pensou que talvez pudesse ser amiga de Waltteri, mas aparentemente, todo ser humano com esse nome não era bom caráter. Estava decepcionada e se sentindo sozinha outra vez, além de traída. Depois do fim da partida, cruzou com o loiro de olhos azuis nos corredores, mas evitou qualquer contato, correndo o mais rápido possível para o carro onde Jakkos, o fisioterapeuta, e mais alguns a aguardavam.
não dirigia, e para sua sorte, os membros da equipe médica não costumavam viajar no ônibus do time com o resto da comissão técnica e a inglesa agradeceu aos céus por isso. Odiaria passar quase duas horas em um ônibus com o time, principalmente enquanto pensava sobre as apostas e piadas que o time deviam fazer sobre ela quando a terapeuta não estava por perto.

❄❄❄


Perder era sempre péssimo, mas perder quando se deu até a última gota de sangue, era pior ainda. Havia um ditado, se conhece a capacidade, a força de um grupo baseado na quantidade de suor em suas camisas, e naquela noite havia muito suor. Mas nada suficiente para que voltassem para Lathi com uma vitória.
O clima no vestiário não havia sido dos melhores, lembrava o clima arrasador e melancólico de quando se perde uma grande final. Todos estavam de cabeças baixas, sem acreditar que aquilo de fato havia acontecido, desejando fechar os olhos e acordar em suas casas, e tudo se tratar de um sonho ruim.
O time se organizava para deixar a arena, arrastando-se corredor a fora, em direção ao estacionamento e ao ônibus azul e preto do clube. Atte estava com seus fones, e caminhava ao lado de Aleks, cabisbaixo e atrás deles, , o último da fila, também com seus fones de ouvido. O capitão olhou ao redor, buscava pessoas muito específicas, que desde o fim do jogo não via. Waltteri Merelä havia passado por ele, tinha sido o primeiro a entrar no ônibus junto com Santtu Kinnunen, seguidos por Otto Nieminen e Jasper Patrikainen. Os quatro estavam sempre juntos, assim como Atte, Aleks e , e eram eles que conversavam com a terapeuta nova no vestiário antes do jogo, e era com eles que o central esperava encontra-la, mas não estava ali.
liberou uma das orelhas, puxando o fone para baixo e tocou o ombro dos amigos, tentando atrair sua atenção.

– Com quem a terapeuta foi embora? – Perguntou sem rodeios assim que os dois lhe dirigiram atenção.

Atte franziu o cenho e Aleks estreitou o olhar, depois os dois trocaram um olhar confuso, e em seguida, cúmplice.

– E o que isso te interessa? – Aleks arqueou uma sobrancelha.
– Só estou perguntando. – fingiu, dando de ombros. – Só para confirmar se todos estão aqui.
– Não sabia que isso era função sua. – Atte disse, sem dar muita importância.
– Eu sou o capitão, tudo é minha função.
– Vi ela entrando no banheiro com o goleiro do SaiPa. – Aleks soprou, ajeitando a touca na cabeça.
– O que? Como assim? – questionou, olhando para trás ansioso, mas quando ouviu o riso nasalado de Aleks, rolou os olhos e bufou.
– Precisava ver sua cara, . – Haatanen implicou, aproximando-se dele e o abraçando de lado. – Os olhos arregalados, ficou até pálido. O medo estampado no olhar do marido traído.
– Não viaja. – rolou os olhos, enquanto Atte ria baixo.
– Você tá afim dela? – O goleiro perguntou, encarando os dois por sobre o ombro.
– Eu não.
– Eu odeio como ele sempre acha que é um bom mentiroso, e como fica enrolando antes de contar a verdade. – Aleks reclamou.
– Tá legal, venceram. – ergueu as mãos, rendido. – Achei ela bonita. Foi só. – Mas nenhum dos dois respondeu, num incentivo silencioso para que ele continuasse. – Ela é bonita, achei ela bonita e falei com ela naquele dia. Foi só isso, é sério. E ela nem me deu bola, mal olhou para mim. – Contou o capitão.
– Ela dá bola para o Merelä. – Aleks apontou. – E para o grupo dele.
– O grupo dele é o time. – Atte corrigiu o mais novo, dando-lhe um tapa fraco atrás da cabeça. – Eles devem se conhecer fora daqui, Lathi é um lugar menor do que parece.

deu de ombros, sem saber o que responder ou se queria responder alguma coisa.

