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Última atualização: 21/03/2020



Prólogo

fechou os olhos e fez uma oração silenciosa, secando o último rastro de lágrima de seus olhos e com um suspiro pesado virou-se de costas, iniciando sua caminhada para longe do túmulo, onde jazia o caixão com o corpo de seu pai, Dominique . Aquela sensação de perda queimava em seu peito e seus músculos rígidos revelavam a tensão.
Depois que recebeu a notícia da morte de seu pai, poucas lágrimas tinham sido derramadas, ela detestava chorar em público e quase não ficou sozinha, somente nos momentos em que ia ao banheiro, porém se demorasse mais de dez minutos alguém batia - esmurrava - a porta e suas amigas lhe traziam água e comida a todo momento. Sabia que não deveria reclamar, tinha consciência da preocupação explicita que elas sentiam, com medo de que fizesse alguma besteira, afinal de contas, ela realmente vivia cometendo besteiras.
Mas agora tudo que ela queria, era ficar sozinha.
Olhou para as amigas que a esperavam há pouca distância.

- Vou dar uma volta - Leah chegou a abrir a boca, mas não deixou que falasse. - Sozinha - afirmou séria. - Não me sigam, todas nós sabemos o que acontece depois da terceira marcha. Amo vocês.

deus as costas e percorrendo o trajeto da saída do cemitério até o estacionamento, o carro de seu pai estava ali, o carro que agora era seu, um monumento passado de geração para geração.
O Opala era o orgulho de Dominique.
E agora seria o seu também.
tirou os saltos quando sentou no banco do motorista, não se importava de dirigir com eles, mas queria sentir os pedais do carro tocando seus pés, ligou o carro e com a primeira marcha saiu dali, enquanto o carro andava pelas ruas, na cabeça dela era traçado como seria seu caminho a partir de agora, havia herdado tudo que fora de seu pai.
Havia herdado a oficina de carros.
Ela amava aquela oficina, por muitas vezes seu pai permitia que o ajudasse, não era sempre, já que ele não gostava que os homens ficassem babando por sua filha, mas quando ela insistia muito, o homem permitia, e tudo que sabia havia ensinado para a filha.
Quando estacionou o carro em frente à oficina, sorriu com as chaves em mãos, destrancou o portão e entrou. Cruzou o espaço até o banheiro e tirou o vestido preto do enterro, seus cabelos já estavam presos, voltou à entrada e observou dois carros parados, o serviço ainda não estava pronto, abriu o capô do Peugeot 206 branco, e deu outro sorriso, com a chave de fenda em mãos, iniciou seu trabalho.
Lar doce lar.


Capítulo 1 - Tons Claros Na Oficina

Quatro meses depois


Quando o carro ultrapassou a linha que determinava o vencedor, a mulher ouviu os gritos ensandecidos dos espectadores da corrida.
Ela havia ganhado.
De novo.
Deu a volta e chegou novamente à linha de partida, onde pegaria o dinheiro apostado. A maioria dos corredores gostava de apostar o próprio carro, não, seu negócio era o dinheiro, amava seu carro e não o apostaria jamais, não por medo de perder a corrida, mas por não ter interesse em dirigir mais nenhum.
Saiu do veículo e foi cumprimentada por várias pessoas, algumas ela sabia o nome, outras conhecia apenas a fisionomia, era quase impossível conhecer todos, já que todo dia apareciam pessoas novas procurando adrenalina e era bastante conhecida. Ela frequentava as corridas clandestinas desde antes dos 18 anos, não corria toda semana, mas toda semana estava ali, gostava também de assistir outras pessoas correrem. A mulher já tinha perdido a conta de quantas corridas disputou na vida, guardava na memória somente as derrotas.
Cinco vezes.
Era seu placar negativo, e o mais incrível de tudo, era que as derrotas foram para seu pai, ele era o MELHOR, praticamente invencível. Muitos perguntavam por que ela gostava tanto de correr e seu alvo preferido eram os homens; era um prazer quase sexual quando ela ganhava e os homens tinham que engolir todas aquelas baboseiras de “mulher não sabe dirigir" ou "mulher não entende de carro" a que mais odiava era "lugar de mulher é na cozinha" e esses outros ditos populares totalmente ridículos que a população masculina machista amava citar.

- Parabéns ! - Talles cumprimentou lhe entregando o prêmio monetário, era ele quem organizava as corridas. - Você arrasou mais uma vez.

o abraçou

- Valeu Talleco.
- Ainda não consigo entender como uma mulher ganha uma corrida - olhou para trás encarando o dono da voz.

Seu cérebro não reconheceu o semblante, era um homem alto extremamente forte, seus músculos pareciam explodir na manga da camiseta azul que era exatamente a cor de seus olhos, a pele era branca e as veias do pescoço saltadas. se perguntou quantos anabolizantes ele ingeria por dia, se Emanuelle estivesse o vendo, seu instinto medicinal falaria mais alto e ela o encheria de perguntas.

- O que você faz, dorme com todos para ganhar? - continuou ele - Com um corpo desses em cima de mim, eu faria qualquer coisa.

rolou os olhos enojada, como era babaca, mas estava acostumada a lidar com homens como ele.

- Estou percebendo que seu lance é força física, não me faça ir até aí e te fazer engolir os músculos - disse, a gargalhada dele a irritou.
- Ela é durona - deu dois passos para perto de que permaneceu no mesmo lugar. - Deve ser um furacão na cama.
- Já que você acha que eu durmo com eles para ganhar, porque não corre comigo e descobre, você com certeza não estaria na lista de caras que eu transaria - o homem pareceu ofendido por ela descartar a possibilidade de estar com ele, limpou a garganta e disse.
- Ganho de você com uma mão só - se gabou e descartou a possibilidade com aceno negativo de cabeça.
- Já esgotei minha cota de babacas na semana, meu cérebro dói em ter que lidar com tantos em pouco espaço de tempo. Tenta na próxima, quem sabe você dá sorte.

se jogou em sua cama totalmente exausta.
Com os próprios pés arrancou os tênis e a meias, seu dia fora totalmente cheio de trabalho na parte da tarde, e na manhã ficou por conta de preparar o almoço que essa semana era em sua casa.
Ah, o almoço!
Os almoços de sábado eram classificados para como o melhor momento de sua semana, bem, na verdade, o melhor momento era quando as amigas iam a assistir correr, mas isso só havia acontecido duas vezes.

- Eu não quero ser presa, e ser uma fora da lei - Mia se explicara uma vez, o que fez gargalhar fortemente.

iA tradição dos almoços de sábado, fora criada há cinco anos quando Leah engravidou e Ludmila estava sempre viajando por causa da carreira de atriz que começava a decolar. Era a maneira que encontraram de ficar juntas, em meio à rotina diária conturbada, e cada sábado acontecia na casa de uma das cinco amigas, Emanuelle elegeu o sábado, pois domingo era o dia da família, no início foi complicado se adaptarem, Amélia sempre chegava atrasada, alegando ter esquecido o compromisso, entretanto com o passar do tempo, era quase que inconsciente o encontro semanal, uma vez a própria chegou à casa de Leah em uma sexta- feira, confundindo totalmente a data e acabou ficando por lá, a ajudando preparar o almoço.
Mesmo com o compromisso sendo aos sábados, elas viam-se nos outros dias, seja na balada de final de semana, nos dias do futebol que e Amélia não perdiam, ou no cinema que Leah sempre levava a filha e as outras acompanhavam, sem contar que uma vez ao mês elas voltavam à adolescência e faziam a noite do pijama. Em cada momento marcante na vida de , as amigas estavam presentes e realmente não sabia onde estaria senão fosse por elas.
Antes que pudesse se dar conta, o cansaço tomou seu corpo e seus olhos estavam fechados em um sono pesado.

Na segunda-feira levantou cedo para ir à oficina, o sol brilhava com uma intensidade que os franceses conheciam muito bem, uma praia com uma cerveja bem gelada, era sempre uma boa pedida.
Mas aquilo não aconteceria, principalmente porque tinha uma mecânica cheia de carros para arrumar.
Depois da morte de seu pai, achou que perderia seus clientes que eram totalmente fiéis ao fundador da oficina, todos ficaram receosos por uma mulher tão atraente e com feições delicadas, estar embaixo de um carro. Porém sem se deixar intimidar, provou para cada um deles que suas habilidades eram ainda melhores, do que sua aparência física.
Em sua vida inteira aconteceu assim, sempre gostou de coisas que eram consideradas de homem, futebol, os carros e, Deus, ela odiava usar vestido, amava seus shorts, em sua maioria curtos. Também o fato de não saber sentar de pernas fechadas ajudava nessa última parte, por muitas vezes suas amigas – especialmente Mia - tentaram consertar seu modo de sentar e foram totalmente frustradas. Por isso deram a o apelido de "homenzinho", o que rendeu muitas gargalhadas entre elas, mas nunca se importou com o apelido e apesar das coisas masculinas que amava, tinha sua vaidade e se cuidava, toda semana fazia as unhas e ao final de todos os dias usava um produto para tirar a graxa dos dedos. Arrumava os cabelos também os hidratando e usando produtos que Isabella, sua cabeleireira, insistia em passar e ela não ousava discutir, principalmente quando algumas de suas amigas estavam no salão. Sim elas frequentavam o mesmo salão de beleza há quase 10 anos e até Mia, depois da fama, honrou as origens e não saiu da simplicidade do salão.

- Oi, homenzinho - a mulher ouviu a voz feminina e saiu de debaixo do carro onde estava.

Seus olhos encontraram Emanuelle, a loira estava com um macacão longo totalmente branco, seus cabelos loiros platinados quase se fundiam com a cor pura na roupa da médica, em seu rosto os óculos ray-ban brilhavam junto com as bochechas rosadas.
não pode deixar de reparar o quanto ela realçava nos tons escuros da oficina.
Perto da loira, estava estacionada uma moto e ela conhecia bem aquela!
Harley Davison.
Era a moto de Emanuelle, ela amava motos.

- Oi Emanuelle - cumprimentou a amiga. - Eu até te abraçaria, mas você está de branco.

Emanuelle concordou com um sorriso e tirou os óculos.

- Minha moto está com a quarta agarrando, olha para mim? - jogou as chaves e pegou no ar.
- Você sabia que é uma oficina de carros? - apontou o dedo para o carro que trabalhava.
- Sim, mas você é a única mecânica que conheço – sorriu. - Resolve até de noite, amanhã eu trabalho cedo.

bufou.

- Usa seu carro.
- Você sabe que eu não gosto de andar de carro - a morena grunhiu.
- Você é muito estranha - também gostava de motos, mas Emanuelle só andava de carro quando não havia outra opção.
- Eu sou estranha? - perguntou desacreditada. - Você passa o dia debaixo de um carro, disputas corridas ilegais podendo ser presa, ou melhor, morta. E eu quem sou estranha, homenzinho? Jura?

O tom de voz de Emanuelle fez um sorriso alto escapar dos lábios de .

- Tchau, Emanuelle.
- Quando terminar me liga, obrigada. Te amo, meu homenzinho - Emanuelle girou nos calcanhares, no mesmo instante que rolou os olhos e disse:
- Eu vou cobrar.
- Não vai nada - e então Emanuelle saiu por completo da oficina.
- Ah se vou. - disse rindo para si mesma.

XXX


Quando abriu a porta de sua casa a primeira coisa que reparou foi a poeira dos móveis, faziam algumas semanas que não entrava ali e quando viajou esqueceu de deixar as chaves para sua mãe, o que lhe rendeu boas brigas da progenitora, ele havia passado os últimos meses viajando. Em dezembro esteve de férias e aproveitou para distrair a cabeça, em janeiro voltou a preparação da F1 e em Março já iniciava a temporada. O ultimo GP havia sido o de Bahrein, ele conseguiu subir ao pódio, terceiro lugar e era o detentor da volta mais rápido do circuito 1'33.411, superando todas as expectativas. Um excelente início de temporada.
Ele estava ansioso para essa temporada na Ferrari.
De acordo com a pontuação estava com 25 pontos, na frente do companheiro de equipe Vettel, com 22 pontos. Ele se orgulhava do posto, mas não gostava de se gabar já que sabia que um longo caminho ainda estava se iniciando. Era um piloto novato, não só pela pouca idade, mas em experiência e também de equipe, já que antes corria pela Sauber e agora fazia parte da Ferrari. E para ele era só dirigir um carro, bom, talvez não assim, nessa simplicidade toda de carros normais, mas para sempre seria só isso.
Dirigir.
Assim que o GP acabou, pegou um avião para sua casa, tinha alguns dias antes do próximo GP e aproveitaria as praias de Mônaco.
Sua casa.
E por falar em casa, que saudade que ele estava de seus pais. Durante o período de preparação conversou com os pais todos os dias. No dia do GP, seu pai estava como sempre ao seu lado, com toda expectativa que daria muito certo e ele venceria, já seu irmão mais novo Arthur, não pode ir por causa dos compromissos da própria carreira, que se desenvolvia bem e estava entupido de orgulho do mais novo, que assim como ele, estava brilhando nas pistas. Era para sua mãe, Pascale, ter assistido a corrida de perto, se não sentisse um medo absurdo de altura, se lembrava da primeira vez que andou de avião, sua mãe quase teve um ataque cardíaco e passou semanas falando em seu ouvido como aviões eram perigosos.
Apesar de tudo, o homem amava as paranoias dela, da mesma maneira que a calmaria de seu pai o aquietava, os dois eram tudo em sua vida.
Depois de um belo e relaxante banho, o homem vestiu uma roupa confortável e saiu novamente, iria agora para a casa dos pais. Sua mãe estava preparando um belo almoço de boas – vindas.

XXX


- E aí pai, como está o bebê da família? - caminhou com o pai para a garagem, onde ficava o carro de seu pai, um Impalla 1967. Foi o primeiro carro que dirigiu na vida, seu pai o encontrou em um ferro velho e junto com Dominique, seu grande amigo de infância e também um dos melhores mecânicos do planeta, praticamente o reconstruíram, e foi presenteado pelo pai com o belo carro.
- Está amassado na frente - o homem mostrou para o filho, na lateral esquerda havia um leve amassado, algo que provavelmente foi feito por algum tipo de distração do motorista. - Sua mãe insistiu que sabia dirigir e eu não pude dizer não, você sabe o que acontece com ela caso fique irritada.

se ajoelhou e tocou no amassado.

- Onde ela estava?
- Não saiu da garagem - o mais novo reprimiu a gargalhada.
- Leva no Dominique, com dois minutos ele arruma isso.
- Ele está em Monte Carlo? - arqueou a sobrancelha e sorriu ao ver o aceno positivo do pai. - Isso é maravilhoso, vou convencer o Dominique a vir trabalhar para mim na F1.
- Faz alguns meses que o vi - Hervé abriu o maior sorriso que cabia em sua face - Ele continua turrão e se negando a corrupção que o dinheiro traz.

gargalhou.

- Aquele homem não existe e eu fico feliz que tem seu amigo por perto, pai.

Hervé acenou com a cabeça, cruzando os braços sobre o peito.

- Diga a ele que mandei lembranças, e qualquer dia apareço para tomarmos uma cerveja.

XXX


deu seta para entrar e com uma habilidade linda, estacionou o carro dentro da oficina mecânica. Aparentemente não viu ninguém pela frente e então desligando o carro, escorregou pela porta.
A última vez que esteve na oficina, fazia muito tempo, tendo em vista que Dominique passou uns anos morando em Paris, mas os aspectos estéticos ainda eram os mesmos que se lembrava, uma oficina simples e funcional. Uma vez perguntado por seu pai, porque não a fazia crescer, Dominique disse que gostava da garagem daquela forma e não queria perder sua essência.
achava aquilo incrível.
Honrar as origens e manter a essência era algo que o piloto trabalhava duro para não mudar.
A fama e o sucesso corrompiam as pessoas.
não conhecia bem Dominique, tinha convivido pouco com o amigo de seu pai, devido ao tempo que passou na Ferrari Driver Academy, nas poucas oportunidades que teve, sempre acompanhava seu pai até onde Dominique estava na oficina ou em casa, o admirava pelo amor que seu pai sentia pelo mecânico, gostaria de ter o conhecido melhor.
Essa era uma ótima oportunidade.
O homem correu os olhos cobertos por óculos pelos quatro cantos da oficina, e seus olhos encontraram pés sobre o carrinho que estava debaixo de um carro azul. O que chamou sua atenção é que eram pés femininos.
Femininos.
O piloto tirou os óculos e deu passos para frente olhando com cuidado, os pés eram pequenos e estavam calçados por uma alpargata preta.
Homens não usavam alpargata.
Aliás, usavam, mas não um mecânico.
E sem contar que os pés eram minúsculos, não eram de um homem.
Quando o carrinho deslizou para fora do carro, os olhos do piloto se arregalaram.
Não só era uma mulher.
Era provavelmente a mulher mais linda que já vira.
Era baixa, quase tão baixa que parecia uma criança, se comparado com seu tamanho. Os cabelos eram tão escuros que poderiam ser misturados com a escuridão da noite, estavam presos em um rabo de cavalo, mas dava para ver o quão longos eram.
O rosto tinha feições meigas e os olhos também escuros o lembravam de jabuticabas, a fruta que havia experimentado durante o GB do Brasil e nunca mais conseguiu esquecer.
Ele amava jabuticabas.
tirou os óculos à medida que seus olhos corriam pelo corpo da mulher a sua frente, ela estava com uma regata branca e shorts jeans, com as pernas toda de fora, e que pernas!
Em seu ombro esquerdo havia um pouco de graxa e o questionamento surgiu em sua mente: o que uma mulher tão bela, fazia suja debaixo de um carro?

- Precisa de uma vasilha para colher a baba? - perguntou, no bolso de trás de seu short havia um paninho, que ela agora usava para limpar as mãos.
- Estou surpreso por ver uma bela mulher debaixo de um carro - colocou os óculos na gola da camisa e não pode deixar de observá-lo.

E ela sabia quem ele era, como amante de carros não poderia deixar de acompanhar a Fórmula 1, era seu segundo esporte favorito, só perdia para o futebol. E aquele em sua frente era .
O mais novo piloto da Ferrari.
E apesar de já o achar bonito pela televisão, não conseguiu descrever a beleza que agora enxergava.
nunca achou normal quando as amigas babavam pelos atores e artistas na televisão, o padrão de beleza exposto não a agradava, mas ao ver aquele homem alto e que mesmo não sendo forte, tinha o corpo definido e um nariz tão perfeitinho que junto com os cabelos escuros davam uma bela composição
Que homem era aquele!
Mas mesmo sendo tão lindo, nas primeiras palavras já se demonstrou igual todos.
Machistas.

- Meu gênero não interfere no meu trabalho - foi ríspida. - Em que eu posso te ajudar?

sorriu colocando as mãos no bolso da calça jeans.

- Estou procurando o Dominique.

O coração de parou, fazia tanto tempo que não ouvia o nome do pai, suas amigas sabiam lidar com a privacidade que a morena pedia, não falavam e não perguntavam.
E ela não queria falar nele, não suportava aceitar essa ideia.

- Ele faleceu – disse. - Chegou atrasado, corredor - fez o trocadilho e sorriu.

Diante do baque da notícia, o piloto pensou mais em como contaria a seu pai da morte do amigo, apesar de também sentir a perda de um bom homem e um excelente mecânico.

- Sinto muito - disse baixo. - Você sabe que sou piloto?

Surpreendeu-se.

- Precisaria morar em uma caverna para não saber quem é você - ela colocou os olhos no carro e eles brilharam instantaneamente, ela conhecia aquele carro.

Chevrolet Impala 1967
Era o carro que seu pai ajudou a construir.

- Esse carro é o que meu pai ajudou o Hervé a colocar de pé.
- Você é a filha do Dominique?

Ele se espantou, sabia que Dominique tinha uma filha, já tinha a visto algumas vezes, quando vinha com o pai na oficina, e mesmo sendo mais novo, se lembrava de Dominique falar que não gostava que a filha ficasse na oficina, pois atraia os olhares masculinos.
E agora ele sabia o motivo.

- Sou.
- Bárbara? - se esforçou para encontrar na memória o nome da mulher em sua frente, ele com certeza já tinha ouvido a pronuncia e sabia que não estava longe disso.
- - ela rolou os olhos. - Você está quatro meses atrasado para ver o meu pai, e se não se importa eu preciso trabalhar - ela ia se afastar, , porém, a segurou pelo pulso, o toque gelado do piloto gerou um arrepio por seu braço, motivo que a fez puxar imediatamente.
- Eu sinto muito pela morte de seu pai - se explicou. - Ele era um grande mecânico - acabou sorrindo pelo elogio. - Conheci bons mecânicos na Fórmula 1, nenhum deles como seu pai. Poucos minutos atrás, eu disse que iria convencer ele a ir trabalhar na Ferrari comigo, ele era o melhor de todos. Um gênio.

fechou os olhos, tinha orgulho de ouvir quando as proezas de seu pai eram mencionadas, sentia tantas lembranças boas a invadirem.

- Ele realmente era o melhor - concordou com a cabeça, tentando despachar os momentos que agora voavam em sua cabeça.
- Você quem está cuidando dos carros agora? - tocou em um carrinho de ferramentas ao seu lado, não duvidava que mulheres pudessem dirigir bem, ou até saber nome de uma ou outra peça, mas mulheres definitivamente não eram mecânicas.

Principalmente se fossem tão bonitas.

- Você acha que não tenho capacidade para isso?

reprimiu um sorriso, e apontou para as mãos de .

- Não com essas unhas - distraída à morena abaixou os olhos para as unhas, estavam pintadas de azul marinho, e estavam grandes, arranhariam qualquer um com facilidade, não pode deixar de imaginar as unhas dela em seus ombros.
- As unhas não interferem no meu trabalho, corredor - rolou os olhos lhe dando as costas. - Isso é um problema geral dos homens, acham que não posso entender de carros porque sou uma mulher, vocês são um bando de machistas.
- Eu não sou machista - protestou. - Só acho um trabalho difícil para uma moça.
- É um belo carro - ela apontou o Impala. - Uma pena ser dirigindo por alguém tão babaca. Meu pai ficaria triste com a cena.

abriu a boca ofendido.

- Que enxurrada de insultos, .
- - o corrigiu. - Meus amigos me chamam de .

O piloto levou as mãos até o alto da cabeça em sinal de rendição.

- Olha só, começamos com o pé esquerdo – disse. - O que acha de começar de novo? - ele estendeu a mão, o encarou surpresa e soltou um risinho inconformado com a perspectiva de cena, ele realmente estava achando que aquilo era uma novela, que coisa mais ridícula.

A mulher rolou os olhos indignada.

- Eu não quero começar de novo nunca com vocês – disse. - Com nenhum de vocês machistas, acham que entendem de carro mais do que eu, acham que dirigem melhor do que eu, até o futebol eles acham que não posso assistir, preciso ficar durante o jogo pegando cerveja e entregando para eles, mulher de verdade não toma cerveja, eu quero que vocês vão todos se explodir.

observou aquela expressão de convicção nos olhos dela, conheceu muitas mulheres na vida, nunca viu um olhar desse estampado em suas faces, era uma determinação que ele admirou.
Era uma mulher que merecia uma atenção especial, e ele iria lhe direcionar cada parte da sua.
Concordava com ela, com certeza poderia beber sua cerveja, era um direito dela, e poderia entender mais de futebol que ele, nos últimos tempos não acompanhara muito seu time, e até poderia pensar que talvez ela entendesse melhor de carros que ele, tinha um pai mecânico e agora ela mesmo se denominava praticante da profissão, mas...

- Você ganharia de mim talvez em todos os outros quesitos, mas eu realmente dirijo melhor do que você.

E o queixo de caiu, os olhos esbugalhados, sua mão que segurava a ferramenta, perdeu a força e o barulho do metal no chão foi alto, e agora que suas mãos estavam livres ela as apertou contra a palma, um gesto puramente de raiva.

- Você acha que as ruas são como as pistas, corredor? Ser piloto de F1 é uma coisa, ser corredor de racha muda a história.
- Agora é você quem está sendo preconceituosa – disse. - Não importa onde você pilota, ou que carro você pilota, um piloto é sempre um piloto.

deu um passo para frente.

- Acha que consegue correr nas ruas?
- Sim, e eu ainda venço qualquer um.
- Eu aposto que não, corredor.

jogou a cabeça para trás em uma gargalhada divertida, quis se irritar, mas não conseguiu era uma coisa linda de se ver.

- E o que você vai me dar quando eu ganhar? - sem poder impedir um sorriso malicioso cruzou seus lábios, o encarou feio imaginando as besteiras que passavam em sua cabeça.
- Você não vai ganhar - foi direta. - E quando eu ganhar quero seu respeito, quero que admita que sou boa

encostou o tronco no capô de seu carro, e colocou uma mão tapando sua boca, pareceu pensar um pouco, e de repente seus olhos encontraram o laranja do Opala, ele se colocou de pé tão rápido que se assustou, e ao perceber para onde ele seguia, se preocupou.
Era o carro de seu pai.
E era simplesmente o preferido de Dominique, quase não andava no carro, tinha o seu próprio Ford Maverick V8, e tudo naquele carro a lembrava do pai, o cheiro, as poltronas, ou o jeito firme e apaixonado que ele segurava o volante, ou quando era mais nova e batia a porta ao sair, ou entrar e o mais velho lhe dava sermões, era a maior lembrança física que seu pai lhe deixara.

- É totalmente perfeito - exclamou ao tocar no capô do carro, era um modelo de carro incrível, mas sabia que Dominique mexera nele, aumentou a potência, reforçou o chassi, trocou as últimas marchas, dobrou os cavalos de potência, e o cárter com certeza não era o mesmo dos outros. - Eu quero esse carro.

quis lhe socar a cara.
Quis lhe espancar.
Quis destroçar cada célula do homem que achava que merecia pelo menos estar perto de um carro daquele.

- Você quer voar também?
- Oi?
- Já que estamos falando de coisas impossíveis.

sentiu nas palavras dela um sentimento muito forte e fez uma conexão que não havia feito, era o carro do pai dela, ela nunca lhe daria.
Deu um sorriso presunçoso.

- Começamos a falar de coisas impossíveis quando você disse que me venceria no volante - mais uma vez ele encostou-se ao capô do carro, percebeu como ele gostava de fazer isso, talvez porque ficasse extremamente lindo daquela maneira, e droga, dessa vez ele cruzou os braços em frente ao peito.

desviou os olhos.

- Eu posso te vencer.
- Então aposte o carro.
- Fechado - se ela perdesse, fugiria.

Mas não perderia.
desencostou do carro.

- Mais tarde te mando uma mensagem, com a hora e o local.
- E como você vai descobrir meu telefone?
- Você sabe quem sou, saberei quem você é; tudo pode se achar, basta saber como procurar.

entrou no carro, engatou a ré e saiu da oficina, tirou o celular do bolso discando o número que lhe era tão conhecido.

XXX


A mensagem “que chegou ao telefone de dizia: ‘Avenida Dinamarca, 00h00min”, a morena riu surpresa pelo fato dele realmente ter descoberto seu telefone. Ela passou o resto do dia pensando naquilo, sua cabeça girava loucamente em torno naquela corrida, estava ansiosa como nunca esteve antes, estava desconfiada que o motivo fosse ter apostado o carro de seu pai, mas no fundo tinha muito haver com , estava acostumada com caras machistas que se achavam os melhores, mas além daquele estereótipo que ela achava que o homem tinha, havia muitas coisas nele que chamavam sua atenção de maneira louca e incontrolável.
E não se importava muito com homens, era um fato que ela era heterossexual, gostava de homens, e gostava muito, porém nunca foi o tipo de mulher que tinha muitos namorados, eles não gostavam muito que as mulheres entendessem mais do que eles sobre seus assuntos preferidos, futebol, mulheres e carros.
E sabia muito sobre todos esses.
E justamente por isso ela não ligava se tinha namorados ou não, às vezes saia em uma noite, encontrava um cara que nem sequer perguntava seu nome, e matava seus desejos fisiológicos, e no fundo de seu coração, havia perdido as esperanças de encontrar o famoso amor verdadeiro. O histórico amoroso das pessoas ao seu redor não eram lá essas coisas, de suas amigas, Amélia era sempre a mais desastrada, como quando ela se apaixonou pelo carinha que vendia cachorro quente vestido com a fantasia de salsicha e depois se escondeu por dias envergonhada. As amigas a caçoaram muito por isso.
E sem contar na vida de seus pais, ela odiava pensar naquele assunto, e qualquer mísera lembrança que viesse em sua cabeça, a espantava como um relâmpago. E ela acreditava que morreria sozinha com seu carro e um cachorro que ela ainda não havia comprado, mas providenciaria. E ela estava feliz assim. Nem mesmo a beleza estonteante de a faria pensar em uma possibilidade diferente, ok, talvez ela pudesse pensar em uma boa sessão de sexo com aquele corpo, não iria mudar em muita coisa, já que de relacionamento ela com certeza correria.
E muito mais do que em seus rachas.
E agora ela estava ali, às 23h57min da noite. O Opala laranja estava estacionado na linha de frente e quando desceu pela porta do motorista, encolheu os ombros com o vento gélido. Mesmo com o corpo coberto pela jaqueta de couro preta, seu corpo sentiu pela friagem, talvez fossem as pernas descobertas pelo short jeans, mas com aquilo ela não se importava, logo a adrenalina chegaria e seu sangue viraria fogo.
Assim que a mulher avistou Talles e deu dois passos em sua direção, o segundo carro estacionou, era o mesmo Impala 67 de mais cedo na oficina, e mesmo sem ver claramente o rosto, sabia quem era, a multidão de pessoas fez um alvoroço em volta do carro querendo saber quem era o misterioso piloto com quem Beatriz correria aquela noite, e as apostas passavam de mãos em mãos para todos votarem no ganhador da noite, Talles se aproximou de cortando com dificuldade as pessoas aglomeradas no local, a mulher deu um belo sorriso para o amigo.

- E ai Talleco.
- Oi - respondeu e fechou os olhos querendo matar Mia por ter apresentado a Talles o apelido tão intimo, e quando a morena foi questionar a amiga, Mia respondeu que as técnicas de persuasão de Talles eram bem fortes e incluíam leite condensado e morango. só conseguiu gargalhar, conhecia Talles há muito tempo e não podia negar que ele realmente era um homem maravilhoso, os cabelos loiros e os olhos azuis, juntamente com a barba rala, enlouqueciam as mulheres e aquele estilo maloqueiro de boné e tênis rasgado com certeza era seu maior charme. Ela, porém, sempre o viu como amigo, e depois que ele e Mia tiveram um namorico, se tornou algo praticamente impossível, elas não dividiam homens, mesmo os mais gatos. - Está pronta?

A mulher acenou positivamente com a cabeça.

- Como sempre.
- Ele também já está - Talles averiguou algo em seu telefone e depois voltou seus olhos para a morena. - Vou dar a largada.

Com as sobrancelhas arqueadas, voltou para seu carro. Ao olhar pela janela, identificou no banco do motorista, ele fazia um sinal positivo com a mão e lançava um sorriso intimo a Talles que retribuiu de maneira igualitária.
Era quase como se fossem amigos.
Mas não podia ser, e Talles eram de mundos diferentes, aquilo era com certeza algo somente de sua cabeça.
conferiu tudo em seu carro, e com o pé no freio ela o ligou, o carro permanecia no neutro, e a primeira marcha seria passada somente no segundo toque de Talles.

- Todo mundo animado não é galera? - o loiro assobiou e girou o boné em sua cabeça. - Então vamos botar para quebrar que a noite está somente no início - ele bateu palmas e todos o acompanharam, a adrenalina parecia ser contagiosa e passada pelo ar, para todos os presentes. - Preparado? - seu dedo direito foi para o Impala e de dentro do carro o aceno de cabeça de foi dado. - E você, está? - como resposta ela engatou a primeira marcha, Talles riu. - Então, corram!!

Barulhos de pneus arrancando foram ouvidos, a fumaça e as marcas no chão denunciavam a brutalidade do arranque.
saiu milésimos de segundos à frente de , mas em outros milésimos de segundo ela já estava a seu lado, quando o velocímetro parou em 42 km/H, com o pé esquerdo na embreagem, passou para a segunda marcha do carro e o velocímetro avançou, pelo retrovisor ela conseguir ver claramente o carro preto a seu lado, ele não parecia estar mais do que milésimos à suas costas, para manter a distância ao ver que o velocímetro estourou os 64 km/h, jogou a terceira marcha e sentiu então o carro voar, parecia algo de outro planeta, e depois foi para a quarta e então para a quinta, e a velocidade do carro era máxima.
E agora sim, ela estava onde deveria estar, voando na velocidade do carro.
E mais uma vez seu carro foi o primeiro a cruzar a linha de chegada e os mesmo milésimos de segundo que separaram ela e por todo o trajeto, permaneceram também na linha de chegada.
Quando parou o carro e soltou as mãos do volante, elas tremiam de uma maneira que nunca tinham antes, ela havia ganhado. Não que fosse a primeira vez e nem que ela não comemorasse todas as suas vitórias, mas havia sido diferente.
Ela não havia perdido o carro de seu pai.
E havia ganhado do piloto da F1.
Ela estava muito mais feliz que o normal.
O Impala preto parou a seu lado e buzinou chamando sua atenção, encarou o piloto pela fresta do vidro e sorriu, eles precisavam conversar. A mulher voltou imediatamente para seu carro, queria que a seguisse, observou o sorriso de Talles junto com um aceno de cabeça, quando o outro passou por ele e buzinou, aquela história estava bastante estranha.
Quando estacionou na porta de sua casa, estava logo atrás, sem dizer uma palavra ela destrancou a portão e entrou, deixando que o homem fechasse.
foi para a cozinha e pegou uma cerveja no congelador, desenroscou a tampa e tomou um gole, estava devidamente acomodado no sofá, arqueou a sobrancelha.
Onde é que ela pegava a intimidade, que ele achava que tinha recebido?

- Não te ofereço porque sei que você não pode beber - ela mostrou a garrafa e a gargalhada do piloto foi ouvida, pondo-se em pé ele caminhou até a cozinha e voltou de lá com uma cerveja em mãos.

Realmente precisava pegar a intimidade que ele achava que tinha, quanto abuso.

- Saúde - bateu a garrafa na dela, e riu ao balançar a cabeça negativamente totalmente indignada.

Ela pigarreou.

- Mas eu realmente dirijo melhor do que você - ela engrenou a voz para masculinizar o tom e remendar as palavras que o homem mais cedo havia dito.

riu.

- Não sou orgulhoso, - ele tomou um gole da cerveja a olhando com firmeza. - Eu admito: você pilotou melhor que eu nas ruas, e com certeza é uma excelente mecânica.

Uau isso foi fácil.
Fácil demais para o gosto dela, ele estava fazendo hora, estava achando que ela tinha cara de palhaça e que poderia brincar com ela.

- Você quer outra chance de ser mais convincente? Essa não colou.
- Mais convincente? Estou sendo sincero - sentou novamente no sofá. - Eu disse que você pilota melhor, você ganhou a corrida e pode ter certeza que eu te respeito por isso - e era verdade, estava encantado por , sua beleza, sua força, sua coragem mostravam para ele como ela era uma mulher de verdade e como estava ficando atraído por ela, principalmente nesse momento em que ela pegou a cadeira e sentou-se em sua frente.
- Eu sei que sou boa - se acomodou largamente na cadeira. - A questão é que você também é. Você já correu nas ruas antes.
- Você está afirmando ou perguntando?
- Afirmando - ela respondeu, tinha plena convicção daquilo, já tinha participado de corridas o suficiente para reconhecer um corredor de ruas.
- Sim, eu já corri nas ruas antes - ele confessou, ele era um piloto de Fórmula 1, era óbvio que conhecia as corridas de ruas. - Por muito tempo eu corri, só que ninguém via meu rosto.
- E como eu não me lembro de um corredor fantasma? - com os próprios pés tirou os tênis, ele achou o movimento encantador.
- Não corria em Monte Carlo - respondeu, ao perceber que a cerveja havia acabado ele depositou a garrafa vazia no chão ao lado do sofá. - Sempre escapava para outras cidades, afinal, se fosse descoberto, minha carreira sequer começaria.
- E o Talles?

Talles era quem organizava as corridas de Monte Carlo, então se nunca corria na cidade, como se conheciam?
O sorriso que lançou fez querer acompanhar o gesto, era algo tão iluminador e familiar.
Era porque era aquele sorriso que a própria dava ao ser perguntada sobre uma das amigas.

- Meu melhor amigo.

Eles eram tão diferentes um do outro, jamais os olharia e os veriam como amigos, ainda mais, melhores amigos. E queria perguntar como era possível, mas em sua cabeça se passou um filme sobre a relação com as amigas e com toda certeza era possível eles serem amigos, mesmo que não houvesse algo aparente que mostrasse um motivo.