– Ela é nova, e para ela deve ser só um monte de homens aleatórios. – Aleks, em um de seus raros momentos de sabedoria, disse. – Ela nem deve saber quem é quem, talvez só converse com eles porque eles a procuraram. Relaxa. – Haatanen abraçou o central pela cintura. – E se você realmente quiser a mulher, vai ter que se esforçar. São muitas opções, você precisa ter um diferencial.
– Diferencial? – o olhou com curiosidade.
– É, sabe, algo que ela só encontre em você. Que te separe dos outros. – Aleks explicou.
– Ele é moreno, é o capitão. Precisa de mais que isso? – Atte perguntou.
– Acredite, se eu fosse uma mulher, precisaria bem mais que isso. – O mais jovem respondeu, com um sorriso sacana nos lábios rosados.
– E se eu não me importasse? – pensou alto, atraindo a atenção dos dois. – Eles foram até ela, você disse. E se eu fizer o contrário? Tipo psicologia reversa?
– É uma piada? – Atte arqueou uma sobrancelha.
– Não, na verdade faz sentido. – sorriu empolgado. – Se todo mundo falar com ela e quiser chamar a atenção dela, o único a não fazer vai chamar sua atenção de verdade.
– Esperto. – Aleks assentiu. – Vai despertar nela aqueles gatilhos de aprovação.
– Não é bem nisso que pensei. – maneou a cabeça, discordando.
– Você não pode estar falando sério. – Atte parou de andar, e tocou o peito do capitão com dois dedos. – Você não está falando sério, está?
– Por que não? – ergueu os ombros.
– Você vai ignorar a mulher que está interessado achando que assim vai fazer ela te notar e gostar de você? – O goleiro repetiu, com olhos arregalados e olhar incrédulo, enquanto Aleks sorria maquiavélico.
– Basicamente. – estalou a língua, sorrindo de canto.



Gerânio

Gerânio: Flores coloridas, consideradas como o símbolo do sentimento.



esticou as pernas e braços até ouvir seus ossos estalarem, estava cedo, algo perto das oito, o quarto era atingido por raios solares fracos, que esquentavam ao menos um pouco o quarto, mas não o suficiente. A playlist matinal que usava como despertador começava seu trabalho, ocupando o quarto silencioso com os acordes suaves de follow the sun, de Xavier Rudd, o dia estava começando, preguiçoso como um gato.
Era quarta-feira, dia seguinte à derrota do time fora de casa, uma derrota que mal tinha prestado atenção, distraída com seu celular. Na noite anterior, frustrada com seu pretendente a amigo, Waltteri, a inglesa havia comido todo o estoque de biscoitos e sorvete que tinha comprado no dia anterior, na companhia dele. Além disso, a casa estava um caos, bagunçada e cheirando a poeira, a sensação que a terapeuta tinha era a de habitar um sarcófago. A cereja do bolo era sua angustia e ansiedade em relação ao trabalho no time, não sabia por onde começar, estava perdida, confusa, em um turbilhão de ideias e medos que eram piorados pela bagunça da casa.
Depois de se alongar, arrastar-se para o banheiro e lavar o rosto, a terapeuta partiu rumo a cozinha, precisava de um pouco de café para que sua alma voltasse ao corpo. Teria o dia livre para trabalhar em casa, se habituando ao time e ao ambiente, cuidar de sua mudança. Na cozinha, abriu os armários, só então percebendo que não havia comprado o essencial para preparar a primeira refeição do dia: café. Ao abrir a geladeira descobriu que só teria algumas fatias de queijo seco e iogurte desnatado para o café da manhã. O dia estava começando bem, resmungou a si mesma enquanto olhava a rua lá fora, pensando se valeria a pena enfrentar o frio em busca de um estômago cheio.
não teve muito tempo para pensar, antes do interfone tocar. Após refletir por longos segundos sobre atender ou não, a terapeuta cedeu.

- Sim.
- Sou eu, Waltteri. – O jogador finlandês disse do outro lado e arregalou os olhos, sobressaltando-se, esperaria que sua mãe aparecesse àquela hora da manhã, mas não Waltteri Merelä.
- O que? O que está fazendo aqui? Não são nem oito da manhã. – questionou.
- Será que podemos conversar? Queria me desculpar por ontem.
- Está desculpado. Se era só isso, pode ir. – A inglesa respondeu, ainda estava magoada e no fundo, queria soar rude e mostrar a ele o quanto estava chateada.
- Por favor, ...- Waltteri miou. – Eu posso explicar. Por favor. – Pediu outra vez.

olhou para o caos em que seu apartamento estava, para a bagunça que ela mesmo estava vendo em si, através do reflexo na janela, os cabelos pareciam não ser penteados há meses, a pele oleosa, e o pijama esfarrapado estava pedindo pela aposentadoria. Não sabia se devia ceder e ouvir o jogador, se enganou em dar-lhe atenção antes, Waltteri era só mais um atleta infantil e bobo fazendo apostas idiotas. Mas por outro lado, estava frio, muito frio, e Merelä era o mais próximo que tinha de um amigo, talvez e só talvez, valesse a pena dar a ele uma chance de pelo menos se explicar. também queria ouvir, merecia uma resposta.
Depois de bufar, contrariando a si mesma, apertou o botão que abria o portão para o visitante. Em seguida, correu para o banheiro, tentando se ajeitar minimamente, escovou os dentes e prendeu os cabelos, mas não teve tempo de trocar o pijama, logo Waltteri já estava a porta.
A terapeuta abriu a primeira e depois a segunda porta, encontrando o jogador de pé, mãos no bolso do casaco e sorriso culpado. Ao seu lado, os três a quem fora apresentada na noite anterior, que ela reconheceu como Otto, Santtu e Jasper. Os três sorriam como crianças pegas em flagrante depois de quebrar uma janela. torceu os lábios em uma careta incrédula e tentou fechar a porta, mas Waltteri a impediu, colocando uma de suas pernas no caminho.

- Não pense que me incomodo em machucar sua perna, porque não me incomodo. – Ameaçou ela.
- Certo. Certo. Você tem razão. – Merelä ergueu as mãos, rendido. – Desculpe por isso, mas é que se eu dissesse que estávamos todos aqui, você não deixaria a gente subir.
- Não deixaria mesmo. – Enfatizou ela, cruzando os braços sobre o peito, envergonhada pelo estado em que os jogadores a estavam vendo.
- Queríamos nos desculpar, . – O mais baixo, com rosto mais redondo e barba cheia disse, atraindo o olhar da terapeuta. – Todos nós.
- É, foi uma coisa bem estúpida o que fizemos. – Santtu completou, o mais alto e com traços mais duros.
- Mas não é tão ruim quanto parece. – Jasper sorriu ao dizer, mas foi sutilmente empurrado por Waltteri.
- O que estamos tentando dizer é que sentimos muito. – Merelä falou, acentuando o sentido de suas palavras com o olhar que dirigiu a inglesa, que sequer se moveu.
- Não fizemos uma aposta sobre você, jamais faríamos isso. – Otto voltou a falar. – Só estávamos provocando Waltteri, achávamos que ele se apaixonaria ou coisa assim. – , que começava a amolecer, emburrou outra vez. – Mas não que isso seja certo, não é. Sabemos que não é. – Otto se corrigiu.
- A gente é um pouco idiota, mas não queríamos que isso te magoasse. – Jasper coçou a nuca, envergonhado. – Pode nos perdoar?

encarou os quatro homens parados diante dela, pensando sobre o que a ação de terem vindo se desculpar, numa manhã gelada de folga, significava. A inglesa expirou e inspirou profundamente, sob os olhares atentos deles e então disse:

- Eu perdoo vocês. – Declarou em um meio sorriso, e os quatro comemoraram com um tipo de aperto de mãos que parecia específico entre eles. – Mas eu juro, que se houver mais alguma coisa, ou outra aposta...
- Não. De jeito nenhum. - Waltteri se aproximou, sorrindo elegantemente. Tudo nele era elegante e bonito, pensou consigo mesma. – E nós temos uma prova. Uma ação da embaixada da boa vontade. – Ele sorriu, enquanto a inglesa franzia o cenho.
- Alguém aí pediu por uma faxina? – Santtu sorrindo, ergueu um esfregão que estava escondido atrás do grupo, e encontrou espaço entre Waltteri, e a porta, entrando no apartamento sem se importar com convite=.
- Tem café da manhã também. – Jasper imitou o amigo, passando pela porta com algumas sacolas em mãos, que até aquele instante a inglesa não havia reparado. – E o Otto roubou flores de um vizinho dele. – Apontou com o polegar para trás, enquanto Otto, que o seguia e erguia um vaso com uma plantinha verde, sorridente, trancava a expressão ao ouvir a palavra roubo ser atrelada a si.
- Espero que isso consiga compensar. – Waltteri falou, sorrindo fraco.
- Vocês não podem fazer uma aposta idiota me envolvendo e achar que por limparem a minha casa, tudo está resolvido. – apertou os lábios em uma linha fina, falando sério.
- Não é só limpar a casa, tem café da manhã também. – Waltteri brincou, mas em seguida endireitou a postura. – Eu sei. Nós sabemos. É só que não queria que pensasse que somos um bando de idiotas. – O jogador ergueu os ombros. – Até somos, mas não desse jeito e não assim. Eu realmente sinto muito.
- É bom que sinta. – balançou a cabeça negativamente. – Vem, entra logo. Eu estou morrendo de fome e você tem um banheiro inteiro para limpar. – Falou, ainda fingindo-se zangada, mas um pouco menos azeda e Waltteri sorriu grande, seguindo-a para dentro do apartamento onde uma intensa faxina começava a ser feita.

❄❄❄


Era uma bela vista a que tinha de sua varanda.
A casa estava localizada em uma zona mais afastada do centro de Lathi, entre muitas árvores, isolada, como sua mãe gostava de dizer. Segundo suas irmãs, se Crepúsculo fosse um filme europeu, aquela seria a casa da família de Edward Cullen. Durante os dias, quando estava no silêncio, o único som ouvido era o dos pássaros, o farfalhar das árvores movidas pelo vento, os animais silvestres que vez ou outra apareciam por ali, curiosos com as luzes.
A casa tinha fachada acinzentada, portas pretas e vidros escuros, minimalista e grande, como gostava. Ficava em um terreno alto, ainda mais frio e de lá, da piscina grande e de borda infinita nos fundos, o atleta conseguia ver o mar e algumas montanhas nevadas. Toda decoração da casa se mantinha nos mesmos tons, preto, cinza e branco, o minimalismo deixava tudo com aspecto ainda mais refinado, haviam móveis de ferro fundido e madeira escura, cimento queimado nas paredes e chão.
Era uma casa fora dos padrões para jogadores de hockey da Liiga, mas feliz ou infelizmente, não era apenas o time que sustentava o central. tinha inúmeros contratos publicitários na Finlândia e Rússia, algumas parcerias até no México, país de sua mãe. Tudo isso o elencava como jogador mais bem pago do país, no meio dos mais bem pagos que não estavam na NHL.
Em seu castelo, o príncipe de Lathi vivia só, com exceção de seu cachorro, Felix. Gostava daquela paz, até preferia. Adorava estar entre o time, entre seus amigos, mas sua paz e seu espaço eram sagrados. Se não tivesse um tempo para si, o estresse ia para o alto e tudo desandava, não conseguia sequer pensar. Vivia, por isso, em um constante conflito, por amar tanto sua própria companhia e a infindável lista de coisas que podia fazer ou aprender, só saía de casa se realmente quisesse, sendo que muitas vezes precisava se forçar a ir.
Não era uma vida nada ruim.
Viver rodeado de pessoas, mas ter seu lugar de paz quando quisesse descansar, dormir, viver.
Os pais moravam na Rússia, mudaram-se para lá depois de muitas décadas em Lathi, e , apesar de amar o país, preferiu permanecer na Finlândia. Seria bom certa distância, espaço, a chance de não ser observado por absolutamente ninguém, cobrado por absolutamente ninguém, não ter que dar conta da expectativa de ninguém. Precisava disso, muito.
Amava os pais de todo coração, era fato. Tinha profunda admiração pela família, muitas vezes trocando passeios com amigos e encontros com garotas, por tardes de passeios em família, ou apenas para ficar em casa e ouvir a mãe contando sobre como sua semana tinha sido enlouquecedora. Mas aos poucos, principalmente a medida com que ia envelhecendo, percebia que precisava de espaço e que se continuasse tão junto dos pais, nunca conseguiria separar onde terminava e onde seus pais começavam.