- Por que eu vejo a surpresa em seus olhos? - observava cada detalhe do rosto dela, e parecia que cada vez que olhava descobria algo ainda mais bonito.
- Porque eu realmente estou surpresa.

O piloto riu com a expressão cômica.

- Ele é Italiano, eu passei grande parte da minha vida lá, nos conhecemos e não nos separamos mais, depois ele veio para Mônaco em busca de novos ares e aqui estamos nós.

gostou de ouvir o relato, era interessante como ela não o via mais apenas como um cara babaca e estúpido, de repente ela conseguia ver um cara legal, pelo menos quando ele falava de Talles. E ela admirava sentimentos que a faziam se lembrar minimamente que fosse das amigas.

- Talles é uma das pessoas mais incríveis que conheço.
- Eu também sou incrível - gargalhou se levantando.
- Quanta modéstia nessa conversa - respondeu tirando suas meias e colocando os pés no chinelo que estava na porta e também se livrou da jaqueta de couro, com o ventilador desligado, a casa esquentava. - Acho que você já pode ir.
- Quanta educação ao me expulsar da sua casa - ele cruzou as pernas sem parecer ligar para o ultimato que havia recebido.

ficou nervosa.

- Saia.

descruzou as pernas e levantou se aproximando de , o perfume dele inundou as narinas dela e surpresa se perguntou o motivo de não ter reparado no cheiro antes, era tão maravilhosamente bom.

- Por que quer que eu saia ? Minha presença te incomoda? - ele estava perto, perto demais.

sentiu o hálito dele bater um seu nariz, e não pode deixar de fechar os olhos com a proximidade, e por um segundo queria que ele passasse seus braços pela cintura dela, a puxasse para si e eles se embolariam ali mesmo naquele chão, mas a sensação que viu percorrer os olhos dele não pareciam de sexo selvagem e tudo que passasse daquilo, ela não queria.

- Me incomoda sim - respondeu firme. - Eu quero dormir, não tenho a vida ganha como você corredor, tchau - ela se afastou dele e abriu à porta atrás de si, sorriu e concordou com a cabeça.
- Até amanha - despediu-se e passou pela porta, sorriu mais ainda com a força que a mesma foi batida, voltando a seu carro para ir embora. Teve plena convicção que ela não havia ganhado somente a corrida.

XXX


acordou pela manhã com um cheiro de café da manhã maravilhoso inundando suas narinas, sabia que sua mãe havia invadindo seu apartamento para fazer comida e ao contrário de muitos, ele amava aquela sensação. Só quem vivia fora da casa dos pais sabia como era ter essa mordomia de café da manhã, e o fato da sua mãe fazer tanta questão daquilo o fazia não ter coragem de reprimir os desejos da mãe. Ela não tinha mais Lorenzo para fazer aquilo, Arthur morava em Maranello, agora só restava para ser paparicado.
E pensando justamente nos irmãos, o piloto levantou, os olhos bateram imediatamente na foto sobre a prateleira de troféus. Os três estavam na praia se preparando para pular de bungee-jump, era uma de suas fotos preferidas e quase a última a ser tirada. Um sorriso involuntário se abriu em seus lábios e o coração foi inundado de saudade, faziam dois anos, setecentos e vinte e oito dias e nada havia mudado, a saudade ainda era intensa e a dor corroía, mas ele precisava ser forte, forte pela mãe, forte pelo pai, forte por Arthur, porque sozinhos, não aguentariam.
E sem os três, sabia que nem ele.
Quando já devidamente vestido e higienizado, o homem chegou a cozinha. Pascale estava terminando de colocar calda nas panquecas e com um sorriso gostoso ele abraçou a cintura da mais velha, depositando um beijo estalado em sua bochecha.

- Bom dia, mamãe - a mulher sorriu pela maneira como foi chamada pelo filho.
- Bom dia, - ela acompanhou o carinho através do apelido de infância do moreno.
- Fiz panquecas para você.
- Você é demais - acomodou-se na mesa. - Cadê o pai?
- Dormindo - Pascale serviu suco em um copo para o filho, e depois o acompanhou no café.
- Filho, queria te fazer um pedido. - O garfo parou no meio do caminho quando as palavras da mãe penetraram seus ouvidos, sabia o que viria a seguir, sua mãe o pediria para...
- Volta para casa, , você não precisa morar sozinho, me deixe cuidar de você, fazer o que eu já não posso fazer pelo Lorenzo - os olhos da mulher marejaram e logo lágrimas rolaram. Soltando o garfo, se deslocou até a mulher, envolvendo-a em seus braços.
- Shii, não chora, mãe - o piloto apoiou seu queixo na cabeça da mais velha, que a esse momento chorava copiosamente, o piloto respirou fundo ativando o nível máximo de paciência do universo para lidar com a fragilidade da mãe. - Mãezinha, se acalma - ele sentia os soluços fortes da mãe e ele sabia o motivo daquilo tudo.

Pascale desenvolvera uma superproteção com os filhos mais novos, onde pisavam ela queria pisar atrás, onde comiam ela queria comer também e chorou por dias, pedindo que o filho voltasse a morar em sua casa, já que ela não conseguiria trazer Arthur de volta. Os dois irmãos tentaram convencer a mãe a se mudar de Monte Carlo, para ambos ficarem perto de Arthur, mas ela se recusou a deixar a lembrança do outro filho. Quando Lorenzo faleceu, passou uma temporada na casa dos pais, ficava dias seguidos dormindo no colchão ao lado da cama, ele precisava cuidar dos dois e ser forte pelos dois, mas jamais deixou sua casa e por mais que amasse loucamente seus pais, não pretendia voltar a morar com eles.

- Meu filho - a mulher se soltou do homem e o puxou para seu colo o abraçando novamente com muita força. - Eu quero você pertinho de mim, por favor.

nada disse, somente deixou que a mãe ficasse com ele em seu colo lhe ninando e dando carinho. As mãos da mulher estavam presas na camisa do piloto e as pernas balançavam como se fosse um bebê presente ali, murmurava palavras inaudíveis, somente se comoveu com os soluços altos e dolorosos, ele sentia a dor.
E sabia o motivo dela.
01/04 era a data daquele dia, véspera do aniversário de morte do irmão.
Era um dia extremamente doloroso para a mãe e ele sabia disso, ela chorava e chorava, o coração do filho era cortado por facas em forma de soluços.

- Dorme bem, mãezinha. - depositou um beijo na testa da mãe e sorriu de leve a cobrindo, quando saiu do quarto seu pai estava sentado no sofá de sua casa com uma cerveja em mãos, o mais velho levantou a cabeça ao sentir a presença do filho a seu lado.
- Ela já dormiu? - assentiu e Hervé suspirou. - Hoje é um dia complicado para ela, filho.

se acomodou colocando as pernas nos sofá.

- É, eu sei - ele baixou os olhos e tocou a tatuagem do peito. - Para ela é sempre pior.
- A morte é algo cruel, meu filho - Hervé disse com a dor estampada em seus olhos. - Mas amar é ver as pessoas que amamos nos deixar.

Sua memória foi invadida por , a morte do pai dela, que a afetou de maneira inexplicável e mudou totalmente o rumo da sua vida, e ela se reergueu diante disso, cada vez que pensava nela, descobria algo que o impressionava mais.
Ele queria vê-la.

- As coisas vão se ajeitar, pai - o piloto se levantou. - Vou dar uma saída, cuida da mamãe.

Hervé assentiu, bebendo mais um gole de sua cerveja e então viu o filho sair com as chaves do carro e a carteira.

XXX


estava com uma prancheta em mãos e com uma caneta anotava as peças de um carro que precisava comprar porque havia acontecido uma batida de carros e um deles estava sobre sua responsabilidade. Sua mão parou de anotar quando barulhos de saltos batendo contra o chão ecoaram seus ouvidos, a mecânica deu um sorrisinho quando se deu conta que sabia exatamente quem era.

- Emanuelle Peres - olhou a amiga parada, dessa vez não estava com roupas brancas, mas tons escuros que destacavam seus cabelos e peles claras.
- - Emanuelle tirou os óculos de sol, colocando-os na gola da blusa. - Diz que você já mexeu na minha moto.

depositou a prancheta em qualquer lugar e cruzou os braços encarando a amiga.

- Oi amiga linda, bom dia! - foi irônica. - Como está você? Eu estou ótima, muito gentil da sua parte perguntar.

Agora foi Emanuelle quem riu, gargalhou na verdade.
E com os braços abertos correu para perto da amiga, lhe dando um forte abraço, se aconchegou nos braços da amiga.

- Como você está, homenzinho? - Emanuelle murmurou em meio ao abraço e por mais que estivesse com graxa em mãos, Emanuelle não se importou em apertar o corpo de contra o seu.
- Depois de um abraço forte desses, eu sempre fico bem - sorriu em meio aos cabelos da médica sobre seu rosto.
- Então é assim que te deixam de bom humor pela manhã? - a voz falou, mas não era a voz de Emanuelle, as duas se separaram procurando o dono da voz masculina, os olhos de se arregalaram quando ela viu parado, ele estava com uma camisa gola V preta e de bermuda.
- Quem é você? - Emanuelle balbuciou curiosa.
- - o homem respondeu com um sorriso, esticando a mão para pegar a de Emanuelle, que sem pensar duas vezes estendeu a sua e recebeu um beijo no dorso da mão.
- Emanuelle Peres - encarou a amiga com olhos cerrados.
- O que você está fazendo aqui? - ela perguntou tirando o foco do fato de Emanuelle o encarar abobada.
- Vim te ver.

paralisou por uns segundos, um sorriso emoldurava os lábios do piloto e a expressão fechada e seria no rosto de só o fez ficar mais animado ainda, ele queria quebrar todo aquele gelo.

- Eu não tenho tempo para baboseiras, Emanuelle, sua moto está pronta. - puxou amiga pela mão e levou até onde a moto estava parada e cruzou os braços novamente e ficou encarando enquanto a mulher explicava para Emanuelle qual era o problema que tinha sido resolvido com a moto. As duas demoraram alguns minutos e logo Emanuelle se aproximou novamente com as chaves e capacete em mãos.
- Foi um prazer, .
- O prazer foi todo meu - ele acompanhou o sorriso e viu a loira montar na moto e sair da oficina e então se aproximou da mecânica. - Qual o motivo de tanta raiva essa hora da manhã?

olhou o relógio no celular e encarou o piloto com olhos sérios, o sangue pulsou rápido em suas veias, ela perdia a paciência com muita facilidade, facilidade tão grande que se soubesse não a atazanava.

- Já passou das onze da manhã - respondeu rápida. - E eu não estou com raiva, estou na verdade é cheia de trabalho - ela caminhou para onde estava antes e pegou novamente a prancheta para nomear as peças. visualizou o carro parado em frente à moça e caminhou até o mesmo, abrindo o capô, era um carro popular 1.0, nada demais. se irritou. - O que você está fazendo aqui?
- Quero trabalhar aqui na oficina - ele encarou a mulher no mesmo instante que a prancheta caiu de suas mãos. Abobada, piscou incessantemente.
- Você deve estar fumando maconha estragada, querido – disse. - , eu não tenho tempo para isso, some.
- , só me escuta - ele a segurou pelos ombros com cautela, tinha tido duas conversas com na vida e sabia que com ela as coisa deveriam ser tratadas calmamente. Ela mexeu os ombros para tirar as mãos do piloto e ficou em silêncio deixando que o homem dissesse. - Eu estou no intervalo entre os GP’S da F1, em poucos dias tenho que estar na China e depois Azerbaijão, estou querendo espairecer um pouco, não quero ficar ansioso logo no início da temporada.
- Eu não estou precisando de um mecânico.

riu.

- Olha o tanto de carro aqui - ele abriu os braços mostrando a oficina. - Eu posso ajudar.
- Você se acha demais - ela disse indignada cruzando os braços em frente ao peito imitando a pose que ele adorava. - Acha que porque é piloto dirige melhor que todo mundo e sabe maias de carro que todo mundo, você não é um mecânico.

respirou fundo e pareceu pensar alguns segundos e seus olhos iluminaram quando teve alguma ideia.

- Então me pergunte qualquer coisa de mecânica do carro, se eu acertar suas perguntas, você deixa eu te ajudar aqui.

A mulher respirou fundo, analisando os carros ao seu redor, a quantidade de carros estava enorme e consequentemente seus prazos atrasados. Uma ajuda não seria ruim e ela sabia como precisava de ajuda e não tinha condições de pagar um salário pra ninguém, além do fato de não querer sem cantada a todo momento do dia. Os dois pontos impediam de conseguir contratar alguém, a falta de dinheiro e os próprios mecânicos que não aceitavam que ela era mulher e compartilhava da profissão.

- Está bem - ela ergueu as mãos até a altura da cabeça em sinal de rendição, pelo que parecia, aquela era a única maneira de se livrar do homem, ele não iria responder e iria embora, trazendo paz novamente a ela. - O que compõe o sistema de suspensão do carro?
- Molas e amortecedores.
- Principais sistemas são?
- Motor, embreagem, carda, semi- árvore.
- Elementos do sistema de freio?
- Cilindro, mestre, disco, tambor.

começou a ficar preocupada, porém continuou com as perguntas, sua cabeça fervilhava.

- Do que é composto o sistema elétrico?
- Bateria, distribuidor e bobina - Ele respondeu enumerando os dedos. - Qual é , qualquer pessoa que dirige sabe responder isso, você só pode estar brincando comigo.

fechou os olhos buscando no fundo de sua memória alguma coisa que ele não conseguisse responder, mas nada lhe ocorreu, e ela ficou minutos procurando, mas nada vinha e aquilo a estava deixando irritada, ela então fechou os punhos em demonstração da raiva.

- Está bem – confessou. - Pode ficar, mas eu quem mando aqui, e qualquer coisa fale comigo e peça permissão, naquele armário ali tem formulários com as placas dos carros e o que precisa ser feito, olhe com cuidado cada um deles e NÃO ERRE - a morena se abaixou para pegar novamente a prancheta onde fazia os orçamentos do carro. - E eu não vou te pagar um salário.

A mulher saiu de perto do piloto e não viu o sorriso que escapou dos lábios do homem, e como ela havia dito, ele foi até o armário, pegando o primeiro formulário e seguindo as instruções, começou a trabalhar. Vez ou outra olhava compenetrada no que fazia, encantado com a maestria com que ela resolvia os problemas e passou a tarde toda enfeitado com um sorriso que tinha um belo motivo para estar ali.
abriu a porta de sua casa procurando pelos pais.
Já passava das seis da tarde, tinha trabalhado o dia todo na oficina com , apesar da mulher ter trocado poucas palavras com o homem, era maravilhoso estar na oficina, ficar perto dos carros e ainda conseguir ver uma mulher como ela, era mais do que incrível.
E amava os carros, amava qualquer coisa que estivesse ligado a carros, seja dirigir ou consertar. O que de fato importava, era a emoção que sentia só de estar perto das quatro rodas. Apesar de seu físico não estar acostumado, seus dedos estavam levemente cortados, assim como as palmas das mãos, sem contar na graxa debaixo das próprias unhas. Estava parecendo usuário de drogas, que não tomava banho há vários dias, porém toda vez que ele observava , estava plena, sequer parecia que trabalhava com serviço manual.
Seu pai estava sentado no mesmo sofá que o deixou horas atrás, aparentemente sua mãe ainda estava deitada.

- Oi, pai - cumprimentou tomando novamente o assento ao seu lado. - E a mãe?
- Ainda está deitada e disse que quer dormir perto de você essa noite.

concordou com a cabeça.

- Vou colocar um colchão no quarto e dormirei com vocês.

Hervé abaixou o volume da TV para conversar melhor com o filho.

- Onde esteve o dia todo?
- Estava na oficina, a é uma mulher incrível, pai. Jamais conheci uma mulher como ela, e só tem dois dias que a conheço;
- O Dilsinho sabe que está afim da filha dele? Ele vai acabar com sua raça - cobriu o rosto com as mãos quando se deu conta que não havia conversado com o pai sobre a morte de Dominique.
- Caramba pai, a gente não conversou sobre isso - procurou as palavras cautelosamente para conversar com o pai. - está tomando conta da oficina, porque o pai dela, o Dominique, faleceu há alguns meses - a cerveja na mão de Hervé escapuliu e molhou o tapete da sala, levantou rápido do sofá desacreditado.

Dominique havia falecido?
E já fazia meses?
Não era possível? Onde ele estava durante o velório e enterro do amigo? E como a notícia não havia chegado até ele? Isso não era possível.

- Ele está morto - balbuciou devagar sem conseguir compreender as palavras que saiam de sua própria boca. correu até a cozinha e colocou água em um copo entregando ao pai. - Onde é que eu estava, , onde é que eu estava que não fiquei sabendo da morte dele? Como assim?
- Pai, se acalma - abraçou o pai, e sentiu discretamente algumas lágrimas molharem sua camisa. - Eu sinto muito, mas parece que poucas pessoas realmente ficaram sabendo, a não divulgou a notícia, foi tudo rápido, ela não me disse muito.
- Meu filho, realmente queria ter me despedido, o Dominique esteve perto de mim em um momento que ninguém mais esteve, fomos amigos muitos anos, eu precisava ter me despedido dele. Precisava ter prestado homenagens a ele - Hervé assentiu passando as mãos pelos olhos.
- Eu sei que sim pai, sei como você amava seu amigo, mas podemos ir até o cemitério, podemos prestar uma homenagem a ele - sugeriu, sabia como era perder pessoas que amava e seu pai já havia passado demais pela dor do luto, Jules, Lorenzo e agora Dominique, mais do que qualquer ser humano possa merecer.

Hervé levantou do sofá, caminhou a passos largos para a geladeira, tirou de lá um engradado de Corona, era a cerveja preferida do amigo, deu um sorriso fraco, se aproximando do filho com as mãos estendidas.

- Me dê às chaves do Impalla
- Aonde você vai? - o mais novo estava receoso, não poderia deixar o pai fazer loucuras. - Eu vou com você.
- Claro que vai - Hervé assentiu. - Mas eu vou dirigir o Impalla, você pega o seu carro - lhe entregou o engradado de cerveja, tomando as chaves em suas mãos, avisou a esposa que iria dar uma volta com .

- Temos algum destino? - o piloto perguntou, destravando a Ferrari.

Hervé observou o filho, os olhos brilhavam de lembranças e eram ilustrados pelas lágrimas que se formava nas pupilas, sua mente estava focada onde seu coração queria ir, onde tudo lembrava o amigo.

- Vamos para onde tudo começou - Hervé sorriu abrindo a porta do Impalla. - Se eu vou me despedir do Dominique, vou para as ruas.
- Eu ainda não entendi pai.
- Vamos correr, - Hervé mais uma vez sorriu com total nostalgia. - Vou homenagear meu amigo em um racha e depois celebrar sua vida, tomando todo esse engradado. E aí, acha que consegue ganhar do seu velho?

gargalhou, entrando no próprio carro, seguindo o exemplo do pai.

- Em homenagem ao seu luto, posso pegar leve com você.

Hervé balançou a cabeça, alinhando o carro ao lado do filho.

- Dominique era o melhor, merece o melhor, corra de verdade.

assentiu.

- Vamos correr pelo Dominique.
- Vamos correr pelo Dominique.


Capítulo 2 - Cabelos Negros Como A Noite

Sábado.
Era finalmente sábado.
O dia preferido de , era o dia das amigas, de estar perto delas, de sorrir com elas, de se jogar no colo delas e se sentir amada. E com um engradado de cerveja em mãos, estava a morena tocando a campainha da casa de Mia, era o dia dela e foi a mesma quem abriu a porta. Os cabelos loiros estavam presos em um rabo de cavalo e um vestido longo e florido emoldurava seu corpo, o rosto estava limpo sem nenhuma e qualquer maquiagem, diferente de como todos estavam acostumados a vê-la, e a preferia assim, era ainda mais linda do que quando aparecia na televisão, como a bela atriz que era.

- Homenzinho - a loira abriu os braços e logo estava neles, aproveitando o colo da amiga, estava com saudades dela.
- Oi Mia..
- Como você está, meu amor?
- Estou ótima e você? - se afastou da porta de entrada para que Mia fechasse, mostrou o engradado de cerveja.
- Vou ficar melhor agora - tomou em mãos a bebida alcoólica, e rumou para guardar.
- TIA - um sorriso involuntário apareceu nos lábios de quando a cabeleira loira da garotinha apareceu na sala e se jogou nos braços da morena.
- Que saudade minha princesa - rodava a garotinha pelo ar e a gargalhada gostosa de Sarah invadia os quatro cantos da enorme casa de Mia. - Trouxe uma coisa para você.
- Sério? E o que é, tia ? - os olhinhos de Sarah estavam arregalados esperando a surpresa da tia.
- Eu te entrego quando você me der um beijo bem gostoso - Sarah alargou ainda mais seu sorriso e com os bracinhos segurou o rosto da mais velha e a beijou. - Uau que beijo gostoso - sorriu e devolveu a garota para o chão, abriu a mochila que estava em suas costas e tirou de lá um pacote enorme de bala, os olhos da pequenina brilharam ao segurar o presente.
- Obrigada tia ! - Sarah disse e saiu correndo para a cozinha segurando com dificuldade o enorme pacote, e pela mesma porta que a criança entrou, Amélia saiu. A negra estava com os cabelos soltos e molhados, o short jeans, a camiseta e o chinelo, denunciavam que a vontade da professora era ficar jogada no sofá vendo filmes por toda à tarde.
- Amélia - cumprimentou a amiga e sorriu ao receber um beijo estalado dela.
- Tudo bem, ? - Amélia seguiu para o sofá e sentou-se nele, onde Mia já se encontrava zapeando os canais da TV com uma cerveja em mãos.
- Estou bem sim. Cadê minha cerveja, Mia? - questionou ao observar a loira beber a stella e ela permanecia com as mãos vazias.
- Você tem mãos, homenzinho - resmungou risonha e a mecânica rolou os olhos.
- Você é uma abusada do caralho.
- E você me ama, mesmo assim - deu a língua. - Emanuelle, traga cerveja para o nosso homenzinho, sabemos como ele fica irritado sem álcool, daqui a pouco já estará coçando o saco e assistindo futebol - disse alto o suficiente, para que a médica ouvisse da cozinha, lhe mostrou o dedo do meio e acomodou-se no sofá ao lado de Amélia. Sempre viu um pouco de carinho no apelido que as amigas haviam lhe dado, mas por vezes, como aquela, aquilo a incomodava e muito. O que tinha de tão mal ter gostos "masculinos"? Disposta a não estragar aquele momento entre amigas que ela tanto precisava, resolveu deixar aquilo para lá, por agora.
- Me conta da sua semana, professorinha?

Amélia desviou os olhos do celular e bufou irritada;

- Você já entrou em uma sala cheia de adolescentes cheios de hormônios exacerbados? Quando entrar, saberá como foi a minha semana. - Amélia respondeu com as mãos em forma de garras demonstrando sua raiva.

Mia riu.

- Passe uma semana com a agenda tão cheia e tendo que sorrir tanto, mas tanto, que os músculos da bochecha chegam a doer. - a loira respondeu sobre gargalhadas, desligando a televisão para interagir melhor com as duas na sala.
- Vocês reclamam demais - observou. - Vocês escolheram essas profissões, problema é de vocês agora.
- Isso é falta de sexo - Emanuelle chegou à sala com três garrafinhas de cerveja em mãos, ficando com uma e passando as outras duas para Amélia e . - Estão as duas estressadas por falta de homem - a médica tomou o lugar ao lado de Mia no sofá.
- Você é uma depravada - Amélia falou. - Só pensa em sexo, a vida é mais que isso, Chechele.
- Vá se ferrar com esse apelido - a loira gritou e as amigas riram, Emanuelle odiava que a chamassem assim e ficava irritada quando as amigas implicavam e insistiam naquele apelido que mais parecia nome de perereca.
- O que é sexo, tia Amélia? - a voz fininha de Sarah chegou aos ouvidos das quatro mulheres à sala.

Os olhos arregalados da negra mostraram como ela se assustou com a presença da pequenina de apenas cinco anos.

- Responde para ela, tia Amélia - mais uma voz chegou à sala e era quem estava faltando: Leah com seus longos cabelos pretos e assim como Amélia, a engenheira também estava vestida de maneira simples e totalmente a vontade, não importava quantas vezes visse Leah, ela estava sempre com o mesmo sorriso aberto e os mesmos olhos escuros brilhando, isso era totalmente encantador. - E a propósito, homenzinho, vou te mandar a conta do dentista da minha filha, já que você anda frequentando muitas casas de doces.
- Pode mandar, faço tudo para ver a Sarinha alegre.
- Tia , não me chama de Sarinha, eu não sou mais criança - a loirinha cruzou os braços em frente ao peito com um biquinho em seu rosto doce, as cinco riram.
- Desculpe, Sarona - consertou, mas a expressão no rosto da pequena não foi de agrado.
- Eu também não sou grande assim, tia .
- Está bem, então - apertou as bochechas dela. - Só Sarah.

A garotinha balançou a cabeça positivamente e se voltou para Amélia.

- O que é sexo tia Amélia?

A professora respirou fundo e estendeu os braços para que Sarah sentasse em seu colo e assim a garotinha o fez.

- É um filme, meu amor - Amélia respondeu e Mia engasgou com a cerveja, tossindo.
- E a gente vai assistir?
- NÃO - as cinco falaram praticamente ao mesmo tempo e os olhinhos da garota arregalaram com medo.
- Você só vai assistir depois de 20 anos, está bem? - Emanuelle disse
- Pelo menos uns 22 gente. - Amélia não hesitou
- 30 anos! - Mia exclamou
- Gente que exagero, esperar tudo isso para ex... - Leah lhe estapeou, lançado-lhe um olhar mortal, não ousou prossegui a frase. - Acho 30 uma ótima idade!- exclamou.
- 30! - todas repetiram juntas novamente, já dirigindo o olhar para a criança que olhava assustada para as tias, sem entender o motivo de demorar 30 anos para ver apenas um filme.
- Mas antes de ver qualquer filme, você vai almoçar, ok? - Emanuelle disse mudando de assunto antes que alguém falasse mais besteira.
- Esta bem, então - um sorriso voltou a emoldurar a face de Sarah. - Eu vou brincar com o Harry enquanto isso - escorregando do colo da professora, Sarah subiu correndo as escadas da casa da atriz.
- Essa menina é bem espertinha, viu? - Mia observou, Leah balançou a cabeça concordando.
- Puxou a mãe - gabou-se- Estou exausta, quero dormi o dia todo.
- Pode descansar, eu passo o olho na tampinha.
- Obrigada, mas não está cansada? Sei que as coisas na oficina estão apertadas, .

sorriu com o apelido, adorava quando a chamavam assim, percebeu que aquilo a fazia sorrir, mais do que quando usavam homenzinho.

- AHÁ - Emanuelle bateu palminhas apontando o dedo para . - Você me deve uma explicação sobre aquele homem gostoso na oficina.
- Homem gostoso?
- Como assim ?
- Você está com alguém e não disse nada?

Isso era quase que o início de uma guerra, as vozes das quatro amigas especulando sobre as possibilidades, fizeram a cabeça de doer.

- CHEGA - Disse irritada - Assim vocês me enlouquecem.
- Então fala logo mulher.

riu do desespero de Leah.

- É só um cara, gente - deu de ombros, tomando mais um gole da cerveja. - é o nome dele.
- - Emanuelle repetiu o nome.
- O mesmo nome do piloto de fórmula... 1 - Mia disse já ligando os pontos e encarando a amiga. – Safada - lhe jogou uma almofada. - Você está pegando ele?
- NÃO - foi uma resposta bem rápida e alta que deu as amigas.
- Então para de enrolar e fala logo mulher.
- Sim, é o piloto da Fórmula 1 - ela tomou mais um gole da cerveja, o último da garrafa. - Ele foi à oficina procurar meu pai - ela engoliu em seco. - E nós discutimos, porque, ele chegou lá com aqueles papos ridículos machistas de sempre e depois nós corremos e eu o fiz engolir todas as baboseiras que me disse.
- Você disputou uma corrida de carro com ele?

Leah parecia estar alienada ao assunto.

- Não Leah, corremos a pé. Tipo atletismo.

Leah lhe chutou a perna de leve, descontando a ironia que detestava em .

- Você correu com um piloto de Fórmula 1 e ainda ganhou?

afirmou com a cabeça e Amélia bateu palmas.

- Apesar de não te chamar assim, dessa vez terei que abrir uma exceção, parabéns homenzinho.

Realmente Amélia era a única delas que não a chamava pelo apelido, apesar de não parecer se importar com ele, a professora também tinha alguns gostos mais parecidos com o dos homens e nem por isso se sentia menos mulher, portanto preferia não fazer uso do apelido.

- Não vale a pena explicar para vocês que existe diferença das ruas para as pistas do autódromo.
- Não vale mesmo - Mia abanou a mão descartando a possibilidade. - O que eu quero mesmo saber é se realmente não esta rolando nada.
- Não loira, nós não temos nada, nem amigos somos.

parou por uns segundos para analisar que nos últimos dias viu mais que as próprias amigas e não poderia negar que o homem conseguia a irritar e logo após deixar as coisas engraçadas em uma proporção muito grande.
Aquilo era estranho.

- Isso é uma pena, porque ele é um gato .- Leah mostrou a tela do celular onde o instagram do piloto estava aberto, e diversas fotos publicadas, fingiu não querer ver as fotos enquanto as quatro amigas amontoaram-se sobre o celular observando cada detalhe e extraindo o máximo de informações que podiam.

media as expressões das amigas e sentiu vontade de compartilhar da visão das fotos também, não podia e nem tinha como negar que era realmente lindo e um ótimo piloto também, porém era só isso.
Eles não seriam nem amigos.
O barulho do forno foi ouvido, a lasanha estava pronta, e o barulho dos pezinhos descendo as escadas certificou a que Sarah estava com fome.

- O que elas estão fazendo tia ?
- Voltando à adolescência - a morena pegou a garotinha no colo e direcionou-se para a cozinha, aonde iria alimentá-la, já que sua mãe estava babando pelo piloto . - Delícia.

XXX


estacionou a Ferrari vermelha na vaga que era selecionada para a área vip do PUB, logo desceu do veículo e seguiu seu caminho para encontrar os amigos. Avistou de longe, Thomas, Pietro e Talles, conversando animadamente.
Era sempre bom estar em Monte Carlo, sentia falta dos amigos por causa de loucura de viagens.

- E ai, bebê? - Thomas foi o primeiro a cumprimentar assim que o viu.
- “Colé” pessoal - o piloto cumprimentou todos e tomou a única cadeira vazia da mesa. - O que temos para hoje?
- Mulheres - Talles fez um gestou com o dedo, que mostrou as mulheres de uma mesa à frente.
- Então se joga, cara - Pietro sorriu tomando um gole da cerveja.
- Só não chegue ao treino atrasado amanhã - Tom advertiu e Talles rolou os olhos.
- Você esta precisando de sexo, Tom. Você está muito chato hoje – retrucou. - Cadê sua namorada mesmo?
- Eu fiz sexo hoje, estou muito bem obrigado - Tom também deu um gole na bebida. - Já você, qual foi à última vez que pegou uma mulher, mesmo?
- Esta na seca ultimamente é amigo? - Pietro deu um tapinha nas costas de Talles.
- Estou decidindo sair do armário - Talles disse sério e fez os três amigos se olharem assustados. - Quando você vai me dá uma chance, ? - Talles tocou a perna de com a mão, os olhos do piloto se estreitaram e ele caiu na gargalhada, entrando na brincadeira.
- Cara, achei que você nunca fosse se declarar. - retrucou completamente calmo e Talles riu colocando a outra mão no rosto dele.
- Não negue sua atração por mim, então.
- Sai fora, cara - ele deu tapa na mão do amigo, quando ele se aproximou perto demais - Pro seu azar, eu gosto de mulher, não de pinto. Ainda mais um pequeno, como o seu - despejou e todos riram, até Talles que até então estava sério interpretando seu papel.
- Essa cena foi ridícula, eu preciso de uma mulher, agora - Pietro disse e rodou os olhos pelo lugar procurando alguma mulher que o agradasse.
- Por falar em mulher - Talles se pronunciou. - Tommy, Louise lhe deu vale-night hoje?
- Sim, ela sabe que nosso bebê esta na cidade - bagunçou os cabelos do mais novo. - Temos que aproveitar para andar de Ferrari.
- Não pense em tocar no meu carro - encarou o amigo sério, apesar de saber que não passava de uma provocação, gostava de entrar na brincadeira do amigo. - Você é um péssimo motorista.
- Claro que não - negou esbaforido. - Eu que te ensinei pilotar, moleque.
- Me poupe desses come... - sua fala parou quando percebeu que uma mulher morena passava pela mesa com longos cabelos ondulados e um belo corpo.

Será ?
Sua respiração ofegou e suas pernas rapidamente estavam de pé atrás da mulher morena de vestido preto.

- - ele tocou o braço da mulher virando-a para si, a expressão da mulher foi confusa, mas depois de perceber o homem detalhadamente arqueou a sobrancelha. - Desculpe moça, eu te confundi com outra pessoa.

A moça sorriu largamente.

- Eu não me chamo , mas posso ser ela se você quiser - ela esticou mão e tocou o ombro do corredor suas unhas eram enormes e estavam pintadas de preto.

Preocupado em não ser grosso, devagar desviou o ombro da mão dela, e deu um pequeno sorriso.

- Não acho que seja assim – disse. - Desculpe te interromper.

O piloto voltou para mesa com os amigos e Talles lhe deu um tapinha nas costas.

- Apaixonou em tempo recorde, amigo.

o olhou feio e o loiro gargalhou.

- Eu gostaria muito de ouvir sobre sua paixão. - Pietro observou. - Mas eu não posso ficar aqui - com a própria cabeça apontou a loira com o decote enorme que não parava de encará-lo, no mesmo instante ele pegou seu copo e levantou. - Vou ao ataque amigos. - ele caminhou até a loira com seu melhor sorriso, poucos minutos depois, passou novamente pelos amigos e acenou despedindo-se, tinha coisas melhores para fazer.
- Esse é meu garoto - riu, mudando o foco do assunto louco para que seus amigos se esquecessem do comentário de Talles.
- Me conta, como vocês estão? Já conseguiu amolecer o coração de gelo dela?

Será que se ele matasse Talles e alegasse legitima defesa seria absolvido?
Vontade não faltava de cometer esse crime.

- Então finalmente se apaixonou por outra mulher, sem ser a Gigi? - mencionou o nome da ex-namorada, e bufou irritado e constatou que precisava de álcool urgentemente e com o dedo em riste fez sinal para o garçom, que se aproximou com agilidade.
- Eu um quero Uísque, por favor.
- Uau cara, eu sou fã - o garçom não parecia ter mais de 21 anos e estava embananado na frente de .
- Obrigado cara, isso é muito legal.
- Posso tirar uma foto? - o piloto assentiu e se posicionou para a foto. - Meu Deus, e Pietro Pellegri no mesmo dia, eu tenho muita sorte - sorriu concordando, de fato era bem comum ele e Pietro serem assediados pelas ruas de Monte Carlo, já que o mesmo jogava futebol pelo time do Mônaco, e a Fórmula 1 era praticamente a luz do lugar, difícil os dois não serem conhecidos, por isso na maioria das vezes, preferia fazer algo em casa com os amigos e não sair. - Obrigado. Vou trazer seu pedido.
- Valeu - ele gostava de ser gentil com seus fãs, mesmo nos momentos mais inusitados.
- Então, bambino, quem é a vitima da vez? - Thomas capturou a atenção do mais novo. - Sabemos que muitas mulheres passam por sua Ferrari.

Talles gargalhou.

- Eu não sou um assassino em série, Tommy - Balançou a cabeça negativamente. - Eu não tenho vitimas.

Talles olhou o amigo firmemente.

- Elas morrem de amor por você, ô corredor.

Corredor.
Era como o chamava e ele gostava muito mais do apelido quando saia da boca dela.

- Fala logo , quem é ela? - Tom se irritou.
- - respondeu. - Mas eu não estou apaixonado.
- Ela ganhou um racha dele.

Era oficinal, Talles não passaria daquela noite.