❄❄❄


Estavam todos espalhados pela sala recém limpa de . Agora haviam vasos com plantinhas, cactos e outras florezinhas coloridas, fora isso, nada de especial ou que desse a cara da terapeuta ao lugar, mas ao menos estava limpo. A TV sintonizada, tudo no lugar.
Waltteri cochilava em um dos cantos do sofá, com a cabeça caindo sobre o ombro e pernas cruzadas, Otto mudava de canais como uma criança entediada, enquanto Jasper jogava um jogo qualquer em seu celular que fazia um barulho irritante. Depois da intensa faxina, os quatro haviam feito uma refeição restauradora preparada pela inglesa e agora se recuperavam, descansando do esforço. Na cozinha, assistia Santtu Kinnunen lavar sua louça, pensando sobre como era bom ter pessoas por perto outra vez. Não eram Maisie ou Louis, mas eram pessoas que pareciam se importar e querer ajudar.
Santtu era parecido com Waltteri, mas diferente. Parecia, vez ou outra, ser mais jovem que Merelä, e tinha a pele um pouco menos transparente que a do primeiro, os cabelos não eram do mesmo tom de loiro acinzentado que Waltteri. Se Waltteri lembrava um príncipe encantado, com seus traços delicados e esculpidos, o típico galã dos filmes românticos clichês, Santtu seria o cavaleiro com armadura brilhante. Os traços fortes, postura imponente, olhar sério e concentrado pareciam amenizadas quando ele sorria, um sorriso doce e que parecia verdadeiro.

- E eu...terminei. – Anunciou o defensor, erguendo as mãos vazias e sorrindo.
- Acho que isso foi tão valoroso quanto marcar no final do campeonato. – brincou e o jogador riu nasalado.
- É, só que aqui é mais fácil. – Santtu apoiou-se a pia e cruzou os braços sobre o peito, balançando a cabeça negativamente.
- Obrigada pela ajuda. – agradeceu, fazendo menção a louça. – E por todo o resto. Acho que se não fosse por vocês, eu levaria uma semana para arrumar tudo aqui.
- Não esquenta, era o mínimo depois do que rolou. – O finlandês deu de ombros. – Além disso, é assim que se começa uma amizade. – Piscou.
- Então somos amigos agora?
- Claro, você é amiga do Waltteri, que é nosso amigo. Amigos do Waltteri, são nossos amigos.
- Obrigada, é muito gentil da parte de vocês. – sorriu. – É bom conhecer pessoas novas, principalmente quando se muda para um lugar completamente novo.
- Você vai se acostumar, as pessoas aqui são legais. – Santtu garantiu. – Eu sou muito legal, leve isso como modelo. – Brincou, apontando para o peito e enfatizando o eu da frase.
- É, claro, estou vendo isso. – desdenhou, teatralmente e ele gargalhou, para em seguida, aproximar-se da bancada, perto de e escorar o corpo, observando a sala, onde os amigos descansavam. – Já pensou no que vai fazer para deixar isso aqui a sua cara?
- Não. – Ela confessou, expirando uma risada. – Na verdade preciso pensar nisso. Talvez um pouco de arte, quem sabe alguns quadros, objetos engraçados, mas que não sejam bobos. Almofadas peludinhas. Quem sabe...- Disse ela.
- Podemos deixar o Otto aqui, se você gostar de Star Wars. – Santtu sugeriu. – Ele é um Chewbacca perfeito.
- Eu estou ouvindo, Santtu. Caipira. – Otto resmungou irritado, da sala, enquanto e Santtu gargalharam.

❄❄❄


Era quinta-feira, dia de voltar aos treinos.
O último jogo havia sido marcado por uma derrota e por mais questionamentos quanto a qualidade de . Jornalistas se amontoavam para perguntar ao time e ao técnico suas opiniões sobre o jogador, na internet um alagamento de comentários do tipo “superestimado”, “Merelä é melhor que você”, “Fora ”. Com o tempo, o antes sorridente, aberto e comunicativo fora reservado apenas aos mais próximos, como uma espécie de proteção diante todo aquele ódio e cobranças que desde sempre fora exposto.
Quando começou, não era nada além de um garoto que não sabia nada da vida, perdido com o assédio de todos, sem entender a dimensão de seu talento e o quanto aquilo traria mudanças para sua vida. Mas aos poucos, com o passar dos anos, a aclamação não era proporcional as cobranças e críticas, e qualquer passo, brincadeira, foto, sorriso de era maldado, mal interpretado e ridicularizado.
Por isso, e apesar de dentro daquela couraça habitar o velho gentil e brincalhão , o que a maior parte da população via era apenas o concentrado, silencioso e sério . A estrela silenciosa, como alguns fãs gostavam de chamá-lo.
No time, em partes era assim, além de tentar se manter alerta e concentrado por causa de sua posição, não se sentia à vontade com todos do elenco. Alguns ainda não havia tido chance de conhecer, ou tempo, preferia se manter em sua zona neutra, observando cuidadosamente. Era em partes o caso da nova terapeuta, .
arrancaria todos os cabelos da cabeça se pudesse, tamanha ansiedade que a inglesa lhe causava apenas por existir. Não havia sequer uma semana em que a mulher estava entre eles, e a sensação que o central tinha era a de terem se passado meses. Alguma coisa em o atraía e mesmo que parte sua lutasse contra o sentimento, outra parte já havia se entregue a , mesmo que ela não soubesse.
Era estúpido e idiota, na opinião de , estar tão obcecado por alguém que não havia trocado sequer mais de cinco palavras. Mas o que podia fazer? Era o que sentia.
Desde o instante em que pusera seus olhos sobre pela primeira vez, algo se iluminou, como se sua intuição lhe dissesse que a terapeuta se tornaria parte importante de sua vida, mesmo que não fizesse nenhum sentido. Era idiota, bobo, coisa de adolescente, pensava ele. Mas mesmo tentando racionalizar e cristalizar em sua cabeça o quão fantasioso era tudo aquilo, simplesmente não conseguia. Precisava saber mais sobre ela, ouvir sua voz até que a memorizasse e memorizasse todos seus trejeitos e sotaques, queria saber quais suas músicas favoritas, quais seus sonhos, como acordava pela manhã e o principal, o que a inglesa achava dele.
No meio do caminho haviam dois obstáculos perigosos, o primeiro, o fato de fazer parte de um time. Se , por acaso, se interessasse por alguém do trabalho, seria difícil se destacar em meio a tantos outros iguais ou melhores que ele. O segundo obstáculo, era Waltteri Merelä e seus amigos, obviamente haviam algo entre ele e a inglesa. A opção para superar o primeiro obstáculo, fingir completo e total desdém por , infelizmente, impedia que o central ultrapassasse o segundo e mais perigoso, Merelä. Era um jogo de azar, e confiava que em sua mão, logo conseguiria somar vinte e um.
Era hora de seu show, embora por dentro, quisesse sorrir aberto para a terapeuta, assim como Santtu Kinnunen fizera quando passou pela porta, juntando-se a eles durante a musculação. Os cabelos estavam soltos, mas escondidos atrás das orelhas, vestia um moletom branco do time, jeans e tênis, pouca ou nada de maquiagem e mesmo assim estava tão linda que pensou que poderia passar a vida toda a observando.
cumprimentou a todos com acenos e sorrisos com os olhos, ela usava máscara. Depois, se dirigiu a um grupo específico de jogadores, do lado oposto ao de , Santtu e Jasper Patrikainen, que sorriram e fizeram brincadeiras que o central não pode ouvir, mas que notou terem feito a terapeuta sorrir.

- Olha ela aí. – Aleks se aproximou, deslizando sorrateiro para o lado de e soprando em seu ouvido. – E quem diria, ela tem seus favoritos.
- Isso devia me ajudar ou me fazer sentir pior? – arqueou uma sobrancelha, mas não o olhou, seu olhar continuava fixo a inglesa.
- Eu não sei não...- Aleks esfregou as unhas ao peito, de modo despreocupado. – Acho que alguém foi mais esperto que você.
- O que? Do que tá falando? – o encarou, chocado, mas Aleks apenas deu de ombros.
- Você vai ficar sentado aqui, ou vai fazer alguma coisa? – Provocou o mais jovem.

respirou fundo, um pouco impaciente e irritado com a fala do amigo, depois correu os olhos pelo local, percebendo-se que Waltteri e Otto Nieminen estavam prestes a se juntarem aos outros. O central dirigiu a Aleks um olhar hostil e jogou uma toalha sobre o ombro, caminhando a passos firmes para uma das esteiras, ao lado de , atravessando o caminho de Waltteri, que o cumprimentou com um aceno.
Era agora ou nunca, disse o capitão a si mesmo, respirando fundo e tomando toda coragem que sequer pensou que precisaria para aquela situação.
Devagar, aproximou-se de e dos outros, em direção as esteiras. Quando a terapeuta percebeu a aproximação do central, voltou-se para ele e sorriu. Um sorriso tão dócil que fez com que repensasse, naquele curto período de tempo, seu plano cerca de dez vezes, mas o capitão se manteve firme. Ao passar por ela, manteve o queixo erguido, fitando as esteiras, ignorando completamente a inglesa, enquanto gritava por dentro. o acompanhou, girando em seu eixo para vê-lo, só parou de sorrir quando seus olhos estavam sob as costas do central, e então franziu o cenho, confusa.
Enquanto respirava fundo, concentrando-se em ignorar a terapeuta, mantinha a expressão torcida em uma careta de confusão, depois, analisou a academia, sem graça, baixou o olhar e disfarçou o fato de ter sido ignorada, voltando-se aos outros quatro atletas, como se nada tivesse acontecido.