- Espera aí - Tom colocou o dedo em riste e as gargalhas de Talles eram altas. - Você perdeu uma corrida de carro para ela?
- Ele deixou ela ganhar - Talles interviu. - Tirou o pé, em cima da reta.
- Claro que não - olhou feio para Talles. - Eu não a deixei ganhar, ganhou por que é boa.
- Mentira - Talles voltou a afirma, na cabeça de ele já imaginava varias formas de matar o melhor amigo. - Eu estava lá, idiota - lhe deu um tapa na cabeça. - Foi tipo velozes e furiosos 5, Dom tirou o pé em cima do sinal e Brian ganhou - exemplificou, Thomas voltou a encarar o piloto com expressão divertida.
- Eu não a deixei ganhar, ela ganhou porque pilota para caralho.
- A primeira parte é mentira, a segunda é muito verdade - Talles era fã de , adorava a ver correr e ganhar, não se lembrava de ver a mulher perder.
- Eu não vou perder meu tempo, discutindo com Talles, já disse que não deixei ganhar.

Aquilo era meia verdade.
Claro que não tinha corrido o máximo que podia, claro que poderia ter ganhado, entretanto uma série de fatores o impediu de acelerar mais na última reta, queria conhecer , queria saber mais dela, e se ganhasse não teria a oportunidade, outro ponto era que, de fato, as ruas não eram como as pistas do autódromo, e nem o carro, já que não tinha cambio manual, o que facilitava e economizava nos segundos finais em cada etapa, considerava aquele o principal fator para a derrota, portanto, não deixou totalmente de proposito, ela ganhar. Ele era um homem competitivo, perder não era uma palavra que gostava, a derrota lhe incomodava ao extremo, mas perder para , não lhe causou o mínimo incomodo, ao contrario foi uma vitória, talvez a que mais tenha valorizado nos ultimo tempos. Tinha orgulho de dizer que sua futura mulher pilotava demais.
Futura mulher?
Que bosta é essa que você esta pensando ?

- É amigo, você está apaixonado sim, até deixou a mulher te vencer.

Balançou a cabeça negativamente, no mesmo instante que o garçom chegava com sua bebida.

- Ela é boa cara, muito boa.
- Boa pilota, ou boa mesmo? - fez o desenho no ar de um corpo escultural e ficou em silencio pensando, não podia negar sobre a beleza dela. era o tipo de mulher que sem fazer nada chamava a atenção para si, e para ter qualquer tipo de envolvimento com ela, com certeza um homem deveria ter paciência a mil e ciúmes zero ou seu final seria em uma cadeia, preso por homicídio.
- Ela é boa, só isso.

XXX


Na segunda-feira o dia amanheceu nublado.
Os ventos eram fortes e parecia que choveria, e muito ainda. E o clima fechado fez com que fosse trabalhar de calça e blusa de frio, e quando se aproximou de o homem a observou com cuidado, gostava quando ela usava short, suas pernas eram torneadas e definidas, totalmente atrativas, entretanto ela estava de calça cumprida e suas pernas não deixavam de ser chamativas e ela estava mais linda do que já a vira. E a cada minuto que passava dificultava sua tentativa de trabalhar, a cada movimento que a mulher fazia, ele acompanhava com o olhar.
Totalmente abobado.
Seus pensamentos viajavam para a vontade que ele sentia de tocá-la, de sentir a maciez de sua pele e a firmeza das mãos que ao mesmo tempo eram delicadas e fortes assim como a própria .
Ele estava surtado pela mulher.

- Perdeu alguma coisa em mim hoje, corredor? - o homem foi despertado das ilusões pela voz dela, que com as mãos na cintura, o encarava.
- Você esta bonita de calça - ele disse da maneira mais natural possível, não havia motivos para mentir.
- Mais do que de short?

Ele soltou a ferramenta que segurava e ficou de pé.

- Muito mais do que de short.

negou com a cabeça totalmente desacreditada.
Qual é o homem que prefere uma mulher de calça?

- Não precisa mentir , não sou como as mulheres que conhece.

Ah ele sabia, e como sabia disso!

- Claro que não é, assim como eu não sou como os caras que está acostumada a se envolver - retruco e arqueou a sobrancelha, tinha um belo ego e também uma bela aparência e pelo posto que ocupava no esporte, o que não faltavam eram pessoas para lembra-lo disso.
- Eu não me envolvo com caras.
- Com mulheres, então?

deu uma gargalhada gostosa, música para os ouvidos de .

- Tem algum tipo de preconceito? Igual com mulheres que pilotam carros velozes?

encarou com intensidade e se aproximou a passos lentos, ela recuou ao perceber que ele se aproximava, o coração pulou em seu peito ao perceber que os olhos do moreno corriam por seu corpo.

- Nenhum, principalmente se forem mulheres que pilotam carros velozes.
- Quantos anos você tem? 18? Eu já passei da fase de brincar de bonecos e carrinhos.
- 21. Não sou tão mais novo que você e pare de me menosprezar, faz isso desde que me conheceu e ainda chama os outros de preconceituosos, você é difícil, Hein mulher? - um sorriso presunçoso moldou seus lábios ao ver a expressão de , ela estava sempre armada para lutar e dificilmente ficava sem resposta, mas soube no momento em que ela franziu o cenho que dessa vez o ponto foi para ele.
- Eu não me envolvo, de maneira nenhuma, com ninguém, homem ou mulher. As coisas para mim não passam de atração física, sexo e acabou.

analisou a expressão fria no rosto da mecânica, os olhos gélidos como gelo, ele jamais presenciou aquele olhar, e por um breve momento procurou se eles lhe mostrariam o motivo da rigidez em seu coração, porém, permaneceu sem mostrar qualquer emoção.
O barulho do celular de soou e ao olhar o visor, respondeu a mulher.

- Só um minuto, é o meu pai - colocou o telefone na orelha e deu um sorriso fraco, sentia saudades das vezes que seu pai a ligava. Sentia saudades das vezes que levava bronca por não atender o celular já que estava no modo silencioso, ou das vezes que estava com as amigas e ele ligava e a moça optava por não atender.

Se tivesse como voltar e fazer as coisas diferentes, ela com certeza daria tudo para que tivesse seu velho de volta.
Deus, como saudade doía.
Como parecia não ser real.
Antes que percebesse, seu rosto estava molhado por lágrimas e seus olhos estavam imparciais e focados no nada e em sua cabeça os pensamentos queimavam a uma intensidade que fazia seu corpo entrar em ebulição.

- Eu faço pai - completou e virou-se novamente para , seus olhos se arregalaram ao ver a mulher estática com lágrimas pelo rosto. - Desculpe pai, eu te ligo de volta. - Colocou o telefone no bolso da calça e se aproximou de .
- o que houve? - ele tocou os ombros rígidos dela, e aquilo foi o gatilho para que a mulher desabasse em seus braços tomada por soluços.

Ele então a abraçou forte, tentando passar algum tipo de conforto, o que mais desejava era apoia-la nessa dor.
Ele entendia essa dor.
Não falou ou fez mais nada, somete afagava os cabelos de enquanto ela soluçava tomada pelas lagrimas, os soluços dela não eram altos ou fortes, o choro de parecia ser silencioso, parecia doer por dentro, e ele entendia que o coração parecia sangrar dia após dia, e o sentimento cruel chamado saudade, corroía como ácido tudo que encontrava pelo caminho.
A mecânica agarrou a camisa branca dele com força, quando sentiu suas pernas tremerem e não conseguiu sustentar o peso do próprio corpo. Alarmado, firmou seu braço em sua cintura lhe dando o sustento necessário para manter–se em pé e trazendo junto calafrios intensos como reação ao toque.
Ao perceber o ponto que estava, com seus sentimentos expostos e no ponto de vista dela, um sinal claro de fraqueza, ela o empurrou pelo peito passando as mãos depressa pelo rosto, virando-se de costas. A garota detestava mostrar o que sentia, quando as pessoas conheciam seu ponto fraco, sabiam exatamente onde feri-la. E jamais se permitiria passar de novo por aquilo.

- Estou bem, estou bem. - ela procurou a respiração no fundo do pulmão e depois a soltou devagar. - Eu vou tomar uma água. Já esta na hora do almoço, vai comer.

se afastou e chegou à passos velozes até o escritório do pai - que agora era seu - mais lágrimas voltaram a cair, mas diferente de minutos atrás, não permitiu que caíssem, foi direto para o banheiro jogar uma água no rosto e se acalmar, os cabelos antes estavam em rabo e ela tratou de fazer logo um coque, seu reflexo no espelho era assustador.
Os olhos estavam fundos e vermelhos, marcas de lágrimas corriam pelas bochechas.
Com um sabonete lavou o rosto, jogando bastante água e logo secou com a toalha macia, esperando que fosse o suficiente para amenizar o estrago.
Quando saiu do banheiro voltando para o escritório, se assustou ao ver em pé, em suas mãos um porta retrato que ficava sobre sua mesa. Havia somente duas fotos em todo o escritório, a primeira era com as amigas, vestidas de personagens de princesas encantadas da Disney, no aniversário de 3 anos de Sarah, e outra dela e seu pai, demorou quase um mês para que tirasse as coisas do pai do escritório, mas agora não restava quase nada dele, era totalmente seu escritório.
E ele estava segurando justamente a foto que estava com as amigas.

- Eu disse para você ir comer - ela brutalmente pegou a foto das mãos dele, devolvendo para a mesa, não é nada que ele não esperasse que ela fizesse.
- - ele falou de maneira calma. - Eu entendo essa dor que você sente, e acredite em mim, não é bom guardar esse sentimento.

bufou enraivecida.

- Você entende? Pelo que eu vi, era com seu pai que você estava no telefone - o tom de voz dela era frio e duro, parecia querer o ferir com suas palavras.

fechou os olhos e respirou fundo para continuar aquela conversa.

- Eu não perdi meu pai ou minha mãe. Perdi em 2015 meu padrinho, que me ensinou tudo o que sei sobre carros e corridas. E ainda mais, eu matei meu irmão mais velho.

A mecânica ficou estática.
O eco da voz de parecia percorrer todo o espaço da oficina, após falar, ele sentou-se no sofá perto da porta e enterrou suas mãos nos cabelos.
correu os olhos pela sala procurando alguma coisa para se defender e achou uma tesoura sobre a mesa.
Ele acabou de dizer que, matou o irmão.
Era instinto natural procurar defesa.

- Como assim? - perguntou com a voz trêmula, quando o homem levantou a cabeça lágrimas já corriam pela face, suas feições eram tristes, percebeu que não havia necessidade da tesoura, então deu um passo para trás.
- Estávamos eu, Talles e Lorenzo, meu irmão.

Março de 2017


batia os dedos no volante impaciente, ele estava sentado no carro esperando Talles, ele ainda arrumava o cabelo, era incrível como ele parecia mulher, demorava mais que todos. Sempre
Lorenzo estava ao seu lado digitando algo no celular, e logo começou a falar, estava gravando um vídeo, virou a câmera para o lado de e este deu um oi, até eles verem a silhueta de Talles se aproximando, o loiro abriu a porta de trás do carro e entrou.

- Você ficou uma hora arrumando o cabelo, para usar boné? – Lorenzo perguntou.
- Não estava ficando bonito e eu estou com sono também – respondeu. - Vamos logo! Estou com saudade da minha mãe - pediu e ligou o carro, deu seta e foi rumo à saída da cidade.
- O que temos para hoje? - Lorenzo perguntou ligando o som.
- Nós vamos lá para o Thomas, encher a cara e comemorar que Pietro subiu para o profissional - foi o mais novo quem respondeu.
- Muito bom - Lorenzo disse e observou o trânsito, havia poucos carros, mas todos eles passavam o que estavam. – Ô você está com algum problema para acelerar? Se fôssemos de tartaruga estaríamos mais na frente - reclamou
- Você já foi mais veloz que isso - Talles concordou. - Pára o carro que eu vou dirigir.
- Não, meu carro, eu dirijo - estabeleceu a regra, seus amigos eram muito abusados. - E eu irei à velocidade que eu quiser, pode ir de tartaruga se quiser, Talão - emendou e Lorenzo gargalhou profundamente.
- Qual o problema ? Está com medinho é? Achei que queria correr na Fórmula 1 - caçoou e Lorenzo gargalhou.
- Isso é culpa da Gigi, ela faz o lado cuidadoso dele aflorar, Talles, daqui uns dias seremos obrigados por ele andar de cinto - o outro entrou na zoação, estava ajoelhado no banco sem cinto e Talles estava com os dois braços no encosto do banco, eles conversaram e gritavam animadamente, toda vez que eram ultrapassados gritavam, até certo ponto ignorou, mas sua paciência estourou. Ele estava na terceira marcha, ao pisar na embreagem, mudou para a quarta e pisou no acelerador, o painel do carro mostrava 50 km/h, segundos depois estava a 90 km/h, as palmas e assobios de Lorenzo e Talles foram ouvidos, e soltou um sorriso, Talles se inclinou no banco e aumentou o volume da música que tocava, e junto com os cantores os três começaram a gritar a letra e suas cabeças e mãos balançavam de um lado para o outro.

Junto com a empolgação do momento cortava todos os carros, e ao gargalhar de alguma idiotice dita por Lorenzo, trocou mais uma vez a marcha, agora estava na quinta, ao dar seta para cortar um caminhão na estrada, girou o volante, mas a direção do carro mudou, e deu uma derrapada nos asfalto, seu impulso natural de habilitado o fez a apertar o freio, mas o mesmo não surtiu efeito, o carro não parou, o caminhão que estava em sua frente, continha uma velocidade normal, o que fez o desespero de , eles iriam se chocar.

- O FREIO - Lorenzo berrou desesperado.
- Não vai - a essa altura estava com as mãos soadas e o coração acelerado.
- O de mão , o de mão.

Lorenzo tentava loucamente colocar o cinto, insano de preocupação, mas tudo parecia não encaixar e de repente tudo aconteceu.
pisou na embreagem, soltou o acelerador e puxou o freio de mão, precisava que as rodas travassem para o veiculo parar, entretanto os pneus derraparam mais, agilizando o choque, o gritou de Leon foi de medo ao perceber que não havia adiantado.

- LORENZOOOOO - Talles gritou vendo o corpo do amigo ser jogado em meio ao para-brisa do carro, com as duas mãos segurou firme no banco, mas ele sabia que não ia adiantar, ele fechou os olhos não queria morrer sentindo dor, sua mente viajou sobre os melhores momentos de sua vida, como ele amou viver tudo, cada vitória e derrota. Seu sonho havia sido realizado, era o homem mais feliz do mundo. Com um último sorriso pensou em sua família, esperava que eles ficassem bem, Deus envie forças para eles, que eles seguissem suas vidas.

A última coisa que viu, foi o corpo de Lorenzo ser arremessado pelo vidro da frente, e a voz de Talles chamando seu nome, com o coração totalmente disparado.
Seu melhor amigo da vida.
Seu irmão;
jamais se viu sem Lorenzo, cada momento de alegria e tristeza de sua vida tinha o mais velho, não amava Lorenzo como um irmão, era muito mais que isso, eles dois pareciam ser um.
Uma parte de seu coração estava partindo naquele momento.
Sua vida era como um filme em uma tela agora, e com clareza ele viu todos os momentos de alegria que viveu, cada gargalhada soltada por ele na presença dos amigos e sua família.
Suas tristezas, e a morte de Jules, e como se ajoelhou sobre o tumulo do padrinho, desesperado em lágrimas, pedindo que não partisse.
Mamãe e papai como ele gostava de falar, ele ia sentir saudade dos mimos de sua mãe, e dos conselhos maravilhosos de seu pai, Arthur seu irmão mais novo que ele não teve a oportunidade de beijar naquele dia, tomara que ele conseguisse se cuidar sozinho, desejava que ele brilhasse na vida e nunca se esquecesse dele, do quanto ele o amava.
queria gritar, mas sua voz parecia não sair.
Lorenzo não tinha em que pensar, ele estava morrendo.
Ele estava partindo e deixando sua família para trás;
Arthur, o mais novo dos ’s tinha também o sonho de ser piloto, naquele instante ainda corria apenas de Kart, mas acreditava que tinha futuro na profissão e se arrependeu de em sua última mensagem ter mandando ele ficar longe de suas panquecas e não ter dito o quanto amava aquele moleque, assim como .
Ah !
A personificação do empenho e determinação, Lorenzo sem lembrava do primeiro Kart que ele dirigiu e quando viu os olhos claros de brilharem, ele sabia que o garoto teria futuro naquela profissão, já estava percebendo que não veria o irmão na F1, mas com todo seu coração desejou que seus sonhos se realizassem.
Ele pensou em sua mãe e as panquecas que amava preparar para comprar o estômago dos três filhos, e convencê-los a fazer o que queria, e depois passava o dia vendo eles jogando videogame e se divertindo na sala de casa.
‘Obrigada por ser essa mãe maravilhosa. Eu te amo ‘
E seu pai, seu amigo de uma vida, seu exemplo, Lorenzo Lerlerc pedia aos céus para nesses anos de vida, tivesse sido metade do homem que seu pai foi.
“Eu te amo pai, obrigado por me ensinar tanto”
A imagem de Giulia reviveu em sua memória, ele sorriu, a amava.
Lembrava-se da primeira vez que viu a professora, ela estava sentada em um café, ela lia um livro: “Orgulho e preconceito”, os cabelos estavam voando, o olhar brilhava.
Lorenzo disse a si mesmo, que casaria com aquela mulher.
E agora eles estavam juntos, e ele pretendia pedi-la em casamento ainda naquela semana, seu sonho não se realizaria mais. Entretanto, Lorenzo estava feliz, por ter amado Giulia Montez.
Como um último pedido, implorou para os céus que ela fosse muito feliz, com uma casa com jardim e que se ela tivesse um filho em algum momento da vida, herdasse os olhos dela, como idolatrava aquelas jabuticabas.
Com a imagem de um almoço em família, onde sua mãe estava sentada no sofá com uma xicara de chá em mãos, seu pai repousava ao lado dela, os olhos vidrados na televisão, e Arthur disputavam uma partida de ‘Need4speed’, no outro sofá, estava Giulia, uma garrafa de cerveja em mãos e aos seus pés, Lorenzo se viu sentado, fazendo um carinho na perna direita da namorada. Era sua lembrança favorita. E como uma ultima despedida, fechou os olhos, com sua consciência totalmente perdida.


- Ele já chegou ao hospital sem vida - passou as costas da mão sobre o rosto. - Quando acordei no hospital, recebi a noticia que ele tinha morrido na mesma hora. E eu não soube como encarar meus pais, ou a mim mesmo no espelho. Eu me lembro de cada momento do acidente, de cada palavra, cada expressão facial dele, quase desisti de correr, mas eu precisava correr por ele, para que de onde quer que ele esteja, sinta orgulho de mim.

A emoção nas palavras dele fez com as dela também aflorassem, e lágrimas caiam, lágrimas de quem entendia o que ele falava.

- Eu... Eu sinto muito - ela se agachou em frente a ele e tocou seus joelhos, os olhos entraram em uma ligação profunda.
- Faz dois anos, - ele mostrou os dedos como ilustração. - E não tem um dia sequer que eu não sinta falta dele, não tem um dia sequer que eu não queira trocar de lugar com ele, mas saber que se ele estivesse aqui se orgulharia de mim, me faz levantar todos os dias da cama - um sorriso brilhante pintou os lábios dele. - Você vai conseguir - ele apertou a ponta do nariz dela e ela fechou os olhos - Uma hora à ferida vai diminuir você só precisa deixar as pessoas te ajudarem.

ainda de olhos fechados, sentiu os braços dele rodearem seus ombros e agora seus corpos se emolduravam em um abraço de saudações, correntes elétricas de 220 volts descarregaram sobre seu corpo, formigando mediante ao toque dele, quente e estrondoso, capaz de faze-la entrar em ebulição por completo. Incapaz de permanecer ali, sentindo tudo aquilo que não sabia nomear, o empurrou devagar.
No segundo seguinte, já estava longe do piloto.

- O que acha de um almoço? Merecemos comer.

sorriu.

- Vamos sim, estou faminto - concordou, vendo-a voltar ao banheiro para lavar o rosto. - Essa foto é bem interessante - disse, novamente ele segurava a foto. - Me conte sobre suas amigas, a Emanuelle eu já conheci, essa loira vestida de Rapunzel.
- Sim, segundo a Sarah ela se parece muito com a Rapunzel - saiu do banheiro e colocava sua jaqueta, para eles irem almoçar. - Ela é médica e é uma comédia a ter como amiga, ela é a mais velha de nós cinco.
- E quem é a Sarah? - os dois já estavam na calçada, onde o carro de estava estacionado. Os olhos dela brilharam, era amante dos modelos mais antigos, mas sabia reconhecer a beleza de um carro, e aquela Ferrari 488 GTB 3.9 V8 TURBO era linda, com a velocidade máxima de 330 km/hora e fazia de 0 a 100 em 3 segundos, os dedos dela coçaram ao se imaginar pilotando aquele carro. - Você já olhou para alguém, como olha para carros velozes?
- Não, ninguém merece tamanha atenção.

deu uma gargalha gostosa, enquanto observava destrinchando os detalhes do carro
- Posso abrir o capô?
- Claro - o sorriso dele se alargou, ao vê-la dar pulinhos de alegria, ele já viu muitas mulheres babando por seu carro, pela beleza dele, pelo status e poder que uma Ferrari representava, mas jamais viu uma mulher se encantar pelo motor de seu carro.
- Caralho! - exclamou ao observar. - Motor de 3.902 cm³ de cilindrada, de cárter seco, 8 cilindros de 4 válvulas, é um baita carro.
- Sim, com 670 CV 8000 RPM. Sete marchas.
- Já colocou quanto no velocímetro?
- 330 em 7 segundos - sorriu e arqueou a sobrancelha em duvida, ele gastaria no mínimo 10 para: acelerar, trocar as marchas, e então alcançar o limite máximo de velocidade.
- Dúvido.
- Sabe como cortar décimos de segundos em uma corrida, ?
- Troca de marcha direto - ele assentiu. - No exato momento, senão você morreria com a explosão.
- Mas eu sei o exato momento. Sei a distancia suficiente que preciso apertar o acelerador e a embreagem para trocar a marcha.
- Sensacional - voltou a encarar o motor carro. - Trocar sem levantar o pé do acelerador, nos carros turbos mantém o motor em alta rotação para manter aceleração no máximo, alcança o limite de velocidade em menos tempo. É Melhor que voar.
- Quer dirigir? - e ali foi contra tudo que acreditava, jamais outras pessoas dirigiam seus carros, mas faria tudo o que quisesse.
- Obvio, eu só ando em carros quando eu dirijo - lhe estendeu a chave e ambos entraram no veículo, era um carro esportivo de dois lugares somente.
- Você não anda de carona com ninguém? - ela negou com a cabeça, dando seta e arrancando o carro. - Você é pirada.
- É o que dizem - deu de ombros, prestando atenção nas ruas em sua frente.
- Voltando ao assunto; suas amigas. - rolou os olhos, era insistente e sempre fazia perguntas para saber mais sobre sua vida. - Quem é a Sarah? - voltou a observar a foto em suas mãos, obvio que tinha carregado a foto, era motivo para puxar assunto com a mulher.
- Sarah é a filha da Leah, a aniversariante - apontou a garotinha na foto. - Ela quem nos fez vestir de princesas.
- Leah é a Pequena sereia? - ele analisava a foto e constatou quem era a mãe, já que a garotinha estava em seu colo.
- Essa mesmo, ela é engenheira, e não e mãe só da Sarah, ela é mãe de todas nós. - continuou a correr os olhos pela foto observando cada detalhe das amigas e seus sorrisos alegres. - Essa é Mia Belchourt. A atriz?

assentiu positivamente.

- Você sabe que ela e Talles já tiveram um rolo, não é?

assentiu positivamente.

- A vida amorosa do Talles é mais rotativa que um autódromo, nunca sabemos o nome das mulheres que se envolve, mas essa ele fez questão de contar - balançou a cabeça negativa, como se reprovasse a atitude. - E quem é essa aqui, essa negra?

Uma gargalhada saiu da boca de , e a olhou com curiosidade sem entender o motivo dos risos compulsórios da mulher.
- O que foi?
- Eu ri tanto no dia que fomos escolher essas fantasias. A Amélia é completamente alucinada.

- Gente me ajuda, eu não consigo escolher minha fantasia - Amélia choramingava em frente ao espelho da enorme loja de fantasias, a professora estava na dúvida, entre a Bela da fera, Tiana, a princesa negra, ou a Mullan.
- Amélia, eu preciso trabalhar, mulher, agiliza isso logo - Emanuelle deu uma sacudida na amiga, elas iriam se atrasar somente por causa de Amélia.
- Mas eu não consigo escolher gente - ELa bateu o pé e fez bico, Sarah gargalhou.

Sua tia Amélia estava loucona aquele dia.

- Amélia vai com qualquer uma, ninguém se importa - bufou entediada, estava morrendo de fome e Amélia as prendendo na loja justo na hora do almoço.

De quem foi brilhante ideia de vim escolher fantasias justo no horário de almoço?
Justo a refeição mais sagrada do dia.

- Amélia, já chega - Leah tomou a palavra. - Ou você se decide agora ou eu te faço ir vestida de fera, no lugar da Bela. 3 segundos.
- Faz ela ir de fera, Quel - Emanuelle disse entusiasmada.
- Emanuelle, fica quietinha antes que eu te faça engolir as tranças - Amélia disse também irritada. - Esta bem eu vou de Tiana, porque, ela também é negra.
- A fera também é negra, Amélia - observou entrando na brincadeira, Amélia era sempre hilária quando surtava.
- A fera é macho. Tem um pinto. E é peluda. Eu não vou de fera.
- Mamãe, o que é pinto?

Leah rolou os olhos irritada com Amélia, e suas paranoias.

- Você vai de fera e acabou.


- E ela foi de fera?
- Não - secava as lágrimas dos cantos dos olhos, lágrimas de gargalhadas. - Ela ficou rastejando atrás da Leah por uma semana, até conseguir. Foi bastante divertido.
- Você tem amigas interessantes, .
- Elas são as melhores do mundo - ele torceu para em breve conhece-las.
- Para onde está me levando? - perguntou, só então se dando conta que não sabia seu destino.
- Bem vindo ao meu restaurante preferido - no mesmo instante ela estacionou o carro com uma destreza invejável, o piloto colocou a foto sobre o banco do carro para então sair dele, o acompanhou, lhe entregou as chaves do carro, para lavar as mãos e arrumar o cabelo, observou o movimento pelo canto dos olhos.
- Olha, já estou sendo apresentado ao restaurante, isso é um avanço.
- É, às vezes eu sou muito legal, mas não fique se achando, corredor.

Os dois entraram no estabelecimento, era um lugar tranquilo e relativamente simples.

- Não ousaria me achar, você sabe como cortar as asas de alguém - sorriu com o comentário, era divertido, o astral era leve e passava descontração, o tipo de pessoa que atraia positividade. O garçom aproximou-se, com o cardápio em mãos, ambos sorriram em agradecimento.
- Poucos dias e já me conhece bem.
- Eu presto atenção em você, muita atenção.
- Prestar atenção em alguém, pode ser sinônimo de interesse em conquistar, mas ainda bem que você é esperto demais para isso - observou enquanto a mulher olhava o cardápio, ela varria os olhos pelo papel enquanto mantinha o lábio inferior preso. Ela sequer percebia como era magnífica sem fazer nada demais? Com roupas simples e surradas, cabelos presos em um coque frouxo e alpargatas nos pés. Modelos no mundo inteiro implorariam, pela beleza natural de .
- Por que te conquistar não é sinal de esperteza?
- Eu não estou disponível para ser conquistada, estou disponível para sexo. - levantou seus olhos para os azuis de , com um sorriso malicioso, quase podendo imaginar do que ele era capaz na cama, mãos fortes e habilidosas no mínimo tinha. - Sem envolvimento emocional, só trepar e acabou.
- Você está sugeri...
- - ouviram a voz masculina chamar e ambos olharam, o piloto abriu um enorme sorriso e logo estava sobre os pés.
- Oi Dani - deu um abraço no homem e beijou a bochecha da mulher que estava ao seu lado. - Oi Antonella, faz tempo que não te vejo, quase não vai ao Paddock.
- Pois é, nossas agendas não coincidem, mas já estamos trabalhando em uma estratégia, a mulher sorriu e observou na mesa, que observava a cena alheia ao acontecimento. - Boa tarde, eu sou Antonella.

por alguns segundos não se moveu, Antonella tinha um sorriso gentil nos lábios e tinha quase certeza que já tinha a visto, era uma mulher bela, tinha certeza que não esqueceria, só precisava se lembrar.

- - estendeu a mão, e mulher ao invés de segura-la, lhe beijou a bochecha, deixando desconcertada.
- Que falta de educação a minha - tomou a palavra. - , esse é Daniel Ricciardo, ele pilota pela Renault e essa é Antonella Cornelo, esposa dele - Antonella Cornelo, lógico, ela era cantora e Amelia vivia cantarolando uma de suas músicas por toda parte, a professora era fã dela. Daniel apertou a mão de e deu um sorriso divertido para .
- Vocês são... - apontava de um para o outro, coçou a nunca sem graça.
- Amor, deixe de ser inconveniente. Por Deus - Antonella não entendia como Daniel não tinha o mínimo de pudor em alguns momentos.
- Não é inconveniência - sorriu. - Nós somos conhecidos apenas, ele não tem sorte para ser mais que isso.
- E você, acaba de ganhar meu coração - Antonella sorriu passando o braço pelos ombros da mecânica, a morena aprovou o gesto, sem conseguir uma explicação lógica, tinha gostado dela.
- Para com isso Anto - fingiu uma falsa raiva. - Não deveria apoiar a , ela tem o ego enorme.
- Ela é inteligente - olhou a outra, e disse baixo, como se contasse um segredo. - Não se envolva com pilotos, eles amam mais os carros que a gente.

gargalhou com a fala da cantora, ao mesmo tempo que Daniel a olhou indignado, fingindo estar ofendido, com as mãos no peito e um ar teatral disse.

- Isso é um absurdo, se eu amasse mais o carro, jamais te deixaria dirigir ele.
- Está insinuando, Daniel Ricciardo, que eu não sei dirigir?
- Não amor, por Deus, você pilota muito bem, pode até roubar meu emprego.

riu da expressão divertida no rosto do piloto mais velho.

- Anto, deveria dizer isso para mim, ela está na frente - apontou a mecânica. - , já ama mais os carros que tudo.
- Ah, pelo menos ela não vai precisar ouvir falsos elogios sobre dirigir bem.

Não mesmo.

- Ela pilota muito, tipo muito mesmo, dá show em qualquer um de nós;

O tom de orgulho na voz de fez encara-lo, jamais ouviu um homem se referir a ela e suas paixões totalmente masculinas dessa forma, era tão inédito, que ela sequer soube como reagir.

- Pilotar melhor que você não é tão difícil moleque - Daniel bagunçou seus cabelos. - Vou sentar aqui com vocês, já que são “apenas conhecidos” e você me deve um almoço - antes que qualquer pessoa pudesse responder, Ricciardo já havia tomado o acento ao lado de . Antonella não se surpreendeu, depois de anos de relacionamento, conhecia bem as atitudes idiotas do piloto austríaco.
- Mas eu não te convidei, não quero sua presença - cruzou os bravos e fez bico, achou a atitude estupidamente fofa. - Antonella pode ficar, você não.
- Moleque, não enche o saco, volta logo a sentar que você não vai crescer mais.

deu uma gargalhada, o que chamou a atenção de . adorava pessoas que a fizessem rir, também pudera com as amigas que tinha, bom humor era algo que não poderia faltar nas pessoas ao seu redor.

- Agora que sei que o irá pagar, vou pedir o mais caro desse restaurante - Antonella também se sentou, estava obvio que o casal não se importava se de fato estavam atrapalhando algo. aceitou contrariado, ele e estavam chegando em uma conversa interessante, e queria logo acabar e chegar ao que de fato importava, em alguns dias já estaria embarcando para o GP da China e depois iria direto para o Azerbaijão, duas semanas sem ver , disse a si mesmo, que isso não era um problema, mesmo se não conseguissem engatar nada agora, teriam tempo.
- Vocês moram em Mônaco?
- Temos casa, Daniel fica muito aqui e eu quando não estou viajando fico aqui e em LA - Antonella explicou enquanto observava o cardápio.
- Mas sou Australiano, Mônaco é mais por causa da F1 - Daniel nesse momento moveu a cadeira, postando-a ao lado da esposa e logo seu braço estava sobre os ombros dela.
- Vocês, pilotos, gostam muito daqui, às vezes ando pela rua e vejo Hamilton, já vi Vettel. É quase um hall da fama.
- A pista de Monte Carlo é a melhor. - sorriu ao ver o garçom trazer um suco, ele se perguntou quando tinha feito o pedido, já que não viu.
- É incrível mesmo - Daniel concordou. observou como sorria ao lado de Ricciardo e ela gostou de perceber como ele se comportava perto dos amigos, era como uma criança recebendo doce, não se cansava de lembrar o quanto era bonito e como atraia leveza por onde passava. Em determinado momento, Antonella foi encher seu copo e esbarrou a mão no copo onde tomava Gatorade, virando a bebida sobre o corpo do monegasco, os olhos de se arregalaram ao ver o pano da camisa grudar sobre o corpo do piloto.
- Dios, , me desculpe - Antonella levou as mãos a boca, completamente envergonhada por ser uma desastrada.
- Está tudo bem, isso acontece - o moreno pegou um guardanapo e logo passava o mesmo pelo tronco, mordeu o interior da bochecha ao ver as entradas laterais abdominais de , ele secava o corpo de maneira lenta e provocante, cada girada de seu pulso para se secar, fazia com que ela imaginasse suas mãos sobre ela. Em sua intimidade, que já estava quente e molhada, sedenta por imaginar o que seria capaz de lhe proporcionar com seu toque. Ao perceber que os olhos de queimavam sobre ele, sorriu de um jeito malicioso e fincou seus olhos nela, com intensidade e luxúria, como se fosse capaz de ver os pensamentos que cruzaram a mente dela e lhe entregava mais material sacana, através dos movimentos que mudavam o ritmo e posição.

E foi com essa expressão que cruzou o rosto dele, luxuria e desejo, diferente do que já tinha visto, esse lado sim, queria conhecer.
E naquele momento, ela decidiu, passaria por sua cama.

Capítulo 3 - Batidas rápidas de um coração lento

estava em um sono muito gostoso.
Não conseguia dormir tranquilo há muito tempo, principalmente tendo sonhos tão bem frequentados como aquele, era o próprio Leonardo Di Caprio quem estava ali. Com as roupas e características de Jack, e claro, estavam no navio. Com toda certeza, como o sonho era seu, o barco não afundaria.
Agora ela mandava em tudo.
E ele estava prestes a beijá-la, seus lábios macios estavam entreabertos e o hálito de pasta de dente e bala de menta exalavam, mais um pouco ela estaria com sua boca na dele.
E o telefone tocou.
Aquele barulho infernal inundou os tímpanos de e ela quis matar o ser do outro lado da linha.

- Alô.
- Oi zinhaaaaaaaa. - Emmanuelle cantarolou. Tinha que ser ela, era mestre em chegar sempre nos momentos mais inoportunos, ainda a mataria.
- O que você quer? Eu estava dormindo.
- Quero sair – Choramingou - Por favor, vamos sair.
- Ah não. - sentou-se na cama, coçando os olhos. - Trabalhei a semana inteira, estou exausta.
- Vamos, por favor. Já foi duro ter que convencer a professorinha, não me faça queimar neurônios com você também. - A médica tentou argumentar.
- Eu não valho a pena, então?
- Não foi isso que eu quis dizer. - O tom de voz exagerado de Emmanuelle, fez sorrir. - OK, já vi que vou ter que jogar duro e te subornar. – Suspirou. - Eu te dou duas garrafas de tequila.

fechou os olhos com um sorriso sapeca nos lábios, odiava ser previsível.

- Estamos no caminho certo. - Chutou os lençóis, pondo os pés no chinelo. - Mas só duas garrafas são muito pouco. Acho que você pode ser melhor.
- Duas garrafas são pouco? – Suas palavras foram carregas de indignação. - Você deve ter algum problema, homenzinho. - estava pior que Amélie querendo 200 coxinhas, nunca viu uma mulher amar tanto uma comida que não era de seu país.
- Estou voltando para minha cama. É hora de dar tchau. - afinou a voz, imitando perfeitamente um Teletubbies.
- Está bem. - Emmanuelle deu-se por vencida. - 2 garrafas e eu pago a cerveja do final de semana inteiro, começando hoje.

bateu palminhas de felicidade.

- Fechado. - Disse se imaginando em uma banheira de tequila. Ela ainda faria aquilo, encher sua banheira apesar de não ter uma, se contentava em encher a de Mia. - Vou me arrumar e vou te buscar.
- Oba! Obrigada, homenzinho.
- As meninas vão? – Perguntou, logo se direcionando para o banheiro.
- Leah está terminando um projeto, Mia em Paris, mas a professora vai e disse que nos encontra lá.
- Está bem.
- Homenzinho. – Chamou e murmurou um “hm”, indicando que a médica devia prosseguir. – Se vista de mulher hoje, passe um batom e ponha um salto, ok?

rolou os olhos ao mesmo tempo que gargalhava, não se lembrava a ultima vez que pôs os pés em uma sandália de salto alto.