- , ...- Aleks aproximou-se deles, cantarolando, ignorando os olhares incrédulos e ameaçadores que dirigia a ele.
- Olá. – A inglesa sorriu simpática, e talvez um pouco surpresa.
- Não tive a chance de me apresentar, e não quero deixar que meus companheiros tomem posse de você assim, tão fácil. – Ele provocou, arqueando uma sobrancelha para os outros quatro do time.
- Não sou uma coisa para que tomem posso. – sorriu de canto e esticou, em seguida, a mão direita para Aleks. – Mas tem razão, ainda não fomos devidamente apresentados. .
- Haatanen, Aleks, mas pode me chamar de Hade. – Se apresentou, batendo os cílios e com um sorriso contido, observando-a com cuidado.
- Vou me lembrar disso. – devolveu o mesmo olhar analítico e desafiador de Aleks, deixando alarmado.
- Então, vocês já se conheciam. – Aleks apontou para o grupo e a terapeuta, depois cruzou os braços sobre o corpo.
- Não, na verdade não. – respondeu antes que os atletas tivessem chance. – Os conheci essa semana, assim como os outros.
- Curioso. – Haatanen maneou a cabeça, e naquele instante, um desesperado buscou o olhar de Atte Tolvanen do outro lado da academia. – Podia jurar que já se conheciam há anos, ou até que fossem...íntimos.
- Não, está enganado. – Waltteri coçou a nuca, desviando o olhar.
- Waltteri me deu uma carona para casa na segunda, e ontem ele, Santtu, Otto e Jasper me deram uma mão com a mudança. – explicou, tentando imaginar o que o tom e as perguntas de Aleks deviam significar.
- Sempre me choco sobre como meus colegas podem ser prestativos. – Hade ironizou.
- O que quer dizer, Haatanen? – Santtu endireitou as costas, e Aleks apenas projetou o lábio inferior em um sorriso inocente, depois deu de ombros.
- Como estão? Tem algum tipo de treino novo rolando aqui? – Atte Tolvanen surgiu entre eles, interrompendo qualquer resposta ou provocação, apertando os ombros de Aleks com mais força que o necessário e sorrindo para o grupo, para alivio do capitão, que já suava frio, caminhando na esteira ao lado.
- Não ainda. – sorriu, acenando com a cabeça. – Acho que também não fomos apresentados.
- Atte Tolvanen. – O goleiro sorriu educado.
- Claro, o goleiro que tem uma marca. É um prazer, Atte. – sorriu e o sorriso de Atte se intensificou dez vezes quando ela mencionou sua marca de roupas.
- Como sabe? – Perguntou com um sorriso torto.
- Ah, eu...meio que...procurei por vocês no Instagram. – confessou, sem jeito, hesitante. – Gostei das roupas, aliás.
- É, você fez mesmo o dever de casa. – Atte afastou-se de Aleks e se aproximou um pouco mais de . – Deve ser por isso que todos gostam de você tão fácil.
- Bom, isso é você quem está dizendo. – Ela riu abafado, inclinando a cabeça sobre o ombro.
- Não, é verdade. – Tolvanen sorriu, cruzando os braços e endireitando a postura. – Todos já estão falando muito bem de você, e mal tem uma semana.
- Não me iluda assim, Atte, tenho ego frágil. – brincou, inclinando-se sutilmente em direção ao loiro e forte goleiro.

Atrás de Atte, Aleks encarava a cena, ora com olhos sobre o goleiro, ora sobre , que parecia paralisado com a interação do amigo e da terapeuta. Enquanto Atte e trocavam sorrisinhos e elogios, pensava em saídas, no que podia fazer para encerrar aquela conversa quem nem mesmo devia ter começado.
Otto, Waltteri, Jasper e Santtu pareciam igualmente confusos com a interação repentina dos dois, e se entreolhavam vez ou outra, garantindo que todos pensavam o mesmo sobre.
não conseguiu pensar muito antes de agir, repentinamente, pulou da esteira, passando pelo grupo. O central ignorou a todos, mantendo o olhar o mais alto que conseguia, graças a sua altura, mas propositalmente, esbarrou com força em Atte, que sorria distraído para , divertindo-se com uma fala qualquer da inglesa, fazendo com que o goleiro de deslocasse com o impacto.

- Opa. – ergueu as sobrancelhas e apertou os lábios, fazendo menção ao encontrão com o capitão.
- Opa. – Atte riu sem jeito, coçando a nuca. – Opa.

❄❄❄


A primeira coisa que a terapeuta fez ao pisar dentro de casa, foi procurar o celular perdido dentro da bolsa e atender a ligação de Louis, que tentava se comunicar com a amiga pela terceira vez naquele dia.