- Eu me visto como eu quiser. E só porque falou isso, vou de chinelo. – Emmanuelle gargalhou, não sabia porque insistia com .
- Insuportável. Podemos, pelo menos, ir de moto?
- Óbvio que não.
- Ah não, você sabe que não gosto de carro. - A voz da médica era chorosa.
- Não importa, eu não vou sair de moto. Emmanuelle, você tem bosta na cabeça? Quem prefere sair de moto?
- Eu.
- E depois todo mundo fala que a problemática sou eu. - desligou o telefone e foi tomar seu banho.

X

entrou no quarto do hotel em que estava hospedado, se jogou na cama da maneira que estava, seu êxtase corporal não lhe permitiu ir mais longe. Seus olhos estavam fechados e a cabeça pesada. A primeira sessão de treinos livres tinha acabado, o lado positivo era que Sebastian tinha dominado, ponto para a Ferrari.
Mas queria melhorar seu desempenho, no dia seguinte com certeza seria melhor.
Seu corpo estava quente, procurou o controle do ar condicionado, entretanto não achou, devia ter jogado em qualquer lugar, precisava ser mais organizado com as coisas. Por causa do calor, instintivamente tirou a camisa vermelha que usava, o macacão ainda repousava na parte de baixo do corpo e ele estava pensando seriamente na possibilidade de permanecer ali daquele mesmo jeito. Ainda bem que era um homem bastante higiênico, senão só veria o chuveiro no dia seguinte.
Sua mãe sentiria vergonha se fizesse isso.
Com esse pensamento e sem entender como colocou-se de em pé, caminhou ao banheiro, despindo-se de seu macacão. Ligou o chuveiro e entrou no box, deixando a água quente escorrer pelo seu corpo. Fechou os olhos para aproveitar a sensação.
Terminou o banho e amarrou a toalha em sua cintura, depois de retirar o excesso de água do cabelo com ajuda das mãos, encarou a mala. Não tinha ânimo sequer para pensar no que usar, decidiu que qualquer coisa serviria.
Jogou-se na poltrona e sacou o telefone da mochila, procurando o telefone de em seus contatos, queria saber como ela estava e também a oficina. Sentiu seu estômago revirar ao recordar-se de como o fazia sentir.
Desde o primeiro momento em que a vira, debaixo do carro na oficina, ele sentira uma pontada de desejo. Perguntou-se, enquanto tinha a imagem dela vívida em sua mente, como seria estar entre os braços dela, o sabor do beijo, como seria seu toque: ela o tocaria com firmeza e violência? Com gentileza, sabia que, com certeza não seria.
Estava distraído analisando seus pensamentos, quando um barulho chamou sua atenção. imediatamente sentou-se, era muito medroso. Da última vez que aconteceu algo assim, eram Norris e Daniel querendo o fazer ter um ataque cardíaco depois de o obrigarem a ver filmes de terror. O homem levantou e fechou os olhos, respirando fundo. Se dessa vez fossem os pilotos, cometeria um crime.
Em passos lentos ele caminhou para a origem do barulho, vinha da entrada. Começou a contar até dez demoradamente, mas da porta ele viu um vulto se formar, se preparou para xingar os amigos, então viu Ricciardo ascender a luz.

- Que susto, porra! – o australiano disse, os olhos arregalados revelavam a surpresa.
- Eu quem deveria dizer isso. – relaxou os ombros. – Como você entrou aqui? Como vocês conseguem fazer isso?
- Eu tinha uma vida antes de pilotar, moleque. – Daniel sorriu, digitou algo no celular e logo seus olhos estavam no mais novo. – Vamos para o quarto do Norris, vamos jogar.

balançou a cabeça negativamente, estava exausto. Passou horas no avião, teve um treino péssimo, problemas na pista e ainda queria saber notícias de .
Definitivamente não estava no clima para nada, queria somente sua cama.

- Não mesmo, vou passar essa.
- Qual o problema, garoto? – Ricciardo tocou o ombro do mais novo, os olhos analisando-o profundamente, como se fosse capaz de enxergar sua alma. – Está assim, por que está longe daquela moça bonita? Não fique assim, , logo estará com sua namorada. Não, espera.. – Bateu na própria testa – Vocês são apenas conhecidos.
- Vai à merda. - bateu no braço do outro, sabia de sua condição com a mecânica não precisava de ninguém o lembrando disso. – Não, não tem a ver com ela, estou cansado e nem um pouco afim de olhar para sua cara feia.
- Feio é você, eu sou lindo. - Cruzou os braços na frente do peito, em uma postura de macho alfa. - E sabe a melhor parte? Nunca fui apenas conhecido da Antonella.

bufou de indignação, de todas as pessoas que poderia encontrar naquele restaurante, detestou que fosse Daniel. Primeiro porque ele atrapalhou a conversa dos dois, era verdade que estava embasbacado com as palavras dela, claramente insinuando sexo.
Ele não esperava isso e quando finalmente iria tentar entender, tibum. Daniel Ricciardo brotou do chão, destruindo toda e qualquer possibilidade de finalizar aquela conversa. Segundo, conhecia bastante os pilotos, estava com eles praticamente toda semana, era questão de tempo até ficarem sabendo e seus ouvidos explodirem com os comentários ridículos e desproporcionais dos meninos.
O Monegasco se preparou para responder, porém um certo piloto holandês escolheu aquele momento para chegar ao local.

- Vamos logo, vamos. - Max Verstappen estava parado na porta, os cabelos ainda estavam molhados, tomava Red Bull em uma garrafa. - O que está acontecendo? Já estão todos lá.
- O garoto não quer ir. - se jogou na poltrona atrás de si, se preparando para o que viria a seguir.
- E por quê?
- Nosso garoto está apaixonado e está longe dela. Não quer fazer nada sem ela, mesmo ela não se importando com ele. - Explicou e no segundo seguinte a gargalhada de Max foi ouvida, fechou os olhos com força. Qual era sua maldição? Por ter pessoas daquele jeito lhe rodeando?
- E quem disse que você tem escolha? - O holandês deu dois passos para dentro do quarto, o braço esquerdo passou sobre o ombro do moreno, com o mínimo de força Verstappen impulsionou o piloto ferrarista para cima. - Nós só vamos. - Saiu puxando o outro consigo, preso entre seus braços. - Feche a porta, Daniel. – Ordenou e balançou a cabeça negativamente, bufando e dando-se por vencido, permitindo que o outro o carregasse.
- Vocês são insuportáveis.
- Fica de boa, moleque. - Daniel pousou suas duas mãos na cabeça de , chacoalhando-a. - Distrair a cabeça é bom, pare de pensar na mecânica.
- Então você está apaixonado amigo? – Assobiou Max. - Quer algumas dicas de conquista? Posso te ajudar, eu sei de ótimos truques para conquistar as mulheres. - Gabou-se, com o peito inflado de ego.
- Duvido que sejam ótimos, já que você permanece solteiro, ou seja, são dicas de bosta. - Ricciardo respondeu e foi inevitável para não gargalhar.
- É uma opção minha, babaca. – Retorquiu. - Gosto de estar solteiro e o foco aqui é o . - Apertou as bochechas, levando um empurrão do moreno em seguida, se desvencilhando do braço de Max.
- O foco não sou eu, não quero falar disso.
- Dicas não serão suficientes para o moleque, tem que ser muito mais que isso. - Daniel parou de andar, chacoalhando a cabeça, se preparando para encenar algo. - Ela não está ligando para ele. Ela disse: somos apenas conhecidos, ele não merece ser mais que isso. – Daniel repetiu a fala da mulher, afinando a voz e tentando imita-la. – E aí, o moleque ficou assim. - Daniel arranhou a garganta mais uma vez, colocou a mão sobre o peito de maneira teatral – Ó ela não me quer. Ó como ela é linda. Ó como estou triste. Ó ela ama os carros velozes.

Max explodiu em gargalhadas por conta da encenação do australiano. cerrou os lábios em uma tentativa inútil de permanecer sério e mostrar para os amigos que aquilo não lhe afetava.
Entretanto, foi impossível prosseguir sério, tendo em vista as expressões faciais no rosto de Ricciardo, então acompanhou as gargalhadas do moreno. Como o corredor estava vazio, o barulho fazia eco, sendo perfeitamente capaz de incomodar os hóspedes do andar. Em consequência disso, uma porta foi aberta alguns metros de onde os três riam.

- O que significa isso, seus trogloditas? - O tom de voz suave e cômico de George Russel adentrou o corredor, chamando a atenção dos três pilotos. - Parem com esse show de horrores e venham logo. – Chamou- os com as mãos, voltando para dentro do quarto, os outros acabaram por seguir o inglês.
- Até que enfim! - Lando comentou entupindo a boca de batatas fritas recém-pedidas pelo grupo de pilotos. - Achei que o estava morto e que foram ressuscitar ele, pelo tanto que demoraram.
- Foi quase isso, ele está morto de amores. Precisei trazê-lo á força, para que parasse de chorar pela moça que ama os carros velozes.
- O quê? Como assim? – Carlos Sainz pausou o jogo, onde disputava com Gasly, para encarar os recém-chegados.

bateu a cabeça na parede atrás de si, totalmente derrotado.

- Vou contar para vocês a história de amor do moleque ali. – Daniel bateu palmas animado, capturando a atenção de todos no quarto, iniciando o relato sobre o encontro que teve com e .
- Enquanto vocês se divertem com essas baboseiras, vou jogar. – se aproximou de Sainz, tomando o controle de suas mãos, sentando-se no chão para olhar a tela em sua frente. – E vou ganhar de todos vocês.

Max Verstappen assumiu o controle que antes era de Pierry e estava com os olhos tão fixos nas palavras de Daniel que sequer notou. Colocou-se ao lado de , para disputar com o Monegasco a partida que se iniciava.

- Você não ganha sequer o coração da moça que ama carros velozes, que dirá de mim no videogame.

X

As três amigas estavam no bar da boate Jimmy’z Monte-Carlo , esperando o barman gato preparar seus drinks.

- Vamos dançar, amiga. - Emmanuelle pediu chorosa, Amélie concordou imediatamente e olhou para o balcão vendo suas bebidas já ali preparadas, a médica pegou seu copo e foi em direção à pista de dança, seguida da negra.

não gostava muito de dançar, mas aquela noite era especial estava comemorando suas tequilas e seu mergulho na banheira. Além de ter conseguido finalizar vários carros na oficina, claro que não sozinha, ajudou-a bastante na semana que esteve na oficina. Na terça feira, o piloto precisou voltar a sua rotina, embarcando em um avião para o próximo grande prêmio na China. Nos dois dias que seguiram, ele fez falta, já estava começando a se acostumar com a ajuda dele e com sua gentileza. Já que por incontáveis vezes, ele lhe trazia café e bolachas, explicando que ela não deveria ficar muito tempo sem comer e mesmo que ela recusasse, ele deixava por perto o lanche, para saber que estava ali e era só esticar o braço.
A mecânica então concordou, seguindo as amigas. A pista de dança era agitada por J Balvin, Willy William - Mi Gente. amava aquela música, ela fechou os olhos deixando seus quadris se movimentarem de acordo com a música e seu sorriso era incrível, Emmanuelle teve certeza que tinha tempo que não a via sorrir daquele jeito.

- Vem, . - Amélie chamou alto e outra sorriu tentando se aproximar da amiga, ao dar dois passos pelo meio da multidão, sentiu um esbarrão em seu corpo e ao mesmo tempo o líquido que antes preenchia seu copo estava em seu vestido. – Ei, não olha para onde anda não? – Perguntou passando a mão inutilmente, em seu vestido tentando limpá-lo.
- Desculpe, foi sem querer. - Aquela voz disse e teve a certeza que a conhecia, porém não se deu nem ao trabalho de levantar a cabeça para olhar quem era. – Me deixe te pagar uma cerveja?
- Como se uma bebida fosse limpar meu vestido ou como se eu precisasse que paguem a minha bebida. Pegue essa bebida e enfie no... David! - Exclamou ao levantar o rosto e dar de cara com o loiro, o menino também sorriu.
- . - Disse com um tom de surpresa. - Eu sei que não vai limpar seu vestido, mas pode me mandar à conta da lavanderia, eu pago. – Sorriu.
- Eu tenho sabão e água em casa, consigo lavar um vestido, garoto. - Ela ainda olhava seu vestido e então desviou os olhos para o jovem. - Espera, o que você está fazendo aqui? Você é menor de idade. - Seu tom de voz era acusatório. David era aluno de Amélie e sobrinho de Leah.

o conhecia por muitos anos, o garoto era fã de seu pai e por diversas vezes estava alocado dentro da oficina.

- Não há nada que dinheiro não faça, querida . - A voz era totalmente irônica e fez a mulher querer lhe socar a cara, mas antes mesmo que ela pudesse responder algo, Amélia se aproximou dos dois.
- Professora Amélie. - Ele abraçou-a, ela desvencilhou o corpo.
- Não me toque. - Pediu séria, o que fez David gargalhar.
- E por que não? Você vive dizendo que sou somente um garoto e que preciso amadurecer antes de qualquer coisa.

Um sorriso sapeca cruzou os lábios de .

- Vocês? - Ela gesticulava freneticamente para os dois presentes. - Meu Deus.

Amélie esbugalhou os olhos ao entender que Beatice deduziu que ela e David estavam fazendo algo impróprio para menores. Que no caso, ele era.

- Ah, pelo amor de Deus, ! - Disse esbaforida. - Pare de assistir filmes pornográficos, onde alunos pegam as professoras. Você está começando a imaginar coisas.
- Eu não vejo filmes pornográficos com professoras e alunos. - se defendeu e David tomou um gole de sua bebida.
- Eu vejo, querida professora.

gargalhou e Amélie fuzilou o aluno com os olhos. Era só que faltava na cota da semana, ser cantada por seu aluno e sobrinho de sua amiga. Definitivamente, Amélie às vezes achava que estava na profissão errada, os hormônios adolescentes de seus alunos a assustavam.
A professora tomou mais um gole do drink e saiu de perto do garoto, mas sentiu os olhos dele cravados em sua silhueta.

- Que merda foi isso?
- O preço por ser professora, seus alunos idiotas que acham que são adultos e te cantam. - Elas se aproximaram de Emmanuelle que beijava um homem na pista, as duas então se acomodaram nas cadeiras ao redor do local.
- Ossos do ofício da profissão. – procurava um garçom com os olhos para abastecer a bebida que fora derramada pelo aluno de sua amiga, ao vê-lo acenou com a mão, chamando-o. – Lido com isso na oficina, é uma merda.
- Falando em oficina, e o piloto gostoso? – Estava demorando para alguém falar de , agora o passatempo preferido das amigas era entupir o grupo delas com fotos de . A semana inteira era aquilo e no dia seguinte seria o almoço, sabia que encheriam mais ainda o saco.
- Boa noite, o que deseja? – O barman se aproximou com um sorriso simpático nos lábios, sorriu em cumprimento.
- Uma Stella, por favor. – O homem assentiu, retirando-se. Os olhos de Amélia estavam vidrados nela, esperando uma resposta. rolou os olhos. - Está tudo bem.
- Só isso?
- O que mais quer que eu diga?
- Já se pegaram?
- Não. – recebia do garçom a cerveja que pediu, tomou um longo gole do líquido, ingerindo quase a metade. – Pode trazer mais uma. – Dirigiu- se novamente para o barman - Esta já quase acabou.

O homem assentiu, seguindo o caminho para abastecer a cerveja que a mulher pediu.

- E vão?
- Que merda, hein? É professora ou delegada? – Questionou irritada, tomando um gole da cerveja.

Ainda não teve a oportunidade de se envolver fisicamente com , mas estava em seus planos e estava curiosa sobre ele e totalmente decidida que as sessões de sexo entre eles seriam muitas, principalmente depois das cenas que ele ajudou a criar em sua cabeça. Estava desejando o corpo daquele garoto e logo sabia que teria, assim que o moreno estivesse de volta à cidade, sua hospedagem seria dentro dela.

- Quanta grosseria, só quero saber sobre sua vida.
- Podemos falar sobre outra coisa que não seja homens. Minha vida não se resume a isso. Pergunte-me sobre meu dia, sobre meu trabalho, sobre o que eu comi ou se tenho cerveja em casa, mas não sobre esse assunto.

Amélie também bebericou o copo em sua mão e disse:

- Minha vida sentimental está uma merda, tinha esperança que a sua estivesse melhor.
- Não tenho vida sentimental, Amélie. Tenho vida sexual, sabe disso. E está ótima por sinal. Eu não quero falar do e nem de homem nenhum.

Qual a necessidade de sempre os homens estarem incluídos nos assuntos das mulheres?
Era uma pergunta que ela se fazia constantemente, sobre a necessidade que mulheres têm no geral de falar sobre homens. Como tudo era sobre eles, se aprovariam seu sapato, seu cabelo ou a roupa que fora escolhida pela noite.
E caso não fossem aprovadas, gerava um descontentamento, quase uma crise existencial. Destruindo estimas, autoconfiança e consequentemente a própria mulher em questão. havia passado por isso, priorizou tanto os homens em determinada época da vida, que a sua não importava mais, mas agora, e graças aos deuses da velocidade, era livre desse carma.
Não fazia a menor diferença em sua vida, ainda mais depois que descobriu que nenhuma língua ou dedo no planeta terra atingia a velocidade de seu vibrador Zalo Queen aquecimento G-Spot.
Depois que descobriu sua própria força e domínio, a mulher jamais abaixou sua cabeça e se deixou abater por qualquer palavra direcionada a ela.
torcia pelo dia em que a população feminina do mundo abrisse os olhos.

- Tudo bem. – Amélie deu de ombros. – Eu te admiro muito, homenzinho. Sua força, sei como você é uma muralha, segura a barra. Se eu precisar de alguém para me defender, pode ter certeza, chamarei você. – A professora bebeu mais um gole da margarita em suas mãos, era visível a emoção em sua voz, o que fez com que a olhasse com ternura. – Eu sei que não gosta de conversar sobre o assunto, sei o quanto seu pai significava em sua vida, ainda mais depois de ... bom você sabe. – Respirou fundo, um sorriso saudoso dançava sobre os lábios da negra. - Enfim, só quero dizer que tenho orgulho de você e sei que, onde quer que o Tio Dominique esteja, ele também está transbordando de orgulho.

sorriu e bebeu mais cerveja, querendo engolir com líquido a emoção que fluiu em seu peito. Precisou puxar o ar com mais força e então, solta-lo devagar, a fim de controlar sua respiração. Alguns segundos depois, quando teve a certeza que seu aparelho psíquico estava em total harmonia e que tinha entendido o comando de não chorar, olhou Amélie e lhe abraçou com força, depositando seu lábio sobre a pele esbelta da professora, em um gesto enorme de carinho.

- Eu te amo. – Estendeu a garrafa verde, brindando com a amiga.
- Eu também te amo. E ainda torço e espero que conheça alguém capaz de te mostrar o lado bom da vida. Um amor te faria bem.

tossiu engasgando com o líquido e arqueou a sobrancelhas mais uma vez, tentando entender o que Amelie estava falando. Era sempre o mesmo discurso, os homens não são todos iguais, devia se permitir viver, ainda vai encontrar alguém que te faça feliz. E ninguém entendia que ela não queria.
Não queria ninguém. Não queria que alguém a fizesse feliz, era capaz de fazer aquilo por si mesma, sem precisar de ajuda. A pessoa que a faria feliz, ou melhor, que completaria sua felicidade era seu pai. E infelizmente, nada poderia ser feito a respeito da morte, ou seja, não precisava de alguém para colocar em merda de lugar nenhum.

- E eu, espero pelo dia em que todo mundo pare de falar isso para mim. – Amélie deu de ombros, haja paciência para lidar com aquela mulher. Deus do céu. - Agora, vamos parar de falar desse assunto, o que acha de uma disputa? Quem bebe mais shots de tequila em 1 minuto?

Os olhos da mecânica estavam brilhando, somente a menção daquela bebida fazia o humor dela se exaltar em milésimos de segundos.
A professora balançou a cabeça negativamente, totalmente desaprovando a ideia.

- Eu não, você sempre ganha.
- Hey, vocês. – Os ombros de ambas foram abraçados pelos braços longos de Emmanuelle. – Vieram aqui para ficar sentadas, bebendo? Vamos dançar. – Mexeu o corpo ao ritmo da música que tocava, estava visivelmente embriagada.
- Eu vim para beber. – respondeu, sem a mínima menção de levantar do local.
- Você parece a minha vovozinha. – Emmanuelle resmungou.
- Vamos dançar então, doutorinha. – Amélie concordou, terminou o conteúdo de seu copo e deixou suas coisas com , já que a mesma não tinha intenção de sair dali. observou as amigas na pista, estava feliz que a diversão delas era plena e que chegariam em casa seguras e transbordando.

Fez um sinal para o barman, pedindo alguns shots de José Cuervo.
Segundos depois, a bebida estava a sua frente. Tomou duas doses de uma vez, já tinha ficado bêbada á algumas doses atrás e agora estava apenas aproveitando a sensação agradável de ter seus pensamentos completamente cobertos pela batida da música.
Nesse instante, sentiu duas mãos firmes sobre sua cintura e alguém a virou, depois sentiu seu corpo sendo pressionado contra um outro corpo esguio e firme. Um cheiro masculino marcante, abriu os olhos para encarar brilhantes olhos azuis.

- Hoje é o seu dia de sorte. – Ele disse, inclinando-se na direção dela. – Foi eleita para ser a mulher que eu vou beijar.

Ela o segurou pelos ombros, impedindo que o mesmo completasse a ação de beijá-la e rapidamente tirou as mãos dele de sua cintura.

- Não estou afim de te beijar. – Disse séria e firme, nenhum esboço de emoção estampava sua face, o homem arqueou a sobrancelha sem entender.
- Devia aproveitar, gata. Não são todas que tem a chance de beijar tudo isso. – Apontou para si mesmo e posicionou novamente as mãos na cintura da mulher, acreditando que ela cederia. , entretanto manteve a mesma postura firme, não desviando os olhos do homem.
- Acho melhor tirar suas mãos de mim. – O tom de voz dela era calmo e ameaçador. – Não vai gostar do que vai acontecer se permanecer me tocando. – Ele, no entanto, não fez o que foi pedido, pelo contrário, apertou mais os dedos sobre o local.
- Eu adoro as que se fazem de difi....

No instante seguinte, desferiu uma joelhada bem no meio das pernas. Bem da maneira que seu pai lhe ensinara, era só mirar e bater. Era um nocaute quase perfeito.
Imediatamente estava livre das mãos do homem, que agora usava as próprias para segurar as partes baixas. A pele clara agora estava avermelhada, os olhos saltados, como se fossem capazes de pular para fora do rosto, ele rosnava algo inaudível, o que fez com que sorrisse. Algumas pessoas se aproximaram para ver o que estava acontecendo.

- Vadia, não deveria ter feito isso. – O sujeito tinha o apoio de mais um rapaz, que lhe dava suporte para conseguir ficar em pé, a dor que sentia estava explanada na feição, olhos cerrados, lábios presos entre os dentes e punhos fechados. – Você é louca?

o encarou, a escuridão das pupilas se misturava com a fumaça da casa noturna, sendo quase impossível diferenciar, ela então se aproximou dele, olhando em seus olhos.

- Quando uma mulher falar não, significa não. – Virou-se novamente, encarando as bebidas ainda no balcão e então mais doses de tequila foram ingeridas aquela noite.

X

segurava seu celular nas mãos, observando-o atentamente. Fazia quase uns vinte minutos que estava em um grande dilema psicológico, metade dele queria ligar para já que a mesma tinha visualizado sua mensagem e não respondido, queria saber o motivo de ser ignorado, a outra metade, provavelmente a racional, impedia-o de fazê-lo.
Mas estava enfraquecendo, assim como tudo que era em relação a ela não tinha um mísero controle sobre nada.
Ele ignorou totalmente sua razão e abriu a agenda de contatos, rolou o dedo pelo écran até achar o nome que procurava, antes que pudesse apertar o verde, uma notificação chegou anunciando que o que desejava chegou: a resposta de .
Sua mensagem havia sido simples, somente perguntou como ela estava. respirou fundo, soltando o ar pela boca e passando as mãos pelos cabelos, não contentou a expressão surpresa, que lhe cruzou a face com a resposta.

: Estou bêbada, com tesão e você está na China. O que é uma pena para você, é claro.

- Porra.- Grunhiu, irritado.

Jogou a cabeça para trás, fechando os olhos com força e respirando fundo, tentando reencontrar seu autocontrole e também seu juízo.
Todos os atributos que naquele momento não estavam ao alcance de seus dedos, estava completamente enterrado em sensações, que não sabia decifrar.

– Merda, , caralho. – Continuou xingando, buscando em sua mente palavras para responder.

: Onde você esta? Você está bem?”

Que merda de mensagem é essa, ?
A mulher fala que está com tesão e você pergunta se ela está bem?
Você é mesmo um tremendo imbecil!

: Estou em uma boate, mas queria mesmo era estar sentada em você.”

sentou na cama imediatamente.
Embasbacado com as palavras expostas nas mensagens de . Antes que pudesse continuar seu raciocínio, seu celular apitou novamente indicando a chegada de uma nova mensagem. Mordeu o lábio inferior com força assim que viu o conteúdo da mesma, queria mesmo enlouquece-lo.
Era uma foto. Somente dos lábios.
Ela estava com lábios molhados provavelmente por conta das bebidas ingeridas, preso entre seus dentes estava um canudinho de cor neon, totalmente manchado com o que imaginou ser o batom dela. A Língua estava exposta, junto com um meio sorriso.
Sexy para porra.

: Poderia ser você, pena que é só um canudinho”.

E a imagem de daquela forma, ajoelhada diante si foi o suficiente para que seu corpo reagisse.
Tinha certeza de que seria uma foda fantástica e que eles passariam a noite provando um ao outro, repetidas vezes, de diversas formas e em muitas posições.

: Esta me provocando , o que não é justo, já que estou longe.”

A resposta chegou como um flash e pareceu a ele, que a mulher esperava por sua resposta.

: Você tem mãos príncipe de Mônaco, se vire com elas. Enquanto eu me viro por aqui. Boa noite”.

Ela anexou mais uma foto, dessa vez mostrava seu corpo, as pernas estavam cruzadas, com as mãos no meio de ambas, como se mostrasse a ele, que se tocaria.
Ou que alguém a tocaria.
amaldiçoou todas as gerações daquela mulher, ela era desequilibrada. Seu inconsciente lhe alertava que não era bom permanecer perto dela. viraria sua vida de cabeça para baixo.

: , você está bêbada. Tenha cuidado. Você está sozinha? As meninas estão ai?”

O piloto permaneceu fitando o celular por mais incontáveis minutos, a mensagem tinha sido visualizada, pois a notificação de entrega estava azul. O fato era que: estava sendo ignorado.
Odiava a maneira como ela lidava com os fatos, em um minuto está o provocando com obscenidades, noutro, simplesmente sumia. Sem pensar na mínima consequência que seus atos totalmente contraditórios causavam.
Não soube dizer quanto tempo passou, somente teve a certeza que de fato, ela não o responderia mais.
era mestre em surpreendê-lo de todas as formas possíveis.
Aquela mulher seria a causa da sua insanidade.

Maldita mulher!

X

Já passava das três da manhã.
estava sentada em uma das cadeiras do bar, Amélie não estava mais por perto e Emmanuelle estava na pista de dança como uma louca. Nas horas que permaneceram na casa noturna, não se afastou da pista nem por um segundo, o que para era uma total bizarrice. A médica estava com um salto enorme, os cabelos já enrolados no topo da cabeça e a face brilhava por causa do suor. Era só a capa, em comparação com a chegada à boate.
A mecânica, entretanto, já não se aguentava em pé. Estava louca por um banho, para arrancar as sandálias dos pés e despencar em sua cama. Ela segurava uma garrafa de água em mãos, correndo os olhos pelo local a procura de Amélie já que precisavam se reencontrar para irem embora.
No momento que seus olhos bateram na negra, viu que ela estava muito bem acompanhada de um belo rapaz loiro, o que fez gargalhar, era raro ver a amiga acompanhada. Ela não se lembrava da última vez que Amélie esteve com alguém, por conta disso decidiu deixá-la se divertir mais um pouco.

- Este lugar está ocupado? – escutou o questionamento, ergueu os olhos escuros em surpresa e então encontrou uma moça com seus cabelos loiros presos em um competente rabo-de-cavalo alto, tinha pouca maquiagem no rosto e ainda assim, parecia recém-saída de uma revista de moda.
- Não, fique a vontade. – Respondeu e a moça estava afastando a cadeira e ocupando-a.
- Obrigada, sou Chloé. - Se apresentou casualmente, apoiando o rosto em uma das mãos, observando o cardápio de drinks.
- . - A mulher deu um sorriso.
- , posso te fazer uma pergunta?

A mecânica assentiu com a cabeça e voltando sua total atenção à loira, que naquele instante tinha algumas lágrimas nos cantos dos olhos.

- O que você faria se seu namorado, te proibisse de certas coisas? – arqueou a sobrancelha com a pergunta, totalmente surpresa pelo inicio daquela conversa e o teor pesado em seu conteúdo.
- Mandaria ele para a merda. – Foi rápida e direta em sua resposta. Algo estava errado com aquela moça. O rosto pensativo da loira desmanchou-se em um sorriso fraco, após alguns instantes de silêncio, arranhou a garganta e tornou a se pronunciar.
- Kevin, meu namorado, pediu que eu parasse de usar vestidos curtos e com decotes. Disse que são roupas de “mulher fácil” – Usou os dedos para fazer aspas, enfeitando a colocação. O tom de sua voz entregava a tristeza que a corroía. observou-a com o cenho franzido e soltou uma risadinha pelo nariz, enquanto bebericava mais um pouco de sua água.
- Você quer fazer isso?
- Não, gosto muito das minhas roupas. Sinto-me bonita e confortável com elas.

respirou fundo sentindo todo o corpo se aquecer, efeito de seu sangue estar borbulhando em ódio. Tentando não parecer grossa, deu um meio sorriso e olhou Chloé nos olhos.

- Quantos anos você tem?
- 19.
- Querida, deixe-me explicar uma coisa antes que você fique mais velha e consequentemente mais burra. – Disse calmamente – Suas vontades vêm em primeiro lugar. Se esse tal de Kevin quiser namorar você, não serão suas roupas que o atrapalharão. Acha que ele te ama, Chloé?

A garota hesitou por alguns instantes e pensou por tantos outros.

- Sim.
- Chloé, se ele te ama, você sabe. Se ele não te ama, você vai estar confusa.
- Eu gosto de fazer o que ele me pede. Não tem problema agradar as pessoas.
- Nunca faça nada pelos homens. Eles simplesmente não merecem. Hoje é um vestido de uma balada, amanhã você está no meio de um monte de marmanjos suados e fedidos, em um jogo de futebol da França. – Percebeu que o sorriso se apagou e um brilho confuso apareceu em seu olhar. – Sabe qual o problema disso, Cholé?
- Não.
- Problema nenhum. Desde que seja onde você deseje estar. Se quiser ir a um estádio de futebol, ou assistir a fórmula Um, não tem qualquer problema, se você quiser. – Afirmou séria, mas não deixando de ser cuidadosa, analisando como a mulher reagia àquela informação, a outra arregalou os olhos e suas bochechas ficaram levemente avermelhadas.
- Detesto quando ele chama para ir ao futebol. – Disse com os ombros encolhidos, como se fosse uma vergonha sentir-se daquela forma. – Principalmente pelo fato que faço tudo que ele me pede e ele não faz nada por mim.
- Como você se sente com isso?
- Eu não... Sei lá. - hesitou, tentando colocar o que sentia em palavras.

sentiu seu estômago afundar e rolou os olhos indignada. Homens sendo sempre homens.

- Eu sei. Sei exatamente como se sente. - A loira observou a outra por alguns instantes, perplexa.
- O que você quer dizer com isso?
- Funciona assim. - Colocou sua garrafa de água no balcão e apreciou a sensação de colocar as mãos quentes sobre o metal frio. – Quando você vai dormir fica triste pelo fato de abrir mão das coisas que gosta, das coisas que te fazem feliz, mesmo que seja um simples vestido, ou algo grandioso como um bem material. E se sente como um nada, pois seus desejos e vontades não são levados em consideração. Parece que falta um pedaço aqui dentro. – Bateu a mão sobre o peito, exemplificando as palavras.

Cholé abaixou os olhos constrangida, tocou o ombro dela.

- E você não se importa no começo, pois deseja fazer quem ama feliz. - Chloé engoliu em seco pensativa, nunca tinha considerado aquilo daquele jeito. - Depois, quando você assusta, já não tem mais brilho nos olhos, não se reconhece no espelho, porque a vida que vive, não é a sua. É a dele. – finalizou , com o cenho franzido.

Chloé observou maravilhada a mulher à sua frente; como os olhos escuros de eram sinceros e pareciam realmente ser uma janela para sua alma. Era tão bonita, que se perguntou se ela sabia o que era ter um coração partido ou no mínimo uma desilusão amorosa.
Aquela mulher provavelmente deveria ter milhares de homens fazendo fila em frente ao seu prédio, implorando por uma chance.
Mas uma coisa era real, ela tinha razão. Era exatamente assim que a mocinha se sentia.

- Como sabe disso? Está apaixonada ou já foi apaixonada?
- Quê? – piscou os olhos, pega de surpresa pela pergunta.
- O que quero dizer é. Você é apaixonada por um cara assim, que não te deixa fazer o que quer? – Explicou jogou a cabeça para trás e gargalhou.
- Ah. Não. Não me interesso por essas coisas - Disse com verdadeiro desdém. Chloé arregalou os olhos.
- Ah. Mulheres? Eu não julgo, então...
- Não. Não me interesso por mulheres também. Eu simplesmente... Não me interesso – disse, dando de ombros.
- Uau, isso é o máximo! – Aplaudiu rindo – Então, você nunca teve seu coração partido.

bebeu mais de sua água depositada no balcão e deu de ombros novamente; na verdade anos atrás, um homem despedaçou seu coração em tantos pedacinhos quanto era possível fazê-lo.

- Como você consegue isso? – perguntou Chloé, admirada.
- Eu tenho uma teoria, é muito simples. Sabe como dizem que os homens não têm sangue suficiente, então ou ele está concentrado no pênis ou no cérebro? – A loira riu e concordou com um aceno de cabeça – Pois bem, com as mulheres a situação é bem similar. Nossa espécie não tem sangue o suficiente para o cérebro e para o coração. A partir do momento que um assume o outro para de funcionar. Eu simplesmente escolho o que nunca vai me deixar na mão. O cérebro. - Completou na mesma hora que braços rodearam seus ombros, levantou os olhos e viu Emmanuelle jogando todo seu peso sobre o corpo pequeno da mecânica.
- Por favor, vamos para casa . Estou exausta.

sorriu e rodeou a cintura da amiga, ajudando-a a firmar os pés para caminharem. Lançou mais um olhar a moça sentada ao seu lado, sua mão direita tocou o ombro da mais nova.

- Pense sempre em você. O que os outros pensam é problema deles, não se perca para achar outras pessoas. A única pessoa que sempre vai importar é você, quando todo mundo vai embora, é você quem fica para limpar a bagunça.
Chloé concordou com um aceno de cabeça, os olhos claros arregalados.
- Obrigada, foi um prazer te conhecer.

assentiu, começando caminhar com Emmanuelle grudada em si, ainda precisavam achar Amélie e finalmente darem fim aquela noite.

X

segurava em uma mão uma sacola com um ursinho de pelúcia gigante e na outra um engradado de cerveja. Equilibrou a sacola na mesma mão da cerveja para olhar o celular que apitava uma notificação. Retirou do bolso de seu short e observou a tela do smarthphone, uma mensagem de .

: Você esta bem? Sumiu do nada, estou preocupado. Me dê noticias. E pare de me ignorar, mulher”.

Ela rolou os olhos e guardou o aparelho, não estava com animo para responder mensagens e não deveria ficar preocupado com ela, sabia se cuidar. Ele deveria era estar preocupado com o péssimo resultado no treino livre do dia anterior, que assistiu indignada pela catástrofe que foi. Depois, se ela lembrasse, o responderia.
Naquela sábado o almoço seria na casa de Leah e não era segredo algum como amava estar naquela casa, o sorriso da pequena Sarah preenchia a vida dela.
A menina era luz na vida de todas elas.
Mia abriu a porta com um sorriso e a cumprimentou com um abraço bem apertado.

- Que bom te ver, meu amor! – ela exclamou, enquanto a ajudava com as coisas em sua mão – Estávamos com saudades!
- Tiiiiiia – Uma pequena Sarah surgiu das escadas, os cabelos loiros e uma risada sapeca nos lábios. A garotinha veio correndo em sua direção.
- Olá, meu amor! Como você está? – Perguntou sorrindo, enquanto esfregava seu nariz carinhosamente na bochecha da garotinha, que ria.
- Estou bem! O que você trouxe para mim? – perguntou tentando espiar o conteúdo da sacola, já estava acostumada a receber mimos da tia.
- A só te dará o presente depois que você comer suas verduras – Leah disse, surgindo da cozinha com uma tigela repleta de verduras.
Sarah arregalou os olhos verdes e voltou sua atenção para a tia.
- Isso é verdade? – Perguntou com um olhar que dizia: Como você pode me trair desse jeito? Achei que fôssemos amigas!

observou a expressão da amiga postada atrás da filha. Não era agradável e dizia a que ela deveria concordar. Se quisesse viver.

- Comer verduras é importante, tampinha – Disse colocando-a no chão e escondendo a sacola em qualquer lugar, longe da menina. – Agora, por que você não me conta sobre o seu dia?

Sarah a observava, com uma expressão de irritação.

- Te conto sobre o meu dia depois que você comer todas as suas verduras – Respondeu, com simplicidade, dando as costas para a tia.
- Essa menina é abusada, Deus do céu. – Murmurou para Mia, que surgia da cozinha com cerveja em mãos, logo entregando uma a mecânica. As duas observaram Amélie e Leah colocando a mesa, enquanto a ultima, ria das reclamações indignadas da filha de quatro anos, que parecia inconformada com os termos para o recebimento de seu presente.
- Era mais fácil quando ela tinha três anos. – Mia concordou e ambas seguiram para a sala de jantar para finalmente comerem.

Antes de chegar ao local, parou na sala e ligou a TV. Colocou no canal esportivo, onde iria ser transmitido o treino de classificação da Fórmula Um, no grande prêmio da China. Ela sempre assistia nos finais de semana com o pai. Um hábito que jamais esqueceu.

- Vai assistir o quê essa hora? – Foi Leah quem questionou, curvando um pouco o corpo para visualizar o conteúdo da televisão.
- Treino classificatório.
- Do ?
- Não. Da Fórmula Um.
- Ok – Levantou as mãos até o alto da cabeça, em sinal claro de rendição. – Cadê a Emmanuelle? Só falta ela.
- Estou aqui. – A médica surgiu da porta de entrada, usando óculos escuros e segurando uma garrafa de cerveja – Tive que buscar meu remédio. Nada melhor para curar uma ressaca do que beber de novo.
Sarah observou tudo com curiosidade.
- Tia Emmanuelle, o que é ressaca? – ela perguntou, inclinando a cabecinha.

Emmanuelle arregalou os olhos azuis e voltou-os para Leah buscando uma resposta, mas a mulher apenas observava com as sobrancelhas erguidas.

- Excelente questão, Sarah – Leah disse casualmente. – A bomba é sua, doutora – colocou a mão sobre o ombro da amiga e rumou em direção à mesa.
- O que acha de falarmos sobre isso depois? – Ela baixou-se para ficar na altura pequena.
- Vai me dar presente? – Perguntou com um sorriso sapeca nos lábios.
- Sim senhora.

Emmanuelle não se sentou, permaneceu de pé encostada ao balcão, observando as amigas distribuídas na mesa, não estava com fome. Talvez mais tarde comeria algo.

- Antes de a gente almoçar, eu quero falar algo. – Leah tomou a palavra e todas as atenções estavam voltadas para ela. – Então, , nos últimos tempos venho te observando. Desde a morte do tio Dom. – A mecânica abaixou os olhos para a cerveja, evitando olhar nos olhos da engenheira.
- Todas nós na verdade. – Amélie completou e assentiu.
- Sua força não é segredo. Todas conhecemos sua determinação, sua coragem. Sabemos que ama adrenalina e que vive sua vida no limite. Um dia de cada vez. Sem pressa, sem ultrapassar nada, tudo com muita calma. – Leah umedeceu o lábio com a língua lentamente, enquanto tentava organizar seus próprios pensamentos. – Nós te chamamos de homenzinho a vida inteira. Nós sempre soubemos que se trata de um apelido carinhoso e sei que você também sempre viu assim.

sorriu e assentiu, os olhos totalmente vidrados na expressão amável na face da amiga.

- Mas você não é um homenzinho.
- Claro que não. Eu tenho uma vagina, pelo menos tinha da última vez que fui ao banheiro. – Zombou fazendo as amigas rirem e Leah a olhar feio. prendeu o riso, deixando a outra continuar o discurso.

Ela estava confusa tentando entender aonde exatamente Leah queria chegar com aquele papo.

- Quando eu descobri que estava grávida, estava no último ano da faculdade. Vocês sabem, já que estavam ao meu lado. - A voz de Leah soava com tanto carinho, que fez o coração de se aquecer. – O pai da Sarah não quis saber. Somente foi embora. Mas eu fiquei. Fiquei pela Sarah, por mim, por vocês. Ele reapareceu anos depois querendo ser pai. – Os olhos dela acumularam lágrimas de emoção. – Hoje ele vê a Sarah e até que é mais presente. Mas enquanto estava sozinha, segurei uma barra. Precisei parar de estudar, adiei sonhos e projetos. – Leah levou as mãos ao rosto, em uma tentativa de evitar que lágrimas rolassem, Mia se aproximou dela para segurar sua mão, estava lhe passando força com o gesto.
- Não chora, mamãe, você me disse que as mulheres são fortes. Igual a mulher maravilha. – Sarah escorregou da cadeira e chegou perto da mãe estendendo os bracinhos. A mais velha a pegou, logo beijando sua bochecha com ternura.
- Exatamente. – Concordou ao mesmo tempo em que apertava o nariz da filha e a devolvia para o chão. – Eles costumam dizer que somos o sexo frágil. Que somos fracas. Mas quando as coisas ficam difíceis, eles são os primeiros a correr. Quando uma mulher engravida e o homem foge. Quando o casamento entra em crise e eles preferem arranjar outra mulher, a enfrentar e resolver o problema. Quando eles tentam menosprezar todas as características femininas, para se sentirem superiores. Eles sabem que nós somos fortes.
- Claro que sabem. – Amélie rosnou. – E acham que tudo está ligado a força física, mas não aguentam uma semana de cólicas menstruais. – Balançou a cabeça negativamente – São um bando de bunda mole, isso sim.
- Exato. – Emmanuelle comentou. – Quando te veem na chefia de um setor no hospital, já logo questionam com quem dormimos para estar ali. – Observou, seu tom de voz estava baixo e sério, tinha ouvido vários termos constrangedores quando assumiu o setor de trauma. – Então sou obrigada a esfregar meu talento na cara deles.
- Eu não estou entendendo o motivo desse papo. – passou as mãos pelos cabelos, gesto que demostrava seu nervosismo. Aquela conversa estava bastante estranha, aquele tipo de assunto não costumava ser abordado em suas conversas, elas sempre abordavam temas mais leves e descontraídos.
- O ponto é você. – Mia apontou antes de tomar mais um gole de cerveja, então sorriu e uma lágrima escapou pela íris esquerda. – Quando seu pai morreu, achei que não iria suportar. Eu realmente achei que você iria surtar e enfiar seu carro no poste. Sabemos como foi a situação com sua mãe. – Ela baixou o tom de voz nessa parte, como se fosse um assunto proibido e para , todas sabiam que era mesmo. – O tio Dom era tudo que você tinha e ele partiu, deixando tudo em suas mãos. A oficina, a casa, o patrimônio, os carros. E você não abaixou a cabeça, enfrentou todos que duvidaram que conseguisse. No seu travesseiro você chora toda noite. A dor, a saudade, a tristeza, o preconceito, todas esses eram motivos para ter te destruído.

fechou os olhos totalmente emocionada. A saudade que sentia de seu pai a queimava por dentro. Ás vezes andava pelas ruas e via algum lugar do qual ouvira Dominique comentar, ou passava por uma loja e tocava uma das músicas favoritas dele. Nestas frequentes ocasiões, sentia seu coração se comprimir e a garganta fechar, aquela vontade de chorar desesperadamente baseado simplesmente no pensamento de que nunca mais poderia comentar sobre quem era melhor: Ayrton Senna ou Alain Prost, ou jamais poderia discutir sobre o time estar horrível no campeonato. E o preço da cerveja ter aumentado.
Ele fazia falta nos mínimos detalhes e por mais que tentasse sabia que nada jamais seria igual.
É, a saudade era mesmo uma grandíssima merda.
Leah soltou a cerveja e deixou-a sobre a mesa de jantar, depois caminhou até , ajoelhando-se ao seu lado. Cuidadosa e carinhosamente ela tomou as duas mãos dela nas suas. A mecânica levantou o rosto para a amiga, olhos totalmente vermelhos e molhados.

- Você tem gostos mais parecidos aos dos homens, isso é um fato. Mas mais que isso, você é forte, persistente, lutadora. Uma guerreira. Você nos mostra uma força incrível, algo além do que eu imaginei e quando eu juntei todos esses fatos, eu percebi que isso não é algo que deve ser relacionado aos homens, de forma alguma. Eles não merecem essa comparação. Tudo isso que faz você... você, deve ser relacionado a nós mulheres e é isso que você, "homenzinho", é. Um mulherão. Por isso, nós decidimos... - Ela rodou os olhos pela sala, observando as outras amigas com sorrisos nos rostos e feições orgulhosas. - Que não vamos te chamar de homenzinho mais, você é muito mais que isso. Você é foda para caralho. E merece termos á sua altura.

recebeu o impacto das palavras e foi invadida por vários sentimentos diferentes, mas todos bons e envolventes. Estar na presença daquelas mulheres era libertador, como se não precisasse de mais nada no planeta, somente daqueles almoços e das farras que se resumiam em fazer nada durante o resto do dia.
Era uma mulher de sorte por ter aquelas amigas, sabia que poucas pessoas na vida tinham aquela oportunidade. Era extremamente grata a todas as divindades do universo, pelo privilégio de tê-las.
Por muito tempo ela não se importou com o apelido, era algo tão íntimo e carinhoso que a chamar de homenzinho era mais frequente que seu próprio nome. Mas suas amigas estavam certas, mais e maias ela tinha certeza que não merecia ser comparada aos homens, mesmo que de maneira carinhosa.
Não que fosse contra a raça masculina, muito pelo contrário, ela entendia perfeitamente a necessidade dos homens e sabia que milhões de coisas perderiam o equilíbrio casos eles não existissem.
O que estava em pauta era: uma mulher ser chamada de homem pelo fato de amar coisas relacionadas a eles, assim como os homens não deveriam ser chamados de "gays", por terem gostos relacionados em sua grande maioria ao público feminino.
O mundo tinha espaço o suficiente para ambos.
E era só uma mulher que aprendeu a ser forte com um grande homem. Herdou gostos e manias dele e só queria ser feliz da sua forma, sem precisar nomear o significado para o resto do mundo, já que o que importava sempre fora o sangue e debaixo da pele o de todo mundo é vermelho.

- Uau, Tia ! Agora você é uma menina Super - Poderosa.
- Ela sempre foi, Sarah. Assim como todas nós. - Mia finalizou se jogando na amiga e todas a seguiram, dando um enorme e carinhoso abraço coletivo.

X

- Para que serve isso que está vendo?
- Para saber quem será pole position.¹ - respondeu sem tirar os olhos da televisão, já estava confortável no sofá da casa de Leah, as pernas esticadas com uma cerveja em mãos.

As meninas também permaneciam na sala. Emmanuelle dormia no sofá ao lado do seu, totalmente esgotada pela bebedeira da noite anterior. Amélie estava sentada com pernas de índio na mesa de centro, sobre o vidro repousava diversas provas de seus alunos e com eficiência corrigia.
Do lado oposto da sala, Mia comia um enorme pedaço de bolo de chocolate, tinha os olhos sobre a televisão, todavia tinha quase certeza que ela não prestava atenção no conteúdo.
Leah foi colocar Sarah em sua soneca da tarde, retornando poucos minutos depois e sentou-se na poltrona com um livro em mãos.
Era aquilo que costumavam fazer, todas no mesmo ambiente realizando tarefas totalmente distintas.

- Primeira posição? – A atriz traduziu o termo, tentando entender se de fato era mesmo o significado.
assentiu tomando mais um gole de cerveja.
- Essa é a tradução. Mas é o que significa na Fórmula Um? – Leah perguntou sem levantar os olhos do livro, vivia se perguntando como ela conseguia fazer aquilo.
- Como vocês acham que acontece a ordem da largada?
- Sorteio? – Foi Amélie quem respondeu olhando de relance pela TV, onde viu um carro escrito Redbull. Ele era azul marinho, vermelho e laranja e estava rodando na pista, perdeu aderência e os pneus derrapam, gerando a colisão no muro de contenção Guard-rail, fazendo com que o carro perdesse a traseira.
- Droga Albon, logo no final. – rosnou, compadecida ao ver o piloto tentar corrigir a trajetória, mas àquela altura já havia virado passageiro do carro e isso provocou a bandeira vermelha² para ele, decretando o fim precoce do terceiro dia de treino livre.
- Então ele é o Pole? – Mia ainda observava a repetição da cena e pode ver que mesmo com o acidente o piloto saiu andando do carro.
Ótimo sinal, sem pessoas machucadas.
- Não. – Balançou a cabeça negativamente. – A ordem dos carros no grid de largada³, é definida pelo treino classificatório³ que é divido em três partes. A primeira vai começar em poucos minutos. – Apontou, mostrando que Valteri Bottas da Mercedes estava colocando seu capacete.
– Nossa, quem é essa gato? Oi,” turubom” , querido? – Mia ficou elétrica ao ver a imagem de Lewis Hamilton na tela.
gargalhou.
- Piloto da Mercedes, Lewis Hamilton. Ele é o atual campeão.
- Um gato mesmo. – A voz de Emmanuelle estava rouca e sonolenta, a mulher tinha acabado de abrir os olhos. – Que dia vamos ao estádio ver esse gato?
- Autódromo.4 – Corrigiu .
- O quê?
- Estádio é onde você assiste jogos de futebol. Para assistir a Fórmula Um você vai ao autódromo.
- Entendido, senhora. – A médica bateu continência, antes de esticar os braços para espreguiçar o corpo.
- São 10 escuderias na F1. Cada escuderia tem 2 pilotos, ao todo temos 20 pilotos, que disputam. Nessa primeira parte do treino, nós chamamos de Q1. Os 20 tentam obter o melhor resultado de tempo em 18 minutos, no final,os cinco pilotos mais lentos são eliminados do treino classificatório e 15 pilotos avançam para a segunda fase.
- Então essa é o tal Q1? – Mia perguntou novamente, era um pouco estranho o ambiente, nunca tinha prestado atenção de fato no automobilismo.
- Aham. Eles vão dar a volta na pista e ver qual o tempo de cada um.

Na primeira série de tentativas, a Ferrari começou na frente, com Vettel marcando 1m33s557, meio segundo mais rápido do que , que foi atrapalhado por Antonio Giovinazzi. Mas aí as Mercedes entraram na pista e Bottas já cravou o melhor tempo do fim de semana (1m32s658), batendo Hamilton em 0s457, enquanto Verstappen ficou em terceiro, à frente do alemão.

- Se o seu piloto gostoso já fez o Q1, por que está indo de novo? – Amélie largou as provas, decidiu que estava mais interessante participar da conversa das amigas, depois terminaria a correção das avaliações de seus alunos.
- Eles podem dar quantas voltas quiserem, desde que seja dentro do tempo. – Ela ignorou a maneira como a professora se referiu ao monegasco.

fez uma tentativa e pulou para segundo, apenas 0s054 de Bottas. Na briga pelas últimas vagas no Q2, Kimi Raikkonen e Lando Norris, que têm largado mais à frente em 2019, sofreram para avançar, mas se salvaram.
Já Lance Stroll teve a sétima eliminação consecutiva no Q1, a terceira só este ano. George Russell e Robert Kubica, da Williams, vão largar na penúltima fila desta vez, mas graças aos problemas de Antonio Giovinazzi, que não marcou tempo, e Alexander Albon, que não disputou a classificação após o acidente no terceiro treino livre.

- E como eu sei quem foi eliminado? – Leah buscava os detalhes na própria TV, não entendendo migalhas nas imagens.
- A tabela de classificação. – Ela mostrou no canto superior esquerdo na tela, onde tinha os nomes e classificação dos pilotos. – Olha lá, os 5 últimos. Eles não passam para o Q2.
- E como funciona o Q2?

Antes de responder estralou o pescoço, estava há muito tempo na mesma posição e sentiu necessidade de deslocar o corpo.

- O Q2 começa, sete minutos depois do fim do Q1. Os tempos de antes são zerados, e agora os 15 pilotos restantes voltam para obter o melhor resultado. Agora eles têm 15 minutos, os cinco pilotos mais lentos são eliminados, deixando 10 pilotos para próxima fase.
- Beleza. Vou correr para pegar mais cerveja. – Emmanuelle finalmente levantou do sofá. – Alguém quer? - As quatro levantaram as mãos. – Não sou um polvo colegas, me ajudem.
- Eu vou com você, quero mais bolo de chocolate. – Mia seguiu a médica até a cozinha, pegaram cervejas e o bolo para comerem e ainda conseguiam chegar a tempo do inicio da segunda parte.

Na segunda parte, Bottas voltou a andar forte e de cara fez o melhor tempo do fim de semana até então (1m31s728), batendo por mais de meio segundo Vettel, , Verstappen e Hamilton, este então a 0s8.
Na segunda rodada de voltas lançadas, apenas Hamilton melhorou seu tempo e assumiu a liderança, apenas 0s091 à frente de Bottas.

- Há! O bonitão foi melhor. – Mia comemorou em meio às gargalhadas das amigas. – E agora, qual o próximo passo?
- O Q3, é a ultima parte. Quem ganhar agora larga em primeiro. O segundo melhor tempo, em segundo lugar, e assim sucessivamente até o decimo colocado, eles tem 12 minutos.
- E , nós estamos torcendo para quem? – Leah perguntou quando apareceu na tela, arrumando a balaclava.5

A mecânica capturou o tom malicioso na voz da amiga, cheia de intenções para descobrir se ela tinha um favorito, queriam na verdade era ouvir o nome de na boca de . E apesar de sim, estar torcendo para , jamais falaria isso em voz alta.

- Para quem vocês quiserem, temos liberdade de escolha nesse país. – Deu um sorriso irônico, deixando claro que não falaria mais que aquilo.
- Já que é assim, eu vou torcer pelo seu amigo . Ele parece ser muito bom e tem mãos firmes. – Emmanuelle gargalhou com a cara de Amélie, ao entender o trocadilho feito pela engenheira.
- É, ele parece mesmo. – Concordou com um meio sorriso, ela pretendia saber em breve. – Estão voltando.

Na primeira tentativa do Q3, Bottas foi melhor nos dois primeiros setores, enquanto Hamilton foi o mais rápido no último trecho, mas o finlandês ficou 0s007 à frente, enquanto Vettel ficou em terceiro, à frente de Verstappen e .
Nas últimas tentativas, Hamilton fez o melhor primeiro setor e deu a impressão de que superaria Bottas, mas não fez um grande último trecho, enquanto o finlandês melhorou o próprio tempo. Na disputa entre as Ferraris, Vettel bateu em 0s017. Mesmo atrapalhado na abertura da sua última tentativa pelo posicionamento de pista, Verstappen foi o quinto.
No finalzinho do Q3, Max Verstappen reduziu a velocidade para ganhar espaço em relação aos que iam à sua frente, mas acabou ultrapassado por Sebastian Vettel e, com a redução ainda maior, também foi superado por Daniel Ricciardo e Nico Hulkenberg. Max teve de tirar tanto o pé, que não conseguiu abrir outra volta antes da bandeirada final.

- Droga, o nosso amigo vai largar em quinto lugar. – Amélie disse incerta, parecia um pouco chateada. – E o bonitão da Mia, ficou em segundo.
- O ganhador da pole. O tal de Bosta, é um gato também, acho mais do que o campeão da Mia. – Emmanuelle forçou os olhos, observando o replay da conquista do Finlandês.
- Bottas. – Corrigiu a mecânica.
- Você está louca? – Mia rodou o dedo indicativo ao redor da orelha, ignorando totalmente a correção de . – Ele é mais branco que a neve. O campeão é igual o cavaleiro negro, sem sobra de dúvidas, é o mais lindo.
- Discordo de você! – Leah balançou a cabeça. – O mais bonito é esse. – Apontou na TV, Sebastian Vettel, que aparecia conversando com um homem de macacão vermelho na tela – O cara da roupa igual do amigo da .
– Acho que depois de ver esses gatos, definitivamente devíamos ir ao autódromo.

soltou uma gargalhada gostosa ao ver as amigas discutindo sobre qual dos pilotos era o mais bonito.
Levantou e foi à cozinha pegar mais cerveja, enquanto elas se matavam tentado eleger o galã da Fórmula Um.

X

estava tomando uma xícara de café, ainda tinha traços da noite de sono marcados na bochecha. Tinha dormindo muito bem, recuperando a noite de sono perdida na sexta-feira com a balada.
A morena ligou a TV e posicionou no canal onde reproduziria a corrida de Fórmula Um. O celular que repousava sobre a mesa, apitou indicando uma notificação de mensagem, era mais uma vez . Nos últimos dias, ele havia mandado muitas, algumas respondia e outras não, sabia que ele estava interessado nela e não havia problemas nisso, desde que fosse algo totalmente carnal.
Esse era o principal motivo para não render assunto o dia inteiro com o piloto. Respondia o suficiente para não ser grossa, e também mostrar que não está aberta a qualquer tipo de contato além do já demostrado por ela: sexo.

": Você vai assistir a corrida?"
: Sim, já liguei a TV.
: Fico feliz em saber que estará me assistindo ganhar.
: Hahaha. Você é um prepotente, precisa fazer quatro ultrapassagens para isso.
: Não duvide de mim, já ouviu sobre a grande volta do Senna em 1993, antes do final da primeira volta? Serei eu hoje.”
: Ayrton Senna foi provavelmente o maior piloto da história, você é só príncipe de Mônaco.
: Quando eu ganhar, te farei engolir as palavras.
: Não será um problema, eu engulo tudo.


Gargalhou da própria resposta e em como perdia as estribeiras com suas mensagens e respostas provocativas, não teve tempo de ver se ele a respondeu. A porta de sua casa estava sendo destrancada. Ela ergueu as sobrancelhas surpresa e olhou para o relógio de pulso.
Nove e quarenta da manhã.
O que uma das meninas estava fazendo ali, àquela hora? Sabia que era uma delas, pelo fato de somente elas terem a chave.
A porta se abriu, revelando Leah Bloé. A morena deu um sorriso e estendeu na direção da amiga um engradado repleto de cervejas.

- Não estava afim de passar a tarde de domingo sozinha. – a engenheira disse, entrando no apartamento sem ser convidada. – Mas como a boa educação exige, trouxe bebidas. sorriu, abraçando a amiga.
- Deixo você ficar, se for boazinha e me cozinhar algo no almoço.
Leah riu.
- O que tem para ser preparado?
- Macarrão e água. – disse observando Leah à vontade, abrir a porta de sua geladeira e colocar as cervejas dentro do congelador.
- Meu Deus, menina super poderosa. – Balançou a cabeça negativamente – Precisa ir ao mercado mais vezes e parar de comer besteiras.

sorriu com a expressão, Sarah ficara o dia de sábado inteiro tentando descobrir se a tia era a florzinha, docinho ou lindinha.

- Claro mamãe, pode deixar! – Bateu continência. – Por falar em mãe, cadê a tampinha?

Leah se remexeu desconfortável, a expressão ficou séria e conhecia bem demais a mais velha para te certeza que alguma coisa estava errada.

- Pai dela a pegou cedo. – Respondeu de maneira seca, indo até os armários e abrindo-os procurando o que cozinhar. – Foram ao parque.
- E você esta incomodada. - Afirmou, abrindo a geladeira pegando uma cerveja para si, deu duas batidas com a tampa na parede, abrindo-a.
- Eu sei que não deveria. – Disse passando as mãos pelos cabelos. – Sei que ele é pai dela, e que eles devem desenvolver uma relação.
- Mas você tem vontade de socá-lo.
- Exatamente. - sorriu, enchendo uma panela com água. – Ele me largou sozinha, eu sofri, chorei. Passamos muita dificuldade, até eu consegui reerguer minha vida. Anos depois ele aparece e Sarah abre os baços para ele.
- Está com ciúmes da relação dos dois? - Perguntou , enquanto se recostava contra o batente da porta.
Leah ficou em silêncio, sentindo as bochechas queimarem e hesitou considerando a questão.
- Eu... não sei.
assentiu dando um sorriso doce.
- Você a criou com amor, a relação de vocês é única. O idiota do Blanchett nunca será capaz de desfazer essa ligação.
- Eu sei, e me sinto uma boba por me sentir assim – Levou as mãos ao rosto, sentindo lágrimas – Droga, eu devo estar entrando na TPM.

pegou mais cerveja no congelador, abriu-a e logo colocou nas mãos da engenheira.

- Você é a melhor mãe de todas! Tenho orgulho de você. – ecoou, dando um gole da sua garrafa.
- Obrigada – Leah bebeu um gole da cerveja, ajeitando a panela sobre o fogão e ascendendo-o. – Já começou a corrida?
virou o corpo para observar a televisão ligada, e negou com a cabeça.
- Deve começar daqui a pouco. – Olhou mais uma vez o relógio no pulso, para ter certeza de sua informação.
- Quando for aqui em Mônaco, deveríamos assistir. – Pontuou, misturando o molho na panela. A mecânica observou a amiga por alguns segundos e então deu de ombros.
- Pode ser.
- Vou assistir com você. – Leah tomou seu assento no sofá, colocando os pés sobre o colo da amiga, logo recebendo um carinho gostoso. – Quem você acha que ganha?
- Acho que fica com a Mercedes, Hamilton é o atual campeão, Bottas tem evoluído. – Bebeu mais um gole. – Mas é imprevisível, depende do tempo. Dos pneus que vão escolher.

Leah não disse mais nada e voltou seus olhos para a televisão, tentando se lembrar do básico que tinha sido ensinado por no dia anterior.

- Como assim pneus? Não é igual?
- Na fórmula Um não. Existem vários tipos de pneus. Em cada prova são disponibilizados e tipos de pneus. Nessa prova da China, foram: macio, médio e duro. Eles precisam escolher os pneus de acordo com o que entendem ser melhor.
- Mas tem funções diferentes? – franziu o cenho, tentando achar uma forma simples de explicar.
- Os duros, que são de cor branca, eles são para circuitos que exigem maior esforço no apoio sobre o pneu, como por exemplo, temperaturas ambientes altas. Os médios que são amarelos é extremamente versátil bom para alcançar alta velocidade. E os macios e vermelhos, que é bom para ganho de velocidade em detrimento de longas distâncias.
- E eles vão trocando durante a corrida?
- Sim, chamamos de pit-stop7. Os pneus desgastam. Em um carro comum demora mais, mas nas corridas... Tem a temperatura, a quantidade de voltas, a alta velocidade. Tudo isso ajuda.
- Acho que entendo. Qualquer coisa posso perguntar? – A morena assentiu. - Como eu vou saber que começou? – Perguntou olhando incerta.
- As luzes vermelhas vão se apagar e então eles podem arrancar. Olha lá. – Meneou a cabeça, onde estava na contagem regressiva para a largada. pediu em oração que não acontecesse nenhum acidente, e que todos acabassem a corrida bem.

Quando as luzes vermelhas se apagaram, Lewis Hamilton conseguiu passar Valtteri Bottas e fez a ultrapassagem sobre Sebastian Vettel. Verstappen manteve a terceira colocação.

- Uou é o seu amigo! – Leah comemorou e soriu. - Ele passou o outro, que legal. – bateu palmas de felicidade. Era estranho aos olhos da mecânica a simpatia que todas as amigas pareciam sentir por , sem ao menos conhecê-lo, ela entendia que na cabeça delas, um relacionamento já estava desenhado.

Nas primeiras voltas, as Mercedes abriram boa vantagem para as Ferraris, com 2s4 entre Hamilton e Bottas, outros 2s4 entre Bottas e e uma vantagem menor do monegasco para Vettel, de apenas 0s8.
O alemão Vettel mostrava ter melhor performance, mas não o suficiente para se aproximar e ganhar a posição.
Com 11 voltas, veio a ordem de Ferrari para : "Deixe Sebastian passar". O monegasco respondeu: "Estou abrindo vantagem". Mesmo assim, permitiu a ultrapassagem na reta dos boxes, e Vettel subiu para terceiro lutar para tentar se aproximar dos carros da Mercedes. O jovem piloto da Ferrari não se mostrou nada satisfeito com a decisão, mas acabou ouvindo do pit-lane: "Fizemos nosso trabalho, continue focado".
"Estou perdendo muito tempo. Não sei se vocês querem saber ou não, mas só para vocês saberem", disparou via rádio, muito insatisfeito pela decisão e por não conseguir chegar em Vettel. Assim, Bottas abria uma vantagem de 7s para as Ferraris, enquanto Verstappen reduzia a diferença para o carro de .

- O quê? Filhos da puta! - Exclamou , ficando totalmente irritada com a situação do monegasco.
- O que houve? - A outra disparou. - Eu não entendi, .
- A Ferrari mandou o deixar o Sebastian passar. – Bateu na perna com as palmas das mãos, logo se pondo em pé andando rápido até a geladeira, por causa do ritmo da corrida, ela precisaria de mais cerveja.
- Mas por quê?
- Disseram que o ritmo do Sebastian era melhor. A estratégia era deixar o Vettel passar, para alcançar as Mercedes lá na frente.

Na volta 19, a Ferrari chamou Vettel para fazer seu pit-stop(6) e trocar os pneus médios pelos duros. O alemão conseguiu voltar à frente da Red Bull, mas o holandês tinha mais ritmo pelos pneus mais quentes e conseguiu se aproximar. No fim da volta, Max retardou a freada e conseguiu passar Vettel, que colocou lado a lado para dar o X em uma belíssima manobra para se colocar novamente à frente.

- Ahhh! – vibrou ao ver Sebastian impedir a ultrapassagem de Max. – Pelo menos isso.

Enquanto Vettel tinha um forte ritmo com os pneus duros, a Ferrari mantinha na pista com os desgastados compostos médios, e o monegasco sofria com o desgaste dos pneus, perdendo assim muito tempo. Já Bottas, confortável no segundo lugar, fazia seu pit-stop na volta 22 para colocar pneus duros e tentar ir até o fim, mesmo com 44 voltas ainda para a bandeirada final. Hamilton foi aos boxes no giro seguinte com um pit-stop sem problemas. parou em seguida, mas o monegasco perdeu de longe a quarta posição para Verstappen, em claro erro de estratégia da Ferrari com o jovem piloto.

- Que merda! Que burrice de estratégia, agora o menino perdeu posição. Quanta gente incompetente.

Leah percebeu a clara exaltação da amiga e apesar de desejar questionar, optou por não fazer naquele momento, era melhor deixar ela se acalmar, porém a mesma continuou a falar, mas não com a amiga.
Ela falava com a própria televisão.

- Se estavam com medo dos dois perderem posição para o Max. Deveriam ter parado o antes do Vettel, seus imbecis. Porque o Max parou antes para trocar os pneus, e com medo do holandês passar as duas ferraris, eles pararam quem estava na frente primeiro. Como acharam que o perderia a posição de qualquer jeito, colocaram ele para parar 4 voltas depois. Acabaram com a corrida dele. Você viu isso pai, que estratégia de merda?

olhou para o lado esperando ver qual seria a resposta de seu pai diante daquela situação horrorosa. Mas foi com as íris de Leah que encontrou, ela fechou os olhos com força, tinha se esquecido de que ele não estava mais ali. Às vezes era como se Dominique estivesse ao seu lado, assistindo a corrida com ela e entendendo tudo que a mesma questionasse.
Ela tinha a perfeita visão de ambos naquele mesmo sofá, assistindo qualquer coisa na televisão. E nos domingos de Fórmula Um, jamais estavam em outro lugar, era tão vívido que ela podia sentir o perfume dele moldando suas narinas. E seu estômago roncava de saudades do almoço que sempre compartilhavam aos domingos.
Sentiu os olhos encherem de água, e deu um sorriso sem mostrar os dentes. Respirou fundo para controlar as batidas rápidas de seu coração partido pela dor. Enviou comandos para todo seu corpo ordenando que seus hormônios se acalmassem. Ela não iria chorar, não naquele momento, não daquele jeito.
A cena cortou o coração da engenheira, o ato falho da outra demonstrava a enxurrada de sentimentos vazios que gritavam dento dela. Leah perspicaz como era não falou sobre a menção ao pai. Conhecia muito a mecânica, se rendesse o assunto iria se fechar, e ela não desejava mais um recuo dela.

- Mas ele ainda pode alcançar, certo? – sorriu por perceber que Leah estava seguindo o assunto, amava o fato de a conhecerem tão bem.
- Difícil – Bebeu outro gole da cerveja. – Quando eles pararam o Vettel na volta 17/18, o estava 1 segundo atrás do Vettel. Quando pararam o na voltar 22/23, ele voltou 14 segundos atrás. Na fórmula Um, é uma diferença estratosférica.

A partir da volta 30, a corrida já não tinha tanta emoção, com poucas batalhas na pista. se aproximava de Verstappen volta a volta, enquanto o holandês parecia não ter condições de lutar com Vettel pelo terceiro lugar. Na frente, Hamilton voltava a ter uma vantagem bastante confortável perante Bottas, que fazia uma corrida tranquila e tinha o segundo lugar assegurado.
Ferrari e Red Bull travaram uma batalha estratégica. Primeiro foi Verstappen, que parou na volta 35 para trocar os pneus duros pelos médios. No giro seguinte, foi a vez de Vettel também parar para mudar os compostos brancos pelos amarelos. Assim, subia novamente para a terceira colocação e tinha 10s6 à frente de Vettel.


- Ai ó, ele conseguiu ! Subiu de novo. – Leah fazia movimentos exagerados com as mãos, indicando sua felicidade. não respondeu sabia bem no que daria o resto da corrida.

A Mercedes também partiu para a mesma estratégia e chamou primeiro Hamilton, com Bottas parando segundos depois. , então, ganhava mais uma posição ao subir para segundo.
Com pneus mais rápidos, Bottas sofreu para passar , que defendeu bravamente a posição por cerca de uma volta. Mas o finlandês aproveitou a grande reta para fazer a ultrapassagem e voltar ao segundo lugar.
se arrastava com os pneus duros e foi presa fácil para a ultrapassagem de Vettel. O monegasco teve de fazer o pit-stop para colocar um novo jogo de pneus médios, mas voltou a cair para a quinta colocação, sendo ultrapassado por Verstappen.


- Viu? – Mostrou Leah. – Eles tinham que ter parado o antes. Quando você esta com pneus mais novos, ou seja quando acaba de trocar. Você esta mais rápido com pneus menos desgastados, quem está sem trocar é uma presa fácil. Foi uma estratégia errada, eles ferraram a corrida do .

A corrida seguiu para seu desfecho com Hamilton bem confortável na frente, seguido por Bottas e Vettel, que tinha a volta mais rápida da corrida. Verstappen e fechavam a lista dos cinco primeiros, com Gasly, Ricciardo, Pérez, Räikkönen e Alexander Albon completando a relação dos dez primeiros colocados, resultado que prevaleceu até a bandeirada final.
Hamilton, por sua vez, recebeu a bandeirada das mãos de Alain Prost e comemorou mais uma vitória histórica na F1.


- Ah! Ele perdeu a corrida, mas pelo menos agora eu sei o que é um pneu duro.


Glossário:
1: Pole position: Um piloto é considerado o pole position, em automobilismo, quando inicia a corrida na primeira posição do grid
2: Bandeira vermelha: Ela é usada quando ocorre graves acidentes, chuva muito forte ou qualquer motivo que ofereça graves riscos ao piloto. Algumas vezes ela é acionada para encerrar a prova, dependendo da situação.
3: Treino classificatório: Termo usado para o período em que os pilotos disputam a ordem das posições da largada.
4: Autódromo: local destinado a corridas automobilísticas, composto de pistas e instalações diversas (arquibancadas, oficinas de reparos, motorhomes etc.)
5: Balaclava: Uma Balaclava é um gorro confeccionado normalmente com malha de lã que se veste de forma ajustada na cabeça até o pescoço. Sua função tradicional é a proteção contra o frio
6: Volta do Ayrton: GP da Europa em 1993, quando o Senna larga em quarto lugar, e antes do fim da primeira volta, ele já esta na liderança. É considerado a maior volta da história da Fórmula Um. – Clique aqui para ver
7: Pits-top: No automobilismo designa-se por pit stop uma paragem durante uma corrida na área das boxes onde se encontram as equipes e seus mecânicos, para que durante a corrida os pilotos possam trocar de pneus e fazer o reabastecimento de combustível dos seus veículos.