- Espero que ninguém tenha morrido ou ido preso. – disse, arrancando as botas sem jeito, com o celular apertado entre o ombro e a cabeça.
- Aqui não, mas achei que você tivesse sido abduzida. – O médico respondeu do outro lado.
- Foi uma semana tensa, e ainda nem é sexta. – riu. – Esqueci de responder as mensagens, sinto muito, vou tentar ser mais...atenta? – Perguntou a si mesma, de modo retórico e ouviu o amigo rir do outro lado.
- O que você tem feito?
- Bom, tudo aqui acontece muito rápido. Eu cheguei na segunda e já me perdi na cidade, depois um dos jogadores se ofereceu a ir comigo às compras. – Contou enquanto abria a geladeira em busca de uma lasanha congelada. – Depois tivemos um jogo e o time perdeu, e no dia seguinte, nossa folga, alguns jogadores vieram aqui me ajudar com a faxina no apartamento. – evitou contar muitos detalhes, sabia que o amigo ficaria preocupado.
- Como assim? Você chegou ontem e já está recebendo jogadores em casa? , eles são confiáveis? – Louis indagou, sobressaltado. – Nunca te disseram para não receber pessoas estranhas em casa?
- Louis, todos são estranhos para mim. – Ela riu, tentando amenizar a preocupação justificada do amigo. – São caras do time, eles vieram aqui, me ajudaram a limpar e acho que estamos construindo uma amizade.
- Eu não sei, não confio neles. – Falou o inglês.
- É óbvio, você não os conhece. – riu, enquanto enfiava a lasanha congelada no microondas. – Mas são boas pessoas, todos parecem simpáticos. Alguns ainda me olham um pouco torto, seja por ser inglesa ou por estar no meio deles, mas a maioria é legal.
- Eu não sei se fico feliz por estar se saindo bem, ou preocupado com sua falta de noção e facilidade em confiar nas pessoas.
- Louis, querido...- riu mais uma vez e suspirou. – Eu estou aqui, preciso me entregar a experiência. – Disse, jogando-se sobre o sofá.
- Só tome cuidado para quem se entrega. – Alertou ele outra vez, fazendo-a revirar os olhos.
- Tá bem, pai. Vai dar certo. – Provocou. – Acho que é questão de tempo até todos me tratarem como um deles, até o capitão. – divagou sobre o capitão e central do time ao dizer.
- O que tem ele? Está te perturbando? Causando problemas?
- Não, Louis, relaxa. – Negou. – Ele...é que eu achei que seria fácil me relacionar com ele, principalmente porque foi um dos primeiros a falar comigo quando cheguei, mas ele...sei lá...- A terapeuta hesitou. – Parece que fiquei invisível, hoje ele nem me cumprimentou ou olhou para mim. Até tentei, mas ele me ignorou na cara dura. Talvez não seja só comigo, ele se chocou com um dos goleiros e nem pediu desculpas, acho que é meio babaca, grosseirão.
- E ainda dizem que os finlandeses são simpáticos...
- A maioria deles, sim. – riu nasalado. – Mas esse cara...
- O que tem ele? – Louis quis saber.
- Tem alguns atletas tão educados e gentis, a maioria deles na verdade. Parece que estou em uma seleção de atores para um filme de príncipes. – Contou sorrindo. – Mas esse...
- Em terra de príncipes, o capitão é a fera. – O médico completou, fazendo a terapeuta rir alto.
- É, acho que sim. A fera, um capitão gancho...quem sabe? – desatou a falar, mais para si mesma do que para o amigo. – Mas também, pode ser algo comigo, talvez ele não goste de mim. Waltteri disse que ele era legal, será que fiz algo? Ou ele soube sobre o que aconteceu em Mônaco? Eu até olhei as redes sociais dele, mas ele não posta nada há décadas, foto de perfil ele está de costas, e o resto são fotos antigas, ou fotos de cachorro. Será que tem alguma chance de ele ter descoberto sobre Mônaco? O que acha?
- Acho que você está paranoica e mais estranha que o normal. – Louis observou.
- Para com isso.
- É sério, . Você devia se cuidar e não ficar recebendo qualquer pessoa em casa, nem ficar se preocupando com Mônaco.
- Eu não consigo, sempre tenho pesadelos em que e Antti Vierula aparecem na arena e me desmascaram em frente a todos. – Confessou.
- Amiga, vou procurar contatos de terapeutas em Lathi e te encaminhar. Você precisa de psicólogo, urgente. – Louis alertou, mas riu.
- Talvez, talvez.
- Preciso ir agora, tenho um paciente importante. – Avisou ele. – Por favor, se cuide. Tenha cuidado.
- Não se preocupe, vou ficar bem. Eu sempre fico. – Garantiu . – Sempre fico.

❄❄❄


Aproveitando uma rápida brecha em que o goleiro estaria sozinho, terminando de se ajeitar para ir embora, e Aleks entraram sem jeito, pisando duro e com queixos erguidos. estava à frente, com os olhos fixos em Atte, que a essa hora já respirava fundo e apertava a ponte do nariz com os dedos, sentado em um canto, no fundo do vestiário. Atrás de , Aleks o imitava, tentando parecer do mesmo tamanho do central, como um irmão caçula que imita o irmão mais velho.