Capítulo 4 - Porque você querida, vale a pena.


Veneza desde sempre era notada como a cidade do amor, pela sua atmosfera romântica e mágica ao mesmo tempo, representa uma daquelas metas que merecem ser alcançadas pelo menos uma vez na vida, mas para descobrir e portanto viver a verdadeira beleza desta cidade italiana, precisa esperar à noite, quando o sol se põe e as estrelas povoam o céu.
Um dos lugares preferidos de em Veneza era Ponte de Rialto, ótimo ponto de observação, onde admirar a vida veneziana que flui pontuada diante os olhos.
Fascinantes são os barcos de cada forma e dimensão, as gôndolas e as balsas, cada um dos quais segue a própria rota. Muitas dessas soam a sirene, outras passam com a música em alto volume, envolvendo em uma realidade imaginária, em um mundo que parece feito de água.
Aquele clima era nostálgico para o piloto traziam lembranças de quando viveu em Maranelo na escola de pilotos da Ferrari e por diversas vezes escapava para Veneza.
Naquela semana não haveria grande premio, a próxima data do calendário era o Azerbaijão, era uma semana de folga e o desejo dele era estar em Mônaco, entretanto naquele mesmo final de semana estava sendo comemorado as bodas de Estanho de Romain e Marion Grosjean, por conta de seus 10 anos de casamento. não poderia negar o evento, ainda mais que Antonella iria cantar e passou a semana inteira o ameaçando de morte caso não aparecesse, o piloto tinha um pouco de medo dela, nenhuma mulher que se casava com Daniel Ricciardo poderia ser considerada normal.
E por aquele motivo ali estava , em frente ao espelho terminando de ajeitar a camisa social branca no corpo, deixando propositalmente dois botões abertos, ajeitou os pés dentro do tênis branco ao mesmo tempo em que colocava o relógio no pulso, finalizou sua produção com um blazer preto, conferiu sua imagem no espelho e após aprovação, pegou o presente para os aniversariantes, chaves do carro e saiu rumo ao evento.
Enquanto estava parado no sinal, sacou o telefone do bolso abrindo o aplicativo do whatsApp indo na conversa de que era uma das primeiras, digitou uma mensagem e enviou.

: Hoje é dia de racha, quando for correr tenha cuidado. Quero chegar em Mônaco e te encontrar viva. ”

Não teve tempo de ver a resposta ou se ela responderia, pois o sinal abriu e ele arrancou o carro e em poucos minutos já enxergava a iluminação do salão de festas Alpitour¹ , entregou as chaves ao manobrista e após seu nome ser conferido na lista, entrou no local.
A decoração era em tons escuros misturado com um dourado brilhante era impecável, exalava fineza, charme e graciosidade, uma personificação de Marion. a conhecia pela profissão, já que a mulher era jornalista esportiva e já havia o entrevistado diversas vezes, sua simpatia era tão contagiante que iluminava qualquer ambiente.
E foi justamente com a anfitriã do dia que encontrou primeiro, ela trajava um belo vestido longo na cor preta com alguns detalhes em renda nas alças e corpo, seu cabelo estava em um coque impecável, no entanto seu maior apetrecho era o sorriso que moldava os lábios.

- Olá, ! – Foi cumprimentado com dois beijos na bochecha. – Fico feliz com sua presença.
- Eu agradeço o convite.
- Seja bem vindo, . – Romain pousou delicadamente o braço sobre os ombros da esposa, também sorrido para o companheiro de profissão. Os olhos azuis de Grosjean destacavam no terno escuro que usava.
- Eu desejo toda felicidade e mais muitos anos de matrimonio a vocês. – O moreno lhe entregou um embrulho dourado, que prontamente foi recebido por um funcionário que sequer percebera a chegada e este levou o presente para o lugar correto onde os presentes estavam ficando.
- Obrigada querido. – Marion lhe abraçou. – Fique a vontade.

assentiu e se afastou do casal, correndo os olhos pelo local a procura de algum conhecido e seus olhos encontraram a mesa onde Michael Madden e William Reed, os pilotos da François- Render estavam sentados, estranhou a presença de Michael pelo fato de ser o primeiro ano dele como piloto titular na categoria, porém sabia da influência que Louise Render tinha dentro do automobilismo, não só por der uma das donas da escuderia, mais por ser uma das maiores jornalistas do planeta. Willian Reed tinha cinco mundiais da categoria e todos desejavam o atual campeão por perto.
Devido à última conversa que teve com Michael, poderia mesmo constatar que o escocês era mesmo um fodido sortudo que estava rodeado de estrelas da fórmula um.
teve seu primeiro contato com Michael algumas semanas antes, no grande prêmio do Bahrein quando o piloto estreante na formula Um, sofreu um acidente proposital por causa de Lance Stroll que fez uma manobra covarde e Michael escolheu jogar o carro no muro de contenção para não bater em e ambos acabarem mortos pela colisão.
Pouco depois foi até Michael lhe agradecendo pela atitude altruísta e desde então vinham se falando com bastante frequência e até trocando algumas mensagens, o escocês era divertido e tinha a presença leve, gostava de estar perto dele.
Andou até a mesa para cumprimenta-los, conforme se aproximou Michael notou sua presença.

- Como assim? Deixam qualquer um entrar nesse lugar? - Michael implicou sorrindo e se esticou para aperta a mão do mais novo.
- Parece que sim já que você está aqui. - sorriu. - Onde roubou o convite? - Caçoou apertando a mão ao outro.
- É culpa do meu novo terno, um Armani te abre portas. - Michael sorriu largo. - Já conhece o William Reed? - Ele fez menção a apresentar o piloto inglês, que observava a interação dos dois mais jovens.
- Claro, o campeão a ser batido. - estendeu a mão para o outro. - É ótimo vê-lo Reed.
- Não, eu sou só um cara. - William Reed sorriu. - Mas continue pensando assim, torna tudo mais competitivo.
- Essa é a graça da competição. - O monegasco assentiu. - Esse ano tenho a sensação que nos veremos bastante no pódio.
- Eu espero que sim, é sempre bom ver rostos novos lá. - William riu. - Desde que eu continue com meu lugar garantido. - William mostrou mais os dentes, enquanto Michael deu-lhes um sorriso amarelo, como se pensasse em quando é que seria a sua vez de ocupar um pódio.
- Claro que sim e Michael estará também. - olhou Michael. - Como forma de agradecer por ter salvado minha vida em Bahrein, fique a vontade para beber tudo o que desejar, é por minha conta. - Sorriu sapeca tentando parecer engraçado, como se as bebidas ali disponíveis precisassem ser pagas.
- Você devia sentir vergonha por fazer uma piada como essas na frente dele. - Michael balançou a cabeça, fingindo estar chocado.
- Como se ele se importasse, tendo em vista que convive com você. - Foi irônico.
- É, mas esse é o ponto. Ele é obrigado a me aturar, já você…- Michael maneou a cabeça. - Me deixe te apresentar, essa é Louise Rousseau Render. - Michael tocou suavemente o braço da mulhe, chamando sua atenção e piscou sutilmente para ela. - Louise, já conhece esse?
- Olá, Louise. Tenho sensação que te conheço. - franziu o cenho confuso, procurando na mente informações sobre a mulher. Maldita seja sua péssima memória.
- É porque conhece. - Michael balançou a cabeça chocado com a falta de tato de . - Ela é comentarista e repórter da Fórmula Um, é a cabeça por trás da François-Render e minha chefe...o que mais posso listar? - Michael voltou se para William Reed, mas antes que o outro pudesse falar algo a mulher sorriu e balançou suavemente a cabeça.
- Nós já nos vimos antes, muitas vezes. Mas acredito que não se lembre, você era muito pequeno. - Ela sorriu docemente.
- Eu sei quem ela é. - respondeu, mas sem tirar os olhos da mulher. Mas não é da fórmula Um, sinto que é algo além. - Ele não parecia responder para qualquer pessoa além dele mesmo, e então arregalou os olhos se atentando a fala de Louise. - Espera, como assim muito pequeno? De onde nos vimos antes?
- Seu pai, meu marido e algumas outras pessoas estavam sempre juntos. Imagino que não se lembre, já faz muito tempo.
- Eu não me lembro muito dos amigos do meu pai. - As coisas começaram a fazer sentido para o jovem. - O único que tenho lembranças é o Dom, mas ainda assim são poucas, sai cedo de casa para morar na Itália. - Se explicou, como se sua intenção fosse se desculpar por não se lembrar da bela mulher.
- Eu sei disso, acho que a última vez que me lembro de te ver é numa dessas situações, quando estava prestes a sair de casa. Irei para Mônaco essa semana, e a propósito, mande lembranças minhas a seu pai. - Louise piscou e sorriu, mas logo precisou voltar à atenção para Marion que a chamava para fotos.
- Claro que sim. - Ele assentiu sorrindo. - Eu preciso ir, tenho que ver algumas pessoas. Michael nunca é um prazer te ver, mas fico feliz em ter você por perto, mesmo sem saber o motivo, me sinto seguro. - Sorriu sem graça.
- Isso é porque se eu estiver por perto, o pior geralmente sobra para mim. - Michael riu e William balançou a cabeça negativamente.
- Então vou me assegurar de sempre estar perto de você. - estendeu a mão para Michael, depois Will e então abraçou Louise educadamente. - Vejo vocês mais tarde. Eu vou cumprimentar algumas pessoas. Até – se afastou um pouco, logo braços pousaram em seus ombros, reconheceu imediatamente Pierre Gasly totalmente impecável em sua camisa social bordô, que ele sabia ter o dedo de Catherine, sua namorada, na escolha.
- Grande . – O francês saudou com um enorme sorriso. – Como você está?
- Muito bem. – Respondeu estendendo o braço esquerdo para Catherine se encaixar em um abraço. – Catherine está cada dia mais bonita, como pode namorar esse francês horrível?
- Ah, eu dou uma moral para ele sabe como é, não é? Ganhando pedrinhas de ouro na coroa. – A morena sorriu divertida.
- Você sabe que ele só fala assim para você me largar e o caminho ficar para ele tentar me conquistar. – Pierre zombou.
- Mas o que é isso? – deu um sorriso. – Eu tentar te conquistar? Me poupe, quem você acha que é? Acha que por causa desses seus olhos azuis, eu quero te conquistar? – Ele gesticulou em frente ao rosto de Pierre que tinha um sorriso zombeteiro nos lábios.
- Meus olhos são irresistíveis. – Piscou teatral.
- Eu já acostumei com vocês sendo marido e marido. – Catherine deu uma gargalhada e pegou uma taça de champanhe na bandeja que um dos garçons passou oferecendo. – A relação de vocês não me incomoda mais e nem essas brincadeiras que vocês acham que são engraçadas.
- Meus pequenos meninos. – A voz de Daniel bradou entre os três. – Cheguei para brindar vocês com minha presença maravilhosa. – O sorriso largo e sempre tão característico do moreno brincava por ali e em sua mão direita tinha um copo de whisky que ele com frequência levava aos lábios.
- Sua presença não é maravilhosa. – respondeu fingindo estar sério.
- Quieto moleque. – Abanou a mão para que o mesmo calasse a boca e se dirigiu para Catherine. – Olá, Catherine! É sempre ótimo te ver.
- Obrigada Dani. – A morena sorriu e lhe abraçou em forma de cumprimento. – Onde está Antonella, não veio?
- Não, a Antonella não. – resmungou.
- O que foi?
- Ela me ameaçou de morte, estou correndo dela. - Daniel gargalhou da expressão no rosto do mais novo. – Sua mulher é maluca.
- Eu sei. – Afirmou. – Ela está conversando com a... – Ele levantou o olhar na direção em que a cantora havia ficado conversando com a anfitriã da festa, porém seus olhos só encontraram Marion dando algumas instruções para um dos garçons. – Está desaparecida. – Concluiu após perceber que não a encontrava em lugar nenhum.

Catherine sorriu bebendo mais um pouco do champanhe em sua taça de cristal.

- Bem a sua cara perder sua esposa.
- Será que isso significa que estou solteiro?
- Quem está solteiro? – Antonella pareceu escolher o momento perfeito para aparecer do nada.
- O Pierre, amor. – Ricciardo respondeu baixo sobre os olhos acusatórios da cantora. – A Catherine é má com ele.
- Aham, sei.- Arqueou as sobrancelhas desconfiada, mas logo virou seus olhos para a namorada de Gasly. – Cathy, o que acha de irmos pegar mais bebidas? Muita testosterona junta. – Apontou para os três homens.
- Será um prazer. – A morena roubou um beijo do francês, e sem esperar qualquer resposta seguiu a cantora em direção ao bar.

XXXX


estava jogada no sofá de sua casa, no relógio já era quase onze da noite e na televisão estava passando “need for speed “. Ventava bastante aquela noite e isso dava ela total desejo de permanecer deitada em seu sofá, aliando ao fato que estava com suas energias drenadas devido ao dia que teve com a pequena Sarah, fazendo com ela ficasse brincando de cavalinho andando pela casa sobre as costas da tia.
Em suas mãos repousavam a garrafa de cerveja, na mesa de centro um saco de amendoins que de segundos em segundos levava 3 ou 4 na boca.
O toque do telefone que estava debaixo de si a incomodou, levantou o corpo e resgatou o telefone, era uma mensagem de , pedindo para que ela tomasse cuidado na corrida daquela noite. A mulher rolou os olhos e digitou uma nova mensagem para o piloto.

: Eu sempre tomo cuidado e não tenho a intenção de ir correr essa noite.

A resposta do piloto monegasco foi praticamente instantânea, fato que fez rir por perceber que ele aguardava ansiosamente sua resposta.

: E por que não vai correr?
Beatice: Passei a tarde toda com a baixinha. Crianças tem uma energia gigante, estou cansada e pretendo ficar acomodada no meu sofá.
: Então descanse, , se estivesse aí iria lhe fazer uma massagem.
: Uma massagem cairia bem. Claro, se viesse acompanhada de outras coisas que você pode fazer com a mão.
: Você sabe, , que quando estiver nos meus braços vai receber tudo que merece.

Beatriz releu aquela mensagem por outras duas vezes, tentando entender o conteúdo que estava por trás, claro que não estava mais falando da mesma coisa que ela, ao constatar as intenções nada pervertidas optou por não responder mais a mensagem.
Antes de desligar o aparelho com a sua digital, o mesmo tocou e o nome de Talles brilhou na tela, ela mordeu o lábio incerta antes de atender, pois Talles raramente ligava e quando fazia era para convidar para um racha e apesar de segundos atrás ter dito a que não iria correr, a mínima sensação do que poderia vir acontecer despertou todos os instintos do seu corpo e cada molécula do seu sangue começou a clamar pela adrenalina das pistas, foi com esse desejo que atendeu ao telefonema.

- Oi Talles.
- Oi , tudo bem?
- Sim. O que está mandando?
- Estou em uma linha de frente com quatro carros, mas um deles furou tem uma vaga, o que acha de um racha?
- Qual o prêmio?
- Cada carro com 2.500 euros. - mordeu o lábio inferior e antes do seu cérebro sequer processar a resposta que seus lábios falariam, já estava em pé desligando a TV e indo para seu quarto.
- Estou a caminho.
- Você tem 15 minutos.

XXX


já não tinha mais fôlego para rir, estava sentado em uma mesa mais no fundo do salão, estratégia de Antonella para ficar mais perto do bar e reabastecer seus drinks sem que as pessoas ficassem questionando a quantidade de bebidas que já tinha ingerido.
A questão toda é que Daniel por si só já era capaz de fazer qualquer pessoa se desidratar de tantas gargalhadas, quando acompanhado da esposa era como uma equipe mafiosa, poucas coisas pareciam ser mais naturais do que o casal que vivia em perfeita sincronia, todavia algo que não estava nada harmônico era a coreografia que a cantora tentava ensinar ao companheiro e fazê-lo acertar o passo da música.
Vergonha no dicionário tinha um novo significado: Daniel Ricciardo dançando reggaeton.

- Madame, você precisa de bebida – Pierre estava com o dedo indicador em riste - Eu nunca tomei um drink como esse, vodka Kiwi e eu não sei mais o que, mas você precisa disso, meu amigo. - Tomou mais um gole da bebida vermelha.

Vibrou alegre e arqueou a sobrancelha, já tinha visto o amigo dominado pelo álcool antes, mas tinha certeza que havia algo diferente, provável que era aquela bebida em especifico.

- Amor, eu vou dançar. - Catherine bateu palmas largando a bebida sobre a mesa.
- Eu vou junto. - Pierre sorriu animado acompanhando a namorada e se envolveram na pista de dança, despertando o mais alto nível de vergonha francesa, por estar dançando de maneira desconjuntada, mexendo os pés em um equilíbrio desengonçado.
- O que colocaram na bebida de vocês hoje? – Questionou ao ver Daniel sentando novamente ao seu lado, os botões da camisa social já estavam mais abertos e suor escorria por sua testa, Antonella também não estava mais na pista, pois já estava indo ao camarim improvisado do salão de festas para se aprontar para o show.
- Alegria meu amigo, tequila, vodca e mais alegria. – Ricciardo respondeu mostrando a bebida, por coincidência era a mesma que Pierre também bebia. - Vamos buscar uma dessas para você, prova essa. – Entregou o copo ao mais novo, enquanto caminhavam em direção ao bar. levou o drink aos lábios, sentindo a bebida gelada descer por sua garganta, arregalou os olhos em nítida surpresa, era delicioso. Não soube decifrar o gosto por completo, mas com certeza tinha morango.
- É uma bebida dos deuses, não é?
- Realmente é maravilhosa.

De repente as luzes do salão se apagaram, meio segundo depois uma única luz se acendeu sobre o palco iluminando somente um trecho especifico, onde um pedestal estava com um microfone enfeitado de pérolas que deixava o objeto tão delicado, que parecia ter a capacidade de se quebrar a qualquer instante em que fosse tocado. No fundo do palco, se iniciou um show de fumaça que inundou o ambiente por completo e várias fotos do casal Grosjean mesclavam sobre a tela de fundo.
O salão estava em completo silêncio curtindo a expectativa do que estava para acontecer, os barulhos de saltos ecoaram e a imagem de Antonella se materializou totalmente deslumbrante com seu vestido vermelho que parecia feito sob medida para emoldurar seu corpo.

- Dedico essa música ao casal da noite. – As unhas pintadas de esmalte escuro destacavam nos tons claros do microfone. - Que o amor de vocês dure por toda a eternidade.

Dê play na música

Todos aplaudiram e então Antonella iniciou com uma nota em lá, seu timbre acalçando uma potência vocal incrível e a onomatopéia em forma de "Ihhhhhhhhhh" se sustentou por alguns segundos em perfeita afinação, arrancando aplausos dos presentes.
Ela iniciou com apenas um toque de piano baixo atrás de si, sua voz se exaltava puramente sobre o instrumento.

If I should stay
I would only be in your way
So I'll go, but I know
I'll think of you every step of the way


A cantora tinha os olhos fechados e parecia sentir a letra de sua música, ela chacoalhou a cabeça e aparentava narrar um conto de fadas dos mais belos devido a sua expressão delicada e apaixonada. Conforme as palavras iam tomando forma ela gesticulava com mão direita apresentando aos presentes sua história de amor.

And I will always love you
I will always love you
You, my darling, you


A voz de Antonella era indescritível, se existia pessoas predestinadas a fazer algo por vocação, ela se encaixava na categoria. Não parecia existir nada mais simbiótico que a voz dela.
Daniel sequer piscava, totalmente embasbacado com o show da companheira, parecia que quanto mais assistia ela se apresentar mais se surpreendia, não havia palavras na cabeça de Daniel para descrever a cena que seus olhos captavam.
Quando a mulher chegou à estrofe da música que falava sobre amar para sempre, com total propriedade e liberdade ela esticou o dedo indicador na direção da mesa em que o australiano se encontrava dedicando totalmente a estrofe a ele, que sorriu da maneira mais sincera que podia e levou a mão esquerda ao coração e mandou um beijo no ar para a esposa, estavam ambos se declarado através das notas musicais que eram jogavas no ambiente.

Bittersweet memories
That is all I'm taking with me
So goodbye, please, don't cry
We both know I'm not what you, you need


O ambiente da festa já era outro, casais estavam abraçados e cantavam emocionados uns para os outros. Romain Grosjean estavam com os braços em volta da cintura de sua amada esposa, a cabeça dela recostava em seu peito, o sorriso apaixonado repousava na face e os olhos estavam inchados de lágrimas de emoção por escutar o marido sussurrar cada uma daquelas palavras em seu ouvido.

And I will always love you
I will always love you, oh


Pierre entrelaçou seus dedos aos da namorada e levou as mãos unidas aos lábios, beijando o dorso da mão de Catherine e a moça lhe beijou nos lábios.

I hope life treats you kind
And I hope you'll have all you've dreamed of
And I wished you joy and happiness
But above all this, I wish you love


Antonella mais uma vez estava com os olhos fechados quando o saxofone iniciou um solo digno de concerto de músicas clássicas, jamais tinha visto algo daquela magnitude ao vivo, se não tivesse vendo com seus próprios olhos o estrago exuberante que era a potencia vocal daquela maldita italiana, não acreditaria se alguém lhe contasse.
O celular estava em sua mão gravando o momento quando vibrou anunciando a chegada de uma nova notificação, seus lábios se curvaram em um sorriso quando detectou o remetente da mensagem, parecia até irônico lhe mandar uma mensagem naquele momento.
Parou o que estava fazendo e abriu o conteúdo.

: Não aguentei e precisei vir correr, tomarei cuidado sim, pois quero estar viva para quando você chegar e me pagar a massagem que prometeu.

Preparou-se para responder, todavia o pulo que Daniel deu da cadeira o despertou para o que poderia estar havendo.
A banda cessou a melodia e por um breve milésimo teve silêncio. Antonella Cornello abriu os dois braços, jogou a cabeça para trás e abriu o sorriso mais doce e apaixonado que fazia com que qualquer ser humano desejasse receber um, quando abriu as íris castanhas de seu rosto, mais uma vez eles correram para se conectar com os de Ricciardo e então com toda propriedade e primor, soltou sua voz em um agudo que foi capaz de estremecer as barreiras sólidas daquela cidade.

And I will always love you
I will always love you
I will always love you
I will always love you
I will always love you
I, I will always love you, you


Daniel estava de pé aplaudindo Antonella e conforme ela emendava os agudos e notas o salão todo se colocou de pé, para honrar a brilhante cantora que aquela mulher se configurava.

Darling, I love you
I'll always, I'll always love you


- É minha mulher. Ela, a Antonella. Mulher. Minha. – Daniel cuspia palavras sem nexo olhando para todos ao seu redor e intercalando em bater no peito e aplaudir a amada. – Ela é demais. Maravilhosa. Minha. Mulher. É isso, minha. Antonella Ricciardo. É isso. Eu amo essa mulher.

xxx


O Ford Maverick foi ovacionado quando cruzou a linha vermelha na frente. estacionou no meio da multidão, soltou o volante, abaixou a parte de cima do encosto do assento do passageiro que escondia o NO2 que era seu auxilio para correr e escorregou para fora.
Como de costume várias pessoas surgiram com sorrisos querendo cumprimentá-la por mais esse feito da vitória, depois de vários minutos dando atenção e sorrindo para pessoas que ela não conhecia e somente faziam perguntas sobre as peças de seu carro, como conseguia controlar e chegar a linha de vitória, achou Talles.
O loiro estava com olhos azuis brilhantes pela luz do luar, o contraste da camisa preta com a pele branca era na medida perfeita para deixá-lo atraente.
Sorriu em cumprimento, porém o homem lhe abraçou entregando sorrateiramente um bolo de notas emboladas.

- Parabéns! – Exclamou ao vê-la separar várias notas para lhe entregar e só então guardou o restante no bolso da jaqueta de couro. – Obrigado pelo reconhecimento.
- Me tirou de casa e me arranjou uma ótima grana. – tirou um pouco do cabelo que caia no rosto devido à brisa. – Você me arruma bons negócios.
- Mas é claro, você vence todos eles. – O loiro riu e ao longe escutou seu nome ser gritado por alguém. – Preciso ir, é sempre bom te ver . – Levou a mão a testa como em um cumprimento de soldado e se retirou para onde a voz o chamava, era um rapaz de cabelos escuros que estava em meio a dois computadores expostos sobre o capô do carro. – O que foi brother?
- Dá para fazer mais uma linha de frente com quatro carros. - Avisou lhe mostrando no notebook, as avaliações da corrida de momentos antes.
- Como está a polícia? - Questionou buscando na tela a informação que precisava.
- Do outro lado da cidade. - Pontuou, o tom de voz carregado de orgulho pelo recente feito de conseguir detectar onde os caras da lei estariam no horário dos rachas, ninguém queria ser preso e condenado por estarem ali, por isso os homens que estavam na frente da organização se empenharam em um sistema de "hackear" para conseguir ter o controle da movimentação. O nome por trás daquele feito incrível era Paco Vleis, o gênio da tecnologia que mandava tão bem que era quase parte das peças do computador.
- Que se abram as apostas. - Talles tocou a mão do outro em um cumprimento só deles. - Esse momento é tão foda, que precisamos de um registro. - O loiro sacou o telefone, virando a posição da câmera na tela para configurar uma selfie, Paco se postou a seu lado e Talles após o registro fotográfico postou a imagem no Instagram .
- Vamos colocar a como piloto principal, rapidinho aparecem os desafiantes. - Sugeriu para Paco que assentiu voltando a trabalhar, enquanto Talles fazia o seu caminho reverso para onde havia deixando .

De longe já conseguiu enxergar que ela não estava sozinha, um homem alto e de cabelos cacheados conversava com ela de uma maneira que Talles nunca viu alguém falar, estavam extremamente próximos, estava com os ombros para baixo sem sua defesa automática e ele podia jurar que sua feição não era raivosa, como sempre acontecia quando algum homem se aproximava dela nas corridas.

. – Chamou e a moça olhou por sobre os ombros para ver o loiro.
- Oi Talles.

Talles sorriu e se postou ao lado dela, os braços cruzados sobre o peito que estava estufado em uma pose de macho alfa, cerrou os olhos para o homem que conversava com a amiga.

- Eu sou Talles, amigo da .
- Gian, acabei de conhecer a .

arqueou a sobrancelha e mordeu o lábio claramente segurando o riso.

- Você está estufando o peito? – Questionou – Meu Deus, por quê?
- Estou. – Afirmou sem tirar os olhos do homem em sua frente o encarando com os olhos mais sérios que conseguia. - Esse cara está te atrapalhando ? Se quiser eu posso... - o interrompeu quando fechou a cara e tocou seu rosto.
- Eu não preciso que me defenda Talles. - Suas sobrancelhas estavam erguidas - E ele não está me atrapalhando, na verdade nós até estávamos de saída.
- Não. - Talles retorquiu. - Tem mais um racha, quero te colocar na primeira posição na linha de frente. - Explicou, sabia que isso convenceria a não ir com aquele cara.
- Já deu por hoje, Talles. - sorriu e fechou a jaqueta de couro, tirando a chave do carro que estava no bolso da frente. - Nos vemos na próxima.
- Espera, você não vai correr para sair com um cara. - A expressão de incredulidade no rosto do Talles fez rir.
- Não. Eu não vou correr porque não estou com vontade, estou com vontade de ir para casa com Gian. E você está me atrapalhando. Tenha uma boa noite Talles.

Ela se afastou deixando Talles totalmente atônito para trás, sem acreditar que estava indo embora acompanhada para sua casa.
Jamais viu isso acontecer, geralmente ela não ficava após as corridas, ganhava, pegava o dinheiro e saia. A cena que estava vendo era inédita e se não estivesse vendo não acreditaria se contassem.

- Então, minha casa ou sua? - Ela questionou tomando o assento do motorista enquanto via o homem sentar ao seu lado.
- Podemos tomar alguma coisa antes, parar em algum lugar.
- Não. - Ela engatou a primeira marcha, após conferir no retrovisor arrancou o carro. - Não precisamos de rodeio.

Gian franziu o cenho observando , espantado era a palavra que descreveria seus sentimentos naquela situação.

- Você é bem direta ein?
- Eu sou uma mulher que sabe o que quer.

XXX


estava sentado na cadeira da mesa ainda no aniversário, encarando de forma intensa o celular à sua frente.
Ele observava a foto que estava em seu feed . Talles havia acabado de postar uma selfie com Paco, o registro fotográfico não tinha nada de demais. Os dois estavam lado a lado com sorriso abertos, mas o que havia captado sua atenção era no fundo acompanhada por um cara.

Acompanhada.
Acompanhada por um cara.
Acompanhada por um cara que tinha as mãos no braço dela.
Acompanhada por um cara que tinha as mãos no braço dela e essa estava sorrindo.

Ele mal havia tocado em nos dias que esteve presente e agora tinha um cara tocando nela com uma liberdade que desconhecia.
Na foto ele conseguia ver com clareza a imagem dos dois conversando – com toques - ao fundo. estava linda, deslumbrante e hipnotizante, da mesma forma que sempre estivera.
Da mesma forma que sempre fora. E acompanhada.
O cara que já odiava só pelo simples fato de estar tocando naquela mulher, ele tinha uma expressão vencedora, quase como se estivesse vendo - idiota - observar tão atentamente aquela foto.
O sorriso de parecia confirmar aquelas palavras que acreditava estarem sendo berradas em alto e bom som para ele por seu inconsciente, na tentativa que fazê-lo despertar daquele sonho idiota no qual tinha nos braços.
Ela nunca será sua, seu otário.
deu zoom, mas não conseguiria ver nada, não podia simplesmente enxergar a alma dela por uma foto para saber se ela estava mesmo com aquele cara e o que de fato aquela cena significava e ainda mais, o que aconteceu depois daquele momento?
Ele tinha medo daquela resposta.
Talles tinha feito stories, não sabia quantos ou qual o conteúdo, não tinha aberto nenhum deles e nem pretendia, estava lutando contra todas as suas forças para desligar a tela daquele celular e esquecer o que tinha visto e mais uma vez ignorar o que seu corpo estava demostrando.
Mas que merda de sentimento era aquele?
Será ciúmes? Não, absolutamente não.
Era inaceitável sentir ciúmes de uma mulher que não era dele, ainda mais se essa mulher fosse que era mais livre do que os pássaros voando pelo céu.

“Droga , deixa de ser estúpido” Brigou consigo mesmo querendo trazer um pouco de sanidade a sua mente.

- Você está se sentindo bem? - Antonella perguntou se aproximando de e se sentou ao seu lado.
- Sim. - Respondeu dando de ombros.

A cantora esticou o pescoço para observar mais de perto o que enxergava e encontrou a foto aberta na tela do celular, arqueou a sobrancelha e prendeu os lábios impedindo que qualquer barulho fosse emitido deles.

- Essa mulher mexe mesmo com você, só não quebra o celular, acho que ele não tem culpa da foto. – Ela falou e só então percebeu que apertava o telefone com mais força que o normal, os nós dos dedos ainda mais brancos que o normal afrouxou o aperto e colocou o celular sobre a mesa. – Você quer conversar sobre o que está sentindo?

olhou para a mulher ao seu lado, a expressão de Antonella era serena e nem um pouco maldosa e não parecia estar prestes a fazer qualquer piada com as quais estava acostumado a ouvir, entretanto optou por não falar, na cabeça dele era mais fácil para fingir que não estava acontecendo nada.

- Estou bem, não quero falar sobre nada.
- Tudo bem. – Ela deu de ombros. – Mas mesmo que não queira falar nada, preciso te dizer algo.
- O que foi?
- Se você quer essa mulher, lute por ela.
- Está me dando conselhos amorosos? É isso mesmo que estou entendendo? – Questionou com um sorriso surpreso nos lábios.
- Não, estou te dizendo o que eu gostaria que fizessem por mim. – Anto se aproximou mais de colocando a cabeça em seu ombro. – Olha meu marido. – Apontou o dedo para o piloto que dançava animadamente na pista. – Nos ficamos um dia juntos e dez separados, ele poderia escolher a mulher que quisesse, que estivesse disponível para ele, porém ele escolheu lutar pelo nosso amor e permanecer ao meu lado. Desistir nunca foi uma opção, tudo que vale a pena precisa ser conquistado com garra.

estava embasbacado com a fala dela, era tão verdadeira e parecia ter sido esculpida detalhadamente para encaixar com o que se passava em sua cabeça. não era uma mulher com quem gostaria de passar somente uma noite, queria entender e decifrar cada detalhe dela, diferente dos outros caras que se afastavam ao perceber o furação que ela era, o piloto estava doido para se jogar no meio e entender a bagunças que cuspia de cada célula de seu corpo.

- Você está certa. – Concordou. – Obrigado pelo conselho.
- Eu sei. Sou bonita, gostosa e psicóloga nas horas vagas. – Virou o resto do liquido em seu copo de uma vez só. – Mas obrigada é uma ova, vamos beber e descobrir quem bebe mais rápido uma garrafa de uísque.

Antonella levantou e saiu puxando pela mão até se encostarem no material frio do balcão onde Antonella fazia sinal ao garçom pedindo mais álcool, enquanto eram servidos, desligou sua mente e focou na garrafa que estava sendo colocada em sua frente.

- Isso é uma aposta. – Antonella voltou a falar. – Quem acabar primeiro ganha. – assentiu, precisava mesmo beber até cair e esquecer que outras mãos estavam tocando o corpo da mulher que desejava para si, se existia algo poderia trazer consolo a ele era ter a total certeza que além do corpo, sua cobiça era tocar a alma daquela mulher.

XXXX


estava com um mau jeito no pescoço e levou a mão direita ao local dolorido. Abriu os olhos devagar e sentou ainda sem se dar conta de onde estava, varreu o local procurando reconhecer, mas nada lhe era familiar.
Só quando olhou para o lado e viu Gian dormindo com um lençol sobre o corpo, que suas memórias voltaram e junto com elas sua sanidade. O homem ao seu lado tinha um sono aparentemente tranquilo e o achou ainda mais bonito que horas atrás quando se embolaram pelo chão do apartamento dele. Em seu relógio de pulso, marcavam quatro da manhã, não passaria a noite fora de sua casa, não confundia sexo com nada romântico e dormir abraçada na mesma cama era extrapolar seus limites.
Colocou se pé, não fazia ideia de onde suas roupas estavam, mas precisava achá-las e ir embora. Ela caminhou lentamente até o banheiro e viu que a bancada, onde continham cremes e perfumes estava toda bagunçada e desarrumada, ela riu a se lembrar da cena divertida do banheiro. Encarou-se no espelho e seu reflexo era um pesadelo. Seus olhos estavam manchados de maquiagem preta, seus lábios estavam tão vermelhos que pareciam machucados, o cabelo todo desgrenhado, mas a pior parte eram as marcas de chupões pelo pescoço, duas para ser mais exata.
Ela prendeu os cabelos em um coque frouxo e lavou o rosto com sabão, secando com a toalha, saiu pela casa pegando suas peças de roupa, cuidadosamente se vestiu, não queria acordar o homem.
Com os tênis em suas mãos, olhou o moreno ainda deitado no chão da sala, jogou um beijo no ar, em forma de agradecimento pela noite maravilhosa e saiu da casa.
Checou o celular enquanto pegava o elevador, algumas mensagem que poderia ver depois, entretanto uma chamou mais atenção, Antonella lhe enviara um vídeo e mesmo sem abrir ela conseguiu identificar nele.
Esperou estar sentada no banco do carro para abrir o vídeo, o ambiente demonstrado era uma festa e eles estavam em um pista de dança. A primeira coisa que percebeu foi como estava bonito com a camisa social branca e dava para ver que os primeiros botões estavam abertos mostrando que ele usava uma correntinha no pescoço, as mangas já estavam dobradas até o cotovelo de uma maneira que lhe deixava extremamente sexy.
A música que tocava no fundo também era conhecida aos tímpanos da mecânica era Not A Bad Thing do Justin Timberlake . estava abraçado com Antonella e Daniel Ricciardo, o sorriso aberto mostrava de leve as covinhas nas bochechas, na mão esquerda segurava um copo com o que imaginou ser Uísque, já que na outra mão estava a garrafa da bebida.

dançava animadamente ao som da música, fazendo passos exagerados e horrorosos ao lado do colega de profissão o que a fez soltar uma gargalhada alta que sumiu no exato momento em que a cantora focalizou somente em , ele cantava com os olhos fechados totalmente concentrado em colocar para fora todo sentimento que a letra lhe trazia, em determinado momento levou a mão que segurava o copo até o peito, encolhendo os dois braços em um abraço invisível.

I know people make promises all the time
Then they turn right around and break them
When someone cuts your heart open with a knife
Now you're bleeding
But I could be that guy to heal it over time
And I won't stop until you believe it
'Cause baby you're worth it so
Don't act like it's a bad thing
To fall in love with me
'Cause you might look around
And find your dreams come true, with me
Spend all your time and your money
Just to find out that my love was free


Após a última fala da música o registro se encerrou e a mensagem de Antonella logo abaixo fez o coração de palpitar não estava entendendo bulhufas do que estava acontecendo, não se lembrava da última vez que sentiu algo assim, era uma lembrança tão distante que o gosto que trazia em seu corpo não fazia sequer cocegas, mas com a letra cantada por e a mensagem escrita de Antonella parecia que uma voz gritou em seu ouvido e acendeu à luz do pisca alerta fazendo com que as batidas de seu coração, sempre calmo, tomassem uma proporção que era totalmente atípica.
Sabe a sensação de se afogar? Quando não consegue detectar exatamente qual o sentimento que predomina o momento? Quando as coisas se embaralham de uma forma descompassada e que é irritante, pelo fato que você não tem um pingo de controle sobre o acontecimento?
Era assim que se sentia. Completamente confusa com conseguir distinguir onde estava sua racionalidade.

“Antonella Cornello: Porque, querida, você vale a pena. Permita-se “

Xxx

acordou preguiçosamente às dez da manhã, aquilo era um luxo ao qual se deu o prazer de aproveitar, espreguiçando-se na cama e continuando deitada por mais uns bons vinte minutos.
Fechou os olhos, com um sorriso ao se recordar que era domingo, seu dia, e ficaria o dia inteiro jogada pelo sofá de casa bebendo cerveja e assistindo futebol, já que aquela semana não havia grande prêmio da fórmula um, o último fora na China e o próximo no Azerbaijão na semana seguinte, ou seja, tinha a tarde toda livre para assistir ao Mônaco futebol clube.
Chutou as cobertas, calçou o chinelo para seguir até a cozinha onde esquentou um copo de café com leite e pegou algumas bolachas recheadas para acompanhar; sentou-se no sofá de dois lugares simples de sua sala e ligou a TV, alguns segundos depois seu telefone tocou, no visor mostrava o nome de Mia.

- Alô.
- Estou cheias de coisas na mão, pode, por favor, abrir a porta.
- Que porta? - indagou sem entender, como ela queria que a mesma abrisse a porta da casa dela, sem estar lá?
- Da sua casa mulher. - Mia esbravejou e levantou, andou até a porta, encaixou a chave para então destrancar e a abrir a mesma.

Mia estava realmente em sua porta, com sacolas de compras em mão, Sarah estava ao seu lado segurando uma casquinha de sorvete e sua blusa rosa toda suja do liquido branco. - Oi.
Mia entrou em casa e imediatamente soltou as sacolas sobre a mesa da cozinha, Sarah sorriu para e sentou no sofá a morena observou com cuidado a cena, e um tanto perplexa deve-se admitir, era uma intimidade que ela estava acostumada com suas amigas, mas que sempre era surpreendente.

- Vem cá. O que vocês estão fazendo aqui? Só para eu saber mesmo.
- Eu só trouxe algumas coisas que a Sarah gosta de comer, a Leah já as deixou comigo, para você não ter muito trabalho e as roupas estão nessa mochila - Mia tirou dos ombros a mochila e seu rosto de alivio assustou ;

Como assim? Mia estava de mudança para sua casa? E porque Sarah estava com ela?

- Ok. - Disse com voz arrastada - Mas por que... exatamente?
- Tia - Sarah chamou e a mecânica desviou o olhar para a pequenina - A gente vai poder assistir filme antes de dormir?

E então sua ficha caiu.
No dia anterior no almoço, Leah disse que tinha um cliente fora da cidade e voltaria somente na segunda de manha e pediu que as amigas ficassem com Sarah. Mia ficou com ela no sábado e disse que passaria o domingo tomando conta da menina.

- Você tinha esquecido não é? - sorriu derrotada
- Totalmente.
- Não posso fazer nada por você. - Mia deu um sorriso aberto e então beijou a bochecha da garotinha. - Tenham um bom dia.

E da mesma forma como entrou, a atriz saiu, rápido e sem deixar falar qualquer coisa.

- Tia - A mecânica respirou fundo e se aproximou da pequena. Sarah olhou para a tia com um bico enorme. - A mamãe sempre me leva nos brinquedos final de semana. - Ela cruzou os bracinhos - Mas a tia Mia disse que ontem era sábado, que tinha que ser hoje e que você ia me levar.

sentiu os olhos pularem de rosto;

- Que brinquedos Sarah?
- No parque - A menina escorregou do sofá e correu até a mochila rosa que Mia disse que estava com suas roupas, um sorriso divertido cruzou os lábios de ao perceber que Sarah queria lhe mostrar do que falava, e ao achar o procurava a loirinha voltou com cartão em mãos entregando a mecânica. - Eu gosto de ir nesse.

analisou o cartão em suas mãos da zigzag play e sorriu.

- Está bem então tampinha.- Lhe beijou a cabeça. - Vamos para o parque.
- EBAAAAAAAAAAAAA.

Sarah corria em círculos com os braços abertos e tapou os ouvidos em meio a gargalhadas; era divertido ter Sarah por perto.

XXX


terminou de secar os cabelos de Sarah e ajudou-a a escolher uma roupa e sapatos para ficarem em casa no resto de tarde após o parque e também não tinha lição de casa para fazer, Amélie já tinha a ajudado nessa parte. As duas resolveram que a melhor forma para passar o resto da tarde seria brincando de Barbie Veterinária e Sarah já estava havia meia hora desenvolvendo o enredo da brincadeira.

- Nós somos irmãs. – ela dizia, enquanto erguia os braços para ajudar a colocar seu vestido – E eu sou a mais velha, está bem? E eu sou veterinária e você é minha ajudante. Eu cuido dos gatos e você dos cachorros. O elefante é o mais legal, então a gente pode alternar, uma hora eu cuido do elefante e outra hora você cuida dele. O que acha?
teve que se controlar para não sorrir.
- Acho que você pode cuidar do elefante sozinha, eu gosto muito de cachorros – disse, piscando um dos olhos com cumplicidade.
Sarah arregalou os olhos verdes, maravilhada.
- Você é a pessoa mais legal do universo. - ela suspirou.

riu e ajeitou a camisola azul da Barbie que a garotinha dormiria mais tarde prontamente, ela sentou-se em sua cama, para encarar e se pronunciar novamente.

- Tia , estou com saudades da minha mãe. – A expressão de Sarah mudou de repente para uma carinha triste.
- Eu sei amor. - Deitou-se em sua cama e abraçou Sarah com firmeza. – Mas a sua mãe chega amanhã, você sabe não é?
- Sim, ela disse que ficaria 3 dias viajando. Ia dia 19 e voltava dia 21. – achou graça da maneira como Sarah decorou as datas e contou os números pela ilustrar a data em que sua mãe estaria fora.
- Amanhã já é 21.
- Tia . – Mais uma vez Sarah chamou, sentou-se na cama para segurar a mão da tia. – Você tem mãe?

franziu o cenho com a pergunta e analisou as palavras que sairiam de sua boca.

- Sim. Todo mundo precisa de uma mãe para nascer.
- Por que eu não conheço sua mãe tia ? - fechou os olhos, puxou a menininha novamente para seu colo e sentiu o cheiro floral do cabelo da afilhada; seu coração se comprimiu ao pensar naquele assunto que detestava falar, mulher que se dizia sua mãe.
- Ela mora muito longe, por isso nunca a viu.
- Nossa, e você não sente falta dela? – Ela engoliu em seco, antes de falar organizando todas as palavras descabidas que surgiram em sua cabeça para nomear a progenitora.

Demorou um tempo para que manejasse tudo que sentiu e somente abriu a boca minutos depois.

- Não como você sente da sua. – Disse e não esperou que Sarah fizesse mais perguntas. – Agora vamos logo para a cozinha comer e depois brincar mais um pouco.
- Sim. – Sarah desceu da cama. – Como eu estava falando, primeiro eu serei a veterinária depois podemos revezar, mas só se você for uma boa menina e me deixar comer uma pizza.

levou um chute na costela e caiu da cama.
Passou a mão nos cabelos impaciente, queria consegui conter Sarah já que ela se apropriava de todo espaço possível e impossível da cama, porém a meninas era somente uma garotinha e não tinha a menor condição de exigir dela qualquer tipo de comportamento.
Bufou indignada e se levantou, procurou os chinelos pelo quarto e os colocou nos pés, agora que estava acordada não voltaria mais a dormir, saiu do quarto procurando a cozinha, se deu conta que estava com fome, ou que precisava de uma cerveja, talvez as duas coisas.
Ao passar pela sala seus olhos bateram na fotografia na estante, sabia exatamente como era já tinha a reparado mais de mil vezes, mas seus olhos não desviaram de Dom, os cabelos escuros brilhantes, os olhos claros sempre tão lindos e o sorriso que parecia ter a luz do sol, sentiria muita falta dele e já estava cansada disso, ultimamente só pedia que recebesse um sinal divino sobre a posição em que sua vida se encontrava: totalmente estagnada.
Precisava encontrar urgentemente uma estratégia para não andar mais em círculos e não chegar em lugar nenhum, precisava remover os pesos que pareciam segurar seu corpo no exato lugar em que tudo desmoronou em sua vida.

Dê play nessa música

E como se tudo já não estivesse ruim o suficiente Sarah hoje levantou das profundezas pessoas e sentimentos que não gostava de recordar.
Laviolette.
A mulher que tinha lhe dado à luz, destroçado seu coração ao partir sem dizer adeus. Era catastrófico como seu pai havia ficado nos dias que se seguiram, odiou aquela mulher e desde o dia em que percebeu que ela não voltaria decidiu que ela não se importava mais.
Era tão fácil falar e tentar acreditar que realmente queria esquecer sua mãe, mas não se esqueceu dela, a mesma ainda permanecia viva em seu inconsciente esperando o momento para ser liberada e o gatilho havia sido dado.
abriu o congelador pegou uma garrafa de corona, no armário da cozinha pescou um pacote de macaroon e caminhou até a sacada de sua casa, depositou as coisas em cima da mureta e escorou o corpo, tomou um impulso com as duas mãos se puxando para cima, arrastou o corpo até a parede e descansou suas costas, vendo como a madrugada estava bonita, os ventos balançaram seus cabelos e arrepiaram os pelos de seu corpo que estava descobertos pelo pijama curto.
Destampou com a garrafa nos dentes, abriu o pacote e mordeu um pedaço do biscoito sentindo seu paladar agradecer pela maravilha daquele biscoito doce, por cima tomou um longo gole da cerveja amarga, o gosto das substâncias opostas em sua goela era exatamente a externalização da bagunça que se passada em seu peito.
Sua mãe era o assunto que proibiu qualquer pessoa de falar, era aquele que não deve ser nomeado* porque a dor que a invadia era insuportável, pensar que a pessoa que mais deveria amá-la, e colocá-la em prioridade total foi a primeira que deu as costas, que agiu como se sua existência não significasse nada, não se preocupando com o estrago que sua partida causaria em sua vida, em como seria levantar todos os dia sabendo que ela amou outra coisa mais do que a própria filha e foi naquele exato momento que o coração de foi esmagado pelas mais dolorosas mãos do luto que a impediram prosseguir.
Depois que sua mãe a abandonou sem lhe explicar o motivo pessoalmente ela nunca mais foi a mesma, se hoje ela não confiava nas pessoas tudo começou por sua mãe, se hoje não andava longe de seu autocontrole era por causa dela, a dor que Laviolette lhe proporcionou foi o motivo que a fez não confiar em ninguém, sempre jogava do lado seguro emocionalmente, sem correr riscos, sem se importar mais com os outros e menos consigo mesma, por ela que se afundou em um poço completamente agonizante.
Pouco depois, tentou se levantar contando com a ajuda de seu pai e amigas, abriu seu coração novamente e então novamente sangrou sobre machucados que não estavam cicatrizados ainda, e então escolher a si mesma de uma vez por todas, jamais deixaria mais alguém feri-la. As pessoas falam tanto sobre o amor, mas não sabem amar e estava cansada demais para acreditar de novo.
Ali naquela sacada, sobre a luz das estrelas, com a cerveja preferida de seu pai em mãos sentiu o peito rodar dentro de si, gritando no vazio de sua alma solitária ela chorou com gemidos inexprimíveis. Chorou por seu pai, chorou pela saudade, chorou por sua mãe, chorou pelas facas que dia após dia cortavam todo seu corpo, chorou por não acreditar mais no amor, chorou pela barreira que estava ao seu redor, era doloroso afastar as pessoas, porém não deixaria que ninguém entrasse em seu mundo somente para fazê-la sangrar.
Não mais. Nunca mais.

XXXX


Era quarta feira.
E aquela manhã em Mônaco estava tão linda que parecia uma pintura de um grande artista barroco, um céu de brigadeiro tão desenhado que podia jurar que parecia uma conspiração de seres divinos para bordar aquele dia, era uma dádiva apreciar como as nuvens faziam um casamento perfeito com a moldura do sol e os desenhos das sombras sobre as ruas perfeitas.
estava deitada debaixo de um carro na oficina, ela fazia uma revisão, e daqui algumas horas precisaria entregar o carro, sentia-se profundamente exausta, mais cansada do que jamais se sentira na vida. Uma intensa energia a manteve alerta desde que deixou o racha no final de semana anterior e depois acabou na cama de Gian, mas agora essa energia já a tinha abandonado, se esgotado e só restava uma sensação sombria de cansaço.
Aquele dia estava estonteante e raro e acordou com o peito apertado em saudades do pai e quando olhava aquele céu podia quase sentir a presença corporal dele no ambiente, algumas lágrimas teimavam em escapar de suas órbitas mesmo que insistisse em secar, seu sistema nervoso era pirracento e não obedecia e por alguns segundos fechou os olhos para controlar sua respiração, o silêncio brindava seus ouvidos permitindo contar mentalmente as batidas de seu coração, entretanto barulhos de salto ecoaram no vácuo da oficina tomando a atenção da mecânica, deslizou o corpo para fora e seus olharam encontraram a visitante.
Uma mulher de cabelos castanhos e bem alta. Ela usava um vestido verde e grandes óculos escuros, uma bolsa preta estava presa entre os dedos na mão direita, e na outra mão um pacote com algumas garrafas de cerveja, o batom vermelho desenhava seus lábios e nos pés um scarpin tão alto que sentiu seus pés reclamarem nos tênis que usava só de se imaginar com sapatos daquele.

- Posso ajudar? – Questionou pegando o pano detrás do short e limpando as mãos. A mulher sorriu arrancando os óculos do rosto.
- Bom dia. – Seu tom de voz era doce, detectou uma leveza digna de princesas. – Eu gostaria de ver o Dom, ele está?

Foi como um soco na boca do estômago. O sol refletiu nos cabelos de quando ela abaixou a cabeça, para evitar que a mulher percebesse a expressão que cruzou seu rosto, puramente dor.
A dor é um sentimento angustiante.
Por ser um fenômeno complexo e subjetivo, defini-la tem sido um desafio, a dor motiva o indivíduo a se retirar de situações prejudiciais, a proteger uma parte do corpo danificada enquanto cura e a evitar experiências semelhantes no futuro.
Esses termos são dados quando se trata de algo corporal, mas quando é dor na alma tudo se torna totalmente ao contrário.
Um julgamento sobre o valor da dor é dado pelo filósofo alemão Friedrich Nietzsche, que escreveu: "Somente a grande dor é o libertador final do espírito... Eu duvido que tal dor nos torne melhores, mas eu sei que isso nos faz mais profundos".
É impossível distinguir a sua experiência.

- Ele faleceu já tem um tempo. – Virou-se de costas para a mulher, seus mecanismos de defesa estavam alarmados ao máximo.
- Desculpe? – A expressão dela endureceu de repente.
- Isso mesmo. Acidente de carro, faz alguns meses.
- Faleceu? Isso não pode ser verdade. Como eu não fiquei sabendo? Isso não pode ser verdade. – O tom de voz da mulher fez virar-se para ela a tempo de presenciar a cena dos olhos marejados recém-descobertos pelos óculos caro. - Por que eu não soube disso? - Por instinto Louise se apoiou no carro mais próximo, seus joelhos reclamaram de acordo com o baque da notícia e a sacola em sua mão caiu, devido a fraqueza que subitamente se apossou de seus músculos.
- Você está chorando? – Questionou curiosa e então se aproximou novamente para observar a face da outra, os traços a lembravam alguém, se esforçou para buscar algo no fundo de sua memória e quando estava perto o suficiente para quase tocá-la algo ecoou em sua mente.

Um pacote de macarons. Uma barra de chocolate hershey's. Uma noite de carteado com seu pai e o tio Tony e aquela que estava diante de seus olhos.

- Por que ninguém me disse? Por que eu não soube da morte dele?
- Quem é você mesmo? Tem tanto tempo que não te vejo, que sequer me lembro seu nome. Qual foi a última vez que visitou meu pai? - cuspiu as palavras de forma irritada, ela não poderia chegar à oficina e afrontá-la daquela forma como fosse obrigada a comunicar às pessoas sobre a morte de seu pai.
- Louise. Louise Render. - A mulher balançou a cabeça, parecia confusa.- Eu...quem é você? Eu estive aqui, há mais de um ano...eu… - A mais velha titubeou, sabia que tinha sido uma amiga relapsa, mas não ter tido a chance sequer de se despedir partia seu coração.
- Render. Como meu tio Tony. - chacoalhou a cabeça. - Louise, agora tudo faz sentido, eu me lembro. Pois bem, Louise Render, um ano é muito tempo. Ele morreu tem seis meses. - Ela permanecia seca e fria, mas sentiu o pingo de nostalgia no coração ao constatar que a tristeza da mulher era real. - Eu sou .
- ? A garotinha do Dom? Aquela ? - Louise fitou a garota, surpresa.

não conteve o sorriso, a garotinha do Dom. Fazia tempos que não ouvia ser chamada assim, geralmente era assim que seu pai a chamava, a garotinha do papai.

- Sim, sou. Mas não mais uma garotinha.

A mais velha deu dois passos rápidos em direção a , no impulso de abraça-la, porém se conteve e recuou.

- Eu lamento muito, por tudo. Um dia você vê o mundo desmoronar e então todos os dias antes de dormir pensa que tem que consertar, mas sempre escolhe deixar para amanhã. Amanhã eu me mudo, amanhã eu resolvo isso, amanhã eu o visito... mas eu não estava preparada para não ter mais o amanhã. Sinto muito, de verdade. Nós deveríamos…eu deveria ter estado aqui, ter sido mais presente.
- Não peça desculpas por algo que não pode voltar atrás e fazer diferente. - Disse e seus olhos bateram na sacola de cerveja pelo chão, sempre que os amigos de seu pai apareciam na oficina levavam cerveja, era uma exigência de Dom, sem cerveja não entra.
- Você tem razão. - Louise assentiu envergonhada. - Eu sinto muito, . Estou sendo sincera. - Louise ajeitou a bolsa no antebraço. - Acho melhor eu ir, você deve estar ocupada. - Louise acenou com a cabeça e se direcionou a tão conhecida porta da oficina.
- Você trouxe a cerveja que ele sempre exigia. - Constatou para si mesma, ao ver os cascos das garrafas de corona. - Não se desperdiça cerveja, Louise. - Pegou as garrafas, desenroscou a tampa, e tomou um gole do líquido. - Devia beber comigo.

Louise analisou a garota com uma sobrancelha arqueada, inclinou a cabeça, deixou que a bolsa escorresse até o chão e envolveu em um abraço impulsivo.
ficou estática dentro do abraço, se questionando que merda aquela mulher estava fazendo? Ela não esboçou qualquer reação, mas ao sentir os braços de Louise apertarem mais seu corpo, ela entendeu.
Louise sentia por seu pai, sentia por não ter estado por perto e relaxou a postura, seus músculos reconheceram o toque da mulher que um dia a segurou no colo lhe entregando doces e barras de chocolate.

- Você está me sufocando, preciso respirar. Me solte.- Louise, porém não se importou, não era uma mulher de aceitar qualquer tipo de comando.
- Eu sinto muito, minha querida. Sinto tanto… - Louise sussurrou apertando o abraço.
- Eu entendo que gostaria de saber. - murmurou sentindo o coração aquecer. - Eu não pude contar para todos, não tive forças para espalhar a notícia e ter que abraçar e cumprimentar a todos, eu realmente não suportei. E eu não vou pedir desculpas por ter feito o que achei certo, mas eu sinto por você não ter podido se despedir.
- Eu entendo. - Louise se afastou um pouco de e segurou seu rosto com as mãos. - Está tudo bem. Você cresceu, cresceu muito, me deixei te ver melhor. - Louise sorriu se afastando um pouco mais da mais nova.
- Eu cresci, você pode, por favor, me soltar. - Pediu com toda calma, não estava acostumada com toques, ainda mais o que eram carregados de emoção e que não vinham de suas amigas. - Você fala como meu tio Tony, Deus.

Chacoalhou os ombros como se espantasse um fantasma.

- Me desculpe, eu me empolguei. - Louise sorriu tristemente. - E você, tem os mesmos olhos do seu pai, o mesmo olhar agitado.
- Sempre escutei muito isso. - Comentou. - Agora beba logo essa cerveja, é uma afronta não beber corona na oficina de Dom.
- Vá com calma, passarinho. - Louise tocou o braço de e bebeu um pouco de sua cerveja, enquanto procurava um lugar para se sentar. - Você costumava ser um pouco mais dócil. Ainda como um filhote de leão, mas um pouco mais dócil.

rolou os olhos, completamente desacreditada do que estava ouvindo, Louise a estava comparando com uma garota de 16 anos atrás, naquela época não esperava viver um terço do que já tinha encarado.

- A vida costuma acontecer e modificar algumas coisas, você melhor do que ninguém deve saber e entender, o que tira o brilho dos olhos e a doçura das pessoas. - Encarou a mais velha bebendo mais um pouco de cerveja, os dedos estavam firmes sobre a garrafa como se precisasse fazer força para não despejar a enxurrada de sentimentos que aquela mulher trazia consigo.
- Eu sei. Entendo perfeitamente. - Louise tomou um longo gole de sua cerveja e correu os olhos por toda oficina. - Cada centímetro dessas paredes estão cheias de lembranças de uma Louise que eu fui, mas que infelizmente não posso mais ser. Eu gostaria de dizer que existe um caminho, que existe um jeito, mas seria mentira. - Louise sorriu fitando a mais nova. - Mas eu aprendi que por pior que as coisas sejam, nada no mundo muda quem nós somos por dentro.
- Então se isso é verdade, talvez aquela que você conheceu correndo por essa oficina com as mãos sujas de graxa, não se perdeu completamente, o fantasma dela deve viver nessas paredes. - Imitou o movimento de Louise e observou a oficina. - Eu não acredito nisso, acho que existem partes da nossa alma que se vão e jamais voltam.
- Estão sim, é óbvio. - Louise riu. - Ou você está querendo me dizer que quando olha para aquele canto da oficina não se lembra de todas as vezes que o Tony te subornou com chocolates? Ou quando olha para esse canto, não se lembra de todas as vezes que ficávamos aqui assistindo seu pai trabalhar. Aquela cresceu, mas ela ainda está aqui, está nas memórias, no espírito desse lugar. - Louise voltou a encarar o espaço. - Essa oficina é um lugar sagrado, lugares como esse costumam manter certas coisas.
- Claro que me lembro. inclusive já ganhei muitos doces para falar bem do Tony para você. - sorriu ao ver Louise fazer o mesmo movimento. - Eu sou a , mas aquela que você conheceu realmente só vive nas memórias desse lugar sagrado, junto com as lembranças do quanto fomos felizes. - Evitou olhar mais o lugar quando percebeu que seus olhos estavam pulsando, não iria chorar.
- Um dia, a dor toma outro lugar. Ela nunca passa ou desaparece, mas toma outro lugar e quando esse momento chegar você vai perceber que tem mais daquela criança do que imagina. - Louise sorriu com a expressão fechada da outra. - E acredite em mim, sei bem do que estou falando. Acho que perder um irmão afogado, uma mãe pra depressão, um pai para o câncer e um marido fazem de mim alguém bem experiente no assunto.
- Pode até ser. - Deu de ombros. - Mas não estou esperando que mude, eu tento continuar vivendo. Mas como você mesmo disse, tem mais experiência, talvez ser abandonada pela mãe, ver o pai morrer dentro de um carro e ser constantemente ferida por seres humanos, não me dão uma cota tão alta como a sua, todavia eu só escolhi não acreditar mesmo. O que acha de mais uma cerveja? Essa conversa está me deixando para baixo. - Andou rapidamente até onde tinham as outras garrafas, pegou uma para si e outra para a mais velha, logo já estava sentada novamente.
- Você ainda é a mesma garotinha teimosa e que sempre falava as coisas mais erradas nas situações mais embaraçosas, não que essa seja uma situação errada. Só me lembrei da teimosia. - Louise riu e buscou sua bolsa. - Eu aposto que ainda não resiste a isso. - A mais velha arqueou as sobrancelhas enquanto oferecia chocolates a . - Eu sempre tenho em mão, nunca se sabe quando vai ser preciso subornar alguém.

Os olhos de arregalaram e ela tocou na barra um pouco receosa, como se fosse possível levar um choque ou algo parecido, e foi exatamente o que aconteceu uma descarga emocional apoderou-se dela e mesmo com todas as suas forças não conseguiu impedir que uma lágrima escapasse.

- Ele me acostumou mal. - Ela soltou a cerveja para abrir o doce. - Sempre chegava com o sorriso aberto, com muitos chocolates e sempre largava os papéis jogados pela oficina, meu pai ficava irritado e sempre fazia o Tony lhe pagar com cervejas. - Finalmente mordeu o doce, adorando a sensação de misturar com a cerveja, era uma de suas combinações preferidas.
- Sabia que ele ficou diabético? - Louise indagou. - Ele espalhava isso por todo lugar. Encontrei embalagens de doces no carro que ele estava montando, esse ano. - Louise balançou a cabeça.
- Pelo menos morreu em um carros e não de diabete, eles teriam odiado partir de outro modo.
- Eu disse ao seu pai. – Os olhos de ambas se cruzaram e conversaram entre si, totalmente carregados de emoções fortes e dolorosas, capaz de se entenderem sem que sílabas fossem pronunciadas. – Que ele não devia continuar correndo, Tony quis parar e nós não o escutamos e então ele partiu deixando sua família para trás. Eu disse ao Dominique que ele não podia seguir o mesmo caminho e deixar a família, ele riu e disse: Minha garota saberia se virar sem mim e se eu morrer no meu Opala, morrerei completamente feliz. - Dom e Tony devem estar juntos agora. – Comentou se livrando da bolsa mais uma vez e colocando no chão da oficina. A mulher caminhou graciosamente até o carro mais perto escorando o corpo e depositando o peso sobre os saltos. – Eles devem estar rindo de mim por chorar e por só descobrir sobre o Dom agora enquanto tomam cerveja e falam besteiras em forma de piadas.
- Com certeza estão. – Balançou a cabeça. – Eles viviam rindo e se divertindo como se fosse o último disse de suas vidas, e um dia foi.

Louise desviou seus olhos para olhar a mais nova uma menina de aparência tão frágil que parecia feita de vidro, a rigidez da expressão se dissolvendo lentamente em uma incerteza experimental a medida que suas palavras emitiam sentimentos.
Se lembrava de Tony e Louise. Tio Tony era um dos melhores amigos de seu pai e compartilhava com ele o gosto pela velocidade, cerveja e o amor pela família. Tony Render era americano e piloto de Fórmula Um, um dos melhores que já existiram até sua morte prematura há alguns anos atrás. Louise era comentarista de Fórmula Um e jornalista, quando começou a se relacionar com o piloto, os dois pareciam morar na oficina.
se lembrava de testemunhar o primeiro beijo do casal, se lembrava das implicâncias divertidas entre os dois, se lembrava também de como Tony havia ficado sem graça e triste durante os anos que estiveram separados. Agora, depois de tanto tempo, Louise surgia de novo em sua vida, trazendo aquele oceano de lembranças e sentimentos de uma época que não voltava mais.

- Meu pai chorou tanto a morte do tio Tony, eu não vi ficar tão destroçado desde aquela mulher, talvez tenha sofrido até mais. - Ela olhou para Louise, esperando vê-la piscar surpresa ou magoada, mas ela apenas esboçou um sorriso, como se fosse um filhote de gato que tentava mordê-la.
- Seria como o Tony lidaria, se acaso seu pai tivesse ido primeiro. - Louise suspirou.

prendeu a respiração, com medo de se mexer. Tinha a sensação de estar testemunhando algo muito importante, apesar de não conseguir dizer o quê.

- Ele vivia chamando vocês de casal RR. – Depois de alguns segundos comentou, sentindo os ombros relaxarem mediante a presença de Louise. A postura de Louise era séria e dura sinal de força exposta, e podia imaginar tudo que a mulher passou e suportou para conseguir ser respeitada, a viúva ainda não sabia, mas tinha conquistado por completo o respeito e admiração de .

A mais velha por outro lado estava entupida de compaixão, sabia na pele cada mísero segundo de dor insuportável que sentiu nos últimos tempos. Quando perdeu seu marido parte de si foi com ele quando este se foi, um pedaço arrancado do coração de Louise e enterrado entre os ossos sussurrantes de amor de Tony. Ela se preocupou nos primeiros meses após o enterro, temeu que não fosse se recuperar, que fosse ser eternamente uma espécie de fantasma, vagando pela casa, sem comer, sempre virando para falar com alguém que não estava ali, a luz do rosto se apagando ao se lembrar de e se calar.

- Sim, ele vivia caçoando dos nossos sobrenomes. Inclusive – Sua voz estralou de maneira divertida, como se acabasse de se lembrar de algo hilário. – Seu pai abriu uma cerveja no funeral de Tony, para homenageá-lo. Me lembro do olhar das pessoas, como se ele fosse algum louco, mas naquele momento eu percebi...Tony era a pessoa mais linda do mundo, talvez seria mais digno festejar a chance de ter convivido com ele. Dom sabia disso, ele sabia que onde quer que Tony estivesse, ele com certeza estaria dando aquele sorriso cúmplice que sempre tinha no rosto quando os dois estavam juntos. - concordou e com poucos passos estava encostada ao lado de Louise no carro.
- Nós estávamos no autódromo. – A mecânica alcançou a correntinha no pescoço; um gesto familiar e habitual, que buscava conforto, sempre que precisava se lembrar de algo doloroso. – Quando tio Tony morreu. – Começou e naquele momento as duas perceberam que estavam trocando experiências de pessoas que amaram e perderam. – Aquela curva três*, para quem corre é considerada “A curva dos sonhos”, pois todo piloto que passa por ela com clareza e firmeza marca a história. Senna, Prost, Schumacher, Niki, Render, todos eles tinham em comum o amor por essa curva, era como testar as habilidades e transpor todos os muros de dificuldade para a vitória.

Se entre olharam com sorrisos.

- Ele sempre ficava em êxtase quando fazia aquela curva perfeita, foi até irônico morrer nela. Mas acho que se ele tivesse que escolher um lugar para morrer, se não fosse em uma praia, seria nas pistas em Mônaco. - Ela não conseguiu interpretar sua voz, estava distante, tão lisa e fria quanto uma pedra.

Louise engoliu em seco, sentindo na língua a amargura da tisana que lhe deu. Um turbilhão de lembranças, a escuridão sob o autódromo, a cidade em sob total caos, os braços de Tony envolvendo-a... era uma catástrofe

- Eu sinto muito pela sua perda, ele foi um grande homem. E até hoje espalha frutos e encanta as pessoas. - Um pouco de cor tingiu a voz de havia paixão ali, sob aquele desapego frio da dor da morte.
- Parece o meu discurso para o Dominique. – Ela sorriu – É triste como eles se foram cedo, cheios de vida e talento.

estremeceu e observou a oficina. De todos os lugares, a oficina de carros era a que mais associava ao pai — exceto pelo quarto dele, que tinha sido destituído dos pertences do mentor, e agora era somente um quarto vazio. via os dois em sua mente, seu sentado em sua poltrona preferida, a garrafa de corona em mão e cartas na outra, ele ensinava a jogar um jogo de cartas com um baralho e os dois se divertiam e riam da maneira descoordenada como ela não conseguia aprender o jogo.

- Como você o conheceu? Digo, meu pai. - Como um eco de seus pensamentos foi o que a voz de pareceu.

Louise pigarreou antes de falar, um barulho de celular soou pelo recinto e logo perceberam que vinha da bolsa da jornalista, todavia a dona do aparelho ignorou o chamado.

- Há muitos anos, eu ainda detestava o Tony. Fiquei sem bateria e ele insistiu em me apresentar a melhor oficina do mundo. Bem naquele dia em que eu conheci você e ele te comprou com doces para falar bem dele para mim. Depois disso, nós nos aproximamos, como você deve se lembrar. Além disso, eu sempre buscava Tony aqui quando ele queria espairecer. – Louise correu os olhos de maneira saudosa pela oficina e sorriu. - Ele era brilhante nos carros, inclusive vim pedir ajuda dele mais uma vez.

sorriu orgulhosa com o elogio, como sempre fazia. E foi incapaz de dizer algo, quando o barulho que vinha do telefone de Louise cessou, o silêncio voltou a instaurar pela oficina.

- Como estão as coisas? Está trabalhando aqui agora, pelo que pude notar. - Louise questionou curiosa.
- Estou. - Afirmou com a cabeça. - Meu pai me deixou tudo, a oficina, todo o dinheiro que tinha no banco, a casa, os carros. - Suspirou sentida. - Eu não tinha para onde correr e não queria, meu lugar sempre foi esse. Aqui é minha casa. - Mordeu um pedaço do chocolate Hershey's era um de seus favoritos, e fora Tony quem lhe apresentou o sabor da marca americana.
- Você está bem aqui? Fazendo isso? - Louise inclinou a cabeça. - Vai continuar tocando o negócio da família? - perguntou sorrindo.
- É tudo que resta da minha família. - Abaixou os olhos fitando o chão. - Eu amo estar aqui, confesso que às vezes sinto vontade de procurar outros ares, mas não consigo fugir dos carros, meu pai está impregnado em cada peça daquele Opala. - Apontou o carro que ficava constantemente na oficina, era como um troféu. - Dizem que as pessoas nascem com um propósito, seja qual for o meu, está ligado a essa profissão.
- Já pensou na Fórmula Um? - Louise suspirou, parecia distraída por seus próprios pensamentos.
- Que irônico, parece que coisas e pessoas ligadas a fórmula Um me perseguem. - Pensou alto quando seu inconsciente automaticamente a lembrou de . - É possível sujar as mãos na fórmula Um? Pois qual a graça de se estar no meio de carros velozes e não trabalhar neles? - Arqueou a sobrancelha enquanto observava a expressão de Louise estava totalmente relaxada e confortável na oficina, como se estivesse na própria casa.
- Quem mais da Fórmula um está te perseguindo? - Louise questionou com uma expressão divertida, seus olhos cintilavam de curiosidade. - Não está saindo com algum piloto, está? Ou quem sabe algum engenheiro ou mecânico?
- Quem é você, minha mãe? - sorriu divertida, seu objetivo era não responder qualquer pergunta.

Louise abriu a boca chocada e gargalhou como não fazia há tempos.

- Você está! Quem é ele ? Eu o conheço? - Louise deu de ombros. - Devo conhecer, conheço todo mundo lá. Vamos, não adianta se esquivar, me diga. - Insistiu cutucando a cintura da mais nova.
- Você se encontrou com alguma das minhas amigas? Pois está parecendo elas, me enchendo de perguntas sobre , eu já cansei de responder que não quero nada, nem com ele, nem com ninguém, mas que saco. - Desabafou nervosa. tinha feito algum tipo de feitiço para todo mundo que se aproximasse dela, arrumasse um jeito de trazer ele para a conversa, suas amigas, Antonella, e agora até Louise, mas que merda!

Onde está o botão para deletar aquele maldito corredor de suas conversas?