- Aí, vacilão. – Aleks chamou, tomando a frente da situação, mas o ignorou.
- Qual é a sua? – questionou, em um tom menos agressivo do que o usado por Aleks e Atte ficou de pé, de cabeça baixa.
- Eu sei, eu sei o que pareceu. – Explicou-se ele, erguendo as mãos na altura do peito, defensivamente. – Mas não é nada disso.
- Não é o que parece. – Aleks voltou a falar e lhe pediu com o olhar, para que se calasse.
- Ele tem razão. – não estava exaltado, seu tom de voz era calmo e suave, e para Atte, que lhe conhecia como a palma da mão, aquilo significa que no fundo, o central estava verdadeiramente perturbado com o que tinha acontecido.
- Escuta. – Atte suspirou, aproximando-se um pouco mais do amigo e tocou-lhe o ombro. – Eu me empolguei, ela é simpática, mas foi só isso, eu juro. Não tem interesse, não quis dar abertura ou coisa assim.
- Sua postura lá dizia outra coisa. – passou uma das mãos no rosto, suspirou, inclinou a cabeça e depois voltou a erguer o olhar. – Tudo dizia outra coisa.
- É, você tem razão...tem razão. – Atte se afastou, dando-lhe as costas, precisava pensar em uma forma de fazer com que os amigos acreditassem nele.
- Você não foi muito inteligente dando ideia para a mulher que o está caído, não é? – Aleks ironizou, e o goleiro lhe dirigiu um olhar duro. – O que? É a verdade. Você estava lá todo derretido, só porque ela valorizou seu ego, falando da marca. Enquanto ela falava que tinha te visto no Instagram.
- Não lembro de a conversa envolver você, Aleks. – Atte disse com os dentes apertados. – Não me importo se nos der licença.

Enquanto os amigos discutiam, pensava consigo mesmo, lembrando-se do momento com ajuda das palavras de Aleks. Ele tinha razão, não fora Atte quem começou aquilo, mas sim , falando da marca do goleiro, dizendo que havia visitado suas redes sociais, talvez ela estivesse interessada nele. Não seria a primeira vez que uma mulher havia preferido Atte, em toda adolescência e durante a vida adulta aquilo era comum. Atte era mais bonito, o cabelo loiro e os olhos azuis o faziam parecer um desses príncipes de filmes, e ele era inteligente, tinha ido para a faculdade e sabia falar sobre qualquer assunto, era mais que só o jogador de um time qualquer, de uma liga qualquer, em um canto qualquer do leste europeu.
Não podia culpa-la por, entre todos, se interessar por ele, ou por ele e outros, e não por . Ser o menos interessante e o menos favorecido fisicamente não era culpa de Atte, de Waltteri ou de qualquer outro. Estava sendo inocente e estúpido ao pensar que alguém como ela, linda, inteligente, importante, estrangeira, teria olhos para entre tantas outras opções melhores. E ninguém, além de si mesmo, tinha culpa daquilo.

- Já chega Aleks. – interveio, antes que Aleks fizesse outra provocação ao amigo goleiro.
- Mas eu só estou começando. – Hade sorriu malicioso.
- Já chega. – suspirou, sob olhar atento de Atte. – Olha, cara...são todos livres e sem impedimentos, vocês podem fazer o que quiser, não é da minha conta.
- Oi? ? Ficou maluco? – Atte indagou, com expressão confusa e surpresa.
- Não, estou sendo bem sensato, eu acho. – Confirmou o central, pensativo, apoiando as costas em uma parede.
- Tá legal, eu fiquei um pouco confuso agora. – Aleks se aproximou. – A gente não está bravo com o fura-olho? – Questionou ele, mas Atte lhe empurrou com o ombro.
- Não, não existe razão. – assentiu. – é livre, e ela vai gostar de outras pessoas, quer eu queira ou não. – Ele deu de ombros, fingindo não se importar. – Se não for o Atte, vai ser o Waltteri...eu não me importo.
- Não importa? – Aleks e Atte se entreolharam, confusos e preocupados. – Até ontem você só pensava nessa mulher, agora, num passe de mágica ela não importa mais? – O goleiro indagou.
- É, isso aí. – assentiu. – Onde há concorrência, eu sou desistência. – Dizendo isso, o central colocou as mãos nos bolsos do moletom que usava e deixou o vestiário, dando as costas aos amigos, sem se importar com as grandes interrogações em suas faces.





Continua...



Nota da autora: Oie, pessoal!!


Para acalentar o coração desta ansiosa autora que vos escreve, se puder, deixe um comentário. <3

Meus sinceros agradecimentos por sua leitura.
Um grande beijo e até breve,
Carmen


Caso o disqus ainda esteja instável e queira deixar um comentário para aquecer o coração da autora, pode clicar aqui.


10. 305 Ficstape - Wonder:Shawn Mendes
05. Come Back Home Ficstape - I Met You When I Was 18:Lauv
12. Stand Up Ficstape - Eletric Light:James Bay

Drive to Survive: Daniel Ricciardo
Drive to Survive: Esteban Ocon
Drive to Survive: Max Verstappen
Drive to Survive: Sergio Pérez
Drive to Survive: Valtteri Bottas
Ele
Ottawa's Night Secrets
Sukha
Tarab
The Curve of a Dream
The Curve of a Dream: A Tribute
Wunderbar
Yuan bei


comments powered by Disqus