- Eu não acredito! - Louise jogou a cabeça para trás e riu tão alto que Anthony poderia ter a escutado. - é um doce, ele é sempre muito gentil e simpático. Sem mencionar a beleza, vocês devem fazer um casal bonito. - Louise tocou a barriga, tentando se recuperar depois do ataque de risos que há muito tempo não a tomava. - Você me faz lembrar de mim quando tinha mais ou menos a sua idade. Eu neguei por mais de um ano, fugi o máximo que consegui e olha só o que resultou…- Louise ergueu a mão esquerda, deixando o sol refletir em sua delicada aliança de casamento. - Não adianta, querida. Quanto a pilotos, se eles querem mesmo, de coração, não é fácil dobrá-los.
- Credo! - forçou um vômito e chacoalhou o corpo se livrando mentalmente das palavras de Louise, vai que pega. - Não tenho nada, não vou ter, nem com ou com qualquer outro homem. Sabe as coisas que você jamais verá na mesma frase? e qualquer coisa relacionada a relacionamento e amores. Eu amo os carros, tenho relacionamento com eles. Eles são confiáveis, ainda mais quando se tem uma boa mecânica, como eu.
- Meu pai costumava dizer, ele também era mecânico. Ele dizia que carros têm alma. Eu sempre achei o Tony o ser mais detestável do mundo, eu tinha certeza que me casaria com minha profissão. Então, depois de muito tempo negando, um carro com problemas me trouxe até aqui e uma garotinha me convenceu a beijá-lo. Quem sabe o que outro carro com problemas pode fazer… - Louise apertou os lábios num sorriso contido. - Você é mecânica, carros vão e vem, o tempo todo.
- Essa garotinha é muito esperta. Não se fazem motores como os de antigamente. - Disse com os olhos vidrados no carro do pai, era uma amante incontestável dos carros antigos por total influência do progenitor. - Assim como não se fazem homens, meu pai e o Tony eram exceções. Não que eu me importe, quando se tem um bom carro, bons amigos, família e uma profissão que ama, tem tudo. Você sabe disso.
- Eu não posso dizer nada quanto a isso. - Louise riu. - Mas eu perdi meu marido, você perdeu seu pai. Eu nunca vi alguém amar tanto a família quanto Dominique , não acho que ele se contentaria em saber que o clã se encerrou em você. - Louise deu de ombros. - Mas você é jovem, não precisa se preocupar com isso agora. Sabe de uma coisa, devíamos marcar um jantar ou algo assim. - Louise sugeriu.
- Não vou me preocupar nem agora, nem nunca. - Respondeu fria se recuperando de qualquer momento de fraqueza. - Com álcool? Se for só um jantar com comidas que não gosto, eu recuso agora.
- Você ainda é um dragãozinho quando o assunto é lasanha? - Louise perguntou sorrindo.
- Para qualquer comida. - Alargou o sorriso.
- Você precisa conhecer meu filho, o Alex vai adorar você. - Louise voltou a se encostar no carro. - O Tony vai surtar com isso, ele vai querer comprar chocolates com antecedência para ter um estoque de… - Louise congelou e sua expressão animada se apagou de repente. - Deixa para lá. - Balançou a mão, caminhando em direção a bolsa e retirando de lá um cartão. - Aqui está meu telefone, por favor, me ligue ou eu vou voltar.

deu um sorriso triste, compreendia totalmente o momento que Louise acabara de passar, era como eles nunca tivessem ido. Como se seu inconsciente vivesse pregando peças e não deixando que suas almas atordoadas seguissem em frente.

- Eu entro em contato. - Segurou o cartão. - Mas volte mais vezes na oficina, é bom ver rostos conhecidos por aqui.
- Imagine se Tony permitiria que eu me afastasse de você de novo. - Louise sorriu, tocando o braço de gentilmente.
- Acho que meu pai está aprovando essa aproximação.
- Eu tenho certeza. - Louise sorriu de novo. - Eu sempre evitei tanto voltar aqui, mas acho que foi uma das melhores coisas que fiz. - Louise correu os olhos pelo ambiente de novo. - Eu preciso ir. Por intervenção do Tony, resolvi trabalhar com a François-Render de novo, agora tenho que cuidar do meu filho e de duas crianças com capacete e macacão. - Louise se dirigiu lentamente à porta, sendo seguida por . - Sabe, você devia ir ao autódromo uma hora dessas, seria bom te receber. - Louise disse.
- Quem sabe eu apareço sim. - Comentou colocando as mãos nos bolsos dos jeans. - Não acho que depois de ver o grande Tony correr, eu vá me surpreender, mas dá para o gasto.
- Ainda temos o William Reed, se lembra dele? - Louise riu. - E um escocês teimoso e que se parece mais com o Tony que nosso filho, acho inclusive que vocês tem alguma semelhança. - Louise riu. - De qualquer modo, é ótimo te rever.
- Claro que lembro, o pupilo de Tony Render. - Assentiu. - Talvez eu apareça para conhecer o escocês teimoso. Você deve ter carma para homens teimosos por perto.

Louise projetou o lábio inferior e franziu o cenho, parecia ponderar sobre algo.

- De certo modo, acho que tenho alguma tendência a me rodear de pilotos teimoso e que não tem muito amor a vida. Mas eu me casei com Tony, já foi pressão demais para uma vida. Esse escocês, Michael, é jovem, ele é nosso novo piloto… - Louise parou de falar de repente, observando um bebê que passeava com sua mãe.
- O que foi? - procurou com os olhos o que fez Louise Render estagnar no meio de sua fala.
- Nada. - Louise balançou a cabeça, tentando afastar os pensamentos que a atingiram. - Acho que estar aqui mexeu com a minha cabeça. - Ela riu alto. - Acho melhor ir.
- Tudo bem, estou cheia de trabalho também. Algo que me diz que nos veremos logo.
- Meu convite para jantar te diz isso. - Louise riu e abraçou a outra mais uma vez. - Se cuide, passarinho. - Ela disse, olhando nas íris castanhas de . - Se precisar de alguma coisa, qualquer coisa, qualquer hora, não hesite em me ligar, está bem?
- Não costumo precisar, mas farei um esforço. Você fala como o Tony! - sorriu balançando a cabeça.
- Querida, quando se fica junto com alguém por mais de dez anos, é difícil saber onde começa você e termina a outra pessoa. - Louise sorriu abrindo a porta do carro, mas antes de entrar a mulher hesitou e voltou o olhar para mais uma vez. - Eu sei que você provavelmente não quer nem ouvir falar disso, mas…- Louise sorriu e rolou os olhos. - Conhecendo Dominique como eu conheci, diria com certeza que seria alguém que ele aprovaria. - Louise piscou. - Só para caso algum dia resolva pensar sobre relacionamentos, casamentos e filhos.

não desviou os olhos de Louise, o brilho do sol irradiava sobre sua pele a deixando ainda mais bonita e mais uma vez observou o céu por detrás dela, talvez aquele belo dia havia mesmo sido preparado por alguém para que elas se encontrassem e também marcassem a história.

XXXX


estava pronto para mais um treino classificatório.
Os treinos livres estavam sendo ótimos para ele, cravando bons tempos e posições melhores ainda, estava confiante para conseguir o melhor tempo e se tornar pole position*.
O último treino livre tinha se encerrado e dentro de alguns minutos começaria o qualify*, estava caminhando pelo paddock, iria até uma das barracas comprar um café, no meio do caminho esbarrou com Michael Madden, o macacão da François-Render estava somente até a cintura, tinha óculos de sol no rosto para cobrir a rajada de calor que era liberada e quando percebeu a chegada do piloto ferrarista, o estreante da fórmula um parou de andar, deixando o outro se aproximar.

- Olá, número 16*. - Cumprimentou Michael sorrindo e rolou os olhos com aquele maldito apelido.
- Já te disse para me chamar de .
- E eu já te disse que dá bugue na matriz. – Respondeu.
- Só dá bugue na matriz no seu mudo, aqui é meu mundo, meu nome pode ser falado. – gargalhou da expressão de Michael.
- Certo, desculpe, lindo. - Michael mais uma vez desatou a rir e o acompanhou mesmo sem achar a menor graça das piadas idiotas que o piloto escocês fazia.
- Idiota. - Os dois pararam de andar quando enfim chegaram a barraca de café. - Boa tarde. - Cumprimentou a atendente. - Eu quero um café, e você?
- Café puro, já que não posso beber agora.
- Dois cafés então, por favor, na conta do engraçadinho aqui. - Apontou com a cabeça para o outro.
- Ah, você só pode estar brincando, não é? - Michael reclamou com as mãos na cintura.
- Não. Vê algum sorriso em meu rosto? - fechou a expressão para demonstrar sua seriedade.
- Sabe, eu achei que você era alguém sério, confiável. Mas é como o Lance. Tudo bem, eu pago esse. Mas você me deve uma cerveja.
- Não me venha com essa. - Negou com a cabeça. - Não me compare ao Racing Point filho, senão serei obrigado a te jogar no muro como ele fez na Austrália. - Michael riu alto.
- Nossa, eu criei um monstro. - O escocês soltou uma risada nasalada. - Tanto faz, vamos colocar na conta dele, ele é rico.
- Já que é assim, eu quero dois cafés então. - mostrou dois dedos para a atendente, que naquele momento servia-os com os cafés. - Podemos colocar o Racing Point filho para pagar a cerveja depois que eu ganhar hoje, então.
- Você é muito otimista para alguém que tem o motor que tem. - Michael riu.
- E você, está menosprezando demais os outros carros, para quem chegou agora na brincadeira. - bebericou o café, sentindo todo seu corpo se abastecer pelo líquido escuro e forte.
- Babaca. - Michael sorriu e soprou seu café, tentando resfriá-lo. - Eu tenho que vencer pelo menos nas piadas, já que meu trator parece não querer cruzar a linha de chegada antes do Latifi. Que ele não me escute. - Michael implicou, olhando para os lados se certificando de que estavam sozinhos.
- Sinto te informar, suas piadas são péssimas. - Bateu no ombro direito do outro. - Mas se empenhe nas piadas mesmo, deixe as pistas para mim. E por favor, fique longe de mim junto com seu amigo.
- Não são piores do que você nas largadas. - Michael bebericou um pouco de seu café e pediu mais um café a atendente. - Vamos presentear o Detona Ralph.

Michael chamava Lance Stroll assim, o escocês tinha hábito de apelidar todos ao seu redor. Depois que o canadense, em uma manobra covarde, o havia forçado a escolher entre jogar para fora da pista ou se chocar com o muro de contenção, esse era o apelido dele.
Não que os acontecimentos da Austrália ainda os assombrassem, era o oposto na verdade. Permitiu que valorizassem mais a vida, já que corriam a velocidades absurdas e por muito pouco a Fórmula Um não conheceu mais uma fatalidade naquele dia. Devido a esse fato, se aproximou de Michael para agradecer seu gesto altruísta em preservar sua vida, da mesma forma um Lance Stroll envergonhado também se aproximou, dando início a uma amizade que tinha tudo para enlouquecer as escuderias dos três e para imitar os três mosqueteiros

- Presentear com um café pago por ele mesmo? - questionou observando Michael se encostar totalmente despojado na pilastra, em uma pose de galã.
- Essa é a ironia da vida, querido. - Michael piscou.
- Um café pago por ele mesmo e se não começarmos a andar, ainda será frio. - Disse ao constatar que Michael estava informando a atendente que os cafés eram na conta da Racing Point.
- Como você acha que vai se sair hoje? Está confiante? - Michael questionou, caminhando lentamente.
- Me saí bem nos treinos livres. - acompanhava os passos do outro. - Acredito que será melhor do que na China.
- Só não pode repetir o que houve em Bahrein. - Michael provocou. - Sei lá, eu estou cansado de correr como nunca e perder como sempre. - Lamentou frustrado.
- Essa é a vida de um corredor. - sorriu aberto, mais que o necessário, mas era inevitável não sorrir ao proclamar o apelido, até Michael percebia a mudança no brilho dos lábios do monegasco.
- Eu tentando me abrir com você e você pensando na primeira-dama. Eu te perdi, ? É isso? Vai realmente me abandonar e abandonar nossa família?
- Quem é você, a drama queen? E que história é essa de primeira dama? Da última vez que nos vimos te disse, sou solteiro. - tinha adorado o apelido, se o chamava de Príncipe de Mônaco ela poderia muito bem ser sua primeira-dama.
- Eu vi que fizeram uma enquete no Instagram, sobre qual era a mentira mais descarada. A primeira opção era aquela história sobre o Michael Jackson estar congelado, a segunda era que você está solteiro. Adivinha qual ganhou? - Michael bebeu um pouco mais de seu café e suspirou. - Sabe, , às vezes é melhor admitir esse tipo de coisa. Minha assessora de imprensa diz que se você espera muito uma fruta ficar madura, outro pode aparecer e comer ela verde.
- Só porque você se jogou no muro por mim, acha que somos íntimos? - deu seu melhor sorriso. - Saiba que quando existir uma primeira-dama de Mônaco, ela ficará bem longe de você. - Completou, ao mesmo instante em que viam os boxes rosas aparecendo.
- Eu salvei sua vida, agora estou tentando salvar rua reputação. Pode ficar tranquilo, o único que gosta de primeiras-damas é o Will Reed. - Michael sorriu ladino e abriu os braços ao ver Lance Stroll. - Ralph! - Ele gritou num cumprimento exagerado. - Tenho duas notícias.
- Se eu fosse a primeira-dama, e precisasse escolher entre você e Will Reed, com certeza seria ele. Bonito, rico, ecológico e penta campeão. Você perde fácil, amigo. - Retorquiu e Michael lançou um olhar chocado ao monegasco.- Oi, Racing Point filho.
- Por que é que eu sinto que não vou gostar de nenhuma das duas? - Lance arqueou uma sobrancelha e cruzou os braços.
- Não vai mesmo. Se fosse você, fingia demência e voltava para dentro. - Respondeu .
- Xiu, cala a boca. - Michael empurrou pelo ombro. - Te compramos um café. - Disse empolgado.
- Nossa. - Os olhos de Lance foram do piloto escocês para o monegasco, estava confuso. - É alguma pegadinha?
- Claro que não, realmente te trouxemos um café. Não, é mesmo, ?
- Sim, nós só trouxemos, pois quem pagou foi o seu dinheiro. - Respondeu o piloto ferrarista.
- Caramba, . Vocês estragou toda a graça, era para deixar ele tomar o café primeiro, depois contar que ele pagou café para toda a equipe da Ferrari e François-Render. - Michael torceu os lábios num bico.
- O quê? - Lance arregalou os olhos.
- Não seja egoísta, Racing Point Júnior. - Disse . - Você tem dinheiro para comprar uma escuderia, o que são alguns cafés para sua conta bancária?
- Eu já disse que vocês são os piores amigos que alguém poderia ter? Porque se não disse, então aí vai, vocês não são amigos, são punições em tempo integral.
- Só não se vingue me jogando para fora da pista. - encolheu os ombros em defesa.
- Não funcionaria, para ser efetivo só se eu te jogasse para fora do planeta. - Lance disse ranzinza e Michael riu alto.
- Quanto rancor nesse coração. - olhou para o relógio. - Está na minha hora de brilhar.
- Viu isso, Ralph? Só porque ele está apaixonado, agora ninguém pode ser rancoroso em paz. - Michael implicou, abraçando Lance Stroll pelo ombro.
- Acho que parece ele se tornou um elfo. - Lance concordou com Michael, torcendo os cantos da boca.
- Você anda vendo contos de fada demais, Michael. - respondeu. - Já que fala tanto de homem apaixonado, deve estar sabendo reconhecer os sinais direitinho. Isso me mostra que talvez, o apaixonado não seja eu.
- Você é nosso objeto de estudo, 16. - Michael encarou as unhas. - Lance, sabe como deixar um monegasco irritado?
- Não, Michael. Será que você poderia compartilhar comigo esse segredo? - Lance entrou nas provocações.
- , vamos tomar aquela cerveja que o Lance vai pagar no domingo, depois da corrida? - Michael convidou e arqueou as sobrancelhas.

mordeu o interior da bochecha para impedir a gargalhada, observou os dois pilotos em sua frente que o encaravam curiosos, sabia que no momento que pegasse o pedido, Michael madden seria uma eterna pedra em seu sapato.

- Eu não posso, já tenho compromisso para depois da corrida. Ainda bem que Lance tem muito dinheiro e pode me oferecer essa rodada em outra oportunidade.
- Tudo bem, acho que podemos convidar certa mecânica de Mônaco, aquela que adora carros velozes. O Australiano consegue o telefone dela pra gente. - Michael provocou.
- Eu posso mandar um direct. - Lance comunicou, tirando o celular do bolso.

arqueou a sobrancelha surpreso, como é que os dois patetas sabiam sobre ?

- Como vocês sabem disso? - Lembrava-se que Daniel tinha contado sobre para alguns dos meninos, entretanto Lance e Michael não estavam presentes.
- Vou te dar três opções, vamos ver se você é mais que um rostinho bonito e descobre o denominador comum. - Michael levantou três dedos para ilustrar a fala, arranhou a garganta e prosseguiu. - Sabe a diferença entre Daniel e Lance? Lance bate em todo mundo, Daniel conta para todo mundo. - Lance o olhou feio. - Segunda dica: Sabe quem inventou a rádio - autódromo? É, o Daniel Ricciardo. - um dedo ainda se sustentava na mão direita de Michael. - Dica três: No tempo livre o Daniel faz lives contando os podres dos pilotos para os melhores amigos do Instagram. E então, lindo, já descobriu?
- Têm um bolão rolando, sobre quem vai ser o último a descobrir que todo mundo já sabe. - Lance completou. - Quem você acha que é, Michael? Espero que ele não seja tão lento assim nas pistas.
- Se Deus quiser ele vai ser, e aí nós vencemos. - Michael provocou.
- Vão se ferrar vocês! - esbravejou. - Você. - Apontou para Michael - Saiba que Reed é melhor que você. E você. - Apontou para Lance. - Saiba que o Michael é melhor que você e eu odeio os dois.
- Aprendeu, Lance? É assim que se irrita um monegasco. - Michael e Lance gargalharam e se cumprimentaram com o toque ensaiado entre o trio, enquanto observavam dar-lhes as costas, irritado.
- O que ele quis dizer quando falou que você é melhor que eu? - Lance inclinou a cabeça confuso.
- Ah, querido Ralph, só Deus sabe. Só Deus sabe.

xxx


O grande prêmio daquele final de semana era em Bacu, no Azerbaijão. Um circuito urbano tão estreito como o de Mônaco, com retas tão rápidas como em Montreal, no Canadá, e com quase tantas curvas quanto o de Singapura.
O traçado é de autoria do arquiteto Hermann Tilke, responsável pelos desenhos de diversas pistas do calendário. A prova passa por diversos pontos turísticos, mostrando a mescla entre a arquitetura medieval e os modernos arranha-céus da cidade.
O traçado tem 6km, apenas menor que uma volta ao circuito de Spa-Francorchamps. A pista têm 20 curvas, perdendo apenas para Singapura, com 23, Abu Dhabi, com 21 e Silverstone.
Mas a grande característica do circuito é sua largura. Ainda que o regulamento exija que as pistas devem ter no mínimo 12m de largura, em Bacu isso é consideravelmente menor, com o máximo de 13m e em determinados pontos apenas 7,6m. Os carros atualmente têm 1,8m de largura.
A partida e chegada é na praça Azadliq, um dos principais pontos turísticos de Bacu. A velocidade máxima ronda os 360 km/h no final da enorme reta do circuito.
estralou o pescoço de nervosismo, ele já estava de capacete e dentro do carro preparado para a largada. A torcida fazia muito barulho, às vezes ele sentia o autódromo tremer, tamanha agitação, sabia que era interno, e seu corpo lhe mostrava isso, com as voltas que seu estomago dava. Já tinha acostumado a disputar corridas importantes, porém não tinha perdido a emoção que aquele esporte lhe causava.
Aquele era seu jogo.
Seu momento.
Conforme esperava o resto dos carros voltar à posição no grid após finalizarem a volta de apresentação, os olhos fechados e a cabeça trazendo a memória toda a sua trajetória para chegar à categoria número um do automobilismo.
A fama e o sucesso corrompiam grande parte dos esportistas, mas não a , ele não queria se esquecer do motivo por traz de todo seu esforço.
O amor.
Amor por aquele esporte.

No dia anterior, o treino classificatório ficou marcado por dois fortes acidentes, de Robert Kubica, da Williams, e , da Ferrari, que perderam o controle de seus carros na curva 8 e bateram.
Ele era o favorito a primeira colocação, já que nos treinos livres havia dominado por completo, pesar da forte batida, o monegasco anotou bom tempo no Q2, e larga em oitavo. Ao lado do pole position Bottas, aparecem Willian Reed, na segunda, e Sebastian Vettel na terceira colocação.
Com o tempo de 1min40s495, Bottas aproveitou a saída de e dominou o restante do conturbado treino classificatório. Com a pista gasta e a curva 8 preocupando os pilotos, Bottas superou os rivais e cravou a pole.
Mesmo com a oitava posição estava confiante que conseguiria fazer uma boa corrida e arrancaria mais alguns pontos para manter a classificação na tabela.

Quando as luzes começaram a se apagar, fez sua oração em mente pedindo proteção e um bom resultado, no momento exato que foi permitido soltou a embreagem e acelerou com as mãos firmes no volante girando-o para dentro caindo pelo meio da pista para se embolar e tomar posições na corrida.
Não funcionou, ele se viu caindo duas posições, cair para décimo significa que precisava fazer ultrapassagens com alguma urgência. No segundo giro, Ricciardo foi deixado para trás. Uma volta depois, a vítima foi Kvyat. Tinha recuperado a posição, agora precisava subir mais.
Na sétima volta iniciou-se a onda de pit-stops, optou por não parar e logo apareceu na frente de todos do pelotão intermediário, surgia bem atrás de Max. Isso levando em conta que estava com pneus médios e não macios.
A vida dele se tornava melhor. Verstappen perdia tempo rapidamente, consequência de problemas de frenagem na Red Bull, algo que prontamente foi avisado a por seu engenheiro. Pouco tempos depois, a altura da volta 9, o mesmo já conseguia fazer a ultrapassagem para surgir em quarto.

Mais algumas voltas e ainda não tinha parado, Vettel, que definitivamente não conseguia seguir a dupla da Mercedes, logo viu no espelho retrovisor. O alemão, que chegava a ser 1s2 mais lento por volta, optou por fazer a parada antes de firmar a ultrapassagem. Sebastian voltou à pista em quinto, enquanto o monegasco ficava com pista livre para voar baixo.
A Mercedes reagiu no momento em que Ferrari seja pela parada de Vettel, agora com pneus novos; seja pelo grande momento de com médios; os dois pilotos foram buscar pneus novos. Era a vez dos dois prateados usarem médios também. Como poderia se imaginar, a dupla da Mercedes começou a anular o ritmo superior de . Ambos conseguiam girar voltas 1s melhores.

Na volta 34 optou por parar novamente e quando parou caiu 20s e consequentemente perdeu a posição que estava indo parar na sexta posição.
Quando o final da corrida se aproximava do final entendeu que não passaria muito dessa posição, trocou mais uma vez para colocar pneus macios para alcançar a volta mais rápida e ganhar mais um ponto na classificação e ainda Pierre Gasly acabou abandonando a prova por conta de um problema na transmissão deixando assim subir uma posição e finalizou a prova em quinta colocação e também com a volta mais rápida juntando mais 11 pontos na tabela de classificação.

XXX


Assim que a prova acabou o monegasco precisava cumprir com suas obrigações, dar entrevistas para não receber multa porque cada vez que algum piloto se negasse a responder a imprensa eram multados com um valor estratosférico que não estava disposto a perder.
Apressou-se para ser um dos primeiros a responder as perguntas para não atrasar seu planejamento para aquele dia, precisava voltar ao hotel jogar suas roupas de qualquer maneira na mala, para ficar pronto quando a hora de viajar chegar.
A maioria das equipes saíram de Bacu na segunda-feira, , porém não esperaria tanto tempo, estava de partida para Mônaco ainda naquele dia tinha fretado um jatinho particular e sairia as dez da noite no horário do Azerbaijão, levando em consideração que o voo demoraria 4 Horas e 43 minutos e também a diferença de duas horas entre os países, pousaria de madrugada em Monte Carlo, chegaria exausto já que estava emendando viagem atrás de viagem, fuso horários diferentes e muitos hotéis com comidas que não agradavam seu estômago.
Chegou a seu hotel era apenas seis da tarde decidiu descansar um pouco após um banho quente e relaxante, suas coisas já estavam dentro da mala e seu perfume preferido já estava separado para aquela noite. Sua ansiedade não lhe permitiu dormir muito, frustrando depois de muito rolar na cama sentou-se em busca do celular, surpreendeu-se quando pegou o aparelho e viu uma mensagem de , não falava com ela desde sábado, quando após a batida no treino classificatório trocaram mensagens e ele lhe informou que estava tudo bem.

: Quando chegar amanhã preciso da sua chave da oficina, não consigo encontras as minhas, acho que a tampinha almoçou ela.“

gargalhou com o conteúdo da mensagem e observou a tela do telefone antes de responder, por instinto abriu a foto no perfil do WhatsApp, já tinha visualizado mais vezes que podia contar, adorava ver a foto dela com Sarah onde um sorriso gigante estava brincando nos lábios dela e a pequenina tinha um sorvete em mãos.
Correu os olhos pela tela até chegar ao canto superior direito onde mostrava as horas um pouco mais de oito da noite, optou por não responder a mensagem e antes que pudesse terminar o raciocínio seu dedo já apertava o botão verde de ligar.
Três toques depois escutou a voz de e seu corpo reagiu de imediato ao timbre dela.

- Como assim a Sarah engoliu suas chaves? – Questionou assim que a moça atendeu.
gargalhou e acompanhou, não tinha como ao escutar aquele som.
- Eu não faço ideia. – Respondeu. – Sei que a última vez que vi ela estava brincado com chaveiro e quando assustei eu não sabia mais onde estava e nem ela, no caso.
- Já procurou como uma louca, certo?
- Sim, revirei a casa toda. – Suspirou. – Aquela baixinha me drena, todo sábado minhas energias se vão com ela.
- Você fica com ela todo sábado? – se jogou na cama, conectou o fone no telefone para conseguir continuar a conversa.
- Não. Todo sábado eu me reúno com as meninas. - Respondeu , colocando mais algumas cervejas no carrinho já que estava no supermercado providenciando algo para comer. - Hoje em especial a Leah não pode estar, pois viajou a trabalho nisso a tampinha passou o final de semana com a gente.
- Ela está dormindo com você? - Questionou com a sobrancelha erguida, se a criança estivesse lá todos os seus planos seriam frustados.
- Não, a Leah já chegou. Ela dormiu comigo ontem, inclusive comeu toda minha comida e agora estou no supermercado para comprar mais macaroon e cerveja. - Continuou a empurrar o carrinho pelos corredores de guloseimas, era uma doceira nata e não podia faltar doces na geladeira.
- Eu adoro macaroon, tem tempo que não como, agora que você falou me deu vontade de comer. - Comentou o piloto enquanto encarava o teto de seu quarto pedindo para o tempo passar mais rápido.
- Amanhã você come lá na oficina. - Sem entender o motivo colocou um pacote de macaroon a mais no carrinho, após o comentário de .
- Com certeza, você entope de doces e baboseiras aquele armário da oficina. - lembrou-se do dia que foi procurar algo para comer na pequena cozinha da oficina, na verdade não poderia ser considerada uma cozinha já só havia uma mesa, geladeira e uma máquina de café, ele foi até lá e encontrou pacotes e mais pacotes de biscoito, Madeleine, Macaroons, Croissant todos alimentos nenhum pouco saudáveis.
- Você já foi bisbilhotar meu armário de biscoito? Você é muito abusado ein?

sorriu e mordeu o lábio, estava lhe tratando com leveza e naturalidade parecia já estar se acostumando a presença dele.

- Eu já percebi como você gosta muito de besteiras. - Comentou o homem.
- Como assim?
- Quando vai almoçar sempre entope o prato de batatas fritas, seu café é com pouco pó e muita açúcar e sem contar nos milhares pacotes de biscoitos.

parou de andar e permaneceu estática, a sirene no fundo de seu cérebro acionou fazendo um barulho enorme ecoar em seu inconsciente trazendo toda sua racionalidade para o comando novamente.

- Amanhã quando você chegar vai conseguir mandar a chave para mim? - Mudou totalmente de assunto não permitindo que continuassem a falar dela, balançou a canela de um lado para o outro percebendo a operação de segura dela se levantando.
Não insistiu no assunto, afinal se se irritasse não seria nada agradável para ele.
- Claro, se quiser tiro a cópia e já te dou também.
- Eu fico agradecida. - Ela chegou ao caixa e prendeu o telefone sobre o ombro e a orelha para retirar suas comprar do carrinho.
- Chegando te aviso então.
- Chegou minha vez no caixa, preciso ir. Tchau.

E mais uma vez, antes que qualquer resposta viesse desligou o aparelho, socando- o dentro de seu bolso de qualquer maneira.
encarou a tela onde mostrava a chamada encerrada.

- Tchau para você também. - Respondeu para a tela, um sorriso bailava nos lábios, ela havia lhe dado brecha e só percebeu depois, isso mostrava a ele que seria um enigma maravilhoso para se desvendar.

No relógio constatou que ainda faltava um bom tempo para sua viagem, mandou mensagem para Michael e Lance para saber onde estavam, ira gastar o resto de seu tempo com eles, até dar a hora de ir ao aeroporto onde embarcaria para Mônaco e para .

XXXX


Quando escutou as batidas na porta de sua casa, se assustou pelo horário, para confirmar suas suspeitas, olhou o relógio na cabeceira da cama, 01h30min. Arqueou a sobrancelha pensativa, não fazia ideia de quem poderia ser aquele horário, fechou o livro que lia e cuidadosamente colocou de lado em sua própria cama. Resmungando, colocou-se de pé, bem no momento em que o visitante resolveu que seria uma boa ideia atolar o dedo na campainha.
Abriu a porta bruscamente e quase teve um ataque cardíaco ao encontrar recostado contra a batente da sua porta, parecendo mais sexy do que da última vez que o vira. Estava com uma camisa branca simples, jeans e tênis, os olhos estavam brilhando e os lábios molhados e extremamente deliciosos.

- ? – sussurrou perplexa, observando-o como se ele fosse louco – O que foi, achei que só chegaria amanhã. Esta tudo bem?

Com uma passada de pernas, entrou e seu corpo foi jogado com força na parede ao lado da porta, sendo esmagado pelo dele que fechou a porta com os pés.

- Não fala nada. - O tom de voz era como uma ordem e o dedo indicador sobre os lábios demonstravam que estava disposto a impedi-la de falar.

Ela assentiu com a cabeça.

- Eu tive um péssimo final de semana . - A mão esquerda rodeou a cintura dela, os dedos longos apertaram o local. - Rodei no treino classificatório sábado, não fiz uma boa corrida e para piorar não consigo parar de pensar em você. - Esfregou o nariz no pescoço da mecânica sentindo a pele dela se arrepiar sobre seu contato. - Você vive na minha cabeça, e eu não consigo tirar você de lá - A mão que segurava os lábios da morena saíram de lá e caminharam para a nunca enroscando nos fios presos e escuros dela.

deu um leve puxão, como instinto a mulher levou ambas as mãos para os ombros dele, enfiando suas unhas. - Tudo que eu só conseguia pensar depois desse dia horrível, era estar nos seus braços, sentir seu toque, escutar sua voz no meu ouvido.
- O que você quer escutar minha voz dizendo? – Ela sorriu ladina encarando os olhos de que brilhavam.
- Ah, mulher! – Ele continuou apertando os dedos sobre a pela da cintura dela, escorreu para dentro da blusa preta do pijama que usava, contraiu a barriga ao sentir o toque gélido dele contra sua pele quente. – Vou te fazer dizer exatamente o que eu quero. – Ele mordeu o lóbulo de sua orelha ao sussurrar as palavras e no instante seguinte, chocou seus lábios contra os dela.

Os lábios dele eram firmes e experientes. Ela permitiu que ele aprofundasse o beijo e soltou um grunhido leve quando o piloto apertou-a ainda mais em seus braços. sentiu algo dentro dele rosnar, vitorioso ele soube no momento em que tocou seus lábios aos lábios macios e doces da mulher que não teria volta.
Sentiu as mãos de enlaçarem seu pescoço e puxá-lo para ainda mais perto.
Como conseguira ficar toda a sua vida sem aquilo?
Ele ergueu uma das mãos que estavam na cintura dela até sua nuca e pressionou-a. Mordiscou lhe de leve o lábio inferior e o gemido sôfrego que ela soltou fez com que arrepios se espalhassem por todo o seu corpo.
Ofegante, inclinou a cabeça para trás e começou a direcionar os beijos para a pele alva de seu pescoço, lembrando-se imediatamente do quanto quisera fazer aquilo a primeira vez que a viu gargalhar.
arregalou os olhos quando sentiu mordiscar seu pescoço suavemente; olhos se encontraram novamente, mas foi interrompido quando inclinou-se, e beijou-o novamente.
soltou um murmúrio de aprovação e desceu as duas mãos até as pernas de , puxando-as, de forma que a mulher evolveu-lhe a cintura com elas.
Ele sustentou seu peso por um momento, antes de apoiá-la na superfície da mesa da sala, apenas porque queria ter as duas mãos livres para explorar o corpo que tanto o atormentou e o consumiu nas últimas semanas.
beijou seu queixo, ela distribuiu beijo por toda a extensão se sua mandíbula.

- Você é deliciosa. - Ela espalmou a mãos em seu peitoral, o afastando.
- Como pode dizer isso, se não viu por completo? - A mulher desceu da bancada com graciosidade, e antes que ele pudesse entender, puxou sua própria blusa, deixando a mostra o sutiã de renda preto, ele mordeu o lábio inferior hipnotizado com a morena despindo-se, no segundo que se desfez da calça, seu corpo foi pressionada contra a bancada atrás de si, as mãos firme de a prenderam pela cintura, impedindo que ela fizesse qualquer movimento. - O que foi? Não gostou do que viu?

O homem apertou um dos seios cobertos pelo sutiã, gemeu baixo em aprovação.

- Eu quero que me fale o que deseja, . Como quer que eu te toque? - esfregou sua intimidade excitada sobre o tecido fino da calcinha de renda, mais um gemido em aprovação, novamente levou a boca para o pescoço, dessa vez fincou seus dentes no local, mais um gemido foi ouvido. - Responde , preciso saber o que deseja.

Os olhos de queimaram ao ver a mulher morder o lábio inferior, porra, ela era muito sexy.

- Eu quero forte e duro. - Sem responder qualquer coisa, ele a puxou para si, caíram juntos no sofá atrás de si e então, beijou-a.

respondeu ao beijo imediatamente, a língua de brigava por espaço com a sua própria, os sinos do tesão ecoavam em suas cabeças e com uma ânsia enorme de sentir mais do contato com aquele homem, subiu em seu colo, passando a rebola com altivez.
As unhas estavam na nuca dele e arranhavam em um carinho fenomenal, pelo lado do piloto, as mãos corriam por todo o corpo dela, sentindo a maciez de sua pele.
separou seus lábios dos do homem, descendo uma trilha de beijos pelo pescoço.

- Estamos na sala, vamos para o quarto. Eu quero te comer na sua cama. - O homem murmurou reunindo toda sua sanidade mental, sabia que se continuasse daquela forma, transariam ali mesmo.
- Não faço sexo na cama. – Ela respondeu.
- O quê? Como assim não faz sexo na cama? - Questionou com a sobrancelha adequada, era cheia de surpresas, o que levaria una pessoa a não fazer sexo na cama. O conforto era maior e era o mais comum de acontecer.
- Agora não é hora de falarmos, , gosto mais quando me beija. - Ela o beijou novamente.

E dali em diante, as roupas foram saindo de seus corpos uma a uma, estava em êxtase ao sentir os braços de , o toque dela era enlouquecedor apesar da aparência sempre meiga e suave, era uma leoa em tudo que fazia.
Não havia mais peça de roupas nos corpos, somente suor e desejo exalava deles, olhou nos olhos de tão hipnotizantes e incríveis.

- Finalmente você é minha! - Sussurrou entre o beijo, e com um gemido sôfrego e ansioso tornaram-se um.



Glossário:

Alpatior: Salão de festas em Veneza.
Aquele que não pode ser nomeado: Apelido de Harry Potter, para Voldemort, que é alguém que falar o nome é praticamente proibido.
Curva 3*: É a curva do circuito de Mônaco, a secção plana no túnel que é feita a 260 km/h, a mais difícil de todo o circuito.
Pole position: Primeiro a largar do grid de largada.
Qualify: Treino classificatório da fórmula Um.
Racing point filho: Apelido usado para Lance Stroll que é filho do dono da escuderia, Racing point.




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